quinta-feira, 31 de maio de 2012

Quarentinha: "O artilheiro que não sorria"


Que o futebol brasileiro é rico na formação de craques, isso qualquer meio entendedor sobre o tema sabe. O que a grande maioria não sabe é identificar aqueles que realmente mereceriam entrar para a história do futebol brasileiro. Alguém que, por exemplo, merecesse virar um livro. Muitos mereceriam, mas, infelizmente, a literatura esportiva brasileira ainda tem muito a resgatar. Ou felizmente, porque a quantidade de jogadores históricos que deveriam ter suas vidas resgatadas é enorme, portanto, um mercado que pode e deve continuar a crescer.

Biografia é um tema que a grande maioria dos leitores, de livros esportivos ou não, adora. Normalmente, o personagem deve ser alguém “famoso”, “importante”, um nome que de “bate-pronto” identifiquemos e nos leve a ler e conhecer sua vida em detalhes. No universo do futebol, esse “alguém” deve ter sido, no mínimo, polêmico, dono de conquistas mirabolantes, históricas...


Mas quando este personagem tem um apelido estranho ou curioso como “Quarentinha”? E ainda sendo ele um craque que pouco falava, introvertido, diferente de quase tudo que estamos acostumados a ver nos “grandes ídolos”?

Como a “orelha” do livro escrito pelo talentoso jornalista e escritor Rafael Casé, “O artilheiro que não sorria” (Livrosdefutebol.com, 2008) diz: “Se você está lendo estas linhas é porque ficou curioso para saber quem é Quarentinha”. E prossegue na argumentação: “Se gosta de futebol, talvez já tenha ouvido falar nele. Se tem 60 anos ou mais, provavelmente o viu atuar. Quarentinha era um craque. Um goleador. O maior da história do Botafogo. E como se não bastasse, possuía um canhão nas duas pernas, para desespero dos goleiros de sua época.


Fez parte do melhor time alvinegro de todos os tempos. Atuava ao lado de Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo e Zagallo. E aqui, aquele velho ditado se encaixa como uma luva: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Era dono de uma timidez sem par e de uma frieza glacial. Não comemorava seus gols, por mais belos e decisivos que fossem. Considerava-se um operário da bola, sendo os gols sua obrigação. E aí você se pergunta: por que comprar um livro sobre um jogador que nem sei ao certo quem é?

Porque nestas páginas você vai conhecer através da trajetória deste paraense que brilhou mundo afora com a bola nos pés, a história de tantos outros jogadores que viveram um período romântico do futebol brasileiro. Casos engraçados e curiosos, que acabaram virando folclore, numa época em que o amor à camisa era levado a sério. Uma época de verdadeiros ídolos. Uma época que não volta mais”.

Didi, Zagallo, Paulo Valentim e Quarentinha.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo alguns fragmentos da biografia de Quarentinha que revelam a incrível trajetória deste craque do futebol brasileiro. Um jogador que inspirou nada menos do que um dos maiores escritores brasileiros, João Ubaldo Ribeiro. Isso mesmo, João Ubaldo que pouco fala sobre sua paixão pelo futebol tinha em Quarentinha um de seus maiores ídolos. E no ocaso de vida, Quarentinha, como tantos outros craques do futebol brasileiro, teve a história triste de sempre...Vale a pena conferir...

Bate-bola 
(orelha de "O artilheiro que não sorria")


Entre a batida seca na bola e o estufar das redes, poucos segundos. Tempo suficiente, apenas, para o torcedor se preparar para festejar mais um gol de Quarentinha. Afinal, quando o pé esquerdo do maior artilheiro da história do Botafogo pegava de jeito na bola, o desfecho do lance era inevitável: trabalho, na certa, para o garoto do placar. Waldir Lebrego, um paraense que acabou vindo parar no Rio de Janeiro, empurrado por sua potente canhota, integrou um dos mais talentosos elencos da história do futebol. Ao lado (e ao lado, aqui, quer dizer tão competente quanto) de mestres como Didi, Nilton Santos e Garrincha, colocou o Botafogo entre os maiores clubes do mundo. Foram 313 gols em menos de 450 partidas com o manto alvinegro. Na Seleção, uma média de quase um gol por jogo. Números tão impressionantes quanto relevantes. Entre os torcedores que o viram jogar, não há quem não se lembre de sua principal característica, a fria reação após os gols que marcava, por mais decisivos que fossem. Mas, a desculpa que o próprio atacante usava, de que não fazia mais do que sua obrigação, pois ganhava para isso, não passava de uma forma de mascarar seu jeito tímido de ser.


Tal característica fez, até mesmo, com que fosse comparado a um daqueles mocinhos que duelam em filmes de western. Ao invés da rua principal de uma pequena cidade do Velho Oeste, o gramado. No lugar da pistola, a perna esquerda. Em comum, a imperturbável certeza de seu destino: usar sua arma para acabar com os rivais. Por sua importância para o futebol brasileiro, não podíamos correr o risco de que os fatos que ajudaram a compor a carreira de Quarentinha se perdessem na inexorável marcha do ponteiro (como diriam os velhos speakers, aboletados nas cabines do, outrora, “Maior do Mundo”).

