quarta-feira, 23 de maio de 2012

Rubem Alves: "O futebol é o circo do mundo".

Rubem Alves

Como pode um autor não ser tão ligado nas coisas do mundo da bola, como muitos dos leitores desse espaço, e provocar tantas reflexões em torno desse tema que fascina milhões de pessoas deste planeta?

Seu nome é Rubem Alves, um dos intelectuais mais famosos e respeitados do Brasil e que nos deixou em 2014 aos 80 anos. Em todas as áreas que já transitou como psicanalista, educador, teólogo, cronista do cotidiano, acadêmico, ensaísta e, claro, como escritor, fica fácil entender e se encantar com tudo que escreve. Seus textos trazem a essência do que o Literatura na Arquibancada se propôs a fazer desde o seu surgimento: a reflexão.

Rubem Alves tem livros publicados sobre diversos temas como religião, teologia, filosofia da ciência e da educação, crônicas de meditação, poesia, literatura infanto-juvenil...

E, acreditem, mesmo não sendo aficcionado pelo futebol escreveu uma obra-prima chamada “O futebol levado a riso: lições do bobo da corte” (Verus Editora, 2006).

O livro, pequeno, com apenas 69 páginas, pode ser lido no tempo de uma partida de futebol, 90 minutos. 

De forma bem-humorada, as crônicas escritas por Rubem Alves falam sobre o mundo do futebol, esse mundo que dá alegria e sentido à vida de gente espalhada por todo o planeta.

Como o próprio título da obra diz, Rubem Alves afirma que o futebol não pode ser levado tão a sério porque, caso contrário, pode provocar o fanatismo, levando o riso embora e, pior, transformando-o em raiva e violência.

Para Rubem Alves, na visão de psicanalista que é, os torcedores de futebol são “seres apaixonados”, que brigam, matam e morrem do coração. 

Segundo o psicanalista, torcedores são seres apaixonados. 

Por essa paixão eles brigam, choram, matam e até morrem do coração.

De suas experiências profissionais nas diversas áreas que atuou o pedagogo Rubem Alves nos faz ver algo que dificilmente enxergamos no futebol: nossa falta de capacidade de transferir o entusiasmo do esporte para as coisas importantes do dia a dia. Para ele “uma partida de futebol é também um evento religioso” e argumenta “que nunca viu visita de papa ou milagre de santo que provocasse tanto entusiasmo”.

Rubem Alves consegue com sua prosa reflexiva sobre diversos temas do cotidiano nos mostrar como o futebol, uma paixão universal, consegue ultrapassar línguas, ideologias e crenças.
Literatura na Arquibancada recomenda uma visita ao seu site chamado de “A casa de Rubem Alves” (www.rubemalves.com.br), um espaço de pura reflexão com textos maravilhosos. Abaixo, duas crônicas deliciosas, inteligentes, que provocam a essência que a literatura deve trazer: a reflexão.  

Sobre o futebol e o estupro
Por Rubem Alves

Já contei do meu primo Nilo, aquele que morreu por causa de seu amor ao Botafogo: bebia para comemorar quando Botafogo ganhava, bebia para apagar a tristeza quando o Botafogo perdia. Mas, de repente, me veio uma situação para a qual não encontrei resposta: "E quando o Botafogo empatava, o que é que o Nilo fazia?".

Depois de muito meditar conclui que, quando o Botafogo empatava, o Nilo bebia dobrado, porque não existe coisa mais chata que jogo que termina empatado. Jogo empatado é feito transa não consumada, os dois na cama, uma coisa emocionante tem de acontecer, os dois se esfregam, o tempo todo, pelejando para ver se pinta alguma emoção, mas tudo é inútil pedindo desculpas ao outro, sem saber o que dizer e fazer. O jeito é beber...

A partida terminou empatada. Os dois times broxaram. Não adianta dizer que o espetáculo coreográfico foi maravilhoso, que os times exibiram técnica de rara beleza. Ninguém vai ao futebol para ver beleza. Beleza em futebol só é bonita quando o time da gente ganha. Futebol não é concerto. É pra sofrer e fazer sofrer: um espetáculo depravado, perverso, onde o orgasmo acontece sobre o sado-masoquismo. Ninguém assiste a um jogo de futebol pôr razões estéticas. O tesão do futebol se encontra, precisamente, na possibilidade de fazer o outro sofrer.

