quinta-feira, 24 de maio de 2012

Uma carta para Ronaldo Fenômeno


Para quem acha que livros classificados como literatura infantojuvenil são feitos apenas para jovens leitores deve ler a obra escrita por Flavio Carneiro, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Logo pela sinopse de “Prezado Ronaldo” (SM, 2006) entendemos porque a obra pode e deve ser lida também por adultos, pois sua abordagem fala de temas comuns a todos nós. “Prezado Ronado” conta a história de Artur - ou melhor, Pingüim, como é chamado pelos amigos - tem doze anos, joga de centroavante no infantil do São Cristóvão e é fã do Ronaldo Fenômeno.

Pingüim vive dividido entre dois sonhos: ser escritor e ser jogador de futebol. É para conversar sobre esses sonhos e sobre o seu dia-a-dia que ele escreve uma série de cartas para seu ídolo. Nela, o garoto conta suas aventuras e desventuras no time do São Cristóvão e fala de sua amizade com o seu Almeida (um velho escritor, seu vizinho na vila onde moram, no Rio de Janeiro) e com o Parede, zagueiro do time. E conta também da origem do seu apelido, do seu primeiro jogo no Maracanã, numa eletrizante partida contra os infantis do Corinthians, da primeira namorada e de outras coisas que vão compondo o mosaico de suas sensações.

Flavio Carneiro

Numa narrativa leve e bem humorada, temperada de poesia, Flávio Carneiro tece o perfil de um menino que ainda acredita em sonhos. As relações entre futebol e literatura vão se desenhando aos poucos no livro, de forma sutil, através das dúvidas, dos anseios, das alegrias vividas pelo pequeno Pingüim.

E se não há nenhuma resposta de Ronaldo às cartas de Pingüim, isso não quer dizer que o menino vai deixar de escrever. Escrever cartas, como lhe ensinou o seu Almeida, é uma forma de treinar para ser escritor (assim como ele treina para ser jogador, no São Cristóvão) e é isso o que importa, esse exercício do imaginário, que o leva a uma viagem por mundos que talvez, quem sabe, também sejam os do leitor do livro.

Literatura na Arquibancada destaca abaixa um trecho da obra:

Prezado Ronaldo
Por Flavio Carneiro

Estádio do São Cristóvão
Meu nome é Artur mas pode me chamar de Pingüim (depois explico), jogo de centroavante no infantil do São Cristóvão, moro no Rio de Janeiro, tenho doze anos e sou seu fã. 

Meu melhor amigo (nível 1) é o Parede, zagueiro do nosso time. Meu outro melhor amigo (nível 2) se chama seu Almeida, tem sessenta anos e é meu vizinho lá na vila.

Pra você ver a coincidência: moro numa casa de vila que fica no bairro de Vila Isabel e ainda por cima morei também na Vila da Penha e Vila Valqueire antes de vir pra cá. Por causa disso o nosso técnico lá no São Cristóvão vive dizendo que estou no time errado, devia jogar era no Santos, que tem o campo dele na Vila Belmiro.

Não acho graça nenhuma, sinceramente. Não é por nada não, só porque a piada é boba mesmo, não tem nada a ver, mas toda vez que ele diz isso eu prefiro dar pelo menos um risinho amarelo, pra ele não me colocar no banco, como já aconteceu. 

O nosso técnico gosta de ser chamado de Professor. Não fez faculdade nem nada, acho que nem terminou a escola, mas todo técnico agora virou Professor, você sabe, e ai de quem chamar o nosso pelo nome de verdade, que eu nem sei qual é, pensando bem. 

Quando estamos só eu, o Parede e mais alguns da nossa confiança (porque não dá pra confiar em todo mundo não, tem uns lá que eu acho que deduram qualquer coisa), a gente chama ele de Professor Aloprado.

Teve um domingo, no jogo contra o Bangu, que ele inventou que ia jogar no esquema 3-5-3. A gente estava no vestiário, trocando de roupa, ele mandou todo mundo fazer silêncio antes de começar a preleção. Depois foi logo dizendo que o time naquele dia ia jogar no tal do 3-5-3. Eu parei um pouco, pensei comigo, fiz a conta duas vezes dentro da minha cabeça e concluí que ele tinha inventado um esquema com doze jogadores!

