quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Prezado Amigo Afonsinho


Ele completou 65 anos de vida em setembro de 2012 e não poderia ter recebido um presente tão justo como aquele. Afonso Celso Garcia Reis, o popular Afonsinho, foi convidado por uma das revistas mais respeitadas do país, a Carta Capital, para substituir Dr. Sócrates na coluna “Pênalti”. O primeiro artigo assinado por Afonsinho saiu na sexta-feira (dia 04/05) e certamente terá vida longa neste espaço. Curiosamente, ambos, ele e Sócrates, cursaram medicina, eram polêmicos, inteligentes, engajados e bons de bola. “Magrão” deve estar feliz com o reserva que o substituiu.


Afonsinho marcou época no futebol, dentro e fora dos gramados. Dentro dos campos era dono de um estilo de jogo refinado com toque de bola impecável. Começou a jogar futebol, no interior paulista, na cidade de Jaú, onde viveu boa parte da infância, mas brilhou em grandes clubes como Botafogo, Vasco, Santos, Flamengo, América Mineiro e Fluminense, onde encerrou a carreira em 1982. Jogou em dois clubes considerados “pequenos”, o XV de Jaú e o Olaria, este último, onde segundo o próprio Afonsinho “renasceu para o futebol”. Você, leitor, entenderá a razão logo abaixo.


Afonsinho tornou-se mundialmente conhecido pela luta contra duas ditaduras, a real, dos militares; e a que escravizava os jogadores de futebol de sua época, o passe. Afonsinho tornou-se o primeiro jogador da história do futebol brasileiro a conquistar o “passe livre”. E tudo por conta de um episódio ocorrido no Botafogo. Afonsinho, mesmo muito jovem, já havia liderado seus companheiros de equipe contra os dirigentes do clube por pagamentos de prêmios atrasados, mas acabou entrando para a história pouco tempo depois a esse episódio quando foi barrado pelos mesmos dirigentes e pelo técnico Zagallo por usar barba e cabelo comprido, um visual “subversivo” para a época, segundo eles. Ganhou na justiça seus direitos e muito mais do que isso, abriu caminho para que outros jogadores também lutassem pelos seus direitos trabalhistas.

                                         "Passe Livre", documentário inspirado 
                                          em Afonsinho. Vale a pena conferir imagens
                                          raras do futebol na década de 1970.

Pela luta solitária, Afonsinho ganhou reconhecimento até de personalidades da música e do cinema brasileiros. Em 1974, o cineasta Osvaldo Caldeira produziu o documentário “Passe Livre”, inspirado em sua luta, e ainda teve uma música maravilhosa escrita por Gilberto Gil que se tornou imortalizada na voz de Elis Regina, “Prezado Amigo Afonsinho”. Afonsinho ganhou ainda uma frase antológica de nada menos do que o rei do futebol, Pelé, no filme “Passe Livre”: “Homem livre em futebol. Homem livre, eu só conheço um. O Afonsinho. Esse sim pode dizer, usando suas palavras, que deu o grito de “Independência ou morte”. Ninguém mais. O resto é conversa”.


As histórias que você lerá abaixo fazem parte de um livro que, infelizmente, só pode ser encontrado em sebos.

“Prezado Amigo Afonsinho” (Método Editora, 1998) de Kleber Mazziero de Souza tem depoimentos fantásticos que revelam o homem, o jogador e, principalmente, o cidadão Afonsinho. 

Com pequenos textos de apresentações em cada capítulo, Afonsinho fala de tudo um pouco: ditadura, artes, música, grandes craques, torcida, carnaval, dirigentes, medicina, amizade, política, filosofia, Deus, morte e vida.


Literatura na Arquibancada começa destacando o episódio que originou sua saída do Botafogo, a polêmica com o técnico Zagallo, a intransigência dos dirigentes por causa de seu visual e postura “subversivas”. 

