domingo, 13 de maio de 2012

O Macunaíma do futebol brasileiro

Grande Otelo

O que é fascinante no futebol é a diversidade de personagens existentes pelo imenso Brasil. E o que é mais marcante entre tantas histórias é a capacidade de o brasileiro criar apelidos para seus jogadores, seja ele um craque ou um “peladeiro”. Não há no mundo nada parecido, uma marca registrada que virou folclore.

Fio Maravilha
O maior de todos, por exemplo, virou Pelé. 

Temos um “galo” que é também Zico. Fio Maravilha, Garrincha, Diamante Negro, Viola, a lista é interminável. 

Só na primeira Copa do Mundo a seleção brasileira tinha Brilhante, Nariz, Russinho e Preguinho. 

Na Copa de 1958, além de Pelé e Garrincha, Zito, Vavá. No time tricampeão de 1970, Tostão. Em 1994, Cafu, Dunga, Zinho. 

No futebol atual, uma de nossas maiores esperanças para a Copa de 2014 é um Ganso! A criatividade é enorme.

Paulo Henrique Ganso
Mas não existe nada parecido com o que acontece no Nordeste brasileiro com times desconhecidos: Vaca Brava, Leitoa, Caroço, Limonada...A lista é interminável, criativa e exótica.

Mas também há nessa região jogador que entrou para a história que jogou em um grande clube de Natal e que se transformou, acredite, no nosso Macunaíma do futebol brasileiro!

Quem conta essa história é o escritor Rubens Lemos, da cidade de Natal, torcedor apaixonado do futebol Potiguar e que lá viu ser eternizado o nosso Macunaíma. Essa e outras crônicas saborosas podem ser encontradas no site de Rubens Lemos, http://www.rubenslemos.com.br

Macunaíma com carinho

Presidente João Figueiredo
Plante que o seu caráter garante. Adapto sem o menor pudor um slogan ridículo dos estertores da Ditadura, agricultor estimulado a produzir graças aos doces financiamentos do Governo Figueiredo. Que chegavam, via Sudene, aos donos, aos plantadores, o sol do envelhecimento e da fome.

O slogan era “Plante que o João Garante”. Em 1979, logo que ele assumiu. Propaganda mais pessoal, escancarada, não havia. Mas os saudosistas do arbítrio hoje podem trombetear. Quem reclamava na época, era porão. Porrada, tortura. 

O homem do campo plantou, semeou e colheu secas terríveis, de empoeirar até bandeira do Palmeiras, tudo o que era esperança, acabou-se. Tempo de emergência, da procissão dos miseráveis em busca do salário-mínimo. No interior, verdejante, só mesa de sinuca. 

Entre os pobres famintos, gente rica se aproveitou, ganhou dinheiro de sertanejo, até miss ocupou vagão no Trem da Alegria e da Desgraça. Foi no Rio Grande do Norte e a conveniência esqueceu. O problema é a escrita, que não é apagada. Sempre terá alguém com um exemplar remanescente. 

Noé Soares (direita), o Macunaíma.
Em 1979, João não garantiu, mas Noé Macunaíma plantava por que seu caráter avalizava. Chegou Noé Soares da Portuguesa da Ilha do Governador (RJ), em 1975 para o ABC e virou Macunaíma por ser feio e elétrico jogando. Começou na ponta-esquerda, foi ponta-direita, ponta-de-lança, meia-armador e volante. Jogou bem em todas. 

Macunaíma virou Macunaíma em lampejo do radialista Souza Silva, da Rádio Cabugi (Globo AM hoje), que o comparou ao personagem de Mário de Andrade, vivido por Grande Otelo no cinema. 

Macunaíma, o do filme, era o “herói sem caráter”. Macunaíma, o do ABC, era o oposto dele. Humilde, carismático, eficiente, cativante na fragilidade física. Baltasar, Danilo Menezes e Noé Macunaíma formaram o meio-campo do ABC Campeão de 1978, título improvável.

