sábado, 30 de junho de 2012

A violência no futebol


Atenção leitor, corra para as livrarias ou encomende o seu pela internet, pois já está no mercado mais um livro imperdível do mestre da sociologia, o professor Maurício Murad, um dos mais respeitados estudiosos sobre o futebol brasileiro. Há 20 anos, Maurício Murad coordena o Núcleo de Sociologia do Futebol na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Nesta longa trajetória, foram desenvolvidas pesquisas e estudos fundamentais para entendermos melhor o futebol como um fenômeno social. Murad é autor de diversos livros que analisam questões fundamentais do fenômeno chamado futebol.

Desta vez (e como extensão de outros trabalhos que já desenvolveu no tema), Murad chega com mais uma obra que estuda a violência no futebol brasileiro. “A violência no futebol” (Editora Benvirá) é mais um gol de letra de mestre Murad.


Sinopse (da Editora)

É difícil imaginar o Brasil sem futebol. Da mesma maneira, parece ser difícil as pessoas pensarem no futebol sem a violência entre os torcedores, dentro e – mais ainda – fora dos estádios. Mais do que um fenômeno ligado ao esporte, ela é uma expressão da sociedade brasileira, de seus problemas e desafios, cuja superação faz parte da grande missão de educação e desenvolvimento do país.

Baseando-se em estatísticas e reflexões, o sociólogo Mauricio Murad, um dos maiores especialistas brasileiros no tema, revela que o aumento das mortes de torcedores durante partidas de futebol está diretamente ligado ao envolvimento de integrantes das torcidas com o crime organizado e ao acesso às drogas, à tecnologia e à internet.

Jovens sem perspectiva se unem a tribos que supostamente lhes dão identidade, valor e um sentido que a sociedade parece negar a eles.

Em A violência no futebol, Murad apresenta um panorama atualizado do futebol no Brasil e do comportamento das torcidas – organizadas ou não. Tomando como exemplo casos de sucesso em outros países, aponta caminhos para ajudar a pacificar o futebol e a própria sociedade, a partir do trinômio repressão-prevenção-educação. E nos ajuda a descortinar saídas para um futuro melhor, no qual o Brasil sempre será, como dizia o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, a “pátria de chuteiras”.

Apresentação
Por Maurício Murad

A violência no futebol é um assunto amplo, complexo e de suma importância para a sociedade brasileira. O principal objetivo aqui é escrever um texto simples e direto, de fácil leitura, mas baseado em muita pesquisa e observação. Um texto que atinja grande número de leitores, para que estes possam não só entender, mas também refletir e encontrar maneiras de reduzir a violência no futebol, mais especificamente no futebol
brasileiro.

Repare bem que falaremos sobre a violência no futebol, e não do futebol. Não há dúvida de que existe também a violência do futebol, própria dessa modalidade esportiva. Afinal, trata‑se de um esporte coletivo, de alta competitividade, de contato físico, o mais apaixonante e massivo de todos, e jogado com os pés, bem mais instintivos e “brutais” do que as mãos.

Misture tudo isso e verá que o resultado pode ser violência, ainda mais se as condições e pessoas ligadas 10 ao futebol, como dirigentes, treinadores e árbitros, não se prepararem para evitar, controlar e punir práticas de agressão entre jogadores dentro de campo.

A violência em campo reduz a beleza do espetáculo e o tempo de jogo corrido, devido ao aumento do número de faltas e de cartões (amarelo e vermelho), à interrupção constante da partida, às lesões (muitas delas graves), ao rodízio de faltas para fugir de punições severas (orientação de treinadores e dirigentes), à permissividade dos árbitros (despreparados, muitas vezes) e à impunidade da Justiça Desportiva.

Então, quando se diz que existe uma violência própria desse microcosmo social, o futebol, trata‑se de uma afirmação verdadeira. Porém, as práticas de violência mais sérias e que agridem a consciência são de caráter mais geral, são as que ocorrem entre torcidas organizadas, dentro de estádios e mais ainda fora deles — estas é que serão alvo deste livro.

A violência que se manifesta no futebol tem sua origem em questões mais profundas, de ordem social. Não é apenas o resultado daquilo que acontece nos estádios, embora isto também contribua. Os principais exemplos dessas questões sociais são o desemprego e o subemprego, a falta de consciência social, de educação e cidadania, o tráfico de drogas e o crime organizado, o descaso das autoridades, a desagregação dos valores familiares e escolares, a falta de policiamento ostensivo e preventivo, a impunidade, a corrupção. São as chamadas macroviolências, que aparecem no microcosmo do futebol, assim como em outros, por exemplo, no trânsito, na escola, na família. Neste último âmbito, chama atenção a crescente violência contra mulheres, crianças, idosos e deficientes físicos e mentais, cujo número de ocorrências é assustador.

No caso do Brasil, devemos destacar dois fatores macrossociais, que são a corrupção e a impunidade, porque ambas podem ser consideradas violências por si sós e de fato resultam em mais atos violentos, já que estimulam e acentuam outras causas sociais, culturais, jurídicas. Mais que isso: são problemas estruturais — porque presentes em quase todos os grupos, setores e instituições sociais — e históricos, uma vez que acontecem em todas as conjunturas, isto é, em todas as épocas, em todos os momentos de nossa formação cultural.

