quinta-feira, 10 de maio de 2012

Futebol: O Brasil em Campo


É de um inglês apaixonado pelo Brasil, um dos livros mais importantes já feitos na literatura esportiva mundial sobre a paixão número um do torcedor brasileiro: o futebol. “Futebol – O Brasil em campo” (Jorge Zahar Ed., 2003), tradução de "Futebol: The Brazilian Way of Life” (Bloomsburry, 2002) está completando 10 anos de vida e continua atual e, mais do que isso, sempre relacionada entre as 10 melhores obras já escritas sobre o futebol brasileiro.

Abaixo, reproduzimos o texto escrito pelo jornalista e escritor Arthur Dapieve e publicado na “orelha” da obra de Alex Bellos. Uma visão perfeita do que a obra do inglês representa para a literatura esportiva brasileira. E logo a seguir, a visão do próprio Alex Bellos sobre tudo que encontrou em nossas terras e detalhes pessoais de sua longa jornada para a produção do livro:

Nelson Rodrigues

“Há uma queixa recorrente na imprensa esportiva brasileira: “Ah, o futebol-arte morreu, ah, ninguém mais joga como Pelé, Garrincha, Didi, Zico, Ademir da Guia”. É verdade. Mas a humildade nos obrigaria a admitir que a crônica-arte também morreu: ninguém mais escreve como Nelson Rodrigues, João Saldanha e Mario Filho, para não falar em diletantes como Stanislaw Ponte Preta ou Paulo Mendes Campos. Salvo, naturalmente, os cada vez mais raros profissionais já em atividade ao tempo de Pelé, Garrincha & Cia.

A imprensa teve de adaptar-se a uma nova realidade, assim como o futebol. Uma realidade na qual não basta a inspiração, que também exige um excelente preparo físico. Para correr atrás da notícia. O inglês Alex Bellos, correspondente dos jornais Guardian e Observer no Rio de Janeiro há quatro anos, não é um cronista e sim um repórter, um tremendo repórter com a disposição necessária para buscar a bola onde seus colegas brasileiros ou não a enxergávamos ou a considerávamos fora do alcance.

Alex Bellos

No processo, despretensiosamente, Bellos acabou escrevendo algumas das mais belas páginas dedicadas ao futebol brasileiro nas últimas décadas. Roamo-nos de inveja. 

Decerto o olhar de fora, embora sem exotismo, potencializou sua capacidade de enxergar o velho esporte bretão como ele verdadeiramente é no Brasil: como um dos pilares desse projeto de civilização ao sul do Equador. O que para nós parece banal, o autor vê como extraordinário. Com a generosidade de, através de suas palavras, emprestar-nos seus olhos.

Aldyr Garcia Schlee

Bellos redescobre Aldyr Garcia Schlee, o inventor da camisa canarinho, em seu sítio nas redondezas de Pelotas. Rastreia desconhecidos jogadores brasileiros nas gélidas Ilhas Faroe. Visita os antepassados de Garrincha, os Fulniô, perto de Palmeira dos Índios. Traça vívidos retratos de Pelé, Garrincha, da democracia corintiana, de nossos cartolas. Encara as temíveis torcidas organizadas de São Paulo.

Divulga a tabelinha futebol/concurso de beleza no Amazonas. É incansável. E, assim como a seleção pentacampeã mundial no Japão alcançou uma nova síntese entre arte e força, o jornalista inglês chega a um saborosíssimo meio termo entre inspiração e informação”.

Prefácio
Alex Bellos (outubro de 2002)

Alex Bellos

Quando cheguei no Brasil aprendi que o país tinha 160 milhões de técnicos de futebol. Agora já são mais de 170 milhões. Será que o país precisa de mais um? Sobre futebol, o que um inglês poderia dizer a um brasileiro que ele já não saiba?

Este livro é a minha resposta. Embora o tenha escrito pensando unicamente nos leitores britânicos, acho que muita coisa aqui será de agrado do leitor brasileiro.

A tradução é fiel à original. Quando necessário, atualizamos os dados nas notas sobre os capítulos, que se encontram no final do livro. Desde que foi publicado em maio de 2002, muita coisa aconteceu, destacando-se a quinta conquista da Copa do Mundo pela seleção brasileira.
O livro continua relevante. Não é só um documento futebolístico, é um documento sobre o estilo brasileiro de viver. E, no país do Penta, isso não mudou”.

Introdução
Alex Bellos (RJ, novembro de 2001)

Neymar e Pelé

“O futebol chegou ao Brasil em 1894. O “violento esporte bretão” saiu-se inesperadamente bem. Em algumas décadas seria o símbolo mais forte da identidade brasileira. A seleção canarinho, como todos sabemos, venceu mais Copas do Mundo que qualquer outra. O país ainda produziu Pelé, o melhor jogador de todos os tempos. Mais do que isso, os brasileiros inventaram um estilo exuberante e requintado que estabeleceu um padrão inatingível para o resto do mundo. Os britânicos o chama de “beautiful game”. Os brasileiros de “futebol-arte”.