A não ser, claro, que o goleiro estivesse incluído, e então seriam três na defesa, cinco no meio-de-campo, três no ataque e ninguém no gol!

Não consegui me segurar e ri sozinho. O Parede deve ter feito a mesma conta que eu, quem sabe até mais rápido (ele é muito bom em matemática), olhou pra mim e riu também. O Professor quis saber do que a gente tanto ria. 

Eu disse que não era nada e ele ficou muito bravo, falou que aquilo ali não era feira não, que precisava ter disciplina e tal, que com ele ninguém tirava onda não e que a gente ia ficar no banco naquele jogo por causa das risadas. Fiquei muito chateado, Ronaldo, chateado mesmo, ninguém gosta de ficar na reserva, muito menos por um motivo boboca desses, mas deixei passar. 

Minha vingança veio quando ele resolveu escalar o time no tal esquema e só aí, nessa hora, viu que tinha um sobrando, que não dava pra entrar em campo com doze. Ele coçou a cabeça, tinha já um monte de garoto segurando a risada, ele fez que não viu porque não podia colocar metade do time no banco.

Então mandou essa: acho melhor treinar o esquema primeiro, é isso, a gente treina o esquema novo durante a semana, hoje vamos jogar o feijão-com-arroz mesmo.
O nosso feijão-com-arroz é um manjadíssimo 4-3-3 que nenhum time usa mais e por causa disso (e também, verdade seja dita, porque nosso time tem muito perna-de-pau) a gente vive levando de enfiada de todo mundo. No último jogo perdemos de 8 a 0 pro Botafogo e o Professor colocou a culpa no juiz. 

Sei que não pega bem ficar falando mal de técnico, ainda mais que o nosso deve ganhar uma merreca por mês, coitado, e deve estar ali porque gosta mesmo de futebol e acho até que gosta um pouco da gente também, mas cá entre nós, técnico assim é duro de aturar, não acha não? 

Eu ia dizendo dos meus dois melhores amigos. Foi por causa deles que resolvi te escrever essa carta e espero que ela chegue sã e salva aí na Espanha e você possa me responder um dia. Só peço que não demore muito porque enquanto você não me escrever de volta contando a verdade sobre o que vou perguntar nunca vou poder provar pro Parede que ele é um débil mental, e eu gostaria muito de provar isso pra ele.

Foi o Parede que me sugeriu escrever essa carta pra você e foi o seu Almeida que reforçou a ideia, dizendo que quem quer ser escritor precisa treinar muito, que nem jogador de futebol, e uma boa forma de treinar pra escritor é escrevendo carta, ele me disse. 

O seu Almeida é escritor, Ronaldo, já publicou um montão de livros mas pelo jeito não venderam muito porque não é famoso nem nada e vive lá na casinha dele sem luxo nenhum, às custas nem sei bem de quê porque sempre desconversa quando pergunto como ele ganha dinheiro. 

Umas rendas aí, umas rendas aí, ele responde, e eu fico sem entender xongas. Bandido eu sei que ele não é, aposentado também não, pelo menos ele me diz que nunca teve carteira assinada e meu tio Álvaro me disse que sem carteira assinada não tem como se aposentar. Então realmente eu não sei, é um mistério.

A verdade é que seu Almeida é chegado num mistério. Tem um caminhão de livros de detetive na casa dele, alguns ele mesmo escreveu, sabia? Não são nada bonitos, o papel esfarela na mão da gente que nem jornal, as capas são horríveis, os livros são tão vagabundos que de vez em quando despencam umas páginas lá de dentro.

Seu Almeida diz que não é nada disso, são obras de qualidade, muito chiques aliás, de um tipo que ele chama de Autumm Leaves Books (é inglês isso). Lógico que eu não entendi nada quando ele falou esse nome a primeira vez, mas logo em seguida o seu Almeida traduziu: livros folhas-de-outono. 

Só que as folhas desses livros aí não caem só no outono não, eu falei, e ele balançou a cabeça, como se dissesse que eu não entendia nada daquilo. Acho que ele estava mentindo, ou melhor, fingindo, que é diferente de mentir, ele me explicou um dia. 