O filósofo existencialista francês Jean‑Paul Sartre (1905‑1980), um dos nomes mais respeitados na história do pensamento universal, comentou em relação à vida individual: “O mais importante não é aquilo que fazem com você, mas o que você faz daquilo que fazem com você”.

Acredito que a sabedoria desse pensamento possa ser aplicada também à vida coletiva, em relação ao tema deste livro. Seria algo como: o mais importante é como a sociedade e suas instituições reagem aos crimes, às transgressões, à violência, já que estes — parece mesmo que sim — sempre poderão ocorrer, pelo menos em certos níveis e proporção, tanto no futebol quanto em qualquer outra realidade social.

Porém, espera‑se que tais níveis e proporções sejam aceitáveis e que estejam sob o controle das instituições. E não o contrário, como se vê hoje em muitos países; um exemplo é o Brasil, em que as instituições estão à deriva, acuadas, em face do crescimento das transgressões e da violência.

A corrupção e a impunidade anestesiam as reações ética, jurídica, política, cultural e policial de uma sociedade. E, como são essas reações que definem uma sociedade e a própria civilização, se não forem acionadas normalmente pelas instituições, o efeito, mesmo que indireto, é incentivo a novas práticas delituosas. E sabem por quê? Porque a violência fica banalizada (“tudo é assim”) e, pior, naturalizada (“sempre foi assim”). Em resumo: a ideia que pode ficar é a de que não há conserto. Trata‑se de uma verdade que vale para o futebol, e não somente para o futebol. Ela é aplicável a quase tudo. Portanto, para entender a violência no futebol, aquela que chamamos de violência do público, é preciso começar a compreender a violência que a precede — a violência pública. E esta, como já vimos, tem raízes culturais, sociais, históricas, humanas.

Para entender a violência no futebol de determinado país, é preciso contextualizá‑la nas violências macrossociais no e do país em questão. E, para tanto, é necessário estudar um pouco sua cultura, sociedade e história. No caso desta obra, o que está em jogo é a violência no futebol brasileiro. Por isso, temos de procurar entender os contextos gerais e setoriais das práticas de violência no e do Brasil, fazendo‑o de maneira integrada, articulada, para se perceber as relações de reciprocidade e interfaces entre a violência como um todo e suas manifestações no âmbito do futebol brasileiro.

Em outras palavras, combinar estudos, análises e interpretações macro e microssociológicas, antropológicas, históricas, jurídicas, no esforço de evidenciar diferenças e semelhanças, generalidades e particularidades, bem como interações existentes entre a violência de modo geral e a de uma parte específica da sociedade. O geral e o específico devem caminhar juntos.

Mas entender não basta, é preciso agir. É preciso buscar a definição de políticas públicas de segurança em diversos ambientes — algo que poderia ocorrer em qualquer outro cenário cultural e social, mas nos concentraremos no futebol, foco deste livro.

Assim, teremos três níveis, que formam os conjuntos de medidas de um plano de segurança consistente e que devem estar interligados: repressão, no curto prazo; prevenção, no médio prazo; e reeducação, no longo prazo.

Este livro analisa as relações entre violência e futebol partindo do princípio de que esse esporte não é violento por si só, nem necessariamente violento, ao contrário do que muitas vezes aparece no imaginário popular e na espetacularização, no sensacionalismo da mídia. Por que, então, o futebol é apresentado assim, se não é só, nem essencialmente, isso?

É bom lembrar que a espetacularização não é exclusiva do futebol, e sim um fenômeno da vida contemporânea, seu modelo quase dominante. Trata‑se de um processo sensacionalista, que transforma tudo em espetáculo, em show. Em outras palavras, é o showrnalismo adotado pelos telejornais.

O futebol pode ser, e tem sido, muitas vezes uma instituição cultural voltada à não violência, numa tentativa concreta de inclusão social e cidadania, por ser uma modalidade coletiva e democrática de esporte e por causa de sua intensa e extensa popularidade.

O futebol pode ser, ainda, um processo lúdico, que ajuda a reeducar, em particular crianças e jovens. Tem potencial para isso, já que sua lógica e funcionamento estão fundamentados, pelo menos em tese, na igualdade de oportunidades, no respeito às diferenças e na assimilação de regras e normas de convivência com o outro. Não é panaceia, isto é, remédio para todos os males, mas que ajuda, ajuda.

Nosso maior desafio é fazer essa força latente que existe no futebol virar realidade manifesta, para que, num futuro, agressividades, exclusões e violência — manifestações de hoje — sejam, se não superadas, pelo menos controladas. E, como comentamos há pouco, um plano de segurança consistente, com suas três etapas, vem ao encontro dessa nova percepção.

Trabalhos como este, ao qual damos início agora, são iniciativas que auxiliam nesse processo, porque ajudam a entender um dos mais graves problemas do futebol na atualidade: a violência entre grupos torcedores.

