domingo, 6 de maio de 2012

"Mano", o Livro da Saudade

Henrique Coelho Neto
Por que aceitar a morte é tarefa tão complicada para a maioria das pessoas? No universo da literatura esportiva há um caso que retrata muito bem essa questão delicada e dolorosa. Henrique Coelho Neto, ou simplesmente Coelho Neto, um dos maiores escritores brasileiros, o “príncipe dos poetas brasileiros”, apaixonado torcedor do Fluminense e do futebol, conheceu bem esse tipo de dor há 90 anos, pois em 1922 perdeu um dos filhos exatamente por causa de um jogo de futebol. Fatalidade? Destino? E justo com um pai que tanto incentivou nos filhos a prática esportiva?

E para, talvez, compreender a perda do próprio filho, Coelho Neto escreveu dois anos depois, em 1924, um livro que desde o título, “Mano”, é um tributo ao jovem batizado Emmanuel Coelho Neto, o primogênito da família. A obra ficou conhecida como o “Livro da Saudade”, a dor profunda de um pai pela morte precoce do filho, a agonia das últimas horas de vida de Mano. É emocionante. Segundo o próprio autor: “O livro mais sentido de quantos tenho escrito". Quis ainda o destino que outro filho de Coelho Neto, João, mas que ficou conhecido por “Preguinho”, marcasse o primeiro gol da seleção brasileira em Copas do Mundo.

Henrique Coelho Neto, escritor e poeta famoso, foi também um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, a ABL, autor de 130 livros e exímio capoeirista. Prova de seu amor maior pelo Fluminense era morar em frente ao estádio das Laranjeiras.

Literatura na Arquibancada resgata trechos do livro escrito por Coelho Neto, “Mano” e ainda um artigo escrito por um apaixonado torcedor do Fluminense, o médico Marco Porto, que mantém o espetacular blog http://jtdecarvalho.com/blog/.

A morte de Mano
Por J.T. de Carvalho (Marco Porto)

Mano
“Tricolores,

Talvez já tenham notado que, nas conversas aqui do grupo, evitamos abordar temas como óbitos, velórios etc. Não sei a razão ao certo, mas talvez se trate de atender à conhecida recomendação de “não falar de corda em casa de enforcado”. No entanto, nem mesmo essa restrição nos impediu de relembrar o episódio mais trágico de toda a Mitologia Tricolor: a morte de Emmanuel Coelho Netto, o Mano.

Em conversas anteriores, já expressamos nossa admiração por Henrique Coelho Netto, grande intelectual tricolor e incansável defensor do futebol. Coelho Netto, a quem se acusava de ser tradicionalista e anacrônico, optou por não criar os filhos como flores de estufa. Encaminhou-os todos à prática de esportes, inclusive com o exemplo pessoal, pois esse fundador da Academia Brasileira de Letras, autor de mais de cem livros, era exímio capoeirista. Seus sete filhos se desenvolveram de forma saudável e teriam todos chegados à velhice, se o destino não lhe houvesse imposto o maior sofrimento possível a um pai: perder um filho subitamente, ainda muito jovem.

Em 1904, a família Coelho Netto foi morar em frente ao Fluminense, que logo se tornou uma extensão de casa e, a seguir, da própria família. A partir de 1915, Emmanuel (o Mano) e Georges, os dois filhos mais velhos, começaram a defender o futebol tricolor nos segundo e terceiro quadros. No ano seguinte, com a criação da seção infantil, foi a vez de Paulo e João (o Preguinho) vestirem a camisa tricolor, com a qual venceram o primeiro campeonato infantil de futebol do Rio de Janeiro. A partir daí, a família Coelho Netto se tornou um patrimônio do clube.

Mano disputou 67 partidas pelo Fluminense, venceu 48, empatou 12 e perdeu apenas 7. O excepcional desempenho se explica por ele ter integrado o mais espetacular esquadrão da fase amadora do futebol brasileiro: o time tricampeão de 1917-18-19.

Fluminense tricampeão 1919
Equipe base: Marcos, Vidal, Chico Netto, Laís, Osvaldo,
Fortes, Mano, Zezé, Welfare, Machado e Bachi.


