terça-feira, 15 de maio de 2012

Nilton Santos: A "Enciclopédia"


16 de maio é o dia de seu aniversário. Em 2015, completaria 90 anos. Uma vida repleta de histórias e glórias dentro dos gramados do mundo inteiro. Nilton Santos, apelidado de “A Enciclopédia”, por conta de seus conhecimentos sobre o futebol, jogou a vida inteira por apenas um único clube: o Botafogo. Desde 1948 até abandonar a carreira em 1964. Disputou quatro Copas do Mundo (1950/1954/1958 e 1962). Foi eleito o melhor lateral esquerdo de todos os tempos no mundo pela Federação Internacional de Futebol.


Pelo clube de coração ou pela seleção, além do talento para jogar na lateral-esquerda, Nilton era querido por todos, companheiros dos gramados e até mesmo jornalistas, porque era um grande contador de causos do mundo da bola. Histórias que acabaram virando um livro “Minha Bola, Minha Vida” (Editora Gryphus, 1998).

Ainda bem que Nilton deixou registradas tantas passagens vividas dentro e fora dos gramados porque, infelizmente, há alguns anos, o terrível “Mal de Alzheimer”, fez nossa “Enciclopédia” silenciar. 

Viveu em uma clínica, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, até o dia 27 de novembro de 2013, data de sua morte.



Festa de 85 anos de Nilton Santos.
Crédito: www.niltonsantos.com.br

Um verso rimado como uma das tantas jogadas genais de Nilton Santos, criado pelo jornalista e poeta da bola Armando Nogueira define de maneira definitiva o craque:

“Tu em campo,
parecias tantos,
e, no entanto,
que encanto!
Eras um só,
Nilton Santos”.


Era isso e muito mais. 

Abaixo, Literatura na Arquibancada destaca o texto escrito pela jornalista Sandra Moreyra, repórter da TV Globo, filha de Sandro Moreyra, jornalista e grande amigo particular de Nilton Santos, além do belíssimo texto do poeta Armando Nogueira, que assina o prefácio de Minha Bola, Minha Vida.



Nilton Santos
Por Sandra Moreyra


“Não sou uma jornalista de esportes. Sou uma botafoguense.

Nilton Santos eu conheço desde criancinha. E com que saudade imensa me lembro dos treinos no velho campo do Botafogo ou dos jogos no Maracanã. Eu era menina e não via em campo a “enciclopédia do futebol”. Via o amigo do meu pai em mais uma vitória do meu time. 

O craque Nilton Santos nunca teve o peso do mito para mim. Nilton era de casa. Nas minhas lembranças desse tempo bom de criança vão estar sempre a bela casa dele em Correias onde passávamos fins de semana, os muitos almoços lá em casa, e as muitas histórias das muitas viagens que meu pai e Nilton fizeram juntos, com a seleção e o Botafogo pelos campos do mundo.


Eu só fui compreender a grandeza do futebol de Nilton Santos mais tarde. E foi assistindo aos filmes e vídeos de jogos do Botafogo ou da Seleção Brasileira que pude entender o significado da frase que meu pai escreveu num disco de Ella Fitzgerald, um velho vinil que guardo até hoje. Embaixo do título “Ella Fitzgerald interpreta Colle Porter”, ele acrescentou: “com a mesma facilidade com que Nilton Santos joga futebol”.

Aos que não tiveram a felicidade de ver o futebol do mais elegante dos nossos craques e aos que jamais ouviram uma canção de Cole Porter na voz de Ella, recomendo este livro. 

Quem viveu esse tempo sabe do que estou falando e não vai deixar o enorme talento de Nilton Santos na estante.

Prefácio para Nilton Santos
Por Armando Nogueira


O futebol de Nilton Santos tinha de acabar consagrado em livro. Não fosse ele a “enciclopédia do futebol”, assim chamado justamente, pela dimensão fulgurante de seu talento. Desde Domingos da Guia, que jogava com a altivez das estátuas, o mundo não via um zagueiro tão perfeito como Nilton Santos. Era um jogador de exceção. Tinha o dom de aveludar a bola quase sempre áspera que ronda uma pequena área. Dominava, como ninguém, tanto a arte de fazer como de evitar um gol. Antes dele, nenhum zagueiro ousara ir à frente, com galas de atacante. Pois ele cometia essa doce imprudência com a espontaneidade dos gênios da bola.
Nilton Santos nasceu atacante. Jogava de ponta-esquerda nas peladas da Ilha do Governador.


Um dia, desembarca de um ônibus na porta do Botafogo, com um par de chuteiras velhas embrulhadas numa folha de jornal dormido. 

