sábado, 19 de maio de 2012

Olavo Bilac e os Jogos Olímpicos


Os amantes da literatura agradecem a decisão de Olavo Bilac de abandonar os cursos de Medicina e Direito para se dedicar à poesia. Além de poeta parnasiano (que valorizava o cuidado formal do poema, em busca de palavras raras, rimas ricas e rigidez das regras da composição poética), Bilac era jornalista, crítico, contista, conferencista, autor de vários livros didáticos e inspetor da Instrução Pública. Olavo Bilac foi também membro fundador da Academia Brasileira de Letras.


Boêmio inveterado, foi também um dos maiores defensores da abolição da escravatura. Em 1888, começou a ganhar fama no meio literário com a publicação de “Poesia”. 

Ele é também o autor do Hino à Bandeira Nacional. No jornalismo chegou a fundar alguns jornais de vida efêmera, no Rio de Janeiro, como A Cigarra, O Meio e A Rua. No início do século20, Olavo Bilac foi aclamado como “O Príncipe dos Poetas” após vencer um concurso patrocinado pela revista Fon-Fon.


Mas o que poucos imaginam é que Olavo Bilac pudesse ser um homem apaixonado pelos esportes. Com seu olhar apaixonado, Bilac deixou registrada suas impressões sobre a realização dos primeiros Jogos Olímpicos na Grécia. E o mais incrível, não na forma de um poema, sua especialidade, mas em uma crônica. 

Ao ler suas impressões, fica a sensação de vermos Bilac no local das disputas.  Muitos anos após a sua morte, ocorrida em 1918, uma das revistas mais importantes do esporte, o Almanaque Olympicus, do jornalista Thomaz Mazzoni, resgatou essa verdadeira obra-prima do autor. 

O texto acabou publicado no Almanaque referente aos anos 1942-1943 e, certamente, pouco conhecido até mesmo pelos estudiosos de sua grande obra literária.


Literalmente, um tesouro para os amantes da literatura esportiva brasileira. Um texto que deveria ser lido por todos os atletas que sonham um dia participar de uma Olimpíada. Há pouco mais de dois meses da realização de mais uma edição dos Jogos Olímpicos, em Londres, Literatura na Arquibancada resgata as impressões de Olavo Bilac sobre o maior evento esportivo do planeta, ou melhor, sobre essas duas palavras...Jogos Olímpicos...

Jogos Olímpicos...
Por Olavo Bilac


É impossível escrever ou ler essas duas palavras, sem evocar a idade de ouro da humanidade, no berço daquela Grécia divina, cuja misteriosa e indizível saudade arde perpétua, por um milagre psíquico, na alma de todo o homem que pensa. Tal é o prestígio da Helade antiga, que cada um de nós, fechando os olhos, vê reproduzirem-se todo o cenário, toda a gente, toda a história, todos os costumes dessa remotíssima idade. 

É que cada um de nós, artistas e poetas, sempre tem dentro da própria alma um pouco da alma da gente do Peloponeso.


Jogos Olímpicos da velha Helade! O céu azul encurvava-se, amoroso e alegre fulgido de sol, sobre a arena que se dilatava, numa imensa elipse cercada de pórticos alvos. Fora da área dos jogos, ficavam as piscinas de mármore. O barulho da água corrente cantava perto. Homens de carne moça, de fortes músculos endurecidos pelo exercício violento – gente sóbria, que se alimentava com um punhado de azeitonas, uma sardinha e um pouco d’água pura, – saíam nus do banho, dando aos beijos do sol os corpos apolíneos, esfregavam-se com almofaças de pelo áspero, untavam a pelo com óleos aromáticos, e em três saltos felinos chegava à arena.


Sobre os degraus de pedra do anfiteatro, a multidão esperava em silêncio, a cabeça descoberta, os pés em sandálias de couro, com uma simples túnica sobre o corpo. 

No centro os juízes, coroados de louro e carvalho, numa altitude de deuses, deixavam cair, arrastados no pó, os largos mantos de púrpura. 

E um arauto perto deles esperava o nome do vencedor para o anunciar, pela fanfarra da sua voz retumbante, à assembleia, ao país e à glória.






Corrida de quadriga no hipódromo, xilogravura
baseada em desenho de Heinrich Leutemann,
em torno de 1865.


Eram, primeiro as corridas a pé, derredor do estádio. Os pés firmes batiam a terra numa cadência triunfal. Uma nuvem de poeira dourada cobria, irizando-se ao sol, a massa humana, que voava. Depois, eram as corridas de carros: as leves bigas e as pesadas quadrigas, tiradas por cavalos em pelo, disparavam, num estrilar de patas e ferragens...Depois, a multidão agitava-se, esmagava-se, pisava ansiosa e o exercício do pentatlo começava.    

Firmavam-se os atletas em pontas de pés, encurtavam o corpo apresentando-se para o salto, contraíam todos os músculos; e, de repente, como arcos dobrados que se distendem violentamente, rompiam do solo com a impetuosidade de molas e aço e arrojavam-se gloriosamente para o ar. E essa ascensão entusiasmava a multidão; os espectadores viam ali a subida vitoriosa da raça para a perfeição divina, para o seio do Olimpo, para a glória da imortalidade.


Os escravos traziam então os discos e os dardos. Bíceps de bronze inchavam em braços de mármore. As garrochas finas e agudas partiam, silvando, zunindo e cravam-se fundo no alvo, com uma palpitação em todas as suas plumas; e o rumor claro dos discos entrechocados cantava no ar.

E, subitamente, dois moços, grandes e belos, mediam-se com os olhos, estirando os braços apertados em braços de ouro, e amplexavam-se. Um silêncio ansioso pairava sobre o circo: e nessa nudez completa da multidão, soava alto o resfolego dos lutadores, cujos corpos, estreitamente unidos, oscilavam.


Os seus ossos estalavam; o chão da arena tremia ao peso do combate de semi-deuses. E quando um deles caía, ofegando sobre o joelho do outro – para o claro azul do céu deslumbrante subia, como o bramir de uma tempestade, a aclamação da assembleia.

O nome do herói, repetido por vinte mil bocas, voava a todos os confins da Grécia, e o vencedor, empunhando um ramo de oliveira, caminhava em triunfo para a sua cidade natal.


Para saber mais sobre Olavo Bilac, acessar: http://www.brasiliana.usp.br/node/414

Para saber mais sobre as origens dos Jogos Olímpicos, acessar: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=210

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