No Campeonato Carioca de 1922, Mano, então com 24 anos, foi brutalmente atingido durante um jogo contra o São Cristóvão. Deixou o gramado sentindo fortes dores no abdome e recebeu massagens do treinador. Contra os conselhos deste, Mano insistiu em voltar à partida, sob o argumento de que sua ausência iria prejudicar o time. E, de fato, retornou à ponta-direita, já com hemorragia interna. Seu espírito de amador puro, sua noção de dever e o devotamento ao Fluminense superaram o sofrimento físico, que evidentemente se agravou com o esforço, levando-o a uma cirurgia de emergência e, 48 horas depois, ao fim.

No dia seguinte à morte de Mano, dia 1º. de outubro de 1922, no restrito espaço entre sua residência e a sede do Fluminense, criaram-se dois cenários grandiosos e contrastantes. De um lado, o silêncio, gente à espera, duas longas filas de automóveis e o coche fúnebre em frente à casa dos Coelho Netto.

Do outro, no Estádio das Laranjeiras – onde Mano e seus irmãos honraram a camisa tricolor e tantas glórias proporcionaram à nossa torcida -, a multidão barulhenta principiava a chegar, para um dos jogos mais disputados do Campeonato Sul-Americano de Seleções: Brasil x Uruguai. A seleção brasileira, que teve nessa competição sua primeira conquista relevante, entrou em campo portando braçadeiras negras, tendo à frente três craques tricolores: Laís, Fortes e Marcos Carneiro de Mendonça.

Por resolução unânime da Diretoria, foi confeccionada uma inscrição no túmulo de Mano, onde se lê: “Em memória de Mano e para jazigo da família Coelho Netto, os sócios do Fluminense mandaram erigir, eternizando a sua gratidão”.

Em 30 de setembro de 1972, o Fluminense inaugurou no clube uma placa de bronze, em memória de Emmanuel Coelho Netto, pelo cinquentenário de sua morte. Que estranha magia terá esse clube, por quem – em diferentes épocas, no profissionalismo e no amadorismo – seus jogadores se dispõem a mutilar o corpo ou até a arriscar a vida pela honra de defendê-lo? Talvez, parte da explicação esteja no fato de que esses jogadores não apenas jogavam no Fluminense – assim como milhões de brasileiros não apenas torcem pelo Fluminense -, eles todos são Fluminense”.

Marco Porto é médico, professor universitário e ghost writer de um autor querido e sobrenatural: seu avô, J. T. de Carvalho, responsável pela fundação de uma cultura familiar organizada em torno de um único conceito fundamental: “Acima de leis e mandamentos, uma ética soberana: sou tricolor!”.

O livro “Mano” não é mais encontrado em livrarias e praticamente impossível em sebos, mas está disponibilizado na íntegra (http://www.superdownloads.com.br/download/33/mano-coelho-neto/#ixzz1u5r4NmbU) para aqueles que não se contentarem com os pequenos fragmentos apresentados abaixo. 

Lembramos que algumas palavras dos textos foram escritas com a ortografia atual e outras, preferimos mantê-las como o autor escreveu à época.

DOR

A alegria dispersa; a dor concentra. É na dor que, em verdade, sentimos que um filho é carne da nossa carne. Ao vê-lo sofrer vibramos doloridamente e, se ele geme, o seu gemido ressoa-nos no coração. Os ais que lhe escapam do martírio são frechas que nos lancinam e, se baixam do clamor à queixa humilde, doem-nos ainda mais, como a punção de uma lanceta aguda que se nos crava paulatinamente. Se o enfermo sara esquecem-se tais vozes, se elas, porém, se calam suspensas pela morte, então represam-se-nos no íntimo, e nunca mais o coração as esquece e os gemidos nele perduram como fica eterno nas conchas o marulho soturno do mar.

INSONE

A casa não dormia. Era a única na rua sossegada que se mantinha aberta e acesa durante a noite toda e, ainda que silencioso, ensurdecido pelos cuidados, o movimento nela era contínuo. Falava-se aos cochichos, e, volta e meia, no quarto em que ele sofria, vígilo, soava a exclamação angustiosa:

“Se eu dormisse uma hora!”

O sono, que enchia a casa, acabrunhando aos que o desvelavam - tantas noites despertos! – só não lhe chegava, a ele. Os enfermeiros revezavam-se-lhe à cabeceira e, por toda a parte, em desordem, eram pacotes de algodão, ampolas, rolos de gaze, frascos. De quando em quando alguém chegava-se à luz com o termômetro.