Seu Almeida é uma figura, adora inventar umas coisas gozadas e já aprendi a fazer a diferença entre as coisas que ele diz que são verdades verdadeiras, as coisas que são verdades fingidas (como essa aí, há, dos livros folhas-de-outono) e outras que são só mentiras mesmo. Essas são muito raras, viu, Ronaldo, raríssimas, desde que a gente se conhece o seu Almeida só mentiu duas vezes pra mim, pelo menos é o que eu penso e acho que não estou errado não.
A primeira vez foi quando ele disse que detestava futebol, que era um jogo idiota. Jogar bola com os pés, onde já se viu?, ele disse, colocando as mãos na cintura, como faz sempre que está muito bravo (dessa vez ele não estava, era só teatro).

Essa mentira ele fala até hoje mas não me engana mais, eu sei que ele gosta porque foi disfarçado ver um jogo nosso lá em Madureira. Quando entramos em campo dei uma olhada pra ver se tinha alguém no estádio (sempre faço isso, não sei por quê, nunca tem ninguém mesmo), olhei pra arquibancada e dei de cara com aquele homem de paletó, chapéu e óculos escuros, sentado num cantinho. 

Nada demais alguém ir ver o jogo de óculos escuros, paletó e chapéu. Nada demais se fosse na Europa, ou na Argentina, ou no Chile, mas no Rio, num domingo às duas da tarde, um calor de rachar? Foi o disfarce mais burro que o seu Almeida podia arranjar e depois disso passei a desconfiar toda vez que ele falava sobre os detetives dos romances que tinha lido. 

Dava a impressão de saber muita coisa, e deve saber mesmo, mas na vida real parecia que ele não entendia nada do assunto, se disfarçando daquele jeito. Fiz de conta que não reparei e fui pro jogo. Por incrível que pareça, naquele dia ganhamos uma, 2 a 1, e eu fiz os dois gols do nosso time, dois golaços!

Na segunda-feira, depois da aula, dei uma passada na casa dele e falei dos gols que eu tinha feito, olhando de vez em quando bem nos seus olhos pra ver se o danado dava mole. Nada, ficou encostado na janela, olhando na direção do pátio da vila, como se estivesse muito interessado nas crianças brincando de pique.

Comentei os lances da partida e nada, ele lá quieto, falei do juiz que tinha me dado cartão amarelo, o primeiro da minha vida, só porque tirei a camisa na hora do meu segundo gol (queria o quê o juiz?, tinha sido um gol de placa, e além de tudo o da virada, 2 a 1 pra gente depois de ter começado perdendo). Nada. 

Falei do Professor Aloprado, que inventou de trocar todo o nosso meio-de-campo de uma vez (três substituições de uma vez, todas no meio-de-campo, dá pra acreditar?) e eles quase empatam no final por causa disso. Ele mais parado que estátua, só de vez em quando suspirando, fundo. 

Nesse dia descobri que ele tinha mentido pra mim, mas perdoei porque era uma mentira muito mixuruca. Ou quem sabe ele tivesse dito a verdade, sobre não gostar de futebol, e tivesse ido ao campo pra me ver porque era meu amigo.

Ele podia ter dito isso, que estava indo só pra me ver, mas acho que ficou com vergonha, ou talvez estivesse começando a gostar de futebol depois de ter me conhecido mas não queria admitir, sei lá, só sei que mentiu dessa vez, e mentiu tão mal que fiquei pensando que ele não estava acostumado a mentir, e isso foi mais um motivo pra perdoar o seu Almeida, que além de tudo me dá um monte de livros de presente e me diz coisas importantes.

Ele acha que eu posso ser escritor quando crescer mas ainda não me decidi entre o futebol e a literatura, sabe, Ronaldo. Seria ótimo se eu pudesse ficar com os dois, não é? Na escola minhas maiores notas sempre foram em português e redação. Minha professora diz que eu escrevo direitinho (e minha mãe fica toda orgulhosa quando ouve isso). 

Depois que fiquei amigo do seu Almeida minhas notas melhoraram mais ainda, e ele me dá uns exercícios pra fazer fora da escola, uns exercícios que são pura maluquice mas acabam dando certo, eu acho. 

Por exemplo, no primeiro exercício ele começou me pedindo pra pensar num objeto, só pensar, sem dizer qual era. Depois eu precisava pegar uma folha de papel, descrever o objeto sem falar o nome dele e minha descrição devia ser tão boa que seu Almeida acertaria logo de primeira.

