segunda-feira, 14 de maio de 2012

A última crônica de Nelson Rodrigues


A despedida do homem que mais e melhor escreveu crônicas sobre futebol não poderia ter sido diferente. A última crônica escrita por Nelson Rodrigues, como o próprio filho nos explicará abaixo, está “longe de ter sido a melhor”, mas reflete toda a paixão que Nelson tinha pelo seu Tricolor das Laranjeiras, campeão carioca de 2012.

Fluminense, campeão carioca 2012.
Estivesse ainda entre nós, a vitória do Fluminense sobre o Botafogo, no Engenhão, estaria até agora sendo devorada por tricolores e amantes da boa prosa esportiva com as reflexões de Nelson Rodrigues. Naquele início de dezembro de 1980, Nelson Rodrigues, ou melhor, o “Velho”, como seu filho o tratava carinhosamente, enfrentava bravamente o último estágio da doença que o levaria para sempre. Nelson Filho soube como ninguém retratar um momento emocionante, sofrido, comovente, como o pai sempre o fez durante a vida. E não poderia ter sido de outra forma, logo após a conquista de um título pelo Fluminense.

A última crônica
Por Nelson Rodrigues Filho

“Dezembro de 1980. O Velho caminhava para a morte. Uma caminhada suave por conta de uma falência orgânica que começou pelos pulmões, desde os anos 30, e que foi se estendendo a outros órgãos, principalmente o coração.

Já ficara em coma, em São Paulo, por cerca de vinte dias, em 1974. Os médicos haviam se conformado com a irreversibilidade do processo quando seu cardiologista e amigo Stans Murad resolveu trazê-lo assim mesmo para o Rio de Janeiro, Beneficência Portuguesa. Ocorreu o milagre e, sem mais nem menos, ele abriu os olhos voltando à vida.

Em 1980, a situação havia se agravado de tal forma que se lia nos olhos dos médicos uma contagem regressiva, que, logo em seguida, se mostrou inexorável.

O Velho havia sido proibido de assistir e ouvir os jogos de futebol, claro, principalmente os do Fluminense. Não podia se emocionar.

A lucidez total não era uma constante durante o dia, até porque tomava muitos remédios que refletiam diretamente em sua cabeça. Ainda assim, acompanhava tudo o que ocorria no mundo e sabia da partida final do Fluminense contra o Vasco.

Fluminense, campeão carioca 1980.
Decidi não ir ao jogo para ficar com ele que, com certeza, estaria bastante excitado e, apesar da proibição, iria procurar um radinho de pilha. Acertei em cheio. Combinamos que, obedecendo ao Dr. Murad, eu ouviria o jogo e iria lhe contando como estava indo.
Entre minúsculas sonecas, ele dava vazão à sua incrível ansiedade.

“E aí, Nelsinho, como vamos?”

Como sua noção de tempo estava diminuída, resolvi administrar meus comentários. Dizia que a partida estava equilibrada e que o Fluminense vinha bem. Eu andava pela casa emocionado, sabendo que não poderia mentir no caso de uma derrota tricolor. E o medo de que isso viesse a ocorrer?

Edinho
Acabou o primeiro tempo e o 0x0 temperou nossa conversa de intervalo, eu me pautando pela discrição. Recomeçou o jogo com o equilíbrio mantido, mas o Edinho fez o gol do título, de falta. Enxugando as lágrimas, preferi ir dizendo que o Fluminense melhorava para evitar a possibilidade de uma frustração posterior. Não conseguia ficar perto dele, pois choraria as famosas lágrimas de esguicho. Voltei a andar pela casa torcendo com todas as minhas forças, ainda que supercontido, para o jogo terminar. Acabou. O Fluminense era o campeão. Faltava dizer ao Velho e, fundamentalmente, com dizê-lo. Aos poucos, fui criando o clima que me parecia correto para a grande notícia. Finalmente, cheguei ao gol e ainda demorei um pouco para que a partida “terminasse”.

Sua euforia contrastava visceralmente com suas forças. Ainda que proibido de trabalhar, escrever, puxar pela cabeça, insistiu em ir à máquina. Uma luz incontrolável o arremetia para a crônica.

Como costumava fazer, interpretava alguns momentos. Porém, a dificuldade era enorme. Fui ver o que escrevia e ele, simplesmente, errava as linhas do teclado. Não saia uma palavra inteligível.

A um tempo triste, era um espetáculo maravilhoso assistir àquele esforço hercúleo.
“Não posso deixar de escrever”, repetia.

Então combinamos que eu ia para a máquina catar meus milhos e ele ia ditando. Ainda assim, foi extremamente difícil sair uma crônica. Sua cabeça não lhe correspondia. Precisávamos tentar várias palavras para dar nexo às frases.

Custou, mas saiu. Sua última crônica, lutando contra gigantescas forças de seus remédios, veio à tona. Com certeza está longe de ter sido a melhor. As grandes metáforas, as frases retumbantes não puderam aflorar. No entanto, seu último momento como cronista esportivo ficou marcado, mais do que sempre, pela férrea determinação que norteou uma vida em que a morte foi sua vizinha constante. Aquela força, aquela luz só tinha uma explicação: a paixão lancinante pelo seu Fluminense”.

Eis a crônica ditada por Nelson Rodrigues ao filho e publicada no jornal O Globo, no dia 2 de dezembro de 1980:

Fluminense Campeão Demais
Por Nelson Rodrigues

“Amigos, em futebol, nunca houve uma vitória improvisada. Tem sido assim através dos tempos.