Pois o que é um gol? Um gol é um estupro. O prazer do gol é o prazer de ter estuprado o adversário, de ter metido a bola da gente no buraco dele contra a vontade dele. Uma partida de futebol é uma tentativa de estupro estilizada. Vai um time levando a bola, a bola tem de estar bem cheia, dura, vai o jogador ludibriando as tentativas de defesa, passando a bola no meio das pernas, o outro time faz tudo para evitar, fecha os buracos, todos lutando, não querem que a bola entre no lugar mais sagrado do seu time, aquele buraco guardado pelo goleiro, vem o chute potente, a bola vai, o goleiro se estira, inutilmente, a bola entra. Gol! O estupro aconteceu.

A torcida grita de prazer. É o orgasmo. E geme a torcida do estuprado: qualquer penetração violenta dói muito. Mas o prazer do estuprador está precisamente nisso: é o sofrimento do outro que lhe dá uma medida da sua potência. Nada mais broxante para o estuprador que encontrar uma vítima que não ofereça resistência, que se abra toda e até goste. A tentativa de estupro terminaria na hora. O estuprador ficaria broxa. O mesmo com o futebol. É a resistência ao estupro que dá ao estuprador a medida de sua macheza. Cada prazer de gol é prazer de um estupro bem sucedido.

Fonte: (Correio Popular, Campinas, 18/06/1998).

Sobre vacas, porcos e bolas…
Por Rubem Alves


Eu havia acabado de me mudar de Minas para o Rio de Janeiro, no ano de 1945. Caipira, desconhecia as regras de sociabilidade da capital. Foi então que um colega do curso de admissão chegou-se a mim sorrindo e, num gesto de amizade, me disse: “Eu sou Flu. E você?”
Fiquei abobalhado. Ele era “Flu”. “Flu” deveria ser uma coisa muito importante, ao ponto de ele me confessar ser “Flu”. Mas eu não sabia o que era “Flu”. Diante do meu silêncio ele se dirigiu a um outro colega e lhe disse a mesma coisa. “Eu sou Flu”, ele repetiu. “Eu sou Mengo”, o outro respondeu. Iniciavam-se assim as relações sociais, não com a troca de cartões de visita, mas trocando nomes de times. Eu não tinha nome a dizer. Portanto não existia…

Contaram-me de um palmeirense roxo que odiava o Corinthians. Já velho, na cama, aguardava o apito do Grande Juiz que o expulsaria de campo. Chamou o filho e com voz trêmula lhe disse: “Estou morrendo. Quero que você faça a minha última vontade. Vá lá no Corinthians e inscreva-me como torcedor”.

O filho achou que o velho já estava tendo alucinações. Argumentou. Mas o pai foi irredutível. O filho fez, então, a vontade do pai. Voltou com a carteirinha de torcedor do Corinthians. O velho, vendo o seu rosto na carteirinha, sorriu um sorriso angelical e disse: “Oh, a suprema alegria de ver mais um corintiano morrer…” Ditas essas palavras, entregou a alma.

Sou indiferente ao futebol, exceto quando o Brasil está jogando. Essa indiferença tem sido a causa de muitos embaraços, e cheguei mesmo a levar esse problema à minha psicanalista.
“Por que é que todo mundo se entusiasma com futebol e eu não me entusiasmo?” Ela me sugeriu que deveria haver algum trauma infantil não resolvido no início dessa perturbação. Sugeriu-me entregar-me às associações livres da mesma forma como os urubus se deixam levar pelo vento. Voei. E eis que, de repente, uma cena esquecida me apareceu.

Era um campo de futebol de roça, um pastinho. Dois times estavam jogando. Meu irmão me levara até aquele lugar. Eu nada entendia do que estava acontecendo, com todos aqueles homens em calções correndo para chutar uma bola. Tudo ocorria sem maiores percalços quando, de repente, veio pela estrada de terra um cavaleiro conduzindo uma vaca.
A vaca, vendo aquele alvoroço, a bola que era chutada para lá e chutada para cá, resolveu entrar no jogo. Arremeteu contra a bola, de cabeça abaixada como os touros na arena.
Os jogadores e o juiz fugiram espavoridos. Muitos subiram em árvores. Eu, menino pequeno, não conseguiria subir numa. Meu irmão, para me salvar, arrastou-me para um chiqueiro cheio de porcos e colocou-me lá dentro.

A vaca, não contente em chifrar a bola, dispunha-se a chifrar tudo o que se movesse. Mas eu, dentro do chiqueiro, nada via, a não ser aqueles porcos peludos que grunhiam grunhidos que davam medo.

Minha analista, comovida com o meu relato, concluiu que minha indiferença ao futebol se devia a essa experiência em que o jogo aparece ligado a uma vaca desembestada e a porcos mal cheirosos.