Nessa eu dei muito azar porque o primeiro objeto que me veio à cabeça foi a bandeirinha do córner e vai você querer descrever um troço desses, ainda mais pra um sujeito que não entende porcaria nenhuma de futebol. Ele acertou na terceira tentativa (não fui tão mal assim, não é?).

Outra coisa que ele dizia pra eu fazer era escrever cartas. De uma hora pra outra desandei a escrever carta pra todo mundo: meus primos, meus tios, meus amigos, os colegas da escola, o faxineiro aqui da vila, o português da padaria, o homem que vende vassoura na rua, a moça que toma conta da banca de revista, o carteiro (o Parede achou graça: escrever carta pro carteiro). 

Até pra minha mãe eu escrevi um dia e só não escrevi pro meu pai porque ele morreu faz tempo, quando eu ainda era bebê, e achei que escrever carta pra morto já era um pouco demais. 

Só pros caras do meu time não escrevi (exceção: o Parede), porque achei que eles podiam me sacanear, dizer que eu era poeta, essas coisas. O pior é que nenhuma das pessoas pra quem eu escrevi respondeu, só uma prima minha, de Minas, uma cartinha bem merreca, três linhas.

O resto do pessoal achava lindo aquilo (meu tio Álvaro achava esquisito, dizia que minha mãe, que é irmã dele, precisava me levar no médico e ver se eu não estava doente da cabeça) mas resposta que é bom necas. Minha mãe dizia que eu era o orgulho da família, com aquela letra redondinha, caprichada, tudo em cima da linha e nem sinal de borracha (eu fazia rascunho e depois passava a limpo, claro).

Se não fosse esse negócio de escrever tanta carta eu não teria coragem de ter começado essa. Por isso disse logo no começo que o motivo de eu estar escrevendo pra você tem a ver com o seu Almeida. Mas também falei que havia outra pessoa nessa história toda, e é o meu melhor amigo (nível 1), o Parede.

O Parede parece maluco, Ronaldo. Quer dizer, se você olhar pra ele vai dizer que é um garoto normal, um pouco desenvolvido pra idade, forte que nem um touro, alto, moreno, quando crescer pode até ser segurança de boate, ou de algum jogador famoso, quem sabe. 

É por ser parrudo desse jeito que, quando ele foi fazer teste no infantil do São Cristóvão, o Professor colocou ele pra jogar de zagueiro. E o cara é bom, sabia?, ninguém passa fácil por ele não, e se passa a bola fica o jogador. Foi o Professor que disse essa bobagem uma vez pra ele e o Parede acreditou, o Professor disse: ou passa a bola ou passa o adversário, os dois juntos é que não pode, entendeu? 

Eu digo que esse negócio de parar centroavante com falta não tem nada a ver, vivo com as canelas inchadas e minha mãe sempre diz que se eu aparecer em casa machucado de novo nunca mais vou jogar bola (mas ela sempre deixa depois), e o Parede tem habilidade, não precisa disso, é o que falo pra ele.

Mas a verdade é o que o Parede não regula bem não. De vez em quando ele me sai com cada uma que parece duas, francamente.

Ele mora na mesma rua que eu, a Torres Homem, conhece? Fica paralela à 28 de setembro, é uma rua comprida, eu moro numa ponta e ele na outra mas dá pra ir a pé. Um belo dia o Parede me chega em casa com um pombo que ele tinha pegado numa praça lá perto de onde a gente mora. 

Rua Torres Homem
Vou treinar ele, o Parede me disse. Treinar pra quê?, perguntei. Pra pombo-correio, ele respondeu. Fiquei só olhando pro pombo, sem acreditar no que estava acontecendo. É que a gente pode precisar um dia, se de repente um de nós quiser falar uma coisa muito importante pro outro, entendeu, alguma coisa urgente.

Continuei em silêncio, ele esperando que eu dissesse alguma coisa. Então a gente vai precisar de dois pombos, não é?, perguntei, dando corda. Ele ficou surpreso, ainda não tinha pensado nisso. Realmente, vamos precisar de dois pombos, vou arrumar um outro, fica tranqüilo. Eu estou tranqüilo, Parede. Ele continuou falando: não, deixa comigo, hoje mesmo eu pego outro pombo. Parede, você já ouviu falar numa coisa chamada telefone?

