terça-feira, 29 de maio de 2012

Saldanha: O João Sem Medo

Manga x Saldanha

Um fato inédito e que entrou para a história do futebol brasileiro: o dia em que João Saldanha, disparou tiros contra o goleiro Manga. Inédito e polêmico, porque durante décadas muitas versões foram dadas ao ocorrido naquele mês de dezembro de 1967, em um tradicional restaurante carioca. Tudo aconteceu após a conquista do título carioca de 1967 pelo Botafogo contra o Bangu. Manga, goleiro do Botafogo, fora acusado por Saldanha de ter se vendido ao bicheiro Castor de Andrade, presidente do Bangu.

Manga, goleiro do Botafogo.
Mesmo com a vitória por 2 a 1, Saldanha, técnico alvinegro achou “estranhas” algumas atitudes de seu próprio goleiro durante a partida e parecendo saber muito mais sobre o episódio decidiu, como sempre, colocar a “boca no trombone” aos microfones de rádios e tevê.

O que se viu a seguir é uma história incrível digna de um filme policial.

Testemunha ocular do fato, Luiz Mendes, um dos maiores jornalistas esportivos do país e que, infelizmente, nos deixou recentemente, registrou o sururu entre Saldanha e Manga.


Dois tiros no escuro
Por Luiz Mendes

A final entre Botafogo e Bangu, em 1967.
“Um dia, João Saldanha desconfiou do goleiro Manga. O Botafogo ganhou a decisão com o Bangu, foi campeão, mas duas bolas vadias andaram por entrar. Nilton Santos salvou uma e a outra chocou-se com o poste. João disse ao microfone, quando fez seu comentário, que a atuação de Manga havia sido muito estranha. Depois do jogo, retornando comigo do Maracanã, João ouviu, no rádio do carro, o Manga concedendo entrevista ao repórter Luiz Fernando, que era, então, da Continental. “João Saldanha afirmou que sua atuação foi muito estranha” – disse o repórter. E o goleiro, prontamente, respondeu: “Ele que diga isso na minha cara, amanhã, na festa do clube pelo título”. João Saldanha, de pronto, aceitou o desafio:

– Amanhã, sem falta, estarei lá.

João Saldanha, o "João Sem Medo".
Tentei demovê-lo, mas ele não concordou.

– Estarei lá e pronto.

– Então eu vou com você, não vou deixar você fazer loucura – disse-lhe.

João olhou e me avisou:

– Tudo bem, mas não fique por perto, porque minhas brigas não se de arranhão, são de talho...

Dia seguinte, eu no meu Karmanghia, ele no seu Fusca, fomos ao Mourisco. João, conselheiro do clube, estacionou o carro n o pátio interno. Eu deixei o meu no estacionamento da churrascaria, do lado de fora.

Instalações do antigo restaurante Mourisco, no RJ.
O Mourisco era o local da comemoração do título de 67, alcançado com a vitória de 2 x 1 sobre o Bangu, no dia anterior (17/12/1967).

Estavam presentes: os jogadores campeões, os dirigentes do Botafogo, tendo à frente o Dr. Nei Cidade Palmeiro, presidente do clube, o presidente eleito, mas ainda não empossado, Altemar Dutra de Castilho, jornalistas, torcedores etc. Era uma festa botafoguense. A certa altura das conversas de um grupo de jornalistas onde eu e João estávamos, o radialista Sérgio Moraes apontou o Mangua que, um pouco afastado, olhava na nossa direção. João se desgarrou de nós e chamou o goleiro.

– Venha cá, seu moleque! – disse bem alto, e Manga veio em sua direção em passos lentos. Vi João Saldanha sacar um objeto de metal prateado e apontá-lo na direção de Manga. De imediato, pelo lado direito de Saldanha, saltei para empurrar a mão que empunhava a arma, para baixo. E Bebeto de Freitas, sobrinho de João, fez o mesmo, mas pela frente. João acionou o gatilho e o tiro foi se cravar no chão, perigosamente, entre os pés de Bebeto, então craque do voleibol.

Bebeto de Freitas,
sobrinho de Saldanha.
Manga correu em fuga. João se desvencilhou de nós e saiu atrás dele. E deu mais um tiro na sua direção. Manga pulou o muro que cercava o hoje demolido Mourisco.