Sobre Maurício Murad:
Além de romancista, é professor da Universo e lecionou durante vários anos na UERJ; é um dos mais destacados pesquisadores brasileiros na área da sociologia do esporte, na qual milita com livros e artigos acadêmicos de grande relevância. É autor, entre outros, de “A violência e o futebol - dos estudos clássicos aos dias de hoje”, “Sociologia e Educação Física”, “Todo esse lance que rola”, história de namoro e futebol, premiado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) e adaptado para o teatro, na versão de um musical. E ainda os romances “As fogosas aventuras de J. Ferreira” e “Os pés de Laura”.

Veja também a entrevista com Maurício Murad feita pelo Literatura na Arquibancada sobre sua trajetória na literatura.



sexta-feira, 29 de junho de 2012

O centenário do Fla-Flu


Pode se dizer que ele perdeu o charme ou a mística de antigamente, mas ninguém seria maluco de afirmar que ele não continua a ser um dos clássicos mais importantes e famosos do futebol brasileiro. Ainda mais agora quando ele está perto de completar 100 anos de existência. No dia 7 de julho de 1912 foi disputado o primeiro jogo entre Flamengo e Fluminense, com vitória dos tricolores por 3 a 2. Um centenário que merece ser comemorado com todas as pompas possíveis. E isso já está acontecendo.

Troféu confeccionado para a festa do centenário do Fla-Flu
Pena que o estádio do Maracanã não esteja pronto para a festa que será organizada pela Rede Globo. No dia 8 de agosto os dois times se enfrentam no estádio do Engenhão, pelo campeonato brasileiro, com direito a homenagens de primeira.  Os dois clubes e, evidentemente, a imensa torcida dos dois clubes, receberão diversas homenagens. Primeiro um jogo preliminar entre astros da TV, música e ex-craques das duas equipes. Há ainda um troféu, que será entregue pela TV Globo aos dois times. Mas não é um troféu qualquer. A obra é dividida em duas metades, cada uma para um clube. Criação do designer e diretor de arte da Rede Globo, Roberto Stein. A metade tricolor ganhou o batismo de Nelson Rodrigues e a outra, rubro-negra, Mario Filho.

Justa homenagem, não só aos dois clubes e ao clássico, mas também aos irmãos Rodrigues. Nelson, tricolor assumido de corpo e alma. Mario, dizem, rubro-negro.

Literatura na Arquibancada começa hoje uma série especial sobre o clássico Fla-Flu, revivido em textos históricos publicados em livros ou na crônica esportiva. E, claro, nada melhor do que iniciarmos essa viagem centenária com uma crônica do “pai” do Fla-Flu. É Mario Filho o criador da expressão Fla-Flu, o “clássico das multidões”. 

O texto é parte de um livro imperdível “Fla-Flu...e as multidões despertaram!” (Edição Europa, 1987), organizado por Oscar Maron Filho e Renato Ferreira.






Epidemia de Fla-Flu
Por Mario Filho


Equipes do primeiro Fla-Flu, em 1912.
"O Fluminense devia perguntar-se, em certos momentos, como gerara um Flamengo. E era natural que o gerasse, pela ânsia de liberdade ou de aventura que todos temos, lá no fundo, e que sufocamos com medo de sair da segurança da rotina. Alguma coisa, porém, denunciava a futura grandeza do Flamengo. Lembro-me que, numa noite de terça-feira de Carnaval, eu estava no Nice, à espera do préstito dos Democráticos, quando ouvi umas moças, hoje brotos, cantando “Piranha eu sou de coração, Flamengo até debaixo d’água”. Aquilo me surpreendeu, como uma revelação. Um clube vinha para a música popular, era cantado no Carnaval. Então não me espantou mais uma certa arrogância do Flamengo. Porque não era à toa que um clube virava marcha de carnaval, canção ou hino.

O Fluminense tinha um hino, música do maestro Cardoso de Meneses Filho, que não era cantado. Quer dizer: bem que o quiseram cantar. Mas começava assim: O Fluminense é um crisol. Os moleques emendaram: é um urinol. E acabou-se o hino, só tocado, de longe em longe, por orquestras, de violino e tudo. Quando apareceu o hino do Flamengo ou quando o Flamengo achou que era o momento do hino, quem era Flamengo cantou-o como um God Save the King.

Ari Barroso e sua gaitinha.
Ari Barroso tornou-se speaker de futebol por causa do Flamengo. Num gol do Flamengo a gaitinha do Ari chegava a gargalhar. Era para isso que a usava, embora, algumas vezes, tivesse que tocá-la mais baixo, sem entusiasmo, num gol do outro clube. E Ari Barroso fora tricolor. Em Álvaro Chaves sentia-se em casa, até o dia em que, depois de uma derrota, vieram chama-lo, como se não tivesse acontecido nada, para distrair os sócios, ao piano, num chá-dançante. Naquele momento o compositor da Aquarela do Brasil descobriu que era Flamengo desde criancinha. Pretextos não faltavam para quem quisesse ser Flamengo.

O amor do povo pelo Flamengo, como que secreto, desabrochou com a força de uma primavera. Deu para aparecer Flamengo por todo lado. Parecia uma praga.

O pretexto era o Fla-Flu. Hoje ninguém acha nada demais que fosse o Fla-Flu. Mas o primeiro Fla-Flu do futebol profissional, em 33, rendeu dois contos e quatrocentos mil réis.

