sexta-feira, 25 de maio de 2012

O encontro entre Chico Buarque e Tostão



Que ele é fanático por futebol todo mundo sabe há muito tempo. Futebol jogado nas peladas, futebol de botão, futebol nas arquibancadas, futebol em todo lugar...Mas Chico Buarque, o “dono do Polytheama”, a equipe que ele criou para jogar com os amigos na própria casa, também adorava (ou ainda adora) escrever sobre o futebol que tanta nos encanta. Em 1998, na Copa da França, Chico foi cronista de um jornal. E naquele mês em que o país praticamente para por aqui, Chico estava a mil por hora pelas ruas de Paris.

O que imaginar de um encontro entre Chico Buarque e Tostão, dois craques, cada um na sua arte, mas ali, durante a Copa, travando um diálogo histórico sobre um craque do passado chamado Canhoteiro?

O resultado Chico descreveu na crônica abaixo, extraída do livro “Donos da Bola” (Língua Geral, organização Eduardo Coelho, 2006). Um texto imperdível. Como também é imperdível a extensão dessa mesma história na versão de quem convenceu Chico a escrever crônicas durante a Copa, o escritor Mário Prata, o “Pratinha”, e suas incríveis histórias. Vale a pena acessar os dois links abaixo, após a leitura da crônica de Chico...

Com os meus botões
Por Chico Buarque

Canhoteiro
Tostão me perguntou meses atrás, aqui mesmo em Paris, se o futebol do Denílson lembrava o Canhoteiro (ponta-esquerda do São Paulo que só eu vi jogar, na década de 50). Vinda de quem vinha, aquela pergunta me paralisou. 

Fiquei postado na praça, sem raciocínio, olhando para o Tostão. Se bem que, quando topamos um craque de bola no meio da rua, vestido à paisana, andando como a gente anda, falando como a gente fala, nós, amadores, sempre nos atrapalhamos. Viramos idiotas.


Chico Formiga, ex-técnico do Santos, que
morreu no dia 22/05/2012.
Certa vez fui apresentado a um antigo centromédio do Santos, o Formiga. Depois de um breve diálogo, o assunto esgotado, sem saber por que continuei a encará-lo. 

O silêncio se prolongava, incômodo, e ainda encasquetei de colocar a mão no ombro do Formiga. Com o polegar, comecei a pressionar de leve a sua clavícula, e me lembro que ele ficou um pouco vermelho. 

Então me dei conta de que, pela primeira vez na vida, conversava pessoalmente com um botão. Formiga tinha sido um dos meus melhores botões, apesar de meio oval, um botão de galalite, vermelho.


Chico Buarque jogando botão com Vinícius de Moraes.
Na minha mesa, Tostão não chegou a ser botão. Eu já era bem crescido quando ele apareceu, e fica um pouco ridículo fazer botão de um jogador mais novo que você. Botões, para a garotada daquele tempo, eram venerados como ícones, beijados, polidos na flanela, concentrados em caixa de charuto e inegociáveis. Pois bem, vi o Tostão deslizar nos gramados e, sem querer desmerece-lo, era mesmo um homem com braços e pernas. Nem por isso há de nascer um centroavante que se lhe compare, como nunca haverá ponta-esquerda semelhante ao Canhoteiro, que só eu vi jogar. Desde já discordo de quem, concordando comigo, sustente que o futebol era muito mais bonito no passado.

Ao contrário de nós mortais, que éramos todos mais bonitos no passado, os craques do passado são ainda melhores hoje. Penduraram as chuteiras, mas na permanente edição da nossa memória vão produzindo novos lances memoráveis. Posso vê-los sempre de uniforme, uniformes diferentes uns dos outros, num vestiário com o teto cheio de chuteiras penduradas. Reúnem-se em torno do técnico, ouvem a preleção em silêncio, mas não prestam muita atenção. Dispensam alongamentos, entram em campo e já começam a jogar. Não dão entrevistas. Não fazem cera, não atrasam a bola, não cobram lateral, não ficam na barreira, faz cada qual o que lhe dá na telha. E no entanto exibem um belo conjunto, mantendo-se invictos há anos e anos, mesmo porque contra eles não há quem se atreva a jogar. Me vendo de boca aberta, naquela tarde gelada, o Tostão não fazia ideia dos gols que continua a marcar dentro da minha cabeça.

Denilson
“Ele te lembra o Canhoteiro?”, perguntava o Tostão, e de cinco em cinco minutos a pergunta me rebate no ouvido como um gongo, enquanto vejo o Brasil jogar no Stade de France, sem Denílson. 

Há o grande Rivaldo, seu estilo de ema, há o nosso Ronaldinho, de quem tudo o que se diz não basta, e há um oco. 

Sim, a ausência do Denilson agora me lembra exatamente o Canhoteiro, cuja camisa Zagallo usurpou  na Copa de 1958, privando o planeta de ver o que só eu via. 

Estamos no segundo tempo, Brasil e Escócia um a um, e já me pergunto se, barrando o Denilson, Zagallo não pretende barrar o Canhoteiro de novo, quarenta anos depois.

Maldade minha, claro, pois eis que o Denilson entra em campo, recebe a bola rente à lateral esquerda, passa zunindo por dois escoceses e toca para o meio, de calcanhar. 

A jogada foi bem em frente à minha cadeira, permitindo-me ver até o branco dos olhos do Denilson, e não direi o que se passou naquele instante com a fisionomia dele. 

Não direi de que quem era a figura que vi num relance, vestindo a camisa 19, porque nem eu próprio acredito nessas coisas. Mas alguma coisa os escoceses também viram, e ali se assombraram, e se atarantaram, e perderam a pouca cor que têm, e bateram cabeças entre si e fizeram um gol contra.

É um garoto, o Denilson, e imagino o que será seu futebol daqui a mais ou menos trinta anos, quando estarei abarrotado de memórias. Seu drible na corrida, calculo que possa chegar a algo como a velocidade do TGV Paris-Nantes, embora jamais à do Canhoteiro. Babando de antemão, me vejo a lembrar o Denilson adiantando a bola na medida certa, feito isca, para surrupiá-la do bico do pé do beque. Verei o Denilson em nova arrancada, como quem corre num parque, e a bola que corre serelepe ao seu lado, quase latindo. Verei o Denilson desviando a bola sem tocá-la, talvez com um assobio – ele tem boca de assobiador. Verei o molejo dele, trançando as pernas diante do próximo adversário, e, de repente, hei de ver o drible de corpo. O drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito.

Se eu fosse menino, faria do Denilson um senhor botão. De tampa de relógio, acho. 

Um comentário:

  1. Olá,
    Achei essa postagem enquanto procurava conteúdos relacionados ao Chico. Muito bacana!
    Abraços,
    Zuza Zapata
    www.zuzazapata.com.br

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