Qualquer que seja o termo escolhido, nada no esporte internacional tem o mesmo apelo.
Cheguei ao Brasil em 1998. Também não me saí mal. Tornei-me um correspondente estrangeiro. Era um emprego que sempre cobicei, e o Brasil, jornalisticamente falando, é irresistível.


O país é enorme, variado e cheio de cores. Entre seus 170 milhões de habitantes há mais negros que em qualquer outro país exceto a Nigéria, mais japoneses que em qualquer lugar fora do Japão, bem como 350 mil indígenas, inclusive uma dúzia de tribos ainda não contactadas. O Brasil é o maior produtor mundial de suco de laranja, café e açúcar. É também uma nação industrial, curiosamente um dos principais fabricantes de aviões do mundo, e tem uma herança artística impressionante, especialmente na música e na dança.

E, claro, é o país do futebol.

Logo que cheguei fui ver um jogo da seleção. Era no Maracanã, o templo do futebol brasileiro – e portanto do futebol mundial. Quando os jogadores entraram em campo nós pulamos e gritamos. O barulho era como uma tempestade elétrica, um coro crescente de rojões, batuques e cantos sincopados.


Cristalizando o que eu já sabia; que o caso de amor com o futebol brasileiro é muito mais que com o “beautiful game”. Amamos o espetáculo. Amamos seus torcedores, tão exuberantemente alegres. Amamos suas estrelas e seus apelidos – como se fossem amigos pessoais. Amamos sua seleção porque representa uma harmonia racial utópica. Amamos suas consagradas camisas amarelo-ouro.

Amamos o Brasiiiiiiil.

Como um bom torcedor, interessei-me imediatamente pelos campeonatos locais. Lia as páginas esportivas, escolhi o meu time e passei a frequentar os estádios. Acompanhar o futebol talvez seja o meio mais eficiente de se integrar na sociedade brasileira.


Como jornalista, fui ficando cada vez mais fascinado com o modo pelo qual o futebol influencia o estilo de vida. E se o futebol reflete a cultura, o que acho que faz, então o que no Brasil torna seus jogadores e seus torcedores tão...bem...brasileiros?

É disto que este livro trata.

Em primeiro lugar eu queria saber como um jogo britânico trazido para cá há pouco mais de um século pode modelar com tanta força o destino de uma nação tropical. Como algo assim aparentemente singelo como um esporte de equipe tornou-se o maior fator de unificação do quinto maior país do mundo? Enfim, o que significa viver neste “país do futebol”?

Se o futebol é o esporte mais popular do mundo, e se o Brasil é a nação mais bem-sucedida neste campo, as consequências desta reputação devem ser particulares e de longo alcance. Nenhum outro país é marcado por um único esporte, creio, na mesma medida que o Brasil pelo futebol.


Levei um ano pesquisando. Voei, por dentro das fronteiras do país, o equivalente à circunferência da Terra. Entrevistei centenas de pessoas. Primeiro, os suspeitos de sempre: jogadores e ex-jogadores, dirigentes de clubes, árbitros, olheiros, jornalistas, historiadores e torcedores. Depois, quando realmente quis investigar as entranhas do país: padres, políticos, travestis, músicos, juízes, antropólogos, tribos indígenas e rainhas da beleza. Também entrevistei um homem que vive de fazer embaixadinhas, astros de rodeio que jogam futebol com bois, um torcedor de aparência tão peculiar que vende espaço para anúncios em sua camiseta, e descobri um plano secreto envolvendo Sócrates e o coronel líbio Muamar al-Kadafi.

Eu não estava interessado em “fatos”, como resultados ou escalações. No Brasil os fatos não tem tanta importância; é um país construído por estórias, mitos e boatos. O que se escreve não é – ainda – tão aceito como o que se diz (um dos costumes do país que mais enfurece, especialmente se você é um jornalista). Eu estava interessado na vida das pessoas e nos episódios que contavam.


O resultado, espero, é um retrato contemporâneo do maior país da América Latina visto através de sua paixão pelo futebol. O Brasil é o país onde os agentes funerários oferecem caixões com o escudo dos clubes, onde plataformas de petróleo são equipadas com campos de futebol-soçaite, e onde um clube de futebol pode ser um trampolim para um cargo parlamentar.

Comecei minha pesquisa em meados de 2000, exatamente meio século depois da Copa do Mundo realizada no Brasil e trinta anos após o Brasil ter conquistado, de modo tão espetacular, seu terceiro título mundial. Era um ponto de partida conveniente para uma reflexão sobre o legado do “futebol-arte”.