Era verdade que o match tinha uma mística ou foi possível criar-lhe uma mística. A da rivalidade pura que colocava, como adversários, clubes do mesmo sangue, carne da mesma carne, irmãos do esporte. E tome Fla-Flu. A CBD mandava buscar em Buenos Aires o River Plate e o Boca Juniors, contando com o público do Vasco, com São Januário que era o maior estádio da América do Sul, e com a fraqueza ou o béguin do brasileiro pelo argentino, sobretudo pelo tango e pelo futebol argentinos. No dia do Vasco e River Plate ou do Botafogo e Boca Juniors, marcava-se um Fla-Flu. A multidão ia para o Fla-Flu e o estádio do Fluminense não cabia de tanta gente. Era uma febre, uma epidemia de Fla-Flu. Ninguém estava livre dela: pegava feito visgo.’’

Vale conferir a reportagem do programa Esporte Espetacular, produzida em 2011, sobre as origens do clássico Fla-Flu:


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Especial Copas (10): "O Marechal da Vitória"


No dia 29 de junho de 1958 o Brasil conquistava o seu primeiro título mundial em Copas do Mundo. Um capítulo importante na longa trajetória da seleção brasileira que teve, dentro de campo, protagonistas inesquecíveis como Pelé, Garrincha, Didi e companhia.

Contudo, fora das quatro linhas, jamais o futebol brasileiro (e quiçá mundial) produziu um dirigente esportivo com tamanha notoriedade e respeito, como se ele mesmo fosse um dos onze titulares do gramado.

Bellini e Paulo Machado

Não foi à toa que Paulo Machado de Carvalho acabou ganhando o epíteto de “O Marechal da Vitória”. Não somente pela conquista inédita do título mundial, mas pela liderança e comando exercidos ao longo da trajetória de preparação até o dia da final contra a Suécia, em 1958.

Um dos maiores empresários do ramo de comunicação, Paulo Machado soube como ninguém lidar com os bastidores complicados do futebol brasileiro, especialmente no que diz respeito à política e jogo de interesses, e ainda, com sensibilidade extrema, administrar até mesmo problemas pessoais dos atletas.


Em 2005, a dupla de jornalistas Tom Cardoso e Roberto Rockmann publicou a biografia de Paulo Machado de Carvalho, “O Marechal da Vitória – Uma história de rádio, TV e futebol” (Editora Girafa). Vale a pena conferir a série especial, aqui mesmo no Literatura na Arquibancada (ver links no final deste artigo) a homenagem ao dirigente esportivo que nos deixou há 20 anos.

E sobre o dia da conquista na Suécia, a obra de Tom e Roberto traz passagens que ilustram bem o estilo diferente e divertido de Paulo Machado de Carvalho. A pergunta que todos deveríamos nos fazer é: será que um dia o futebol brasileiro terá um dirigente esportivo tão festejado como o Marechal da Vitória?

“King, that is the boss”
Por Tom Cardoso e Roberto Rockmann


(...)

“No dia 29 de junho, diante de quase trinta mil suecos, Paulo Machado, certo da conquista do título, esperou a execução dos hinos nacionais para passar um recado ao massagista da seleção:

– Mário Américo, meu filho, quero que você pegue a bola do jogo de qualquer maneira. Esse será um troféu importante, não falhe.

O massagista combinava a armação com Mário Trigo, quando Paulo Machado e Feola tomaram um susto: logo aos três minutos de jogo, Liedholm fez 1 a 0 para a Suécia. Seis minutos depois, Garrincha driblou até a linha de fundo e cruzou para o gol de empate de Vavá, jogada que os dois repetiram com a mesma precisão minutos depois. Enquanto isso, o ponta Hamrin, aquele mesmo que o técnico George Raynor e Ernesto Santos juravam ser melhor que Garrincha, era facilmente anulado pela categoria de Nilton Santos. A goleada seria selada com dois de Pelé – um deles, um lençol no zagueiro, entrou para a história das copas – e um de Zagallo, que, com o time ganhando de 3 a 1, se encorajou a passar do meio de campo.


O Brasil conquistava o primeiro título mundial com uma vitória histórica de 5 a 2 sobre os donos da casa.

Tão logo Maurice Guige apita o fim do jogo. 

Mário Américo corre como um maluco em sua direção. 

No momento em que o massagista cumprimentava o juiz francês, orgulhoso por levar debaixo do braço o troféu tão cobiçado pelos torcedores, Mário Trigo chegou por detrás e deu um soco na bola, fazendo-a quicar pelo gramado direto para as mãos de Mário Américo, que sumiu no meio da multidão rumo ao vestiário brasileiro.


Mário Trigo abraça o rei da Suécia

Do outro lado do campo, Paulo Machado abraçava a comissão técnica e, quando se preparava para cumprimentar um por um todos os jogadores, foi interrompido por Mário Trigo. 

O dentista levava pelo braço, como se fosse mais um de seus pacientes, nada menos do que o rei da Suécia, Gustavo Adolfo. 

