quarta-feira, 30 de maio de 2012

Nelson Rodrigues: "Ninguém é imparcial".

Crédito: Arte revista Vip

Em tempos que a fidelidade a um clube não existe mais, muito mais do que descobrir o clube de coração do próprio ídolo de seu clube, o torcedor brasileiro pagaria o que fosse preciso para descobrir por qual time os mais famosos jornalistas esportivos torcem. Aliás, não precisam nem pagar, decretam, muitas vezes, que fulano de tal rádio ou tevê, torce para esse ou para aquele clube e pronto. Essa talvez seja uma das maiores polêmicas do futebol: jornalista deve declarar o clube pelo qual torce?


Hoje, são raros os que se atrevem a tomar tal decisão, e cada um deles tem a sua justificativa: ética, medo, folclore ou profissionalismo. 

Recentemente, por exemplo, o narrador mais famoso (querido e odiado por muitos), Galvão Bueno, revelou ser torcedor do Flamengo. 

Um risco, claro, em tempos da violência e delírio extremos que tomaram conta das arquibancadas e fora delas.


Silvio Luiz

Que o diga o narrador Sílvio Luiz que nunca escondeu de ninguém que, no passado (e quem sabe ainda) andava armado nos estádios, pronto para qualquer “eventualidade”. 

Silvio Luiz disse que “nunca tive que puxar o revólver para ninguém, mas estava preparado para o que viesse a acontecer”. E esse dia por muito pouco aconteceu. 

É que em um episódio que teria tudo para ter final trágico, Silvio Luiz estava junto de outro jornalista que sofre constantemente com esse tipo de pressão dos torcedores.

Juca Kfouri

Juca Kfouri, torcedor assumido do Corinthians desde os tempos em que comandava a revista Placar sentiu de perto o terror vindo das arquibancadas. Nem mesmo da própria torcida Juca escapou da pressão. Quando era diretor da revista Placar, fez uma manchete, “A Fiel Verde está Feliz”, referindo-se à boa fase do arquirrival Palmeiras, e teve de ouvir no estádio xingamentos e ainda ler em uma faixa a ameaça “Juca traidor, a Fiel é uma só”. Em outro episódio, em 1984, na mesma revista Placar, após uma série de capas que revelavam o doping de Mário Sérgio, jogador do Palmeiras na época, Juca teve a vida ameaçada. No retorno após um jogo do Palmeiras em Campinas, Juca dirigia na estrada e parou em um posto de gasolina. Foi cercado por vários torcedores da extinta Mancha Verde e ameaçado: “Eles me disseram que estavam armados e que iam me matar se não saísse correndo” (depoimento a Gustavo Maia, Revista Isto É Gente). E é nesse exato momento que a figura de Silvio Luiz entra em cena. Silvio chegou a oferecer a Juca o revólver que carregava, mas o jornalista corintiano declinou.

Nelson Rodrigues

Exemplos idênticos a esses relatos não faltam pelo Brasil afora, infelizmente. Mas um dia essa história foi diferente. No passado, muitos jornalistas esportivos declaravam escancaradamente para quem torciam. O mais famoso e célebre deles foi o genial Nelson Rodrigues, torcedor do Fluminense.  Era amado e odiado por essa postura, mas pela riqueza de sua prosa estampada em livros e crônicas diárias, acabou cativando até mesmo os “inimigos”.

Na crônica abaixo, uma reflexão atualíssima para tantos jornalistas da atualidade. Evidentemente, estivesse Nelson Rodrigues trabalhando atualmente na imprensa, não receberia “as 10 cartas por dia” que ele revela no texto. Teria certamente a caixa de e-mails entupida de protestos e xingamentos. No ano de seu centenário Nelson Rodrigues continua atual, como sempre e uma de suas famosas frases responde a muitos dos torcedores que querem descobrir por qual clube jornalistas esportivos torcem:  “Nas profundezas do cronista, ruge uma paixão imensa”.

Ai de nós
Por Nelson Rodrigues


Amigos, não tenho a correspondência de um Frank Sinatra. Mas alguns leitores escrevem para mim uma média de dez cartas por dia. Agora mesmo, tenho, diante de mim, uma carta bem curiosa. O leitor me pergunta, em resumo, o seguinte: – “É válido que um cronista, como você, venha à boca de cena, declarar de fronte alçada: – “Meus senhores e minhas senhoras, eu sou pó-de-arroz nato e hereditário”?

