domingo, 20 de maio de 2012

Paulo Planet Buarque: 85 anos de histórias


Ele está próximo de completar 85 anos de vida e é considerado um dos maiores jornalistas esportivo do país. Uma trajetória de mais de meio século de aventura dentro e fora dos gramados, no rádio, na televisão ou na imprensa escrita. Paulo Planet Buarque foi tão influente no meio que, na conquista do primeiro título mundial brasileiro, na Copa de 1958, foi um dos jornalistas a participar do famoso “Plano da Vitória”, arquitetado pelo chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho.

Mas antes disso, Planet ganhou fama mundial por outro fato ocorrido na Copa de 1954. O que aconteceu, você descobre abaixo, na sua trajetória de vida profissional no jornalismo esportivo. Trajetória que foi interrompida pelo sucesso profissional obtido na política brasileira. Planet foi eleito deputado estadual por duas vezes e chegou a ser presidente do Tribunal de Contas do Município de São Paulo. Em 2003, já distante havia anos da rotina de jornalista esportivo, Planet lançou seu livro de memórias, “Uma vida no plural” (Companhia Editora Nacional). Mas os trechos abaixo foram resgatados de outro livro, “Donos do Espetáculo” (Editora Terceiro Nome, 2007).



O início no jornalismo esportivo

Paulo Planet (1º a esquerda) e a equipe
do jornal A Gazeta Esportiva, na Copa de 1958.
A cada dia o jornal A Gazeta Esportiva apresentava uma grande revelação no jornalismo esportivo. Planet surgiu nessa nova safra. Antes de escrever sobre esporte, começou a trabalhar no jornalismo geral, nos Diários Associados, na rua Sete de Abril, centro de São Paulo. A vaga de repórter surgiu por intermédio de um tio, Nelson Planet, amigo de André Drefees, que escrevia artigos para os Diários. Drefees fez uma carta de recomendação para Planet entregar diretamente ao dono dos Diários, o empresário Assis Chateaubriand, que recebeu o jovem repórter: “A primeira pergunta que Chateaubriand me fez foi: ‘porque você quer ser jornalista?’. Acho que minha resposta valeu minha contratação: ‘quem sabe ser alguém como o senhor’”, recorda Paulo Planet.

A primeira pauta foi a cobertura de uma greve dos padeiros: “Escrevi duas laudas e entreguei ao editor. Naquela noite não dormi. Acordei bem cedo e fui comprar um jornal para ver minha matéria. A decepção foi tremenda: era uma foto com legenda. Na redação, o editor justificou-se: aprenda o poder de síntese”.

Planet não se recorda exatamente quanto tempo ficou na função de repórter dos Diários Associados. Lembra-se perfeitamente, porém, que seu desejo, desde o começo, era ser repórter esportivo: “Visitei um tio que tinha fazenda em Cândido Rodrigues, na Alta Araraquarense, e foi dele a sugestão de procurar João Francisco Ferreira Jorge, seu primo, que trabalhava em A Gazeta Esportiva, que na época era ainda semanal. Com um cartão do meu tio, procurei João Francisco, que me recebeu calorosamente e me encaminhou a Carlos Joel Nelli. Foi assim que tudo começou”.

Planet ainda teria longos dias de espera. Nelli informou ao jovem repórter que aguardasse, pois em breve A Gazeta Esportiva passaria a ser diário: “Pediu que passasse pelo jornal toda semana. Foram umas vinte ou trinta semanas”, até que no dia 8 de outubro, dia de seu aniversário, Planet recebeu a boa notícia: tinha um teste marcado com Thomaz Mazzoni, Dimas de Almeida e Miguel Munhoz, todos secretários de redação do novo jornal. Aprovado, em pouco tempo o jovem jornalista passava a escrever ao lado de uma equipe de feras do jornalismo esportivo, como Plínio Siasca, Aurélio Belotti, Henrique Nicolini, José Henrique Turner, Andrade Marques e Carbone Sobrinho, enfim, um time de alta qualificação profissional.