Aos berros, Trigo pedia ao rei que cumprimentasse o chefe da delegação:

Come here, King, that is the boss! (Venha aqui, Rei, esse é o chefe)

O dirigente nem se constrangeu com a quebra de protocolo de Mário Trigo. Cumprimentou o rei Gustavo, deu um abraço forte no dentista e consolou Pelé, que chorava compulsivamente nos ombros de Gilmar.


Aquele era o dia mais feliz da vida de Paulo Machado. Nem a Rádio Record dos tempos da Revolução de 32, de Carmen Miranda e Almirante, nem o São Paulo de Bauer, Rui, Noronha e Leônidas da Silva, nem a TV Record das transmissões impossíveis tinham lhe dado tanto orgulho como aquela conquista inédita.

As empresas de Paulo Machado pegaram carona no prestígio do chefe. Desde a noite de domingo, os técnicos da Rádio Panamericana, junto com a gravadora Odeon, produziram o long-play “Brasil na Copa do Mundo”, uma coletânea de gols e dos momentos mais emocionantes nas narrações de Geraldo José de Almeida e Waldir Amaral. 


O disco, um grande sucesso comercial, abria com a marchinha Campeões do Mundo, de Alfredo Borba, cantada por Osvaldo Rodrigues, e era ilustrado com uma foto dos 22 jogadores ao lado de Feola e Paulo Machado.

Enquanto a marchinha dos campeões do mundo tocava exaustivamente nas rádios das Emissoras Unidas, uma multidão acompanhava um enterro simbólico no Vale do Anhangabaú. O clima era de festa. No enorme caixão, em letras douradas, dava para ler o nome do “homenageado”: o jornalista Geraldo Bretas. O sentimento de revolta era tão grande contra o dono do jornal O Mundo Esportivo e principal crítico da seleção brasileira, que o seu escritório, na rua Sete de Abril, teve a porta de vidro quebrada por torcedores mais exaltados, exigindo que o cronista cumprisse a promessa de carregar nas costas os 22 jogadores caso a “seleçãozinha” fosse campeã.


Na segunda-feira, quando a delegação preparava a viagem de volta ao Brasil, Joelmir Betting, então redator do jornal paulistano O Esporte, editava um caderno especial sobre a festa brasileira na Suécia, com reportagens do correspondente Flávio Iazetti. A foto escolhida para a capa, que ocuparia toda a primeira página, seria a de Paulo Machado de Carvalho, uma homenagem do jornal ao dirigente que enfrentara a oposição ferrenha da imprensa carioca e, com um plano meticuloso, conseguira ajudar o Brasil a conquistar o primeiro campeonato mundial. A poucos minutos do fechamento da edição, Joelmir ainda precisava bolar a manchete. O jornalista de 22 anos jamais imaginara que de um simples título feito às pressas sairia o epíteto que, a partir dali, acompanharia Paulo Machado de Carvalho por toda a vida: “O Marechal da Vitória”.

Sobre Tom Cardoso e Roberto Rockmann:

Tom Cardoso, nascido em 1972, no Rio de Janeiro, é jornalista desde 1994, quando ingressou no Jornal da Tarde. Trabalhou nas redações do O Estado de S. Paulo, Valor Econômico e colaborou na Folha de S. Paulo, sempre em cadernos de cultura. É autor de 75 kg de músculos e fúria” (Planeta), perfil do jornalista Tarso de Castro e “O cofre do Dr. Rui” (Editora Record) sobre a história do roubo do cofre de Adhemar de Barros, duas vezes governador do estado de São Paulo.


Roberto Rockmann, nasceu em 1977, em São Paulo, e se graduou em Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP) EM 1999. Trabalhou na editoria de Internacional do InvestNews e no Valor Econômico, cobrindo a área de infra-estrutura.

Série especial sobre Paulo Machado de Carvalho, no Literatura na Arquibancada:



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Especial Copas (9): A batalha de Berna

Seleção Brasileira, na Copa de 1954.

Há 60 anos, no dia 27 de junho de 1954, a seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo na Suíça protagonizou um espetáculo histórico. Não de beleza tática ou estética do nosso futebol, mas de uma briga monumental entre jogadores e policiais após o jogo que determinou nossa desclassificação na competição para a poderosa seleção da Hungria.

No jogo que ficou conhecido como a “Batalha de Berna”, apesar de vários jogadores e o técnico brasileiro, Zezé Moreira, terem participado das trocas de bordoadas, a grande “cena” daquele dia chuvoso na Suíça coube a um jornalista brasileiro. Paulo Planet Buarque, um dos mais famosos da imprensa esportiva brasileira, foi parar na capa da mais importante revista europeia, a Paris Match.

Literatura na Arquibancada resgata essa história contada pelo próprio Paulo Planet em seu livro de memórias “Uma vida no plural” (Companhia Editora Nacional, 2003):


“Na Copa da Suíça, em 1954, todos nós da Gazeta Esportiva fomos para esse país, muito antes do certame iniciar. Era a primeira vez que viajava para a Europa e era a primeira Copa do Mundo que se realizava no velho continente depois da Segunda Grande Guerra.

A viagem em si foi uma grande aventura. Partimos do Rio de Janeiro num Constellation da Panair, com suas potentes turboélices. Fizemos escala em Recife. Da capital pernambucana fomos para Dakar, no norte da África, depois para Lisboa, até, finalmente, chegar a Zurique, na Suíça. Uma longa viagem!