Os três do meio e mais o goleiro Hélio Show, veteranos numa multidão de juvenis promovidos, com destaque para o ponta-esquerda Berg, driblador e artilheiro de carreira destruída pelas pancadas que esfolaram seu joelho. Tinha também Jonas, ótimo centroavante trazido do Náutico.

ABC, de Natal, em 1976. Noé Macunaíma
é o primeiro agachado a direita.
 O favorito América ostentava de uma das melhores duplas de ataque da história do sepultado Castelão (Machadão): Marinho Apolônio na meia-cancha e Aluísio Guerreiro de centroavante. Ronaldinho, o garrinchinha potiguar, driblava e redriblava o lateral-esquerdo Noronha. Ronaldinho e Noronha morreram. Depois foi a vez do estádio. O ABC conseguiu segurar esse time. 

Danilo Menezes encerra seu ciclo no ABC em junho de 1980. Noé Macunaíma recebe o bastão, a camisa e nenhuma distinção de honraria. Assume, ao seu jeito serelepe, o coração da massa alvinegra. Há jogadores que nem o mais radical torcedor adversário consegue odiar: Noé Macunaíma foi um deles. 

ABC de 1975. Noé Macunaíma.
(agachado, primeiro a direita)
O ABC apanhou do América nos anos 1980 como os adversários de Anderson Silva no UFC. 

O hiato foi no timaço entre 1983 e 1984, com Dedé de Dora, Marinho e Silva. E lá, no cantinho dele, reserva sem reclamar, Noé Macunaíma, a graça interior numa plástica de Zezé Macedo dos gramados. 

Noé Macunaíma, o nosso, desmente o consagrado anti-herói do escritor Mário de Andrade, um dos consagrados romancistas da literatura nacional. 

Noé Macunaíma
O Macunaíma de Mário de Andrade era preguiçoso, traidor, mentiroso, dono de um repertório de palavrões terríveis e petrificado na história cinematográfica brasileira pela interpretação de Grande Otelo. 

Macunaíma foi vítima da malandragem de Danilo Menezes. Macunaíma, o Noé, é um homem diferente. 

Em 1975, ABC disputando campeonato perdido para o América, Danilo diz ao repórter Souza Silva que Noé é filho de Grande Otelo, o Macunaíma do cinema.

Souza Silva sustenta a mentira ao microfone, a torcida do ABC acredita. Grande Otelo, em Natal para uma apresentação no teatro, entra na sacanagem e é apresentado “ao filho” num programa esportivo da Rádio Cabugi. 

Os dois se abraçam e Otelo diz que vai embora sabendo que no Rio Grande do Norte encontrou um novo amigo. 

Que não era seu filho, pois ele sempre foi bonito e não produziria o contrário de um Narciso. 

Noé Macunaíma é o verdadeiro personagem brasileiro. 

De semelhante com o do filme, a aparência de amuleto, que foi, durante anos, de uma torcida sedenta por títulos. 

Saciada pelos seus dribles curtos, seus gols de falta, seu amor ao clube. Sua doçura cativante. O caráter que plantou, semeou e dele colheu o amor do povo da Frasqueira. Um craque construído pelo carinho. 

Sobre o autor:
Rubens Manoel Lemos Filho nasceu em Natal (RN) em 20 de agosto de 1970. É jornalista desde abril de 1988. Trabalhou como editor e repórter em jornais como a Tribuna do Norte e Dois Pontos e editor de cadernos especiais no Diário de Natal. Foi editor dos telejornais Bom Dia RN e RN TV da afiliada Rede Globo em Natal, da TV Potengi (Band Natal). Coordenou assessoria de imprensa em cinco campanhas eleitorais. Foi subsecretário de Comunicação Social do Estado de 1995 a 2001 e Secretário de Comunicação de 2003 a 31 de março de 2010. É Coordenador de Comunicação Social da Assembleia Legislativa do RN e colunista do Jornal de Hoje. Autor de dois livros: Danilo Menezes, o Último Maestro (2001) e o Homem Óbvio (2009).

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