Sim, ele tinha ouvido falar. Mas telefone pode quebrar, não é?, o Parede continuou, e se estiver chovendo muito forte um não vai poder correr até a casa do outro, entendeu? Entendi, eu disse, e o que é que pode acontecer assim de tão urgente, num dia de chuva e sem telefone, que um vai precisar de pombo-correio pra falar com o outro? Ele abriu os braços e disse: aí você já está querendo demais, Pingüim, como é que eu vou saber, caramba? 

Até hoje o Parede não se conforma. Ele tentou de todo jeito ensinar o pombo, comprou até um livrinho falando como fazer, deu do bom e do melhor pro bichinho, só que o coitado não estava nem aí pras aulas do Parede. Na primeira oportunidade o pombo fugiu. Nem sei como conseguiu fugir, de tão gordo que estava, só comendo, bebendo e dormindo num canto da área de serviço do apartamento. O Parede acha que foi o pai dele que deu sumiço no pombo. O pai deve ter pensado que aquela história, se já era maluca demais pra ter começado, imagina pra continuar. Botou um ponto final e pronto. 

Mas o Parede nem deu muita bola pra isso não, Ronaldo, porque a cabeça rodopiante dele já estava noutra, e essa outra é que tem a ver com a carta que estou escrevendo e já está virando testamento. Prometo terminar logo, é que eu precisava contar essas coisas todas antes pra você poder entender melhor como é importante o que vou perguntar. E assim quem sabe você até me responde um dia (o mais breve possível).

A última do Parede é a seguinte. Presta bem atenção e me diz se estou exagerando quando digo que ele tem umas três dúzias de parafusos a menos. Faz uns dias que ele anda atormentando minha cabeça com uma coisa aí que ele diz que descobriu, uma grande revelação, uma bomba, os donos de jornal vão vender horrores quando ficarem sabendo disso, as redes de televisão vão bater todos os recordes de audiência quando derem a notícia, o mundo inteiro vai parar pra ver e o futebol jamais será o mesmo.

Isso tudo foi ele que disse, só que mexendo aqueles brações pra cima, pra baixo, pros lados, como se fosse um passarinho gigante e doido querendo levantar vôo. 

Ele anda dizendo que alguns jogadores famosos estão usando agora um rádio em miniatura implantado dentro do ouvido. Parece que antes era um brinco disfarçado de rádio mas a FIFA descobriu e então os times grandes contrataram uns cientistas americanos, russos e japoneses pra desenvolverem, em absoluto top secret (palavras do Parede), esse tal micro-rádio. 

O Parede acredita (e ele me falou isso em voz baixa, olhando pros lados, com medo de alguém ouvir e a gente ser preso pela CIA ou pelo FBI) que esses cientistas ficaram presos durante anos numa ilha deserta só pesquisando um jeito de fabricar a tal maquininha e finalmente conseguiram.

Esse radinho é conectado a um outro, que fica com um sujeito sentado num lugar especial no estádio, longe de todo mundo, um lugar secreto (o Parede diz que é importante descobrir esse lugar, e que se ele tivesse autorização de rastrear os maiores estádios do mundo ia achar o esconderijo dos caras).

Esse sujeito vê o jogo todo lá de cima, numa posição privilegiada, e vai dizendo pro jogador, lá no campo, o que ele precisa fazer. Por exemplo, se o goleiro está adiantado e o jogador não está vendo, o cúmplice lá de cima diz: chuta pro gol, agora!, e o jogador nem pensa duas vezes, do jeito que está chuta pro gol, encobrindo o goleiro. 

Eu ouvi tudo o que Parede tinha a me dizer, Ronaldo, ouvi na maior paciência desse mundo. E não adiantou eu falar que era muita grana por nada, que isso um companheiro mesmo podia falar durante o jogo, não precisava de tanta tecnologia. 

O Parede riu, de um jeito cínico lá dele, e falou que eu era muito ingênuo, que um gol desses, dependendo do jogo, podia valer milhões de dólares, uns quatro ou cinco gols decisivos já pagavam todo o investimento e o resto era lucro.

Você veja bem, ele me disse, segurando meu braço e me levando pra um canto do pátio da vila quando a vizinha passou pela gente, veja bem, Pingüim, como você acha que o Ronaldinho Gaúcho fez aquele gol de falta contra a Inglaterra na Copa de 2002, me diga, como é que ele viu que o goleiro estava adiantado e em vez de cruzar a bola na área meteu direto pro gol, no ângulo?