Primeiro, acompanhamos os treinos da seleção nacional, sob o comando de Zezé Moreira. Uma grande equipe, sem dúvida, da qual participavam Castilho, Veludo, Nilton Santos, Brandãozinho, Djalma Santos, Maurinho, Humberto, Rodrigues, Bauer e tantos outros craques.
Conhecíamos muito pouco os nossos eventuais adversários e fiquei apreensivo ao ver a Hungria jogando. Nunca tinha visto, até então, futebol igual!

Brasil 1 x 1 Iugoslávia, Copa 1954.

A nossa participação nesse Mundial foi uma sucessão de desastres. A começar pelo fato de desconhecermos até mesmo o regulamento da competição, a ponto de jogarmos a partida contra a Iugoslávia, lutando estoicamente pela vitória, quando o empate já nos classificaria para a etapa seguinte. Inclusive, nossos adversários tentavam nos dizer isso por meio de gestos. Depois, o infeliz discurso de Lyra Filho, o chefe da delegação, antes da partida contra a Hungria (que nos desclassificou), insistindo no sentimento pátrio, quando naquele momento precisávamos de tranquilidade e confiança, o que não desfrutamos porque passamos a noite acordados, pensando no imenso futebol que enfrentaríamos na tarde chuvosa de Berna.

Sinceramente, creio que, apesar de tudo, poderíamos ter vencido aquela partida (pode ser ideia de torcedor). O jogo terminou em quatro a dois para os húngaros, mas tivemos um gol anulado, que me pareceu válido, e um pênalti contra o Brasil pelo menos discutível.

A "batalha de Berna"

Ao final dessa tensa partida, os dois times dirigiram-se para os vestiários, através de um mesmo túnel. Iniciou-se então uma briga geral entre os membros das comissões técnicas e os jogadores. Levamos a melhor e por nocaute técnico: Geraldo José de Almeida foi quem começou tudo; Zezé Moreira abriu a cabeça e a face do técnico húngaro; o supervisor Luiz Viana foi de uma coragem assombrosa e Veludo, nosso goleiro, foi um campeão de sopapos. Coitado do Maurinho que, procurando escapar daquela barafunda, pulou a mureta baixa e caiu, por engano, no vestiário dos húngaros, de onde foi devolvido pelos ares...

Vendo tudo de longe, não resisti a minha curiosidade jornalística e dirigi-me para o “túnel da discórdia”. Não consegui meu intento, porque fui impedido e agredido por um guarda suíço, mas que acabei levando ao chão com um golpe de judô.

Meu sangue subiu à cabeça, não me contive e corri para juntar-me aos brasileiros naquela batalha de Berna.

Paulo Planet e sua "pernada" histórica.

Saí numa foto de página inteira da revista Paris Match, mas, felizmente, fui identificado apenas como um torcedor brasileiro. Ato impensado, absurdo, notadamente por se tratar de um jornalista, mas, enfim, eu era jovem e, acima de tudo, torcedor do futebol brasileiro.

Felizmente, para mim, os jogadores brasileiros levaram-me rapidamente para o vestiário. Mário Frugiuele, então presidente do Palmeiras, foi quem me ajudou a deixar o estádio para fugir da prisão por agressão a um policial. Ele me emprestou uma capa de chuva com a qual me cobri e saí sem ser reconhecido. O bom Mário, um grande amigo, que há muito perdi!


Todas as experiências frustradas de campeonatos perdidos, inclusive os muitos títulos sul-americanos, produziram no futebol brasileiro profundas modificações nos anos seguintes, notadamente a partir de 1956, quando uma equipe brasileira excursionou pela Europa com novos valores, em busca de melhor identidade”.

Sobre a citação de Paulo Planet sobre “o infeliz discurso de Lyra Filho antes da partida contra a Hungria” que nos desclassificou, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura do livro escrito pelo próprio chefe da delegação brasileira, publicado pela Pongetti Editora, no mesmo ano de 1954.


Sobre Paulo Planet Buarque, acessar:



terça-feira, 26 de junho de 2012

Telê e a Copa 82: "Da arte à tragédia"


Há 30 anos a seleção brasileira comandada pelo mestre Telê Santana que, mesmo derrotada na Copa do Mundo de 1982, encantou o mundo com o futebol de Zico, Sócrates, Falcão e companhia ganhou em 2012 mais uma obra fundamental para a literatura esportiva.

Trata-se do livro de Marcelo Mora, “Telê e a seleção de 82 – Da arte à tragédia” (Editora Publisher). Não é “mais” um livro sobre a seleção mais falada na história do futebol brasileiro em Copas. Além de uma pesquisa minuciosa a obra traz novas informações, importantes para aqueles que ainda querem tentar compreender como aquela seleção acabou voltando para casa antes da hora.

A escalação feita por Marcelo Mora para os textos que apresentam seu trabalho é “a la Telê”: a orelha é de Luís Augusto Simon, o Menon; o prefácio, de Marcelo Tieppo e a apresentação do craque Alberto Helena Jr.