Não por minha culpa, em algumas semanas o futebol brasileiro estava mergulhando em sua maior crise de todos os tempos. A seleção nacional perdeu uma sequência de jogos e o Congresso iniciou duas amplas investigações sobre o esporte.

A situação ficou cada vez pior. O Brasil continuou perdendo e os congressistas estavam jogando luzes sobre um submundo corrupto e asqueroso. Por um momento o impensável – que o Brasil perdesse a classificação para a Copa do Mundo de 2002 – era uma possibilidade real.

Entendo a crise como um reflexo de tensões mais gerais. Desde os anos 1950, quando Pelé começou a jogar, o Brasil transformou-se de um país maciçamente rural e analfabeto em outro urbano e letrado. Passou por duas décadas de ditadura e está aprendendo, às vezes com desconforto, como criar uma nova sociedade.


Entretanto, o mundo mudou. O futebol também. Porém, mais do que nunca, o que permanece é a mística das camisas amarelo-ouro.

Acompanhei as investigações parlamentares de perto. Viajei a Brasília para as audiências. Estive lá quando Ronaldo foi convocado a prestar depoimento. Estava ali para explicar aos congressistas por que o Brasil tinha sido apenas vice-campeão na Copa de 1998.

“Há muitas verdades”, disse o jogador a seus interlocutores. Declarou que daria “sua verdade” e que esperava que lhes agradasse. Mas se era ou não a “verdade verdadeira” – bem, era com eles.

Logo anotei isto em meu bloco. Achei que era o comentário mais involuntariamente perspicaz que qualquer jogador jamais havia feito.

O Brasil tem muitas “verdades”. Este livro é minha busca pela “verdade verdadeira” do futebol brasileiro. Espero que lhe agrade”.

Kafafi

Como Alex Bellos sugere em seu texto a “descoberta de um plano secreto envolvendo Sócrates e o coronel líbio Muamar al-Kadafi”, Literatura na Arquibancada reproduz abaixo o pequeno trecho de mais uma das tantas aventuras do Doutor que agora mora no céu. 

Aliás, recomendamos ainda a leitura do texto de Alex Bellos, publicado neste livro e reproduzido aqui no LA quando da morte de Sócrates. (http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/12/adeus-socrates-o-filosofo-e-doutor-da.html)

“...Os heróis de Sócrates são Che Guevara e John Lennon. “Pessoas de quem eu colocaria um retrato na parede de casa”, diz. Suas crenças políticas são bem conhecidas nos lugares mais inesperados.


Durante muitos anos ele escreveu uma coluna para um jornal árabe. Em 1996, foi convidado para uma viagem ao Egito e à Líbia. Quando chegou em Trípoli foi informado de que o coronel Muamar al-Kadafi queria encontra-lo. “Eu falei: ‘Legal!’”, relembra Sócrates. “Foi uma saga fantástica. Perguntei a que horas iríamos encontra-lo. Disseram: ‘Olhe, a hora não sabemos, mas a gente vai sair daqui às cinco da manhã’. Levantei. O país estava sob bloqueio, tinha que chegar por terra, não podia chegar por ar, não tinha avião. Aí me levaram para o aeroporto e me embarcaram no avião da saúde deles, um dos poucos que ainda voavam. Fomos para outra cidade que não lembro o nome, em torno da qual o governo estava sediado.


Chegamos lá, ficamos num hotel, e fiquei aguardando o dia todo. Não tinha hora. Às seis horas da tarde: ‘Tá na hora, vambora’. A gente estava numas Toyotas, daquelas de andar no campo. O cara rodou, rodou, escureceu, e aí ele entrou numa picada, tinha uma barreira, liberou, entrou num descampado. Foi deserto já ou quase deserto. Apagaram todas as luzes, mais 20 minutos no escuro. E chegamos na tenda do Kadafi”.

O líder líbio e o jogador passaram então uma hora conversando. Kadafi fez até uma sugestão. “Ele me propôs sair candidato a presidente do Brasil, falou que queria me lançar na campanha porque já tinha conhecimento de como eu pensava”. Sócrates sorri para mim e diz que recusou a oferta.”

Sobre Alex Bellos:

É escritor, radialista, filósofo e especialista em matemática, ciências e América do Sul. Seu livro "Alex no País dos Números" foi indicado ao Prêmio Samuel Johnson da BBC de não-ficção, e para o Galaxy National Book Award, sendo traduzido para 20 idiomas diferentes. Também é autor de "Futebol: The Brazilian Way of Life", obra frequentemente listada como uma das dez melhores sobre futebol. Não por acaso, Bellos também foi autor da biografia do eterno Rei Pelé. Morou por cinco anos no Rio de Janeiro, de 1998 a 2003, como correspondente do jornal The Guardian.

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