quarta-feira, 9 de maio de 2012

Uma história do futebol


Um dos mais profundos e detalhados estudos sobre o esporte mais popular do planeta, o futebol, é o que o escritor de origem escocesa, Bill Murray, fez quando escreveu “The world’s game”, traduzido no Brasil como “Uma história do futebol”. A obra foi lançada em 2000, no Brasil, pela editora Hedra e tornou-se leitura obrigatória do amante da boa literatura esportiva. Mais do que isso, fundamental.

Era o segundo livro de Bill Murray sobre o tema futebol, que já havia escrito “Football: a History of the World Game”, sem tradução no Brasil. Murray mergulhou fundo em sua pesquisa em “Uma história do futebol”, inclusive na história do futebol brasileiro, já que sempre se declarou apaixonado pelo nosso “esporte bretão”. Entre as centenas de histórias relatadas pelo autor, Literatura na Arquibancada destacará mais abaixo uma parte fundamental na cronologia do esporte no mundo: o período de Guerras, ditaduras, nazismo, a resistência de atletas e o uso político do esporte em períodos trágicos da humanidade.

Não é à toa que “Uma história do futebol” é citado frequentemente entre os melhores livros surgidos nos últimos tempos, pelo menos para aqueles que querem saber sobre as origens do esporte mais popular do planeta. No fragmento da “orelha” do livro, escrita pelo historiador Fábio Franzini, um dos nomes mais respeitados da academia brasileira no tema, nota-se a importância do livro de Murray:

“...Amparado por sólida pesquisa, Bill Murray narra de modo vívido como a apropriação do futebol por diferentes culturas e grupos sociais não apenas reflete, mas também promove, tanto o acirramento de tensões e conflitos de toda ordem (política, econômica, racial, religiosa) quanto a recuperação, ou o reforço, dos laços de sociabilidade frequentemente abalados pelas exigências cotidianas. Ao fazê-lo, mostra como esse jogo tem muito a nos ensinar sobre nós mesmos”.

Estádio de Wembley, em 1923, considerado o "maior do mundo"
recebe multidão de quase 200 mil pessoas na 1ª final realizada
entre Bolton e West Ham. O campo foi invadido.

Em seu texto de apresentação da obra, Bill Murray revela a importância que o futebol ganhou dentro de qualquer sociedade do planeta:

“O futebol evoluiu em inúmeras culturas sociais e políticas, refletindo-as invariavelmente, não só no estilo mas também no espírito com que o jogo é disputado. As rixas fora do campo, as tentativas de agressão dos torcedores contra jogadores e árbitros e as batalhas entre torcidas rivais fazem parte da cultura do futebol. Invariavelmente, às vezes esses incidentes recebem mais destaque que os milhares de jogos disputados em paz e harmonia. (...) O futebol possui seu lado negativo e não dispõe de soluções para um mundo em que a vida é dura e miserável para muitos; entretanto a situação poderia ser ainda mais cruel sem a alegria e a satisfação por ele proporcionadas.

Uma das maiores distrações da humanidade, pelo menos entre os homens, o futebol é menos perigoso que o álcool, menos ilusório que a religião e proporciona um senso de comunidade mais estrito que qualquer partido político. As ilusões de lealdade podem se perder ou o êxtase da vitória pode se provar efêmero, mas, ao início de cada novo campeonato, a esperança eterna que ocupa o coração dos fãs do futebol pulsa novamente. Os políticos abusam dessa fé simples, os homens ricos corrompem-na e os cínicos zombam dela, mas o futebol sobreviveu a tudo isso, tornando-se a maior e mais sólida instituição esportiva do mundo. Tudo começou na Inglaterra, com a Copa Desafio, em 1872, mas, desde então, inúmeros troféus transformaram-se em manifestações do Santo Graal, sendo liderados, ainda que de modo involuntário, pelo maior de todos esses troféus: a Copa do Mundo”.

Mas um dos trechos mais fascinantes na obra de Bill Murray é a parte referente ao período de guerras e o que aconteceu com o esporte e seus principais personagens:

Schriach (centgro), líder nazista em estádio de
futebol, em 1937.
“No futebol, os mundos alemão e austríaco transformados em um só em março de 1938 nunca deram certo. 

Na Copa do Mundo da França disputada alguns meses mais tarde, os dois estilos não conseguiram se combinar, e a Grande Alemanha fracassou terrivelmente. 