As torcidas alvinegra e brasileira merecem conhecer melhor este jogador que só não obteve um reconhecimento ainda maior por não ter tido a felicidade de participar dos dois primeiros títulos mundiais da nossa Seleção. Mesmo assim, Quarentinha conseguiu um grande mérito, o de saber agradar em cheio aos admiradores do bom e velho esporte bretão fazendo gols, muitos gols...

Prefácio
Por João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro

O conteúdo deste prefácio, na verdade, surgiu de um pedido de entrevista a João Ubaldo Ribeiro. Mas o depoimento gravado, enviado por ele, foi muito além. Mostrou o nosso artilheiro sob a visão de uma criança e o surgimento de uma grande admiração. Motivos de sobra para que este texto abrisse, com chave de ouro, este livro, com as bênçãos de nosso Imortal.

“Eu nasci na ilha de Itaparica, na Bahia, mas fui levado, ainda bebê, pra Sergipe, onde fui criado a maior parte do tempo, passando eventuais temporadas na Bahia. Então, até os dez, onze anos de idade, mais ou menos, eu era sergipano. Eu torcia pelo Confiança, nos tempos em que o futebol sergipano ainda era amador. Quando a família se mudou de volta para a Bahia, eu nem tinha time por lá, porque, na verdade, eu me considerava sergipano. Levei tempo para aceitar a minha condição de baiano. Eu morava na mesma rua da Associação Atlética da Bahia, que nem sei se ainda existe. Era um clube de classe média. E era no campo de futebol de lá que o Vitória treinava. O time, naquela época, era muito vinculado à Barra, ao bairro da Barra, onde se encontrava esse clube. Tanto assim que o apelido dos jogadores do Vitória era ‘Leões da Barra’. Como eu sempre gostei de futebol, embora ruim de bola, ia lá assistir aos treinos.


Mas eu não era Vitória ainda, até que um dia vi o Quarentinha dar um chute do meio de campo, aparentemente sem fazer grande esforço, e acertar o travessão, que ficou balançando.
A bola tirou uma lasca deste tamanho da trave, que naquela época era de madeira e quadrada, diferente das de hoje, que são redondas e de metal. É bem verdade que as traves da Associação Atlética eram velhas, com a madeira já meio apodrecida. Mesmo assim eu, que estava na quadra de basquete ao lado do campo, fiquei impressionadíssimo com aquilo. E dei pra seguir Quarentinha assim, até porque ele era famoso. Um dia eu estava passando perto de Quarentinha, na beira do campo; ele aí me olhou e esticou a bola pra mim e disse: ‘Chuta aí, campeão’. Eu pensei, e realmente é de ruborizar, que ele tinha me visto jogar em algum lugar e que me achava mesmo um campeão. Fiquei num estado que mal pude retornar o passe dele, porque a perna não obedecia.


Desse dia em diante eu virei Vitória até morrer. Uma coisa que não podia deixar de ser. Até porque o Vitória facilitava. Foi campeão em 1953, com um time que eu lembro até hoje. Eu acho que era: Nadinho, Valvir e Alírio; Turunga, Gago e Joel; Pombinho, Alencar, Juvenal, Quarentinha e Ciro. Se não era isso, era parecido. Eu vi esse time ser campeão. (Memória de torcedor não falha. A escalação era exatamente essa)

Eu achava que era amigo de Quarentinha. Ele me cumprimentava na rua. E eu me gabava, no colégio, dessa amizade. Enfim, pra mim ele nunca foi um jogador. Pra mim ele sempre foi uma criatura muito especial, acima dos outros. Eu fui muito fã de Ademir [atacante do Vasco], mas Quarentinha sempre teve um lugar muito especial no meu coração de torcedor.”

A última volta do ponteiro
(primeiro capítulo de "O artilheiro que não sorria")


O telefone de Jorge Lebrego toca. A má notícia vem em tom dramático, como todas as más notícias. Do outro lado da linha, aflita, estava Maria, companheira de seu pai. Quarentinha havia passado mal e ela não sabia o que fazer. O trajeto até a casa do pai, na Baixada Fluminense, foi tenso. Não dava para saber o que realmente havia acontecido. Quarentinha sofria de hipertensão. Ao chegar à casa em que o ex-atacante estava vivendo, na Vila Norma, em São João de Meriti, Jorge, segundo filho de Quarentinha, mesmo sem ser médico, constatou que o pai havia sofrido um derrame. Porém, o ex-jogador estava lúcido, e chegou mesmo a dizer:
– Pensei que você não chegaria nunca.
Quarentinha estava com o lado esquerdo todo paralisado.
– Minha irmã chegou logo a seguir. Tivemos muita dificuldade para colocá-lo dentro do carro, porque uma das pernas não obedecia. De lá, seguimos direto para o hospital do Fundão. Só que entre chegar a um hospital público e conseguir ser atendido vai uma grande diferença.