É apresentado a Carlito Rocha, um místico do futebol cuja alma botafoguense oscilava entre a fé católica e o fervor de uma boa macumba. 

Depois de breve diálogo, o bruxo alvinegro decretou que Nilton Santos seria zagueiro e não ponta-esquerda. 

E deitou profecia: “Na defesa, você será campeão carioca, será campeão brasileiro e campeão do mundo”.




Seleção Brasileira, bicampeã mundial de 1962.

Palpite, premonição, seja lá o que for, Carlito Rocha viveria ainda o bastante para ver integralmente cumprido o destino do ilustre personagem. Essa curiosa história abre o capítulo “General Severiano”, o segundo do livro Minha Bola Minha Vida, em que mestre Nilton repassa a sua vida, numa linguagem simples e transparente como o seu imenso futebol. Ler esse livro é um reencontro com a figura lendária da saga botafoguense. É reviver, de pleno coração, a epopeia do bicampeonato do mundo que libertou a alma do futebol brasileiro.

Nilton Santos, na Copa de 1962.

Escrever o prefácio deste livro é apenas a extensão de um privilégio que a vida me concedeu. Nilton Santos foi meu segundo ídolo do futebol botafoguense. Antes dele, minha fantasia me projetava na figura épica de Heleno de Freitas. Com o tempo, tornei-me jornalista. Já não podia mais viver o deslumbramento de simples torcedor. Graças a uma rígida formação ética, passei a ver Nilton Santos não mais com o olhar arrebatado do fã, mas com a visão contida do crítico. E, aí, então, pude perceber a expressão enciclopédia do seu futebol. Nilton exercia, com perfeição, todas as artes do jogo. Driblava bem, passava melhor, ainda. Jamais foi traído pelo “quique” de uma bola. Herdeiro de Domingos da Guia, ele anestesiava o atacante antes de tomar-lhe a bola, reverente, sempre.


Passaria à história como a fulgurante prefiguração de todos os laterais, hoje, alas, do futebol mundial. 

Seu segredo? 

Ele próprio me confessaria, minutos depois de sagrar-se bicampeão do mundo no Chile, em 1962:

“Sou amigo de infância de todas as bolas deste mundo”.

Entre tantas histórias e causos contados por Nilton Santos em seu livro, Literatura na Arquibancada destaca algumas vividas pela Enciclopédia vestindo a camisa da seleção brasileira. Camisa que ele vestiu com muito orgulho 82 vezes em 16 títulos conquistados.


Copa 1950
O bico da chuteira


“Saiu a convocação dos jogadores pela Confederação Brasileira de Desportos – CBD e, mais uma vez, o meu nome estava na lista. 

O time base foi: Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. 

Só que não joguei nenhuma partida. Eu já sabia disso. O Flávio não gostava do meu estilo de jogo. 

Já no Sul-Americano, ele implicou com a minha chuteira.

Danilo Alvim, Nilton Santos e Zizinho.

Na apresentação, Flávio Costa pediu para ver a minha chuteira e comentou: “Sua chuteira tem o bico muito mole para ser de um beque”. Argumentei que tinha sido convocado por ele, com o futebol que jogava com aquela chuteira. Não foi o bastante, ele retrucou: “Beque meu joga com chuteira de bico duro e não dribla. E na ‘hora’ do ‘bico’”?  Não tive mais argumentos, pois não tinha a tal ‘hora’ comigo. Eu não sabia chutar de bico. Na época, todo jogador de defesa usava esse recurso. Só que eu, talvez por não gostar de jogar na defesa, não aprendi a dar de bico. Por isso, fique na reserva, com o protesto do Zizinho, que era meu incentivador e achava que eu deveria ser o titular porque sabia tocar bem a bola...”

Copa 1954
A greve de fome de Didi


“Essa Copa, na Suíça, foi o paraíso das compras para os dirigentes brasileiros. Ninguém se preocupava com os jogos ou jogadores, com o agravante de a chefia da delegação não conhecer sequer o regulamento da Copa.

Em alguns dias, vinha uma ordem: fica proibida a entrada de jornalista e radialista na concentração. Ninguém sabia de onde ou de quem a ordem tinha partido. Então, ficávamos totalmente isolados. Era um local ermo, frio e afastado da cidade. O restaurante também ficava distante, íamos caminhando para fazer as refeições.