Vale lembra aqui a observação que o autor faz antes de o depoimento de Afonsinho iniciar: 

“Caro leitor, acredite. A história que você lerá agora Afonsinho contou serena e mansamente. Sem franzir a testa de raiva uma vez sequer. Sem alterar a voz. Sem gesticular. Sem demonstrar nenhum sentimento adverso por qualquer uma das pessoas citadas. Enfim, ele contou a história “de cima”:



Botafogo de 1965.
Em pé: Mura, Zé Carlos, Afonsinho, Manga, Rildo e Dimas.
Agachados: Roberto, Gerson, Sicupira, Jairzinho e Artur.

“Quando fui definitivamente para o time principal do Botafogo, o Zagallo ainda não era o treinador. Eu era titular. Jogava junto com o Gérson. Quando o Zagallo assumiu, montou o time à feição dele. Armou o meio de campo com o Carlos Roberto e o Gérson. Deu certo. O Botafogo foi campeão e eu na reserva. Opção dele. Ele tem direito. Só que podiam me deixar ir embora. Isso durou de 1968 a 1970. Eu queria sair e não me deixavam. Quando o meu contrato acabou, tinha propostas do São Paulo, do Santos, e não me negociavam.

Em uma troca de diretoria, pediram para que eu desse um voto de confiança. Fiquei obrigado. Foi acontecendo um processo de desgaste. Boicotes, substituições, me colocava no jogo em hora errada, não me escalava para jogar, escalava na ponta esquerda. Teve um jogo entre Botafogo x Corinthians que foi uma vergonha. O time do Corinthians marcando em cima. Eu peguei a bola e voltei para o lateral. Ele não tinha para quem dar, devolveu para mim. Na terceira vez a torcida já vaiou. E eu sem ter nada com aquilo. Uma coisa que o treinador inventou, mas que para mim não deu certo.


Tentei resolver com cavalheirismo, dizendo que jogando ali eu não rendia o suficiente. Eu disse que preferia disputar a posição, mas a minha posição. Ele sempre foi uma pessoa de ressentir, de guardar, é próprio dele. Aí ele passou a me revezar na concentração. Antes dessa conversa eu ia a todas as concentrações, para que ele pudesse justificar que não tinha nada contra mim. Depois que a coisa se aclarou, ele me convocava às vezes sim, às vezes não. Talvez fosse o mais justo, mas por que ele não fazia isso antes?

No começo do ano de 1970, fomo a uma excursão para o México. Chegando lá, me machuquei nas costas em um treino, me tratei com o Serelepe e fui liberado. Treinei. Quando chegou o dia do jogo, me foi dito que eu não ia jogar. Só quando estivesse 100% fisicamente. Acharam que, como eu não era da seleção, não era o Gérson, era a hora de eles fazerem valer as imposições.

Botafogo campeão da Taça Guanabara de 1967.
Crédito: livro "Prezado Amigo Afonsinho"

A rotina era assim: depois do almoço, antes de ir para o quarto, a gente passava no quarto do roupeiro e já tinha separado o calção, o meião, a chuteira e a camisa. Levávamos para o quarto. O lanche era às 16h30. O jogo às 21h. Almocei, passei no quarto do roupeiro, peguei o material e vi que a minha camisa era a 14. Eu achei que podia até haver um engano. Falei para os amigos mais próximos que achava que havia algo muito estranho. Fui saber o que estava acontecendo. Na hora do lanche procurei o chefe da delegação, expliquei a situação a ele e disse que não ia aceitar aquela condição. Ele disse que falaria com o treinador. Não voltou para falar comigo até a hora do embarque. É a maneira como eles resolvem. “Deixa acontecer, depois vem o jogo e ele esquece”. Fomos para o ônibus, a caminho do estádio Asteca. Eu fui ficando encucado. Tinha sido combinado uma conversa com o treinador. Desci do ônibus, procurei o chefe da delegação e disse que ninguém tinha me procurado para conversar. Ele foi lá, falou com o Zagallo, voltou e disse que “era assunto para se resolver mais tarde ou amanhã”. Quando ele me disse isso, peguei um táxi e fui para o hotel.