Com 19 anos, Planet sabia que de cara não teria vida fácil. A primeira função no jornal não era lá essas coisas: “Fui indicado para trabalhar com o Alfredo Lazarini, o Tita, responsável pela edição das duas páginas diárias do futebol varzeano que o jornal mantinha. Naqueles tempos a várzea era maravilhosa, mas não era bem aquilo que eu imaginava fazer. Para minha decepção, minha missão era abrir as cartas dos clubes varzeanos e verificar quem queria jogar contra quem. Fiquei abrindo estas cartas uns seis meses, além de perceber que meu salário não dava nem para pagar a pensão onde eu morava”.

Planet afirma que sempre teve sorte em sua carreira e foi ela quem o ajudou a mudar de função dentro da redação de A Gazeta Esportiva: “Certo dia, alguém faltou e o Thomaz Mazzoni mandou que fosse cobrir um treino do São Paulo Futebol Clube, no campo do Canindé. Logo o São Paulo, o clube que eu tanto gostava. Foi uma maravilha ter contato com aqueles craques todos. Minha matéria foi aprovada e comecei minha vida como repórter. A partir desse momento as portas começaram a se abrir para mim”.

Planet, em treino do SPFC de 1958, ao lado de
De Sordi e Lanzoninho.
Em pouco tempo, Planet foi convidado pela Rádio Panamericana para fazer um comentário diário na programação esportiva da emissora. A escalada profissional não parava e depois de alguns meses já estava escrevendo coluna semanal também para o Mundo Esportivo, a convite de Geraldo Bretas. O jovem repórter já não era mais uma revelação, ganhou poder com o espaço diário que tinha na mídia esportiva.

Além de escrever bem sobre vários esportes, Planet também gostava de política. Em 1949, teve sua primeira experiência profissional como repórter, escalado para cobrir o Sul-Americano de futebol que se realizava na Argentina, em Buenos Aires: “Por coincidência, foi essa minha primeira experiência fora do esporte. Tive ideia de entrevistar Juan Domingos Perón, presidente argentino que estava presente na cerimônia de abertura dos jogos. Perón e Evita me deram uma entrevista maravilhosa e A Gazeta publicou com grande destaque”.

Planet, pres. do Tribunal de Contas.
A partir daí, Planet nunca mais abandonou o gosto pela política. Muitos anos depois, em 1960, acompanharia como repórter político toda a campanha de Jânio Quadros para a presidência da República. 

E os textos publicados em A Gazeta Esportiva tornaram-se referência para milhares de leitores da época. 

Em décadas de trabalho ganharia tanto prestígio no futebol que acabaria usando toda essa influência na política.

Copa 1954

(...)
Às vésperas da disputa do Mundial da Suíça, em 1954, o clima era de total desconfiança com a Seleção Brasileira. A derrota em 1950 ainda repercutia entre jogadores e imprensa esportiva.

(...)
Apesar do clima confuso, o Brasil estreou com uma vitória convincente, por 5 a 0 contra o México. No segundo jogo, uma prova de como os dirigentes do futebol brasileiro eram desorganizados: após empatar por 1 a 1 com a Iugoslávia, no tempo normal, na prorrogação os jogadores voltaram aos vestiários decepcionados, chorando a desclassificação. O clima era ainda mais tenso porque, durante a partida, vários jogadores da Iugoslávia pareciam zombar de nossos craques, sorrindo e sinalizando a todo instante para que parassem de correr e tentar o gol. Só depois que o jornalista Ricardo Serran, de O Globo, entrou nos vestiários, o cenário mudou. Os jogadores não sabiam, mas o empate classificava o Brasil para a fase seguinte.

A pressão feita pela imprensa só aumentava. Dois dias antes da partida decisiva contra a poderosa seleção da Hungria, um grupo de “notáveis” da imprensa esportiva tentou convencer o técnico brasileiro a mudar sua tática inédita de marcação por zona. Geraldo Bretas, Oduvaldo Cozzi, Édson Leite, Pedro Luiz, Fernando Bruce, Aurélio Campos, Ricardo Serran, e Rebelo Jr. não foram atendidos por Zezé Moreira.