Orelha
Por Luís Augusto Simon, o Menon


“A história é verdadeira, dou minha palavra, apesar de alguns esquecimentos a respeito de nomes e pormenores, espero que perdoáveis, considerando-se que quem vai contá-la já não é um garoto, como o Marcelo Mora, autor deste fundamental livro.

O ano era 93, disso tenho certeza. Estava em Cuenca, uma agradabilíssima cidade equatoriana, cobrindo a Copa América. O Brasil de Parreira estava no mesmo grupo que Chile, Paraguai e Peru. Em um dos jogos – não me lembro qual – conheci o senhor Estigarribia (será mesmo este o nome correto?) que se aproximou com a indefectível pergunta que ouvimos por toda América do Sul. Brasilero? Si señor, respondi em meu perfeito portunhol.

E ele começou a falar. Contou que acompanhava a Copa do Mundo desde 1950 e que estaria nos Estados Unidos no ano seguinte, para o Mundial de 94. Seria sua 12ª copa, sempre ao lado do Brasil. Era um garoto em 50, sofreu com o Maracanazo, mas criou, a partir dali um vinculo amoroso com o futebol brasileiro. Até então, o Equador nunca havia ido a um Mundial. A estreia seria em 2002 e é muito difícil que o velhinho tenha conseguido ir.


Estigarríbia, ótimo papo falou de Ademir, Julinho, Pelé, Garrincha,Tostão, Jairzinho e tantos outros. Com respeito, com admiração, até paixão, mas tudo isso se tornou esmaecido quando ele começou a falar de Telê Santana e da seleção de 82.

Foi uma transformação física e emocional, como se um crente recebesse mensagem da Virgem de Fátima. Lembrava a partida lance por lance, contava em voz alta da sua alegria com os gols de Sócrates e Falcão, gritava palavrões ao se lembrar do pênalti – ele não tinha nenhuma dúvida – de Tardelli sobre Zico. Cada grito era seguido de um cutucão. Até que me abraçou firme, como se estivesse me confortando pela morte de um ente querido e... chorou, antes da pergunta: “Por que o Junior não saiu, não deu um passo à frente?”


Confesso que não entendi. Ele falava do terceiro gol de Paolo Rossi, legitimado porque Junior, lá na esquerda, dava condição de jogo ao carrasco italiano. Fiquei com vergonha de Estigarribia por não me lembrar dos lances e do jogo com a riqueza de detalhes que ele exibia.

Foi uma aula que usei em toda a minha vida como repórter: percebi ali como o futebol é importante para o Brasil. Mais do que um esporte, ele é importantíssimo traço cultural deste país que amamos. É o futebol e não a missa de domingo e nem o macarrão da mamma que nos une a cada domingo, do sul ao norte, do leste ao oeste.


Mas por que a seleção de 1982, eliminada nas quartas-de-final? Por que Telê Santana, derrotado em 1982 e 1986? Por que esse time tornou-se objeto de culto em todo o mundo? Por que, quando buscamos escolher os melhores times de todos os tempos, invariavelmente os derrotados de 82 têm mais votos do que os campeões de 1994?

Quer saber? Leia o livro do Marcelo Mora. Você vai entender tudo. Vai saber que Cerezo, Zico e Sócrates não queriam Falcão. Que Zico reclamou inclusive com a Copa em andamento. Vai saber muito. Vai saber tudo. E nem precisa gostar da seleção como o Estigarribia gostava, para se emocionar com a mais perfeita descrição do futebol de Toninho Cerezo. Foi o Marcelo que fez. Não foi o Telê”.

Prefácio

Brasil, Barcelona, Sarriá, sarro dos deuses da bola
Por Marcelo Tieppo


“5 de julho de 1982. A Itália eliminara a maior seleção brasileira que aquele adolescente vira jogar e ele mal sabia que outra daquelas não apareceria nas próximas três décadas.

Ele prometera que nunca mais choraria por causa do futebol, depois daquele fatídico dia e não foi difícil cumprir a promessa, porque o Brasil nunca mais foi Brasil dentro de campo, depois da tragédia no estádio Sarriá, em Barcelona.

Trinta anos depois, o amigo Marcelo Mora mostra com riqueza de detalhes porque aquela seleção nunca foi esquecida. Para a garotada que hoje se delicia com o Barcelona de Messi e companhia, os vídeos no Youtube, cujos links aparecem no fim do livro, podem mostrar de onde veio tanta inspiração. Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Nunca mais teremos um meio de campo como aquele e ainda é difícil acreditar que perdemos aquele jogo para a Itália por 3 a 2.


Era o início da tal abertura lenta e gradual, proposta pelos generais. A campanha pelas Diretas Já! ainda ia pegar fogo nas ruas, mas aquela seleção já respirava os ares da liberdade, que viriam tardiamente, mas viriam. Um futebol alegre, solto, o futebol brasileiro que estava esquecido depois do tricampeonato, no México.

O retrato de uma geração que se encantou com aquele time montado por Telê Santana e descobriu a amargura da derrota. Descobriu que nem sempre o melhor vence, que o mocinho do filme nem sempre vai levar a melhor.