Em todo o caso havia esperança e, quando os pássaros começavam a cantar nas árvores e o céu desensombrava-se em rosicler e ouro, mais se animavam os corações. “Se eu dormisse uma hora...!” arquejava, cansado, o pobrezinho. O sol entrava a jorros. Era o dia e começava na rua o movimento. Todos contavam vê-lo, de repente, sorrir, anunciando o alivio desejado e ele, rolando aflitamente os olhos, agitando-se no leito, ansioso, insistia nas palavras tristes:
“Se eu dormisse uma hora...!”

E, assim, passaram-se nove dias e nove noites, dias de tortura, noites em claro, longas,
exaustivas, sem sono, gemidas, até que, ao fim da tarde décima, ao lento soar das sete horas, abriram-se-lhe muito os olhos, encheram-se-lhe de lágrimas e, entre nós dois, ela e eu, ele começou a aquietar-se, deixou de gemer para dormir, e adormeceu, enfim, não por uma hora, mas para não acordar mais, nunca mais!

VOLTA AO NINHO

Pediu-me que o mudasse de leito, e quis o nosso. Podia alguém imaginar que era o Destino que o fazia retroceder ao ponto onde principiara a sua genitura para encerrar o círculo fatal? Quem o diria presa da morte vendo-o tio robusto, em pleno viço de saúde, mascarando com o sorriso o ricto do sofrimento?

Alarmando-me o grande aparato de socorros de que se cercava o médico e a solicitude ativa do enfermeiro, interroguei-os aflito. Sorriram-me tranqüilizando-me. Ele próprio estranhou os meus cuidados impertinentes. “Era lá possível, diziam, que tão exuberante mocidade perecesse, frágil como uma ruína? Só um desastre.” Todavia eu procurava ler nos olhos de quantos o visitavam e, desconfiado, tornei-me espião dentro da minha casa, vigilo, atento a tudo e a todos, escutando às portas, caminhando mansinho no silêncio das noites desveladas para surgir, a súbitas, entre os que se lhe revezavam à cabeceira, surpreender cochichos, gestos, ver o que faziam, ouvi-lo, a ele, inquieto, de olhos despertos e ansiosos, gemendo, a pedir alívio ainda que à custa de martírios.

Mísero corpo! Quanto sofreste pungido, de instante a instante, para inoculações de vida efêmera. Por que não haviam de dizer-me a verdade? Por que não m’a disseram, se a sabiam? Ao menos eu não o teria deixado um só instante e, aproveitando-me, sem desperdício de um segundo, do tempo que lhe restava, tanto o havia de prender a mim que... sabe-se lá o que é a vida e como são as raízes que a sustentam e nutrem! - talvez não fosse tão fácil à Morte arrancar-m’o do amor.

Mas confiava em todos, nele principalmente e, quando saí da ilusão em que me mantinha a esperança, onde o vira nascer, no leito que ele pedira, o nosso, vi-o, pouco a pouco, aquietar-se, cerrar os olhos, dormir nos braços daquela mesma que, em pequeno, o acalentava e que, então, o abraçava imóvel, sem lágrimas, como se a dor a houvesse petrificado, como faz o inverno intenso com as águas múrmuras e correntias. Leito de nascimento, ninho; leito de morte, esquife: princípio e fim da mesma felicidade, tu no-lo deste, tu no-lo levaste. Agora, quando me deito, antes do sono vir, sinto-o comigo, a meu lado, vivo na minha lembrança, em saudade, sombra que me ficou no coração, rastro de uma ventura que passou, sonho com que me consolo dentro da noite triste e eterna, no qual o vejo desde pequenino, quando ali nasceu para tão curta vida, até o doloroso instante em que se foi para o sempre.

A MORTE

Todos se acercaram do leito e ele, estranhando, talvez, o rosário de corações que assim o
cingia, relanceava em volta lento, interrogativo olhar de espanto. Por vezes crispava-se-lhe, de leve, o rosto como se frisa com a aragem a superfície da água; as mãos moviam-se-lhe inquietas, contraindo, distendendo os dedos; o peito arfava-lhe opresso como se sustentasse um peso esmagador.

Silêncio trágico continha a todos, suspensos.

Que haveria? Por que tão atento o fitava o médico tomando-lhe obstinadamente o pulso?
Eu sentia um perigo. Parecia-me vê-lo à beira de um abismo que ele tivesse de atravessar sobre estreita ponte frágil. De repente, agitando-se, abrindo um olhar imenso, perguntou em voz surda:
- Que horas são?
Alguém respondeu baixinho, entanto a resposta soou forte no silêncio, como pancada em
lâmina metálica: “Sete!”