Ele simplesmente viu o goleiro adiantado, Parede, o Ronaldinho estava de frente, podia ver o goleiro deles. Viu nada, Pingüim, viu nada, ele estava olhando pro outro lado, pro canto da área onde estavam os jogadores do Brasil, estava vendo pra quem ia lançar a bola, foi alguém lá de cima que falou no rádio, no ouvido dele: chuta direto, vai, direto! 

O Parede acredita que o tal radinho foi usado pela primeira vez naquela Copa. Vinha sendo testado em alguns campeonatos europeus mas a CBF ficou sabendo e fez uma oferta milionária, com apoio dos patrocinadores da seleção, pra poder usar com exclusividade na Copa de 2002. 

Nem precisava, Parede, o Brasil ganhava fácil essa Copa, eu disse. Lá vem você de novo, Pingüim, até parece que você não conhece esse pessoal, eles são empresários, sabe o que é isso?, empresário não pode correr risco não, rapaz, não é que nem as pessoas que a gente conhece não, que fazem um bico aqui, outro ali, e se não der certo tenta outra coisa.
Empresário pensa em tudo, meu irmão, ele continuou o falatório, vai que algum espião desses tipo 007 entra no hotel, coloca um pozinho no café do Parreira e ele resolve escalar só os reservas? Vai que no treino o Ronaldinho Gaúcho tromba com o Rivaldo, cai por cima do Ronaldo Fenômeno e vão os três pro hospital? Como é que fica, hem, Pingüim?

Nem respondi.

Quer outra prova, você quer outra prova?, ele me perguntou, agitado. Balancei a cabeça pra um lado e pro outro, deixando bem claro que não, eu não queria outra prova, já tinha ouvido besteira demais pra um dia só, mas o Parede ignorou minha resposta e continuou falando.
Pois eu vou te dar mais uma prova, Pingüim, mais uma prova: o segundo gol do Ronaldo na final contra a Alemanha, lembra? Lembro. Pois então: o Cafu vai pela lateral direita e dá um passe rasteiro pro Rivaldo. E o que é que ele faz? Ele domina a bola e vira o corpo? Nããão. Ele tenta um drible? Nããão. Ele toca de volta pro Cafu e corre pra receber na frente? Nããão.
O Rivaldo não faz nada disso que um jogador devia fazer nessa hora. O que ele faz? Abre as pernas e deixa passar, faz o corta-luz, deixa a bola passar debaixo das pernas dele e assim engana o beque alemão. E a bola então vai parar nos pé de quem? Do Ronaldo, que domina de frente pro gol e bate no canto, sem defesa. 

Agora me conta, Pingüim, o Parede continuou, como é que o Rivaldo sabia que o Ronaldo estava atrás dele, bem na linha da bola, por acaso ele tem olho nas costas? Não, não tem, então como é que ele sabia? Simples. O cara lá de cima, escondido, avisou pra ele: abre as pernas, deixa passar! 

Nessa hora o Parede parou pra respirar e tentei dizer a ele que era assim mesmo, que muita gente já tinha feito esse tipo de jogada, o jogador usava a intuição, ou era tão entrosado com o companheiro que sabia onde ele estava mesmo sem olhar, falei que a gente já tinha visto muito gol assim, na televisão.

Ele me disse o de sempre, que eu era um bobo, um inocente, que essa jogada podia acontecer sem o radinho, certo, mas com o radinho era muito melhor, não tinha erro.
Você agora já imaginou porque estou te alugando com essa história toda, não é, Ronaldo? E já adivinhou qual é a pergunta que eu quero fazer e que precisa ser respondida com toda a sinceridade, não adivinhou? 

Sua resposta é a única forma de eu convencer o Parede de que ele precisa ser internado com urgência, que o lugar dele é o hospício mais próximo, e que só continuo amigo dele nem sei por quê, acho que é pra ajudar ele a ser normal de novo, se é que ele já foi normal um dia. 
Então me responde, Ronaldo, diz aí, você que estava lá com o Ronaldinho Gaúcho e o Rivaldo, que treinava e jogava com eles, que passava o dia inteiro com eles na concentração, me responde: existe mesmo esse tal radinho?

Um abraço, 
Artur (Pingüim)



Para saber mais sobre Flavio Carneiro, acessar: http://www.flaviocarneiro.com.br/




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