A derrota do Brasil na Espanha foi a derrota do futebol. A Itália virou referência para os burocratas da bola, os tais defensores do futebol de resultados, que deram o veredicto: é impossível jogar bonito e vencer. Ou você vence ou joga bonito.


Felizmente, há sempre os que fogem à regra. Ver hoje o ex-técnico do Barcelona, Pepe Guardiola, dizer que o futebol brasileiro sempre foi sua fonte de inspiração é a prova de que aquela seleção, que perdeu em Barcelona, não fez a cabeça apenas dos brasileiros. Guardiola decidiu deixar o clube, depois de perder a Liga dos Campeões, mas saiu reverenciado, apesar da derrota, porque deixou um legado e alegrou corações e mentes no mundo inteiro nos últimos quatro anos. 

Os deuses do futebol tiraram sarro no Sarriá, no dia 5 de julho de 1982, mas hoje é um sarro ver o Barcelona jogar e encantar na mesma Barcelona que me fez chorar pela última vez por causa do futebol”.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo um pequeno trecho do capítulo inicial de ““Telê e a seleção de 82 – Da arte à tragédia”.

Bons ventos o trazem
Por Marcelo Mora


“O pontapé inicial de uma das maiores correntes pra frente dentre tantas que este país já viu e que embalaram as distintas seleções nacionais em Copas do Mundo pode ter sido dado em 17 de maio de 1979. A data pode parecer pouco adequada para quem acompanha a história da seleção brasileira, mas é de grata lembrança para quem admira o futebol tido e dito como arte na sua mais pura essência. Naquele dia, em pleno Maracanã, o templo sagrado do futebol, os brasileiros foram apresentados ao embrião do que viria a ser um time mágico e que encantou toda uma geração de amantes deste esporte em todo o mundo.

Ressabiados pelas participações na Copa da Alemanha, em 1974, e na da Argentina, em 1978, os torcedores presentes ao estádio puderam presenciar o nascimento de um esquadrão que reunia uma constelação de craques comparável ao das seleções de 1958, 1962 e 1970 – e, por que não, de gerações anteriores. Na data citada, em 17 de maio de 1979, o Brasil, ainda sob o comando do técnico Cláudio Coutinho – o mesmo Cláudio Coutinho que se auto-intitulou, de forma prosaica, “campeão moral” por ter levado a seleção a um terceiro lugar no Mundial da Argentina de forma invicta -, entrava em campo para fazer um amistoso contra o Paraguai, então à época um vizinho sempre solícito e disposto a ajudar o selecionado tupiniquim a levantar seu moral, dada a sua fragilidade. Uma época na qual ainda havia bobo no futebol, como diriam os cronistas esportivos.


Com a camisa amarelinha, para enfrentar os paraguaios, lá estavam reunidos pela primeira vez Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates, todos destaques em seus clubes de origem e já aclamados como craques incontestáveis. Naquela ocasião, ainda não se tratava de um “quadrado mágico” a formar o meio-campo da seleção, já que um dos ‘vértices’ – no caso, Sócrates – atuava mais à frente, então como um legítimo centroavante. A mesma posição na qual ele se destacara nos tempos de Botafogo, de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Com seus gols e uma categoria em campo sem similar, o Doutor, como viria a ser conhecido após a conclusão do curso de Medicina em Ribeirão Preto, despertou o interesse de grandes clubes, como Corinthians e São Paulo. Ao menos nos jogos em que atuou – contra Paraguai, Uruguai, Ajax da Holanda, Bolívia (16/08/1979, pela Copa América), Argentina (23/08/1979, Copa América), Paraguai (24/10/1979, Copa América) e, novamente, Paraguai (31/10/1979) – nesta função pela seleção correspondeu plenamente às expectativas: assinalou ao todo seis gols, média de quase um por jogo.


A foto oficial do Brasil capturada antes dos jogos no dia citado, no entanto, ainda não pôde exibir o tal “quadrado mágico”. Toninho Cerezo havia iniciado a partida na suplência e substituiu a Paulo César Carpegiani no decorrer do jogo. Outros jogadores que viriam a ser destaques em 1982, como o lateral Júnior e o ponta Éder, também já despontavam naquele esquadrão. A seleção entrou em campo com Leão; Toninho, Amaral, Edinho e Júnior; Carpegiani e Falcão; Nilton Batata, Zico, Sócrates e Éder. Roberto Dinamite e Zezé também viriam a entrar no decorrer da partida, nos lugares de Nilton Batata e Éder, respectivamente”.

Sobre Marcelo Mora:

Cronista esportivo de 1991 a 2007. Atualmente se dedica a resenhas policiais e de outros fait divers relacionados a São Paulo, um mundo à parte e inesgotável, pelo G1, o portal de notícias da Globo. Formado e pós-graduado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), teve a honra de trabalhar com profissionais inesquecíveis nas redações dos extintos A Gazeta Esportiva e Notícias Populares. Passou ainda por Globo.com, Folha Online, Diretotal BBN (marketing de relacionamento) e Agência Placar. Fã de carteirinha do Sócrates (dentro e fora de campo), é apaixonado pelo futebol arte - apesar de distribuir caneladas certeiras nas tardes de sábado nos companheiros do Racha do Sabadão.