Afonsinho jogando pelo Botafogo.
Crédito: livro "Prezado Amigo Afonsinho".

O time perdeu. Quando chegaram, eu estava no hall do hotel. Achei que não era a hora de conversar, estavam todos de cabeça quente. No dia seguinte, antes do almoço, ninguém me chamou. Então eu falei que queria ter uma conversa com o Zagallo pessoalmente. Descemos (já tinha algumas pessoas descendo para almoçar) sentamos e eu falei que vinha acontecendo uma porção de coisas, as quais enumerei e disse: “Nós estamos em um país estrangeiro, você não vai ter nenhum problema comigo, mas quero que você saiba que o meu relacionamento com você é estritamente profissional. O que tiver determinado eu vou cumprir, mas não quero nenhum tipo de relacionamento entre nós que não seja o profissional”. Os jogadores do time que já estavam ali, mesmo os mais experientes, ficaram apavorados. Diziam: “Como é que você fala um negócio desse com o homem?”. Eu não disse nada excepcional, só firmei a minha posição. Não queria que passasse de um relacionamento profissional. Eu não alterei a voz, não xinguei, não falei um palavrão. Só firmei minha posição.

Afonsinho no jogo Olaria x Bonsucesso, em 1/5/1970.
Crédito: livro "Prezado Amigo Afonsinho".

Ele não me pôs para jogar em mais nenhum jogo. Só me colocou quando faltavam 15 minutos para acabar o último jogo. Uma coisa mesquinha. Para que isso? Não faria diferença nenhuma.
Quando chegamos aqui viu-se a situação incompatível. Fui emprestado ao Olaria. Eu tinha resolvido parar com o futebol. Para mim era coisa certa. Isso tudo para um rapaz de vinte anos é um desgaste muito grande, uma pressão violenta. A razão de ser da minha vida, o que eu mais gostava de fazer passou a ser uma coisa massacrante. Para sair daqui, atravessar a rua e ir treinar no Botafogo, era a coisa mais difícil do mundo. Eu estava acabando a faculdade, ia arrumar um estágio e encaminhar a minha vida para um outro lado.


Fizeram uma proposta na sexta-feira para eu jogar três meses no Olaria. Eu estava decidido a não aceitar, mas fiquei pensando no sábado e no domingo. Eu tinha dado entrada nesse apartamento, mas ainda pagava. Tinha feito um seguro-contrato e tinha comprado um carro que também estava pagando. Como eu não teria mais nenhuma fonte de renda a curta prazo, pensei que podia não conseguir pagar o apartamento. Por isso voltei. Se eu fizesse o contrato pagaria uma boa parte, venderia o carro e quitaria o apartamento. Depois, tendo onde morar, eu daria uns plantões e comeria na clínica. Foi o que eu fiz, fui para o Olaria, mas ao final dos três meses, pararia e pronto.

Afonsinho, no Olaria, contra a Seleção
Brasileira, no Maracanã, 12/04/1970.
Crédito: livro "Prezado Amigo Afonsinho".

Porém, quando fui para o Olaria, eu renasci. Foi a melhor coisa que podia ter me acontecido. Foi ótimo. O Olaria foi o melhor entre os times pequenos. Teve um jogo treino com a seleção brasileira B (naquele tempo havia a seleção A e a seleção B) no Maracanã e o Olaria ganhou de 1 a 0. Depois disso fomos para uma excursão na Europa um pouco antes da Copa do Mundo de 1970. Desliguei-me do Olaria no Irã, que ainda se chamava Pérsia. Teria de ir à Roma ou à Paris para voltar. Fui à Roma e fiquei lá. Assisti à final da Copa em um bar, em Veneza.

Quando voltei, os problemas tinham ficado muito piores, pois se eu tinha sido emprestado porque não tínhamos como resolver domesticamente o assunto, com o Zagallo campeão do mundo seria ainda mais difícil.