Quando a Segunda Guerra começou, as partidas entre os times austríacos e alemães continuaram proporcionando ocasiões para manifestações antigermânicas. Em novembro de 1940, o Schalke foi a Viena para disputar uma partida contra o Admira Wien. 

Destruíram o ônibus do time alemão e rasgaram os pneus do luxuoso carro do primeiro líder da juventude hitlerista, agora Gauleiter, Baldur von Schrirach.


Abertura dos Jogos Olímpicos de 1936, na Alemanha
nazista de Hitler.
A seleção alemã não conseguiu conquistar nenhuma vitória notável nos gramados, mas o regime nazista usou o futebol para alcançar alguns sucessos fora do campo. O maior triunfo do futebol alemão no plano internacional foi o bronze na Copa do Mundo de 1934. Em Berlim, em 1936, e na França, em 1938, o time foi logo eliminado. Porém, o esporte podia ser usado de outras maneiras; para os nazistas, havia muito a ganhar quando mostravam aos outros regimes – cujas políticas desprezavam – que estavam felizes em recepcioná-los como amistosos adversários esportivos.

Os dirigentes esportivos dos Países Baixos causaram algum embaraço aos nazistas ao cancelarem o jogo que seria disputado em Roterdã em 11 de novembro de 1938, depois dos encontros internacionais em 1935 e 1937. Quando a partida ia começar, os jogadores se recusaram terminantemente a prestar a saudação nazista. Os dirigentes britânicos não causaram o mesmo problema. Em dezembro de 1935, a Alemanha foi ao estádio de White Hart Lane, campo do Tottenham Hotspur, para enfrentar a seleção inglesa. Os alemães perderam por 3 a 0, mas a conduta dos jogadores e o comportamento dos 10 mil torcedores alemães ganharam aplauso da imprensa, e os discursos proferidos após o banquete elogiaram a ação contra os manifestantes que sugeriram o cancelamento do encontro.

Ingleses fazendo saudação nazista, em 1938.
Na Escócia, em outubro de 1936, a derrota alemã por 2 a 0 não foi considerada pelos oficiais nazistas quando enfatizaram os vínculos raciais entre os dois países nas festividades realizadas após a partida. Um público relativamente pequeno (40 mil espectadores) compareceu, devido às apreensões em relação ao nazismo, e os jogadores escoceses não prestaram a saudação nazista. Porém, em maio de 1938, o time inglês, convidado para um jogo em Berlim, foi pressionado pelo embaixador britânico, Neville Henderson, a prestar a saudação no início do jogo, com o consentimento da FA mas contra a vontade dos jogadores. Para os times britânicos, que, ao contrário dos times da Europa continental, não tinham o costume de saudar os espectadores ou mesmo de trocar elogios antes do início do jogo, esse gesto era significativo, e o jogo é mais lembrado pela saudação que pela vitória inglesa por 6 a 3.

Schalke 04
Internamente, o maior troféu para o regime nazista foi o apoio do Schalke 04. Esse clube dominou o futebol alemão, conquistando seis campeonatos entre 1934 e 1942. Os nazistas ficaram satisfeitos de ter o clube mais popular entre os operários integrando a nova ordem política, e o Schalke 04 recebeu do regime toda ajuda possível. Os nazistas sabiam como sujeitar os jogadores que relutavam a aceitar as relações do clube com o novo regime. Dietrich Schulze-Marmeling (na obra Der gezähmte Fussball: Zur Geschichte eines subversiven Sports) relata como os nazistas converteram Barry Schulz, um craque da antiga Federação de Esportes dos Trabalhadores Alemães (DAT). Certo dia, Schulz viu uma Mercedes com quatro oficiais da SS e um civil parar diante de sua casa. Esse tipo de ação sempre trazia um temor: a prisão de uma pessoa. Mas os visitantes desejavam conversar com Schulz para discutir o futuro de sua carreira futebolística. Polidamente, perguntaram-lhe se aceitaria jogar naquela tarde pelo SSC Friesen, um clube da elite, e dizendo-lhe que com vinte e três anos, era jovem demais para abandonar o futebol. Nessa tarde, Schulz marcou dois gols para seu novo time, em uma vitória por 2 a 1 contra o Blau-Weiss Berlin.