Foi uma doce e santa vitória. Vocês viram como aconteceu o nosso triunfo. Foi uma tarde maravilhosa.

Tudo começou há seis mil anos atrás. Vocês compreenderam? Podia ser o Flamengo, o Botafogo, o Vasco ou outro, mas estava escrito que a arrancada era tricolor.

Há quarenta anos antes do nada, Nelsinho foi chamado. E foi tão fulminante sua presença no
túnel tricolor que merecia ser carregado numa bandeja com uma maça na boca.

Amigos, os idiotas da objetividade custaram a perceber a evidência ululante, segundo a qual seríamos campeões. Eu lhes falei do Roberto Arruda. Pois o Arruda, desde o primeiro jogo do campeonato, me procurou dizendo: – “Seremos campeões”. E neste domingo, o Arruda telefonou para dizer uma única e escassa frase: – “Ninguém nos tira a vitória”.

E desde o primeiro momento do jogo, ficou claro que a vitória era tricolor. Foi 1 x 0 mas poderia ser dois ou três. O Edinho fez o gol e o Fluminense em vez de recuar para garantir o resultado partiu para cima do Vasco como um leão faminto de mais gols.

E vocês viram: nosso adversário não pode esboçar a menor reação.

Gostaria de falar dos campeões. O Fluminense tem um elenco fabuloso do goleiro ao ponta-esquerda, e só os lorpas e pascácios não veem que o futebol brasileiro está encarnado nos craques tricolores”.

A última crônica escrita por Nelson Rodrigues, com a ajuda de seu filho, foi publicada também em um livro, “O profeta tricolor”, contendo apenas crônicas sobre o seu Fluminense. A obra foi organizada por Nelson Rodrigues Filho e publicada pela Companhia das Letras em 2002.

Abaixo, uma breve crítica sobre o livro escrita por José Roberto Torero para o jornal Folha de S. Paulo, no dia 3 de agosto, revela a importância de Nelson Rodrigues para a literatura brasileira.

“Saiu um livro de Nelson Rodrigues, desta vez com crônicas sobre o Fluminense. Chama-se "O Profeta Tricolor".

E eu, caro leitor e caríssima leitora, vos pergunto: "Um livro de Nelson Rodrigues deve ser comentado nas páginas da Ilustrada ou nas de Esporte?". Pois eu vos respondo: "Nas da Ilustrada".

É que suas crônicas, mais do que considerações sobre o futebol, são exercícios de ficção. Para quem discorda, é só dar uma olhada no "Aurélio". Está lá: "Ficção: coisa imaginária, fantasia, invenção, criação". E é isso que são as crônicas.

Nelson Rodrigues usava os jogos de futebol como mote para suas criações literárias. Assim pariu personagens míticos como o Gravatinha, o Sobrenatural de Almeida e o Profeta. E, quando a realidade não o contentava, ele a reinventava. Foi desta forma que transformou Denilson em craque de seleção (não o atacante do Betis, mas um modesto zagueiro da década de 60), jogos feios em batalhas espartanas, times medianos em exércitos imbatíveis, o Fluminense no maior clube do Brasil, ou melhor, do mundo, ou melhor ainda, do universo.

São textos de um escritor e não de um analista. Ele não fala jamais de táticas ou esquemas. Seu tema são as paixões, as vitórias e derrotas pessoais, as tragédias, as sinas. Nelson Rodrigues mostrava algo além de como foi a partida. Mostrava sua estrutura épica, suas qualidades dramáticas. Para ele tudo era obra de um destino escrito "6.000 anos atrás" e sempre havia "lágrimas de esguicho", fossem de alegria ou tristeza. Como ele mesmo dizia: "Ai daquele que não consegue ser jamais ridículo". Não é à toa que é o nosso melhor cronista esportivo de todos os tempos.

Este livro, organizado por Nelson Rodrigues Filho, tem algumas diferenças em relação às coletâneas anteriores publicadas pela Companhia das Letras e organizadas por Ruy Castro. Sua seleção traz apenas, ou quase apenas, crônicas relativas ao Fluminense. Ou seja, aqui não estão as melhores crônicas de Nelson, mas as mais apaixonadas. Nestes textos ele usa ainda mais hipérboles, adjetivos e metáforas do que seu leitor está acostumado. Falando apenas de seu time ele é ainda mais exagerado, ainda mais barroco.

Porém, há alguns senões. A seleção de textos poderia ser mais severa e a divisão em temas ("torcida e dirigentes", "jogadores e técnicos", "títulos e personagens") acaba gerando uma leitura um tanto cansativa, pois crônicas sobre um mesmo assunto acabam ficando muito próximas. Além disso alguns pés de página com informações sobre as partidas e os campeonatos citados poderiam ser interessantes para que soubéssemos se Nelson Rodrigues errou ou não em suas previsões.

Ou talvez não. Vai ver é como ele mesmo diz: "Será que os imbecis não percebem o óbvio, isto é, que um estilista só tem deveres literários?".


2 comentários:

  1. Nelson Rodrigues. Eis aí uma leitura obrigatória e espetacular. Na crônica esportiva ele foi maravilhosamente bem, mas suas crônicas em "Memórias" parecem ser melhores, ou, por outra, no mesmo alto nível. A crônica sobre o nascimento de sua filha, por exemplo, é... bem, faltam-me palavras ou elogios. Simplesmente épico!

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  2. Ainda temos muito o que aprender sobre o Nelson Rodrigues.

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