sábado, 26 de maio de 2012

Vencer ou Morrer: o jogo do poder no futebol


Eis aqui um livro fundamental para a literatura esportiva. “Vencer ou Morrer – Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional” (Editora Mauad, Faperj, 2002) conta a história do futebol a partir de seus aspectos políticos e sociais. Gilberto Agostino, historiador associado ao Laboratório de Estudos do Tempo Presente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizou um estudo espetacular (e inédito) sobre a violência das torcidas e, principalmente, a análise sobre a utilização do esporte pelos regimes autoritários. Agostino trata das relações entre Estado e futebol, muito especialmente os Estados autoritários. Uma verdadeira geopolítica mundial do futebol, ao lado de uma economia política dos esportes nos regimes autoritários. No prefácio da obra escrita pelo jornalista Teixeira Heizer (autor de O Jogo Bruto das Copas), a síntese de um livro obrigatório para os estudiosos, mas, sobretudo para os amantes da boa literatura esportiva.   

Em busca da poesia perdida
Teixeira Heizer

Inglaterra x Escócia, em 1877.

“A bola começava a rolar na Velha Albion e o texto de Gilberto Agostino parecia mover-se com ela, transitando ao seu lado, em mágico retrocesso aos idos de 1800, um passado esportivo que não morreu; passou. Aliás, o futebol é assim mesmo. Suas vigorosas emoções, sejam trágicas ou épicas, fluem em direção ao imprevisível. Os encantos nele embutidos vêm de longe, e não são eclipsados sequer pelas brumas do tempo. O autor – enfeitiçado também pelas pesquisas – soube capturar o turbilhão de sensações decorrentes desses quase dois séculos em que homem e bola se envolveram em fantásticos pas-de-deux, capazes de apequenarem os Nureyev e Nijinsky, por inexpressivos, se ousassem portar chuteiras. E transmitiu-as com honestidade para o público leitor, desacostumado a relatos tão convincentes.

Conjuração fantástica de torcidas, desde seu nascedouro prosaico, sem lei e sem nada, nos terrenos frios das escolas e fábricas, até sua prática nos engalanados estádios de hoje, o futebol é assim: um momento de amor desmedido. Em todos os tempos, os deuses da bola – Pelé à frente – compeliram o mundo a recitar seu catecismo em liturgia universal. Nenhum homem, em qualquer quadrante do planeta, em algum momento de sua vida, terá deixado de chutar uma bola. Vale arriscar uma jura. Com habilidade, o autor costurou sua história, despindo-a de penduricalhos tão comuns em situações análogas. Às favas com os paetês e vidrilhos, que o futebol, por sua seriedade, dispensa tais adornos. É verdade que os aspectos lúdicos não foram desprezados, nem as cores de aquarelas colegiais deixaram de tingi-lo como resultado de nossas imaginações.


Talvez, por seus compromissos acadêmicos, Agostino tenha mergulhado nas profundezas das pesquisas responsáveis, desnudando aspectos até aqui impermeáveis ao conhecimento humano. O texto fluente ancorou-se em ingredientes de caráter sociológico, numa convergência em que a religiosidade, a política e outros que tais avultam aos olhos dos leitores, num lance de grande fascínio, magnetismo mesmo. Pode ser que o andamento escape do tecnicismo jornalístico, cujos moldes tem norteado uma imensa variedade de trabalhos que emolduram as coloridas prateleiras das livrarias. Não é um livro sobre futebol. É o livro, desculpem-me a síntese preguiçosa. Perpassam por suas páginas fatos até aqui ignorados por autores de nomeada. Mesmo os que se atreveram a desvendar o secretismo do hermético mundo da bola. E tudo é feito sem grandes alardes, embora não sejam descartados enfoques que vão do contundente ao pitoresco.

Barão de Coubertin

A linguagem é substantiva; o texto, adjetivo. A retórica dos declarantes é reprodução necessária, não para confeitar a história, mas para compô-la com credibilidade, embora dela se possa discordar. Aquele Barão de Coubertin, de cima de hipócrito olimpismo, assegurava que o ideal no esporte não era vencer, mas competir. Nós, vivos de hoje, não pensamos assim. Por mais frágeis que sejam nossas barricadas, delas partimos em direção aos triunfos consagradores. Nem precisamos parodiar declarações do Duque de Wellington, aquele que assegurou ser a vitória de Waterloo, quando as forças napoleônicas malograram sonhos franceses, germinada no futebol das escolas de Eton, onde dez anos antes os estudantes de então, guerreiros das batalhas de Bonaparte, iniciavam-se na prática do esporte bretão. Ainda que se trate de uma impropriedade histórica, vale a transcrição.