Franz "Bimbo" Binder, Rapid Viena.
Durante a Segunda Guerra Mundial, jogar futebol na Alemanha era um dos meios mais aprazíveis de escapar da morte. Particularmente depois da derrota em Stalingrado, em 1942, a ameaça de ser enviado à frente de batalha era usada no futebol, como em outras atividades, para assegurar que os jovens obedecessem ao regime. Uma evidência da adoção dessa prática era a sua inexistência em 1941, como demonstra o episódio após a surpreendente final do campeonato da Grande Alemanha desse ano, realizada em Berlim, entre os dois times “operários”, o Rapid Vienna e o Schalke 04. No fim do primeiro tempo, os austríacos estavam perdendo por 2 a 0 e sofreram outro gol logo depois do intervalo, mas reagiram e atordoaram os 100 mil espectadores, marcando quatro gols em dezoito minutos e vencendo a partida por 4 a 3. Para Franz “Bimbo” Binder, que marcou três dos quatro gols, o triunfo foi efêmero, pois acabou sendo enviado à frente de batalha.

O "jogo da morte" entre Dínamo Kiev x oficiais Luftwaffe
Mas sobreviveu, e depois da guerra retomou sua carreira no Rapid Vienna, encerrando-a em 1949 como o maior goleador europeu de todos os tempos. Podemos também evocar um jogo realizado na frente de batalha, em um estádio ucraniano próximo a Kiev; chamado de “match smerti” (“jogo da morte”), foi disputado em abril de 1942 entre o Dínamo Kiev e oficiais da Luftwaffe, a Força Aérea Alemã. O Dinamo venceu por 5 a 3. Diz-se que os jogadores do time vitorioso, exceto três, foram executados pelo desaforo. De fato, jogos entre os ocupantes e suas vítimas eram comuns, e a execução dos jogadores de Kiev era parte do tratamento normalmente dispensado pelos nazistas às “raças inferiores”.

A tragédia que avançava lançou uma sombra sobre a Copa do Mundo da França de 1938, particularmente pela ausência da Áustria e da Espanha. Esta última estava dividida em uma sangrenta guerra civil, iniciada em julho de 1936. O futebol floresceu na Espanha na década de 1920, e em 1928 a seleção espanhola tornou-se a primeira da Europa continental a vencer uma seleção profissional inglesa e derrotá-la por 4 a 3, em Madri. Entretanto, as vitórias espanholas eram sempre obscurecidas pelas ambições separatistas de bascos e catalães, cujos principais times eram os mais poderosos da Espanha até 1936.

Equipe do Athletic Bilbao
Intencionalmente, o principal time de Bilbao chamava-se Athletic Bilbao, e quando seu ramo basco fundou um time em Madri, também usou um nome inglês, Athletic Madrid. Toda expressão que denotasse a centralização de Castela era ridicularizada pelos torcedores não-castelhanos. Porém, quando a guerra civil começou, envolveu animosidades tanto de classe quanto étnicas. Desse modo, bascos e catalães viram-se juntos numa guerra dolorosa contra as forças rebeldes do general Franco, que aplicou cruelmente sua política de centralização ao assumir o poder, em 1939. O futebol continuou sendo praticado em meio aos massacres, e os times catalães e bascos excursionaram ao exterior para levantar fundos para sua causa.

Angel Zubieta e Isidro Langara
Em abril de 1937, o Barcelona foi convidado a jogar no México e também em Nova Iorque. No fim da excursão, os jogadores aceitaram ofertas para jogar no futebol mexicano; nenhum deles voltou para as zonas controladas por Franco. Em 24 de abril de 1937, um time basco começou uma excursão que praticamente se transformou em turnê mundial, abrangendo Europa, América do Norte e América do Sul. Jogando para grandes multidões na URSS, eram festejados por seu futebol e, em troca, agradeciam aos seus anfitriões pela ajuda dada na luta contra o fascismo espanhol. Em sua estada de dois meses e meio, perderam apenas um jogo, por 6 a 2, para o Spartak Moscou; essa derrota ocorreu graças aos erros da arbitragem, mas isso, porém, não afetou a euforia dos soviéticos. Durante sua permanência na América do Sul, alguns jogadores bascos foram contratados por clubes argentinos, particularmente Angel Zubieta e Isidro Langara pelo San Lorenzo, o que provocou o crescimento do número de associados do clube de 15 para 35 mil sócios; outros três jogadores foram contratados pelo “time dos milionários”, o River Plate”.

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