Imediatamente se estabeleceu a confusão. A polícia foi chamada. João Saldanha, então, aproximou-se de Altemar Dutra de Castilho, entregou-lhe a arma e dirigiu-se a seu carro para ir embora antes da chegada da polícia. Mas o carro estava preso no estacionamento congestionado do Mourisco. Imediatamente convidei João para sair comigo. Saímos dos limites da Sede, pegamos o meu carro no estacionamento fronteiro e nos mandamos para Copacabana. João fez questão que eu o levasse diretamente à televisão onde faria o programa “Dois Minutos com João Saldanha”. Quando chegou, é claro, a polícia não encontrou mais nem a presumível vítima, nem o autor da suposta tentativa de homicídio...Digo suposta, porque nunca descobri se João teve ou não a intenção de atingir o alvo. Penso que ele só quis assustar o grande goleiro...E assustou”. [fonte: “7 mil horas de futebol” (Freitas Bastos Editora, 1998)]

A equipe da Resenha Facit
E como assustou. Segundo Sandro Moreyra, jornalista com sacadas incríveis e irônico como sempre, garantiu que Manga, naquela noite, batera o recorde mundial do salto em altura, pois o muro do Mourisco era muito alto, quase três metros de altura.


Luiz Mendes só não contou em sua versão da história que antes do episódio dos tiros em Manga houve um outro entrevero, dessa vez, envolvendo Saldanha e o bicheiro, presidente do Bangu, Castor de Andrade. Após o jogo decisivo entre Bangu e Botafogo que gerou toda a polêmica, Saldanha, à noite, na famosa Resenha Facit, que contava com o próprio João Saldanha, Luiz Mendes, José Maria Scassa, Vitorino Vieira, Armando Nogueira, Nélson Rodrigues e Hans Henningsen (“o marinheiro sueco”), voltou a atacar o goleiro Manga e dizer em alto e bom som e de forma muito clara, como era de seu feitio, que o bicheiro Castor de Andrade havia subornado o goleiro botafoguense.

Castor de Andrade, bicheiro
e ex-presidente do Bangu.
Foi uma confusão tremenda. Em poucos minutos, o bicheiro Castor invadiu o estúdio do programa, protegido por seguranças. Foi um sururu com Saldanha e Castor fazendo xingamentos um ao outro. O programa, evidentemente, teve de ser interrompido.

Pensava-se que, por conta dessa atitude truculenta do bicheiro Castor de Andrade, Saldanha fosse “refugar” do encontro no restaurante Mourisco, conforme Luiz Mendes descreveu em sua crônica, mas para quem conhecia João um pouco de perto sabia que ele não deixaria de enfrentar seus desafetos. 

O que de fato aconteceu, quem conta é o próprio João Saldanha, em entrevista ao programa Roda Viva de 1987.


                                                Programa Roda Viva, em 1987.

Sobre Luiz Mendes:
Nasceu em 09 de junho de 1924, em Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul. Começou a trabalhar numa estação de alto-falantes, em sua própria cidade. Gostava também de futebol, e jogava no time juvenil. Foi para a capital, Porto Alegre, e fez teste na Rádio Farroupilha. Passou e foi contratado como locutor. Chegou ao Rio de Janeiro com 19 anos,  já na  locução esportiva.  Ingressou na Rádio Globo em 1944.  Embora contratado como locutor comercial, Luiz Mendes logo passou para o esporte da Rádio Globo, pois Gagliano Neto, o titular, faltou a uma transmissão e Luiz Mendes o substituiu. No dia seguinte foi chamado pelo presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, que o convidou para ser locutor esportivo da emissora. Em 1946, um concurso com o público carioca, elegeu-o como “o melhor locutor esportivo da cidade”. Foi para a TV Rio e, por 15 anos dedicou-se exclusivamente à TV. Fez também os programas: “TV Ringue” e “A Grande Revista Esportiva Facit”.  Participou da primeira transmissão a cores, no Rio de Janeiro, em 19 de fevereiro de 1972. Cobriu 13 Copas do Mundo. Foi também comentarista na Rádio Globo conquistando muitos prêmios ao longo da carreira, entre eles uma placa comemorativa, da Rádio Globo, recebida das mãos do próprio Roberto Marinho. Luiz Mendes era chamado de “o comentarista da palavra fácil”. Morreu no dia 27 de outubro de 2011.

Um comentário:

  1. o jornalismo, perdeu um grande profissional, foi uma pena.

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