Didi e Guiomar

Num desses dias de proibição, estávamos treinando quando apareceu na pista a Guiomar – mulher do jogador Didi. Ficamos parados e eu pensei: ‘vai dar uma confusão danada’. E não deu outra. O representante da CBD foi conversar com ela e convenceu-a a voltar para a cidade. Didi, chateado por não ter podido falar com a mulher, decidiu fazer greve de fome. Ele ficava deitado, fumando e olhando para o teto. Eu, como seu companheiro de clube e de quarto, decidi amenizar a situação. Pensei e fui conversar com ele: ‘Didi, você está aqui para treinar e jogar, consequentemente queimar carvão. Se você não se alimentar, não vai aguentar. Apoio você, não conto a ninguém, mas vou começar a roubar comida no restaurante e trazer para você’.


Assim em fiz. Tinha um casaco bem grande de frio e colocava nos bolsos, bife, batata frita, pão, garrafinhas de leite e até sobremesa, tudo enrolado no guardanapo. 

Cada jogador tinha um envelope nominal com o guardanapo dentro. 

Eliminei o meu envelope e colocava comida dentro. Depois, eu sempre brincava com ele: ‘Daqui para frente, você não pode botar banca comigo, eu matei sua fome’”.

Copa 1958
O desenho de Garrincha


“Dizem que o Feola não gostava do Garrincha porque antes da Copa fizemos um amistoso contra a Fiorentina, em Firenze, era a despedida do Julinho. Ele driblou a defesa adversária toda, inclusive o goleiro, e ainda, achando pouco, ao invés de fazer o gol, voltou driblando todo mundo de novo. Teve até um beque deles que vinha na corrida e, sem esperar, foi driblado pela ginga de corpo do Mané, acabando por se arrebentar contra a trave. Só depois de fazer um carnaval com os italianos, Garrincha resolveu afundar-se na rede com bola e tudo. Diziam que a Comissão o achou irresponsável, comentavam, inclusive, que ‘futebol é coisa séria e esse rapaz não joga com seriedade’, por isso, não queriam escalá-lo.

Paulo Amaral (preparador físico) contestou a Comissão, já que conhecia o Mané do Botafogo. E tentou explicar o fenômeno Garrincha, dizendo que ele não fazia aquilo por deboche. Era o jeito dele de jogar futebol. Mas, mesmo assim, não foi ouvido.


Quanto ao professor Carvalhaes (psicólogo), ele achava que o Garrincha não tinha condições de jogar porque não passara nos testes psicotécnicos aplicados por ele. Eu conversava muito com o professor, explicava que o Mané só sabia jogar futebol e estava ali, na Suécia, para isso. Não tinha jeito de convencê-lo, porque, em compensação, de futebol o professor não entendia nada. Quando era dia de teste, eu tinha sempre a preocupação de ir antes do Garrincha para ver como era, depois transmitir a ele.

Um desses testes, era você desenhar um boneco, dar vida a ele, contando uma história. Eu sai e disse para o Mané: ‘Olha, você vai desenhar um boneco qualquer e vai contar uma história dele. Como você é caçador, não terá problemas. Inventa que ele está caçando, pegou um bicho, enfim, vai lá e faz direitinho’. Dei as dicas e fiquei torcendo do lado de fora da porta.

Quarentinha

O Garrincha foi, desenhou um boneco ‘tipo criança de primário’, com uma cabeça enorme e troncos menores, todo desproporcional. Quando o Carvalhaes perguntou: ‘Quem é esse boneco? Dê vida a ele’, Mané olhou, olhou e falou: ‘Êh, parece o Quarentinha!’. Este era um jogador do Botafogo que tinha a cabeça muito grande. O professor saiu e disse para mim: ‘É  Nilton, não tem jeito, o homem é horrível, não passar nunca e não posso liberá-lo para a escalação’.

Depois da reunião com a Comissão, não nos interessou saber de quem foi a palavra final. O importante é que eles entenderam que precisavam mudar o time. Mudaram e nós fomos os campeões. Quando tive certeza da escalação do Garrincha, fui até o seu quarto.


Ele estava ouvindo um disco do Raul de Barros, e falei: ‘Mané, sabe que os homens vão te botar para jogar?’ E ele: ‘Vão nada, se eu soubesse, nem vinha. Era melhor eu ter ficado lá em Pau Grande, pelo menos estava jogando minhas peladas. Vim até aqui só para ver os outros jogarem?’. Tornei a falar: ‘Não, Mané, pode se preparar que você vai entrar, estou te garantindo isso. Vê bem como é que você vai jogar. Está todo mundo de olho em você’. Ele respondeu: ‘Se eu jogar, você pode deixar comigo’. Então, eu lembrei: ‘As seleções, daqui para frente, são mais fortes ainda’. ‘Que nada, difícil é jogar contra o Olaria no campo deles’, respondeu.

Seleção Brasileira de 1958.