Meazza recebendo a Taça Jules Rimet, em 1938.

A política aproveitou-se do futebol e enveredou-se por um viés estreito, mas oportuno. O líder fascista Benito Mussolini empolgou o mundo com seu time campeão de 1938. Poucos sabem que Giuseppe Meazza, hoje nome do grande estádio do Milan, teve que erguer o braço, na emblemática saudação fascista, diante de um desconfortado presidente francês, Lebrun, ao receber a Taça Jules Rimet, em Colombes-França. Também a história nos remete àqueles momentos que antecederam a decisão, quando os jogadores da Azurra foram incentivados pelo Duce com um cartão de síntese ameaçadora: vincere o morire. O livro de Agostino revolve a história com seriedade.

Jesse Owens - protesto simbólico contra o nazismo

E o que dizer do parceiro de aspirações sanguinárias e hediondas, o sinistro Adolf Hitler, que gastou mundos e fundos para fazer relações públicas às custas das bicudas chuteiras alemãs? Mas o esporte soube rejeitá-lo ao menos duas vezes. A primeira, nos Jogos Olímpicos de Berlim. O negro Jesse Owens mandou às favas suas loucas teorias, paraninfadas por Goebbels, Göring, Speer e companhia, em direção à eugenia da raça, doutrina que poderia contaminar o mundo branco dos idos de 1930. E volta à memória dos mais antigos, também, o sinistro Anschuss que, além de absorver a Áustria, tentou, na garupa, anexar o seu alegre futebol. Recorde-se a reação patriótica dos craques que se negaram a servir ao nazismo, entre eles Sindelar, por sua magreza apelidado O Homem de Papel. Suicidou-se, mas não jogou.

A expulsão de Rattin, na Copa de 1966.

Em Londres, em 1966, a imagem do argentino Rattin, expulso, esmigalhando a bandeira inglesa, que assinalava o corner do campo, representava mais que a revolta dos corações argentinos, parecendo mesmo, a exemplo de Maradona & Cia em jogo vitorioso contra os ingleses anos mais tarde, uma vingança – no caso de Rattin, antecipada – pela trágica derrota na guerra por duas pedras de gelo ao sul da Patagônia, as Malvinas. E mais: doze anos após, os gemidos dos torturados presos políticos, ali mesmo, nas masmorras da Escola de Mecânica da Armada, próximas ao estádio de Nuñez, onde a Argentina vencia sua primeira Copa do Mundo, num quadro típico de um tango que bailava nas pautas tingidas a sangue.

Al compaz, naturalmente.

Quem não quiser atravessar o Rio da Prata pode se assustar, também, com o sufoco dos gritos de gol que não foram ouvidos pelos presos políticos brasileiros, oito anos antes, no México, quando Pelé e Cia destroçaram seus adversários de todos os quadrantes do mundo. Recorde-se como símbolo de uma época de chumbo, em contraponto, a imagem do presidente Garrastazu Médici, rádio de pilha ao ouvido, a vibrar com os feitos patrícios em campos astecas, tendo ao fundo a linda marchinha Pra frente Brasil, de Miguel Gustavo.

Presidente Garrastazu Médici

O autoritarismo estava absolvido?

Geopolítica e identidade nacional, subtítulo que condensa fatia robusta da história do futebol, encampam um trabalho fecundo de Gilberto Agostino – porque se move com a marca da competência –, que interessará não só ao público esportivo, como, sobretudo, aos universitários, necessitados de um livro como esse que já vai à luz da publicidade.

A Igreja subiu na carona da novidade. É só recordar o arcebispo de Glasgow ao paraninfar jogos visando a obtenção de fundos para crianças das missões africanas. O futebol, antes da virada do século, já estava canonizado na Escócia, bentos os seus praticantes. Até hoje, é cortejado por todas as linhas religiosas, sem que se ocultem os feitiços brotados em terreiros pouco confiáveis. É a doutrina da bola. Tão poucas regras e tão poucos magistrados controlam, ou não, confrontos geradores de emoções que rompem fronteiras como se elas fossem construídas sobre bases de papel crepe. E elas não são propriedade de seus praticantes, avançando sem pedir licença pela população que habita ordinariamente as arquibancadas: a torcida. Diga-se que esta, muita vez composta de pacatos cidadãos, até transformou-se em exércitos de malfeitores, insurgindo-se não só contra as normas que devam reger a sociedade esportiva, como contra as leis penais. E Agostino traduz esse estado d’alma com desusada competência.