Eu ainda pertencia ao Botafogo. Quando me reapresentei fui primeiro à diretoria, porque eu queria acertar o meu contrato e não queria voltar a jogar ali. A situação era incompatível, mas os diretores disseram: “Lugar de jogador é no campo. Amanhã às 15h, no gramado”. Fui no dia seguinte às 15h. Tinha treino físico. Um diretor e o Zagallo me chamaram de lado para conversar. Perto da bandeira de córner dos associados. (Eu tinha uma foto desse dia, mas perdi. Tem um take dela no filme “Passe Livre”). Eu já estava com uma penugem aqui no lugar da barba, o cabelo começando a crescer. Eles estavam afinados. Falavam olhando um para o outro, tentando me atingir: “Olha como você está. Não vê que é diferente de todo mundo? Parece tocador de guitarra, cantor de iê-iê-iê”. Eu me lembro de ter dito: “Eu me apresentei aqui por exigência de vocês. Eu fui à diretoria ontem”. A partir desse dia, havia uma ordem na rouparia para não me darem material para treinar. E eu preso. O passe era do clube.

Reunião com dirigentes do Botafogo.
Assunto: a barba de Afonsinho (27/08/1970).
Crédito: livro "Prezado Amigo Afonsinho".

Todos os dias eu ia ao clube para treinar, não me davam o material e eu vinha embora. Pedi ao Admildo Chirol para me fazer um programa de treinamento para a semana. Ia ao campo da universidade e treinava sozinho. Um dia de circuito, outro dia corrida e assim por diante. No dia de coletivo eu jogava bola com o pessoal da faculdade. Ia me mantendo em forma enquanto esperava o tribunal da federação resolver. E depois o tribunal da CBD. Acabei ganhando o passe no próprio tribunal desportivo, uma coisa que se achava impossível, porque o tribunal era viciado. Esse processo levou quase um ano. Ganhei o passe, era uma quinta-feira, no sábado já estreei no Olaria de novo. Eu tinha feito um ambiente muito bom, tinha sido uma maravilha. Mas mesmo assim tinha uma tensão no ar. Olhavam para mim meio de lado. Era o rebelde, o cara que brigou, o cabeludo, o barbudo, mas foi ainda melhor do que da primeira vez. Era 1971. Foi o grande time do Olaria. O meio de campo era Roberto Pinto, Afonsinho e Fernando Pirulito. Aí era bola redonda. Se juntasse o peso dos três não dava 10 quilos, mas também, ninguém via a bola”.

Afonsinho no jogo Vasco x Grêmio, campeonato brasileiro 71.
Crédito: livro "Prezado Amigo Afonsinho".

O futebol jogado por Afonsinho no Olaria despertou o interesse de vários grandes clubes brasileiros. 

Era citado, inclusive, para substituir Gérson, na Seleção Brasileira, mas o treinador era Zagallo. Acabou indo jogar durante pouco tempo no Vasco da Gama. 

Foi para o Santos, de Pelé, o Flamengo com Zagallo e tudo no comando, América Mineiro e ainda no clube que o revelou para o futebol, o modesto XV de Jaú.


Afonsinho e Pelé.

Em todos, sempre envolvido em polêmicas com dirigentes e técnicos, especialmente, pela falta de estrutura e organização dos clubes. Resultado: Afonsinho praticamente não jogava. E foi assim que surgiu um time histórico no futebol mundial: “O Trem da Alegria”.

“Como eu jogava em regime de passe livre, com o passar dos anos, entre um contrato e outro, começou a aumentar o tempo em que ficava no “limbo”. Era um jogador profissional, mas não tinha time para jogar. Eu precisei criar uma forma de resistência. Uma forma de me manter em atividade, me manter treinando, jogando e ganhando, fazendo o meu trabalho. Foi aí que nós tivemos a ideia de fazer um time que juntasse os muitos jogadores, mesmo com passe, mas sem contrato e os desempregados. Os dirigentes acabaram com a divisão de aspirantes. Isso tirou o equilíbrio do futebol brasileiro e criou uma situação muito estranha. Veja.