Falava assim porque nos estádios de antigamente, dos times pequenos do Rio, não havia alambrado e quando o pau comia, a torcida entrava em campo. Na Europa, os campos eram bem melhores e o povo mais civilizado. A próxima partida foi contra a seleção soviética. O time foi assim: Gilmar, De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo.

Um repórter sueco estava com o Armando Nogueira quando ele veio conversar comigo. Ele escutou o meu desabafo, espumando de raiva, porque a Comissão não queria escalar o Garrincha. Ao saber da confirmação do Garrincha no time que jogaria contra a Rússia, ele não teve dúvidas, chamou os leitores para o jogo, estampando essa manchete no seu jornal: ‘Venham ver hoje o maior reserva do mundo’.


Garrincha entrou em campo como se estivesse entrando para jogar uma pelada em Pau Grande. Enquanto estávamos perfilados para ouvir o Hino Nacional, apreensivos com a partida, ele estava relaxado e brincando. ‘Hei, o seu Carlito veio é?’. ‘O que você está falando? Fique quieto’, respondei a ele. ‘Olha Nilton, o bandeirinha é careca e a cara do seu Carlito’.

Fizemos um partidão. Para o Garrincha, não fazia diferença jogar contra uma seleção mundial ou jogar contra um time do campeonato carioca. Era tudo a mesma coisa, só mudavam as camisas. Ele queria era jogar, não importava com quem. Então, destruiu o seu marcador, Kuznetsov. Foi um ‘Deus nos acuda’, o time soviético se concentrou todo nele e o Vavá, um goleador nato, ficou solto e fez os dois gols da vitória. Ao final do jogo, um jornalista brasileiro, entrevistando o soviético, perguntou o que ele tinha achado do Mané. O gringo respondeu: ‘Não achei’.


Para a imprensa mundial, após esse jogo, o Garrincha não era apenas um jogador de futebol, era um fenômeno da ponta direita, uma assombrosa aparição.

Nas comemorações do título, houve uma recepção onde estavam todas as seleções. 

E o soviético Kuznetsov ficou agarrando o Garrincha pela cintura e dizendo: 

‘Eu não consegui te marcar em campo, mas vou te marcar agora’”.




Copa 1962
Os apelidos dos bicampeões mundiais

Gilmar, "Girafa".

“O ambiente era o melhor possível. Djalma, Pepe e Garrincha eram os mais gaiatos. Pepe era ‘compositor’, fez música para vários jogadores. 

Ele e o Garrincha arrumavam apelidos para todos. A começar, secretamente, para o doutor Paulo: ‘Cabeça de Radiofoto’ – gozavam porque ele tinha a cabeça mais estreita de um lado –; o Pepe: ‘Mulher de Trinta’; Aristides: ‘Cabelo de Neve’; Mário Trigo: ‘Jacó’; Gilmar: ‘Girafa’; Coutinho: ‘Carvãozinho’; Zagallo: ‘o Caspinha’; eu: ‘Chiado’ – diziam que eu reclamava muito de todos durante os jogos. Perdendo então, nem se fala. Amarildo: ‘Papagaio do Mangue’ – ele xingava muito –; Djalma: ‘Nariz à Moda Saco’; Zito era o ‘Chulé’;


Pelé: ‘Elisa’ – tinha uma torcedora do Corinthians com esse nome e eles o achavam a cara dela; Joel: ‘Fon-fon’; Zózimo: ‘Boneco da Esso’; De Sordi: ‘Cabeça’; Jair: ‘Palito de Fósforo’; Jair Marinho: ‘Jacaré’; Castilho: ‘Bóris Karlloff’; Vavá: ‘o Leão’; Altair: ‘Zezé Macedo’; Jurandir: ‘Pato Preto’; Zequinha: ‘Sapo’; Didi: ‘Foca’; Bellini: ‘Marta Rocha ou Boi’; Garrincha: ‘Âncora’ – colocado por ele mesmo, porque é torta. Só quem não tinha apelido era o Mauro, porque não conseguiram arranjar um traço caricatural nele”.


E para quem quiser matar saudades de Nilton Santos, vale acessar seu site:

2 comentários:

  1. Olá, André. Tudo bem?

    Sou repórter e faço uma matéria sobre a Lei Geral da Copa e quero ouvir sua opinião sobre o texto e sobre o que ele representa para o Brasil. Minha ideia é ouvir opiniões de diferentes pessoas, entre elas de jornalistas esportivos. Segue meeu e-mail: david.bonis@gmail.com

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  2. Só os gênios de uma revista cujo nome não importa dizer é que acham que Nilton Santos não é o maior lateral-esquerdo de todos os tempos...
    Cesar Oliveira
    Editor... e Botafoguense

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