Ia-se a tarde em desmaio melancólico, já agasalhada em sombras. Por que teria ele feito tal pergunta? Que teria visto? Os prenúncios, talvez, da noite primitiva, a noite que se fecha para o sempre, noite vazia, silente, sem astros, sepultura da luz. O coração retransiu-se-me apertando, o fôlego sustou-se-me na garganta e meus olhos, como atraídos, voltaram-se para o oratório buscando a cruz de bronze, relíquia de Jerusalém, sacrossanto sinete que tem selado para a Eternidade todos os mortos da minha família.

E as lágrimas borbulharam-me no coração, senti-as subirem-me aos olhos, a jorros violentos, e tive forças para contê-las. Súbito o silêncio estalou em pranto como um vaso hermeticamente fechado que se fizesse pedaços derramando todo o líquido contido. Tombei de joelhos junto do leito agarrando-me desesperadamente ao corpo que se imobilizava. Tudo cessara e o olhar, que ele ainda mantinha fito em nós, extático, não tinha luz: era como o morrão que fica ardendo nos círios e que, pouco a pouco, envolto em fumo, vai-se extinguindo, até de todo se apagar. Alguém chamou por ele, em pranto.
Ai! de nós...
Às pedras deu-lhes Deus o eco para responderem a quem lhes brada e ao que morre tudo se vai, não fica, sequer, um pouco de som para a suprema palavra de um adeus.
É um caixão que se fecha. Nada mais.

CONTRASTE

Quando o levaram de nós o estádio começava a encher-se para um dos mais renhidos jogos do campeonato sul-americano. Ao alto da muralha da mole atlética, trapejada a bandeiras e flâmulas, que espadanavam ao vento, borrifadas de chuva, apareciam os primeiros vultos. O movimento das duas ruas que se cruzam dissemelhava-se em contraste irônico. Em uma, o borborinho alacre da multidão desensofrida, que afluía ao espetáculo da luta: veículos e turba, pregões, estropeada de patrulhas, correrias de retardatários que se apinhavam tumultuosamente junto da bilheteira como se a quisessem tomar de assalto. Na outra rua, silêncio: gente à espera, em grupos nas calçadas, às portas e às janelas; duas longas filas de automóveis e o coche fúnebre parado diante da nossa casa em pranto.

Na minha sala de trabalho, de janelas abertas, revestida de luto, com um altar armado, jazia sobre a minha mesa, entre círios e flores, o maior desastre da minha vida. Toda a casa regurgitava de gente: era a solidariedade dos corações amigos na desgraça, a doce esmola de amor trazida à nossa miséria. Por toda a parte, profusamente, flores: sobre os móveis, pelos cantos, fora, no jardim: em palmas, ramos e grinaldas e ainda esparsas, aqui, ali. Nunca a primavera fora tão pródiga com o meu jardim. Foi preciso que a Morte nele entrasse para que os meus canteiros se adornassem tanto. Por tal preço não os quisera eu tão vegetos. Longo, perduradouro vozear no estádio anunciava o início do jogo quando o sacerdote, o mesmo que o ouvira de confissão, aproximou-se para encomendá-lo a Deus. Era o sinal da partida.
Uma voz sussurrou-me:
“Que iam fechar o caixão”.

Estremeci. Seria possível! Encheu-se-me o peito de tanta agonia que me senti opresso como se o coração se me houvesse petrificado. Que fazer? Último adeus ao filho, último beijo à fronte gélida, bênção derradeira. Retiraram-lhe o crucifixo do peito. Como o que embarca entrega no portaló o bilhete de passagem, assim já lhe não era necessário o símbolo da Fé, porque o seu corpo tinha a câmara à espera e o seu espírito suave já devia achar-se na presença de Deus. Tomei-lhe, a furto, o que dele me podia ficar - algumas flores que lhe haviam murchado sobre o peito, mortas com ele, bem em cima do seu coração. Um a um alguém foi apagando os círios. Eram as últimas esperanças que se extinguiam. A sua eterna manhã rompera. Para que luzes noturnas? Fecharam o caixão florido. Que mais?! Eu olhava em volta de mim em busca de uma esperança e só via lágrimas em todos os olhos. Tudo estava acabado. Dali ao túmulo, nada mais.

Levaram-no.