Concordei. Minha primeira experiência com o futebol foi traumática: mistura de bola, vaca e porcos. E está certo: não é raro que uma partida termine em tourada e que seja manifestação de espírito de porco…

Fonte: Caderno Cotidiano do jornal Folha de S. Paulo.

Sobre Rubem Alves:

Nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais, naquele tempo chamada de Dores da Boa Esperança. A cidade é conhecida pela serra imortalizada por Lamartine Babo e Francisco Alves na música "Serra da Boa Esperança".
A família mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1945, onde, apesar de matriculado em bom colégio, sofria com a chacota de seus colegas que não perdoavam seu sotaque mineiro. Buscou refúgio na religião, pois vivia solitário, sem amigos. Teve aulas de piano, mas não teve o mesmo desempenho de seu conterrâneo, Nelson Freire. Foi bem sucedido no estudo de teologia e iniciou sua carreira dentro de sua igreja como pastor em cidade do interior de Minas. 
No período de 1953 a 1957 estudou Teologia no Seminário Presbiteriano  de Campinas (SP), tendo se transferido para Lavras (MG), em 1958, onde exerce as funções de pastor naquela comunidade até 1963.
Casou-se em 1959 e teve três filhos: Sérgio (1959), Marcos (1962) e Raquel (1975). Foi ela sua musa inspiradora na feitura de contos infantis.
Em 1963 foi estudar em Nova York, retornando ao Brasil no mês de maio de 1964 com o título de Mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary. Denunciado pelas autoridades da Igreja Presbiteriana como subversivo, em 1968, foi perseguido pelo regime militar. Abandonou a igreja presbiteriana e retornou com a família para os Estados Unidos, fugindo das ameaças que recebia. Lá, torna-se Doutor em Filosofia (Ph.D.) pelo Princeton Theological Seminary.
Sua tese de doutoramento em teologia, “A Theology of Human Hope”, publicada em 1969 pela editora católica Corpus Books é, no seu entendimento, “um dos primeiros brotos daquilo que posteriormente recebeu o nome de Teoria da Libertação”.

De volta ao Brasil, por indicação do professor Paul Singer, conhecido economista, é contratado para dar aulas de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro (SP).
Em 1971, foi professor-visitante no Union Theological Seminary.
Em 1973, transferiu-se para a Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, como professor-adjunto na Faculdade de Educação.
No ano seguinte, 1974, ocupa o cargo de professor-titular de Filosofia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), na UNICAMP.
É nomeado professor-titular na Faculdade de Educação da UNICAMP e, em 1979, professor livre-docente no IFCH daquela universidade. Convidado pela "Nobel Fundation", profere conferência intitulada "The Quest for Peace".
Na Universidade Estadual de Campinas foi eleito representante dos professores titulares junto ao Conselho Universitário, no período de 1980 a 1985, Diretor da Assessoria de Relações Internacionais de 1985 a 1988 e Diretor da Assessoria Especial para Assuntos de Ensino de 1983 a 1985.

No início da década de 80 torna-se psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise.
Em 1988, foi professor-visitante na Universidade de Birmingham, Inglaterra. Posteriormente, a convite da "Rockefeller Fundation" fez "residência" no "Bellagio Study Center", Itália.
Na literatura e a poesia encontrou a alegria que o manteve vivo nas horas más por que passou. Admirador de Adélia Prado, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Octávio Paz, Saramago, Nietzsche, T. S. Eliot, Camus, Santo Agostinho, Borges e Fernando Pessoa, entre outros, tornou-se autor de inúmeros livros, é colaborador em diversos jornais e revistas com crônicas de grande sucesso, em especial entre os vestibulandos. 
Afirma que é “psicanalista, embora heterodoxo”, pois nela reside o fato de que acredita que no mais profundo do inconsciente mora a beleza. 
Após se aposentar tornou-se proprietário de um restaurante na cidade de Campinas, onde deu vazão a seu amor pela cozinha. No local eram também ministrados cursos sobre cinema, pintura e literatura, além de contar com um ótimo trio com música ao vivo, sempre contando com “canjas” de alunos da Faculdade de Música da UNICAMP.
O autor é membro da Academia Campinense de Letras, professor-emérito da Unicamp e cidadão-honorário de Campinas, onde recebeu a medalha Carlos Gomes de contribuição à cultura.

3 comentários:

  1. Foi-se o corpo,
    Ficou a obra, felizmente!
    Perda imensurável.
    É da vida, infelizmente.
    Beijão Andre.

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    1. Vai deixar saudades!
      "Aquilo que o coração ama fica eterno."
      Esteja em paz, Mestre!

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  2. Adeus Grande Mestre, a Deus.

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