Quarentinha e João Saldanha.

Foram precisos alguns telefonemas. Uma rede de amigos se mobilizou para garantir o atendimento. Mesmo assim, os problemas estavam longe de terminar. Para Myrthes, a filha mais velha, a demora no atendimento pode ter agravado o estado de saúde do pai.
– Lá no hospital ele ficou um bom tempo até ser atendido. Brigamos para poder entrar com ele na emergência. De repente surgiu um médico colombiano, que não prestou a menor assistência.

Comecei a falar, em espanhol, com ele. Foi no tom de bronca mesmo. Lembrei que ele nem podia estar clinicando sem o acompanhamento de um médico brasileiro. Uma médica veio saber o que era aquela confusão toda e só então conseguimos interná-lo. Quarentinha foi transferido para o setor de repouso masculino da emergência, onde realizou uma tomografia computadorizada que confirmou os sinais de avc [acidente vascular cerebral] isquêmico na região do lobo frontal direito do cérebro. O exame clínico demonstrava paralisia facial, além de diminuição da força muscular no braço e na perna do lado esquerdo. Exames cardiológicos também evidenciaram sinais de insuficiência cardíaca avançada. Um dos médicos residentes que prestou atendimento a Quarentinha foi o doutor Humberto Cottas.


– Estava participando da rotina clínica no setor da Emergência. Dirigi-me à unidade de repouso masculino para assistir um paciente recém-chegado, um senhor de 62 anos, cor parda, de nome Waldir Cardoso Lebrego. Confesso que, inicialmente, nem imaginei que se tratava do famoso craque, apesar de ser, eu, um botafoguense apaixonado. Após ler a ficha clínica e realizar a anamnese inicial [entrevista com o paciente] e o exame físico, pude constatar que se tratava de um caso de avc. O paciente estava acordado, porém com uma certa confusão mental, falando com dificuldade. Alguém chegou a me falar que se tratava de um ex-jogador de futebol. Lembro que cheguei a ter a impressão de que teria a ver com o Botafogo, provavelmente sugestionado por fotos do passado. Ao examinar suas pernas, verifiquei inúmeras marcas e pequenas cicatrizes em ambas as canelas e imaginei quantas entradas duras aquele senhor já deveria ter enfrentado em sua carreira.

O jovem médico só foi, mesmo, descobrir quem era aquele velho jogador ao ter contato com a família.
– Quando soube que era o Quarentinha, fui tomado por grande comoção e imaginei que naquele momento o maior goleador da história do meu time estava sob meus cuidados.


Após a estabilização de seu quadro de saúde, Quarentinha foi liberado da emergência e transferido para a enfermaria da clínica médica. Mesmo assim, Humberto continuou a acompanhá-lo.
– Passei a visitá-lo na enfermaria, porém não mais como médico, e sim, como fã. Conversava com ele, para tentar fazer com que refizesse alguma imagem dos jogos e momentos históricos de meu imaginário. Ele estava dislálico [dificuldade em articular as palavras; seqüela do derrame], porém conseguia contar algumas passagens.  Perguntei pela final de 62 (3 a 0 no Flamengo, com dois gols do Mané). Seus olhos ficaram marejados, o olhar dirigiu-se para o horizonte e contou-me: “Aquela foi uma tarde ensolarada, quente e jogamos de camisa alvinegra com manga comprida [acho que tentou explicar o motivo da manga comprida em pleno verão, porém não entendi suas palavras]. Deu tudo certo”. E ainda completou: “Aquele time tinha o Garrincha, que ia levando todo mundo pela direita. Éramos canhotos e ficava fácil”.


Traduzi essa frase da seguinte forma: Didi lançava pra Garrincha, que ia driblando pela ponta e deveria atrair a marcação de dois, três ou mais marcadores adversários; como sempre, chegava à linha de fundo para cruzar com precisão e lá estavam os canhotos (Quarentinha, Amarildo e Zagallo), todos exímios definidores, quase sem marcação oponente após o estrago do Mané.

As lembranças, e a emoção que as envolvia, eram a maior prova de que, mesmo mais de 25 anos depois de ter abandonado os gramados, o coração do velho artilheiro, embora bastante enfraquecido, ainda batia no ritmo do futebol. E não poderia ser diferente para um homem que teve a história de vida que teve.

Uma história que começou muito tempo atrás.

Sobre Rafael Casé:

Apesar de trabalhar há 20 anos com TV, a alma e o coração de Rafael Casé são e sempre foram em preto e branco. Marido de Fernanda e pai de Clara, que também possui genes alvinegros, é jornalista e relações públicas, formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E é na própria Uerj que dá aulas de Jornalismo. Também é editor-executivo do programa “Observatório da Imprensa”, da TV Brasil. Já escreveu outros três livros: “Programa Casé – O rádio começou aqui”; “De Homem pra Homem – Manual de Sobrevivência para Solteiros e Descasados na Cozinha” e “100 Anos Gloriosos – Almanaque do Centenário do Botafogo”, este, em parceria com o também jornalista Roberto Falcão.

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