terça-feira, 1 de maio de 2012

Por que o Brasil é tão bom no Judô?

Aurélio Miguel, primeiro ouro olímpico.

O Brasil é bom de bola, mas existem várias modalidades olímpicas em que temos vários craques. Em uma delas, o Judô, a cada competição mundial ou olímpica, a esperança de medalhas é sempre grande. Não será diferente nos próximos Jogos Olímpicos que acontecem em Londres e com certeza, no Brasil, em 2016.

Na história dos Jogos Olímpicos o judô brasileiro acumula 15 medalhas: duas de ouro, três de prata e dez de bronze. Chiaki Ishii foi nosso primeiro medalhista olímpico quando conquistou o bronze em 1972, nos Jogos de Munique. O primeiro ouro viria somente 16 anos depois, em Seul, com Aurélio Miguel. Nos Jogos seguintes, em Barcelona, o santista Rogério Sampaio repetiria o feito.

Tiago Camilo
Nos últimos Jogos Olímpicos, em Pequim, Tiago Camilo, ficou com a prata. Além de Tiago, outros dois judocas brasileiros ficaram com o bronze: Leandro Guilheiros e Ketleyn Quadros. 

Leandro também conquistou o bronze nos Jogos de Pequim e passou a ser o primeiro judoca com dois bronzes em Jogos Olímpicos consecutivos.

Ketleyn fez história em Pequim com sua medalha, pois se tornou a primeira mulher brasileira a conquistar tal feito em uma prova individual.



Ketleyn Quadros
Não faltam nomes para justificar a fama e o respeito do judô brasileiro em todo o mundo. E para entender as razões de tantas conquistas, o gaúcho Alexandre Velly Nunes acaba de defender sua tese de doutorado, na Escola de Educação Física da USP, com um estudo que tem tudo para se transformar em livro muito em breve.

Confira o artigo de Paloma Rodrigues, da Agência USP de Notícias, reproduzido com a autorização de Alexandre Velly Nunes.

Pesquisa da EEFE liga imigração japonesa ao início do judô no país
Por Paloma Rodrigues

Estudo elaborou árvores genealógicas dos nossos
principais judocas.
Foto: Wikimedia - Kodokan e federações de judô do Japão.

A imigração japonesa foi fundamental para a consolidação do judô no Brasil. Pesquisa do doutorando Alexandre Velly Nunes, da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, montou uma árvore genealógica da formação dos atletas brasileiros, desde o ingresso das primeiras gerações do esporte no País, na década de 1960, até os nossos mais recentes medalhistas olímpicos e mundiais. Nunes foi orientado pela professora Katia Rubio, também da EEFE.

Para montar essa árvore genealógica, Nunes entrevistou todos os medalhistas olímpicos e mundiais brasileiros da história. Durante quatro anos, foram realizadas 90 entrevistas. Elas partiram de 23 atletas medalhistas, que conquistaram 38 medalhas, sendo 15 em jogos olímpicos e 23 em campeonatos mundiais.

Rogério Sampaio, ouro em Barcelona.
A trajetória da carreira desses atletas, bem como seus mentores e professores foram anotadas e ajudaram a compor um panorama geral da formação do judô no Brasil. “O meu foco principal era entender como eles tinham chegado ali e quem foram as pessoas que os influenciaram”, explica Nunes, que atua como professor de Educação Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS).

A partir das entrevistas desses atletas, Nunes foi atrás de seus professores e fez o mesmo processo: uma entrevista que pedia o relato de suas carreiras e as suas principais influências. O ciclo se manteve até ser alcançada a primeira formação de judocas brasileiros.

Genealogia

A grande contribuição desse trabalho está na construção das árvores genealógicas dos nossos principais atletas, campeões olímpicos e mundiais. Essas árvores são as que Nunes chama de “Famílias Judoísticas”.

Árvore de Rogério Sampaio, ouro nos Jogos de Barcelona (1992)
Imagem: Divulgação
Elas evidenciam a influência japonesa ao ilustrar a base desses atletas, uma base quase que é inteiramente formada por japoneses.

Árvore de Tiago Camilo, medalhista mundial no Rio de Janeiro (2007),
jogos de Sidney (2000) e Pequim (2008).
Imagem: Divulgação
Popularidade

Nunes diz que há registros do judô no Brasil desde 1914. Após a segunda guerra mundial, a “esportivização” da modalidade e o seu ingresso no programa olímpico, em Tóquio (1964) e definitivamente em Munique (1972) contribuíram para a difusão do esporte para fora da colônia japonesa.

No pós-Segunda Guerra Mundial, o Japão estava arrasado e muitos japoneses foram em busca de melhores condições de vida em outros territórios. O Brasil foi um dos países que receberam um contingente enorme desses imigrantes.

Chiaki Ishii
Esses novos assentamentos serviram para popularizar o judô em algumas regiões onde a prática do esporte não era comum. “Isso fica claro quando reparamos nos anos em que surgiram as federações regionais e seus primeiros dirigentes”, observa Nunes.

Com essa oficialização do esporte no País, uma série de novos personagens passa a integrar essa história. “Antes da guerra, a influência era totalmente nikkei. Depois, notamos que as formações regionais e o número de professores começam a ter mais integrantes brasileiros”. O esporte se transforma e passa a ser mais do que uma atividade cultural. Ele se torna uma competição e isso internacionaliza o judô.

Esse teor competitivo torna o judô mais comercial, porque o esporte passa a render muito dinheiro. Isso faz com que os aspectos educacionais e culturais fiquem um pouco marginalizados na formação dos atletas, como afirma Nunes:

“A internacionalização tirou um pouco da preocupação dos orientais de manter a ética e a disciplina durante a atividade.”

O perfil dos atletas muda. O judô, além de ser um negócio, vira um show.

Ele diz que “como qualquer movimento cíclico, os excelentes resultados de competição já começam a ser estudados e eles tem como uma conclusão clara que os aspectos educacionais precisam ser retomados para que os bons desempenhos sejam alcançados”. Por isso, as organizações nacionais tem sim de sobreviver como responsáveis por grandes eventos esportivos, que rendem muito dinheiro, mas sem prejudicar a formação de seus atletas.

Sobre Alexandre Velly Nunes:
Possui graduação em Licenciatura em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1980), Mestrado em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1998) e Doutorado pela Universidade de São Paulo (2011). Participou do Curso Internacional de Treinadores da Universidade de Leipzig/Alemanha (1998/99), ênfase em Judô, onde se graduou com o IV Dan, pela Deutsch Judo Bund (DJB). Participou de estágio de treinamento na Universidade Kokushikan/Japão, de Agosto de 1986 a fevereiro de 1987. Atualmente é professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Membro da Academia Olímpica Brasileira. Representa o Conselho Federal de Educação Física junto a Comissão de Combate ao Doping do Conselho Nacional do Esporte. Tem experiência na área de Educação Física, com ênfase em Treinamento Esportivo, atuando principalmente nos seguintes temas: judô, luta olímpica, avaliação de atletas, controle de doping e história oral.

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