E a casa foi, pouco a pouco, esvaziando-se - vazia da gente, vazia das flores, vazia,
principalmente, da felicidade, que ia com ele. E tive coragem de o acompanhar até à estância derradeira e vi-o baixar ao fundo da sepultura, profundidade só comparável à do azul infinito. E o abraço brutal da terra sonora, pouco a pouco encerrando em si o corpo amado, fechando-se sobre ele, abafando-o, sumindo-o até possuí-lo todo, só dela. E ali fiquei a olhar como quem, de cima de uma rocha, vê perder-se no horizonte a vela da última esperança. E, diante daquele deserto, eu era como um náufrago em ilhéu estéril na vastidão do oceano.

Arrancaram-me do presídio. Era a vida que me reclamava como a morte o levava, a ele. E vim, sem consciência, até a casa, onde revi os meus, como se uma vaga me houvesse arrojado à praia e eu acordasse atônito. A tarde estiara. Dir-se-ia que a chuva fora apenas para chorar o morto, como os olhos dos que me haviam acompanhado no doloroso transe. Águas que não cessam são as que jorram das fontes e dos corações. Águas que se formam nas nuvens passageiras e nos olhos indiferentes depressa o sol e o esquecimento secam; as que brotam das rochas e das profundas do amor, essas não estancam nunca! Se estancassem como se mataria a sede, como se mitigaria a saudade? No jardim, restos de flores: ainda na minha sala os círios da vigília.

Já haviam despido do luto as paredes, já haviam desarmado a essa e o altar e a minha sala de trabalho voltara ao seu aspecto natural. Pairava apenas no ambiente um cheiro morno de cera e de flores murchas. E na casa era tudo. Os corações, esses...

Onde quer que se passasse ouvia-se convulso tremor de pranto. Uma figura inerte, de negro, estatelada, estéril, jazia apagada a um canto, como aqueles círios que ainda lá estavam, de morrões negros, também apagados, sem lágrimas. Não parecia sentir: olhava pasmada, como alguém que se visse em um patíbulo, condenada sem culpa e, em tamanha injustiça, não achasse palavra para bradar a sua inocência.

Pobre mãe!

Mano
Aproximei-me dela, unimos os nossos corações feridos do mesmo golpe e as nossas dores comunicaram-se. Assim um rio cresce assoberbado e na violência em que investe derruba árvores e barrancas e tais destroços represam-no até que outro rio, nele despejando-se, engrossa-o e, os dois, juntos, forçam, levam de vencida o empeço e correm alagadoramente. Chorávamos humildes quando trovejou no estádio clamor imenso de triunfo e o coliseu longamente atroou o estrondo das aclamações vitoriosas. Ouvindo aquele tronejo heróico lembramo-nos de tardes, outras, iguais àquela e parecia-nos que o nome proclamado estrepitosamente era o dele, dele que ali se fizera desde pequenino, brincando naquele campo, nele crescendo em força e garbo, nele batendo-se pelas cores, que eram o seu orgulho. E seria dele o nome que ouvíamos nas aclamações ovantes da multidão em delírio? Sim, era o seu nome, não saía do estádio, mas do fundo dos nossos corações porque, embora estrondosas, todas aquelas vozes de milhares de bocas não estrugiam tão alto como nos soavam intimamente os apelos doloridos da nossa imensa saudade.

E, no final do jogo, com o escoar da turbamulta, a nossa rua encheu-se e os que passavam, comentando os lances mais brilhantes da partida, não se lembravam do enterro que dali saíra. E, para o seu espírito, foi melhor assim. Era em tal alvoroço que ele gostava de ver o seu clube, cheio, empavesado, ressoando músicas e clamores. Quanta vez...

A casa, fechada, em silêncio, tremia com o rumor da rua. Pobres corações! E a tarde daquele dia, que fora de tristeza lúgubre, desanuviara-se a pouco e pouco, galeando-se do sol. Dir-se-ia que o céu despia o luto por aquele que chorava ou, quem sabe! talvez assim se transfigurava para recebê-lo festivamente. Nós é que em nada mudamos: tal como ele nos deixou jazemos: na mesma desolação, na mesma saudade. E como não há de ser assim se a nossa alegria era ele e ele foi-se, não torna, não tornará nunca! nunca mais!

Um comentário:

  1. Parabéns pelo destaque a Coelho Netto, um grande injustiçado da literatura brasileira.
    Agradeço muito pela gentil referência ao blog "Memórias Imortais".
    Abraço.

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