segunda-feira, 28 de maio de 2012

Vicente Matheus: o eterno presidente corinthiano


Para aqueles que tem mais de 30 anos, ele foi o maior presidente que o Corinthians teve em sua trajetória centenária de vida. Vicente Matheus é um dos dirigentes esportivos mais carismáticos e populares em todo o Brasil, mesmo após a sua morte, há 17 anos, no dia 8 de fevereiro de 1997. Suas frases de efeito como: “Gostaria de agradecer a Antarctica pelas Brahmas geladas...” tornaram-se célebres. Mas Vicente Matheus é um personagem muito mais do que simplesmente um dirigente folclórico. Ele é a própria história do Corinthians, clube considerado o de maior torcida em todo o país.

Filho de imigrantes espanhóis, Matheus chegou ao Brasil com apenas 10 anos de idade, poucos anos depois do nascimento do Corinthians, clube que iria transformar a sua vida. Os caminhos percorridos pela família Matheus em terras brasileiras emocionam a todos.

O taurino Vicente Matheus, nasceu na cidade de Zamora, Espanha, no dia 28 de maio de 1908 e naturalizou-se brasileiro em 1945. O pai, Luiz Matheus, de origem portuguesa, era artesão e trabalhava com pedras. A mãe, Manglória, era espanhola. Tiveram 13 filhos, dos quais dois faleceram precocemente.

Mesmo ainda tão jovem, Vicente ajudava ao pai, Luiz Matheus quebrando pedras, na pedreira adquirida pela família na região de Guaianazes, na época uma pequena vila na periferia de São Paulo. Anos depois, tornou-se um dos maiores empresários no ramo de pavimentação. Trabalhava tanto na pedreira porque tinha de ajudar o pai na educação dos irmãos. Mas também não deixava de lado sua grande paixão, jogar futebol.

Certo dia, pediu uma chuteira ao pai, por conta da realização de um festival em Guaianases. Queria jogar de todo jeito, mas o pai não lhe trouxe a chuteira tão sonhada. Vicente ficou muito triste e foi chorar no fundo do quintal. A mãe foi consolá-lo, e disse ao filho, que já trabalhava duro na pedreira, que um dia ele teria tudo na vida, até camisa de seda. Sem saber Dona Manglória fazia uma profecia que virou realidade.

Aos 12 anos de idade, o menino Matheus já vivia uma dupla jornada de trabalho. Além dos serviços pesados da pedreira, trabalhava num pequeno armazém da família, que fornecia alimentos e produtos para os próprios empregados. Apesar de ser um serviço mais braçal, ainda assim preferia a pedreira, porque lá podia jogar futebol com outros garotos. Até os 18 anos essa foi a rotina de sua vida, trabalho e futebol amador, em clubes que ajudou a fundar em Guaianases e pelos quais jogava. Vicente Matheus sempre afirmou aos amigos que era bom de bola.

Amadurecido precocemente por tanto trabalho, aos 18 anos, Vicente Matheus começou a expandir os negócios da família, iniciando o fornecimento de pedras para a Prefeitura de São Paulo, uma cidade que crescia em ritmo acelerado. Ele era uma espécie de gerente, de executivo mesmo e os negócios iam de vento em popa.

Em 1934, com 26 anos, se casou com a primeira mulher, Dona Ruth, com quem teve duas filhas, Abigail e Dalva. Passaram a morar na rua São Jorge, perto do Sport Club Corinthians Paulista. Corinthiano assumido desde pequeno, Vicente Matheus sentia orgulho de morar em uma casa de cuja janela podia ver o clube do coração.

Homem de visão, Vicente Matheus decidiu fundar a Pavimentadora Vicente Matheus, expandindo ainda mais seus negócios, com a fabricação de tubos de concreto armado, extração de paralelepípedos, britagem e pedra britada em geral, usinagem de concreto asfáltico e de cimento, contando com pedreiras em Arujá e Ribeirão Pires. Também tinha depósito e oficinas na rua São Jorge, maquinário para obras e frota de transporte. Assim, foi se tornando um homem cada vez mais próspero.

Louco por futebol, chegou a ter um time na própria empresa, o Paveme Futebol Clube, nome derivado da Pavimentadora Vicente Matheus, e em 1966 construiu um estádio na avenida Marginal, o Estádio Vicente Matheus, que durante anos foi um espaço aberto para o futebol de várzea da região.

Matheus foi presidente do Corinthians em 1959, 74, 75, 77, 79, 87 e 89. Em todo este período, dois títulos marcaram sua vida com a do clube: a quebra do jejum de 22 anos em 1977 e a conquista inédita do campeonato brasileiro em 1990.

Vicente Matheus virou uma lenda no clube. Amado por muitos arrumou inimigos na mesma proporção. Tornou-se famoso por suas frases folclóricas (e ainda várias delas atribuídas a ele), entre elas: "Quem sai na chuva é para se queimar", "Quero mesblar jovens e velhos da diretoria", "Tive uma infantilidade muito triste", "O difícil não é fácil", "De gole em gole, a galinha enche o papo", "Não veio o Falcão, mas comprei o Lero-Lero" (referindo-se ao jogador Biro-Biro), "Peço aos corinthianos que compareçam às urnas para naufragar nossa chapa", “Comigo ou sem migo o Corinthians será campeão”, “jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático” e “O Sócrates é INEGOCIÁVEL, INVENDÁVEL E IMPRESTÁVEL”.

Apesar da frase hilária, Sócrates gostava muito de Vicente Matheus, às vezes brincava chamando-o de inimigo, por suas posições contrárias ao movimento da democracia corintiana. Sócrates costumava se referir a Vicente como “o velho”. Eram amigos, a ponto de Sócrates ter a liberdade de frequentar a sua casa. Em uma dessas visitas inesperadas, Vicente Matheus ganhou de Sócrates um presente muito especial, uma verdadeira homenagem. Um disco, do cantor e compositor Renato Teixeira.

Nesse disco, chamado “Uma Doce Canção”, lançamento da RCA de 1981, Sócrates canta com o Renato Teixeira uma música que se chama “Vicente”, em homenagem ao dirigente que trouxe do interior paulista Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira para ser um dos maiores ídolos da história corintiana e do futebol brasileiro. A letra da música é uma verdadeira poesia. No final, Renato Teixeira e Sócrates improvisam, com Renato dizendo que quer levar o Doutor pro Taubaté. E Sócrates diz que tem de falar com o Vicente, pois é ele quem manda no Corinthians.


Vicente Matheus morreu aos 88 anos, de insuficiência pulmonar, provocada por um câncer generalizado, após ficar 14 dias internado no Instituto do Coração, em São Paulo.

Para aqueles que quiserem conhecer melhor Vicente Matheus, essa verdadeira lenda entre os dirigentes esportivos brasileiros, vale a pena assistir a sua entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura:



Vicente Matheus também tem dois livros publicados.

O primeiro, a biografia escrita pelo jornalista Luiz Carlos Ramos, “Quem sai na chuva é pra se queimar” (Editora do Brasil, 2001).

O outro tem a assinatura de Marlene Matheus, sua esposa, “Matheus, o senhor Corinthians” (Editora Leia Sempre, 1998).

Nenhum comentário:

Postar um comentário