Derrota brasileira para a Hungria, Copa 1954.
Se as maiores estrelas do rádio esportivo não tinham moral com o treinador, durante as transmissões dos jogos na Copa todos viraram sensação entre os profissionais da imprensa europeia pelo ritmo frenético de suas narrações.

No jogo contra a Hungria, a imprensa internacional teria a prova definitiva de que os profissionais eram realmente “diferenciados”. Um deles, pelo menos, com certeza. O Brasil foi derrotado pelos húngaros por 4 a 2 e deixou o campo protestando contra a arbitragem do inglês Mr. Ellis. Nas cabines de transmissão, Mário Vianna, árbitro brasileiro na Copa e no jogo analista de arbitragem de uma rádio, deixou seu protesto com um grito que se tornou marca registrada: “ladrããããão”, assim mesmo, com várias vogais repetidas e reforçadas.

Mas quem roubou definitivamente a cena na derrota brasileira foi o comentarista da Rádio Bandeirantes, Paulo Planet Buarque, futuro deputado e ministro do Tribunal de Contas de São Paulo.

Planet dando "pernada" em policial.
Inconformado com a arbitragem da partida, o jornalista brasileiro teve sua foto publicada na primeira página de quase todos os jornais europeus por causa da atitude que tomou logo quando a partida terminou: “Mr. Ellis nos roubou. Anulou um gol legítimo e marcou um pênalti contra nós que não existiu. O que ficou comprovado depois, quando foi expulso da FIFA por ser membro do Partido Comunista. Naqueles tempos, infelizmente, havia um conteúdo ideológico muito grande. Desci para o gramado para dar um tapa em Mr. Ellis. Só um tapa. Larguei o microfone e pulei o alambrado. Só que ao entrar no gramado um policial me derrubou. Me levantei e dei uma rasteira que o levantou uns dois metros. Os jogadores do Brasil correram para me socorrer e me levaram para o vestiário. No corredor do vestiário, nova briga. Aos socos e pontapés, húngaros e brasileiros quebraram o pau. Zezé Moreira, nosso técnico, deu uma chuteirada na cara do ministro dos esportes da Hungria. A verdade é que me arrependo profundamente pelo que fiz. Esqueci de minha condição de jornalista e passei a torcedor. Mas fui o primeiro brasileiro a ser capa da revista Paris Match”.

Copa 1970

(...)
Pela primeira vez um brasileiro seria o narrador da emissora geradora de uma Copa do Mundo. A surpresa apareceu com o convite do empresário mexicano Emílio Azcáragua para que ele fosse o narrador da Televisa.

Azcárragua tinha suas razões para convidar um brasileiro para a função. Em 1962, o empresário mexicano observou o esforço e a competência dos brasileiros durante a realização do Mundial no Chile. Pouco depois, Azcárraga convidou Planet para apresentar, no México, os festivais internacionais da canção, famosos pela participação de grandes artistas internacionais. Em 1964, Planet também tinha mostrado sua capacidade de improvisar durante a transmissão de boletins ao vivo, direto dos Estados Unidos, na cobertura dos Jogos Olímpicos. “Um diretor norte-americano ficou maluco e aproveitou para alfinetar seus produtores, afirmando: ‘vocês estão vendo como se faz televisão?’”.

O único problema era que Planet nunca havia narrado um jogo de futebol, ainda mais em outra língua – no Brasil tinha se consagrado como repórter e comentarista. Azcárraga não quis saber: Planet era o nome, e ponto final. Até o próprio brasileiro ficou pasmo com o que aconteceu: “Foi um enorme sucesso. Fizeram comentários nos jornais, rádios, todos exaltando a forma com que se deveria fazer uma transmissão de futebol”.

Planet não recebeu apenas elogios, mas uma bolada enorme de dinheiro pelo trabalho realizado: 4 mil dólares. Além do dinheiro, lhe foi oferecido um contrato de cinco anos, que ele recusou, para fazer as transmissões de futebol da Televisa e a apresentação de um programa de auditório.

Para saber mais sobre Paulo Planet, acessar: http://www.netsaber.com.br/biografias/ver_biografia_c_4606.html

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