De repente, salta dos campos de jogos, palcos feitos épicos imorredouros, para a revolução que se desenrola, transformando o romantismo das épocas passadas, sobretudo as do pós-guerra, em tempos calculados na gigantesca parafernália eletrônica que preside o mundo moderno. É o futebol.com do novo século. No seu capítulo que fala de mundialização e mídia, são reveladas as novas regras, pelas quais fantásticas organizações econômicas hão de dizer – e já dizem – quais são os novos patrões, sucessores de Coubertin, Rimet etc. Aliás, de alterações incidentais para as transformações quase globais, foi um pulo. Na metade do século, precisa Agostino, o advento da televisão deixou o rádio e suas transmissões fantásticas para trás, sepultando um estilo consagrado nos quatro cantos do mundo. Ah! que saudade de Gagliano Neto, Rebelo Júnior, Pedro Luiz, Édson Leite, Oduvaldo Cozzi, Antonio Cordeiro e Valdir Amaral – para aludir apenas aos microfones do Rio e de São Paulo – poetas de estilo barroco, que encantaram as tardes de domingo dos setentões de hoje, jovens malandros de ontem.


E volto a Agostino, quando ele traduz a ascendência da mídia, sobretudo a eletrônica, como pilar principal da nova era, que cheira ao mercantilismo, aprisionando os principais jogadores e, paradoxalmente, tornando-os reféns da sua própria riqueza. No arremate de seu oportuno texto, o autor é explícito ao nos falar de ditadores sanguinários, políticos oportunistas e cenas diabolicamente arquitetadas nos desvãos da vida. Mas o intelectual dá lugar ao esportista para torcer, ardentemente, pelo reencontro da poesia perdida. Oxalá consiga”.   
    
No trecho abaixo de “Vencer ou Morrer”, uma história incrível resgatada por Gilberto Agostino:


(...) poucos relatos são mais fascinantes do que a prática inaugurada pelo 1º Batalhão do 18º Regimento de Londres, servindo em Loos, em 1915. Ninguém sabe ao certo de quem partiu a ideia, mas esta consistia em atacar os alemães a partir de uma bola chutada em direção à trincheira inimiga. A prática, apesar de arriscada, parecia magnetizar os soldados e logo os relatos se multiplicaram. Vencendo distâncias, em pouco tempo, a “manobra” havia sido levada para Gallipoli, onde tropas inglesas e australianas enfrentaram os turcos.

A notoriedade desta ofensiva ficou registrada de fato na Batalha do Somme, em 1916, um dos embates mais cruciais da Grande Guerra. Na “preleção” para o combate, o capitão W. P. Nevill, comandante do 8º East Surreys, apresentou a seus homens quatro bolas de couro, uma para cada batalhão que comandava, anunciando um prêmio para a primeira divisão que cruzasse a linha germânica. Apesar de toda a expectativa que cercava a ação, o próprio capitão estaria entre os 600 soldados ingleses que foram mortos no primeiro dia de luta em Somme. Entre as inúmeras lembranças da guerra, um verso eterniza seus feitos:

Nevill e a bola como troféu

On through the hail of slaughter                                       Em meio à torrente de matança,
Where gallant comrades fall                                             onde camaradas valentes caíram,
Where blood is poured like water                                     onde o sangue como água jorrou,
They drive the trickling ball                                             pouco a pouco a bola conduziam.
The fear of death before them                                           Diante deles, o medo da morte
Is but an empty name.                                                      era apenas um nome vazio.
True to land that bore them –                                           Verdade para terra onde morreram –
The Surreys play the game                                                Os Surreys jogaram o jogo.

Para alguns, Nevill era um louco, para outros, um bufão. De qualquer forma, assim como outros combatentes que partiram atrás das bolas lançadas na terra-de-ninguém em direção às trincheiras alemãs, ele fez do campo inimigo uma espécie de gol simbólico, ritualizando a guerra como um jogo a promover o reencontro entre os significantes bélicos e esportivos: “atacar, defender, tática, ganhar terreno, artilheiro”. Deixava-se transparecer o quanto a experiência em torno da afirmação do futebol moderno tivera como referência o universo militarista que marcara a sociedade europeia desde os finais do século XIX.

Sobre o autor:


Gilberto Agostino, morreu em 2005. Era historiador associado ao Laboratório de Estudos do Tempo Presente (IFCS-UFRJ), onde desenvolveu pesquisas referentes à interação futebol-política. Era um dos autores do livro Sociedade Brasileira: uma História Através dos Movimentos Sociais (Record, 1999) e co-autor do Dicionário Crítico do Pensamento da Direita (Mauad, 2000), para o qual escreveu os verbetes Futebol e Hooligans . Sua ligação com o tema estendeu-se à coluna Futebol, Paixão e Poder, que assinou no Jornal do Sports. Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 28 de maio de 1967, e formou-se em História pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

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