Em pé: Aílton Pelé, Marcio, Dedé, Fagner, Zorba Devagar,
Marcolino (Goytacaz) e Cadô (XV de Jaú).
Abaixados: Moraes Moreira, Abel Silva, Paulinho da Viola,
Afonsinho, Gato Félix (Novos Baianos) e Cristiano Menezes
(jornalista). No Trem da Alegria jogaram campeões mundiais
como Garrincha, Nilton Santos, Paulo César Caju,
Jair Marinho e Altair.
 
O clube pega um garoto de quinze anos. Eles reclamam que tem despesa, que gastam durante três anos, mas acabam com a divisão de aspirantes, que era o espaço que esses garotos tinham para jogar. Então emprestavam o garoto durante um ano, mas depois de um ano já vinha outra leva de jogadores. Iam se formando jogadores de qualidade, preparados, treinados, mas que não tinham onde jogar. Ficava esse universo de profissionais soltos. Fizemos o time para essa gente jogar, para se manter, para se encontrar, para não deixá-los sozinhos, para sobreviver, resistir. Jogávamos por todo o Brasil. Jogamos também em Angola.

Depois apareceram duas oportunidades que quase se tornaram realidade, que seriam projetos geniais. Uma delas foi juntar o Trem da Alegria com o São Cristóvão para disputar o campeonato carioca e em seguida tivemos a oportunidade de fazer isso na Portuguesa carioca. O segundo tinha se comprometido com um treinador português de Angola, não abriam mão e eu achei que não podíamos começar um trabalho assim. O primeiro achou que ia fazer um time só com jogadores universitários, pegar a seleção universitária e só trabalhar com gente estudada. Uma concepção equivocada, que também não deu certo. Depois tentaram fazer uma coisa que eu houvera proposto, uma cooperativa, mas já não era a mesma coisa, tanto que eu não participei.

Afonsinho e Garrincha no Trem da Alegria.
Crédito: livro "Prezado Amigo Afonsinho".

Passei a ficar algumas temporadas sem jogar. Foi o meu processo de passe livre no final.

O Garrincha era a inspiração de tudo. Foi em uma época de muita discussão sobre o futebol força, o futebol alegria. 

Para mim o futebol é uma representação do sentido da vida, se o sentido do futebol é a alegria, o sentido da vida é a alegria, nada presenta isso melhor do que a alegria do povo, que é o Garrincha. 

E eu, sendo de família de ferroviário, achando que um time tem um caráter itinerante como um trem ou como um circo, que também é ícone da alegria, colocamos o nome de “Trem da Alegria”.

No livro “Prezado Amigo Afonsinho”, o craque de bola revela a origem da música que o tornaria eterno na história do futebol brasileiro. E por que não da música?

Gilberto Gil e Afonsinho, em
entrevista para a Revista Pop, da
Editora Abril, em 1973.
 

“Naquele dia em que Capinam, Gil e eu, fomos ao Maracanã, no meio de uma das conversas, eu disse ao Gil a frase: “o bom jogador não engana a geral”. Eu sei que a unanimidade é burra, mas sei que a torcida tem razão e com qualquer consequência é preciso que se dê liberdade ao povo, que se acredite nele. O menor de todos naquela estratificação social dentro de um estádio de futebol sabe, não se engana. O que sabe menos, pelo conceito da nossa sociedade, conhece o bom jogador. Ele gosta do que é bom. E Gil fez uma música com essa frase, mas não gravou. Acho até que ele não fez a música inteira, ou se fez, eu não conheci inteira, só o refrão.