Antes de mais nada, aquilo de vir à boca de cena, declarar, etc., etc., é um dos meus recursos de linguagem. Posso agora completar: um cronista, como eu, vir à boca de cena, fingir um pigarro e declarar de fronte alçada: – “Meus senhores e minhas senhoras, etc.”. E o leitor diz mais: – “Um cronista não é obrigado a ser imparcial?”. Realmente, qualquer um dos meus colegas, antes de começar a escrever, toma ares de isenção e objetividade. Realmente, porém, isso é uma pose. O ser humano é capaz de tudo, até de uma boa ação. Não é, porém, capaz de imparcialidade.

Armando Marques

Vejamos o futebol, por exemplo. Começarei dizendo que nasceu morto o torcedor imparcial. Os colegas mais delicados fingem melhor e representam de imparcial. Mas até hoje, que eu saiba, está para nascer o cronista isento. Nunca me esqueço de um certo Fla-Flu. Há um ataque Tricolor, entre o pó-de-arroz Wilton e o goleiro do Flamengo. Com a mão, escandalosamente com a mão, Wilton tira o goleiro da jogada; e, em seguida, coloca. Era o juiz o Armando Marques. E, simplesmente, Armando não viu e deu o gol. Mas todos nós, Tricolores, celebramos o gol como se fosse o mais válido do mundo. Não deixa de ser doce esse caradurismo. Mas é assim que reagimos no futebol. O sujeito é paixão pura.

O meu leitor, porém, não está falando do torcedor anônimo. Alude ao cronista que tem, incontestavelmente, responsabilidades precisas. Mas creia o leitor: – nas profundezas do cronista, ruge uma paixão imensa. Na hora do gol, nós, da tribuna de imprensa, só faltamos subir pelas paredes como uma lagartixa profissional. A meu ver, isso é a honestidade. Nada mais puro do que o sentimento sincero que leva a dar comoventes urros.


E o que tenho de dizer ao meu leitor é o seguinte: – jamais escondi o meu sentimento clubístico. Se me perguntarem desde quando sou pó-de-arroz, direi de maneira singela e forte: – desde os quatro anos. E não resta dúvida de que nada é tão intenso como os sentimentos que se teve na infância profunda.

É fato, porém, que sou o caso único do cronista que diz “o meu clube”, “o nosso Fluminense” etc.,etc. Não acho justo o sujeito afivelar a máscara de imparcial. O Zé Maria Scassa, por exemplo. É rubro-negro e jamais negou esta qualidade (enganei-me quando, linhas atrás, escrevi que sou o único etc., etc. Scassa é outro único).

Certa vez, numa roda de jornalistas, discutia-se, justamente, sobre imparcialidade. Um dos presentes disse o seguinte: – “Só acredito na isenção do sujeito que declarar que a própria mãe é uma vigarista”. E concluía o colega: – “Ninguém fará isso, porque ninguém é imparcial”.

O que fascina no futebol é o jogo de paixões. Ninguém é lúcido, ninguém é sóbrio. O sentimento clubístico sobe à cabeça na mais generosa embriaguez. E o sujeito diz horrores. Ainda com relação ao Fla-Flu citado, um pó-de-arroz como eu e doente, dizia-me de olho rútilo e lábio trêmulo: – “Aquela bola do Wilton não foi mão nem aqui, nem na China”. Vejam vocês: – ele sabia que fora mão, sim; eu também sabia. Mas ambos, com doce cinismo, negávamos.


Ai de nós no dia em que a verdade reinasse em tudo. Imagine um zagueiro correndo atrás do juiz: – “Foi pênalti, senhor juiz, eu fiz pênalti”. Imaginem o horror da torcida, dos outros jogadores, de todo mundo. Há um livro célebre, em que um dos personagens é caixeiro de venda. Chegava um freguês, pedia um vinho e o personagem dizia-lhe baixo: – “Não compra isso, que é uma droga”. O freguês pedia outra coisa e o caixeiro cochichava: – “Vai na loja do vizinho, que é mais barato”. Esse honradíssimo funcionário levou a casa à falência. Seria a falência do futebol no dia em que desaparecessem as deformações da torcida.

[fonte: Fla-Flu...e as multidões despertaram! (Edição Europa, 1987)

Para saber mais sobre Nelson Rodrigues, vale a pena acessar o site: http://www.nelsonrodrigues.com.br

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