Eu passei algumas férias no Nordeste e passei alguns carnavais em Salvador, na época do “Chuva, Suor e Cerveja”. Foi nessa época que eles começaram a fazer os shows de verão. Em um desses anos, cheguei em Salvador uns dias antes do Carnaval e um dia depois de um show do Gilberto Gil. Caminhando na rua, encontrei uma pessoa que me disse: “e a música que o Gil fez pra você, gostou? Que legal!”. Eu pensei que fosse essa do “bom jogador”. Andei mais dez passos e uma outra pessoa me disse: “E aí, que legal a música que o Gil fez pra você!”, isso se repetiu com mais umas três ou quatro pessoas conhecidas  minhas. Como se tornou uma insistência, achei que poderia ter alguma coisa a mais.


Encontrei o Capinam, que me falou da música e sugeriu: “Vamos ver o Gil, quem sabe você conhece a música”. Fomos a casa dele e ele estava ouvindo um disco do Miles Davis. Começamos a conversar, ouvindo o disco e nem falamos da tal música.

Eu nem me lembro quando ouvi pela primeira vez. Acho que em um show aqui no teatro João Caetano. É uma coisa sobre a qual eu não sei nem falar. Eu ouvi junto com a emoção de todo mundo, quer dizer, todo mundo relacionava o nome à pessoa. Até hoje eu sou não só grato, porque é pouco. É uma emoção muito boa pelo que significa de amizade, de carinho, de força, mesmo. Eu gosto da música e sei que é boa música, porque muitos músicos elogiam. Depois de a Elis Regina gravar, então, fecha tudo.

                                          Elis Regina interpretando "Meio de Campo".

A Elis Regina estava fazendo o show “Falso Brilhante”, que era uma maravilha. Eu estava no XV de Jaú e fui assistir a esse show em São Paulo. Ela já tinha gravado a música. Eu fui ao camarim e estava lá o Sérgio Cabral, que quando me viu falou para ela: “Você não vive cantando o Afonsinho? Olha ele aí”. Na hora ela ficou sem entender que era uma brincadeira, foi meio esquisito. Eu a cumprimentei, mas nunca cheguei a conversar longamente com ela. Certamente ela gravou a música pelo valor musical, porque a música é boa.


Talvez ela pudesse gostar de mim como cidadão, da minha atuação como cidadão. Eu acho a Elis Regina a maior cantora do mundo em todos os tempos. Ela está para a música, assim como o Pelé para o futebol.

4 comentários:

  1. André, sobre o Afonsinho, ainda tem o "Rebeldia no Futebol Brasileiro", que também fala do Edmundo. É uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado, não lembro agora. Tenho o livro, não está aqui agora comigo, comprei numa Bienal aqui em Campos.

    Quanto ao Marcolino, do "Trem da Alegria", ele também foi cronista do extinto Jornal O Monitor Campista. Lançou a coletânea "Além dos Refletores Prateados". E tem um livro inédito, que tem a crônica "Botafogo F. R.: sinônimo de alegria e tristeza", publicada no Blog Estrela Solitária no Coração

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  2. Anônimo13:24

    Bom para registrar a canalhice zagaleana...

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  3. Wesley, o livro de que você está falando é:
    "Afonsinho e Edmundo - a rebeldia no futebol brasileiro", de José Paulo Florenzano, disponível na biblioteca do Ludopedio: http://www.ludopedio.com.br/rc/index.php/biblioteca/recurso/55

    E sobre ele e outros rebeldes do futebol, fiz o meu TCC na PUC-SP, também no Ludopédio: http://www.ludopedio.com.br/rc/index.php/biblioteca/recurso/683

    E matéria na revista Caros Amigos, por ocasião dos 40 anos da primeira vez que alguém conquistou o Passe Livre, pauta recusada por todos os grandes veículos
    1 aqui, no original, mas resumido: http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/component/content/article/171-revista/edicao-170/1420-futebol-a-rebeldia-e-que-muda-o-mundo
    2 aqui completa, a partir da página 40: http://www.ludopedio.com.br/rc/index.php/biblioteca/recurso/683

    Abraço a todos

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  4. André, este era titular no meu time de botão. Mais tarde fui respeita-lo ainda mais por sua militância política. E aí vamos organizar um debate com este cara, por aqui?

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