sexta-feira, 11 de maio de 2012

Coutinho: 70 anos do gênio da área


Um livro fundamental para a literatura esportiva brasileira. Trata-se da biografia de um dos maiores camisas 9 que o país já teve em sua história. “9 de ouro – Coutinho, o Gênio da Área”, da editora Realejo foi escrito pelo jornalista Carlos Fernando Schinner, ou Cacá, para os amigos. O livro, lançado em junho, do ano passado, ganha enorme importância, agora, 2013, quando Coutinho completa 70 anos de vida.


Vida repleta de histórias e aventuras no mundo da bola, protagonista de alguns dos maiores espetáculos que o futebol mundial já viu dentro dos gramados. 

Coutinho, o “melhor” e “maior” parceiro do Rei do Futebol, Pelé, no Santos supercampeão da década de 1960. 

Coutinho das “tabelinhas” mágicas com Pelé.

Pelé, Pepe e Coutinho

Coutinho marcou 370 gols com a camisa do Santos e é o terceiro maior artilheiro da história do clube, atrás somente de Pelé e Pepe. 

Antônio Wilson Vieira Honório, ou simplesmente Coutinho, tem muita história para nos contar e algumas delas você, leitor, começa a descobrir neste bate-papo com o autor do livro, Cacá Fernando:

Literatura na Arquibancada:
Coutinho nasceu em Piracicaba, interior paulista. Como era a vida do garoto por lá?


Cacá Fernando:
Cotinho – como era chamado quando garoto – teve uma vida dura e pobre em Piracicaba, pois o pai trabalhava num engenho e era obrigado a levar-lhe a marmita diariamente debaixo de sol e calor. 

Como não tinha dinheiro, era obrigado a comer um pão com uma banana de recheiro, o que lhe traumatizou pro resto da vida. 

Trabalhou em fábrica de barcos, oficina mecânica, e até numa “casa de defunto” (uma funerária), onde preparava os caixões que seriam brevemente ocupados (sic!). 

Nos momentos vagos, batia uma bolinha...

LA:
Ele é considerado um dos maiores centroavantes da história do futebol. Quais eram suas principais virtudes e características?

Em pé: Manga, Ramiro, Formiga, Pavão e Mourão.
Agachados: Sormani, COUTINHO, Pagão, Pelé e Pepe.

CF:
Coutinho se fez centroavante após chegar ao Santos F.C.. Antes, no interior, jogou como quarto-zagueiro vestindo a camisa numero 5 no Palmeirinha de Piracicaba; e de ponta-direita tão logo chegou na Vila Belmiro. O problema é que admirava os atacantes Pelé (então com 17 anos) e Pagão - mas não sabia quem era quem -, ou seja, quem era branco e quem era negro. Queria ser atacante...

LA:
Como foi sua chegada ao time do Santos, já que tinha apenas 15 anos?

O ataque mágico santista: Dorval, Mengálvio,
Coutinho, Pelé e Pepe.

CF:
Coutinho chegou com menos de 15 anos (estreou aos 14anos, 11 meses e 6 dias – o que o torna o mais jovem jogador da história do SFC – a vestir a camisa do time profissional). Foi no dia 17 de maio de 1958 em amistoso contra o E.C. Sírio Libanês de Goiânia no lugar de Jair da Rosa Pinto. Nesse jogo marcou seu primeiro gol. Teve que fugir de casa (e do pai) durante a madrugada, e a aventura é digna de missão impossível. Vale a pena ler...

LA:
Como e quando começa a formar a famosa parceria com o Rei do Futebol, Pelé?


CF:
Depois que Pelé retorna (campeão) da Copa da Suécia em 1958, e quando Pagão começa a perder a posição de titular. Pagão – que era genial e primeiro grande ídolo de Coutinho –, reclamava muito, e se lesionava mais ainda. Além disso, com a chegada de Coutinho (que era fisicamente muito forte) o Santos mudou sua forma de jogar. Enquanto o novo camisa 9 trombava com os zagueiros na área, Pelé ficava livre para dar show, e se consagrar como o Atleta do Século.

LA:
É verdade ou lenda que por se parecer muito com Pelé, até fisicamente, ele teria passado a usar uma fita branca em um dos braços?


CF:
Pelé e Coutinho, que adoravam vestir o uniforme branco do Santos ao jogarem sob a luz precária dos refletores de Vila Belmiro, realmente eram dois negros fisicamente muito parecidos no início. 

Tanto que o famoso narrador de futebol Ernani Franco – autor do apelido de Coutinho – pedia insistentemente que um dos dois criasse algo que os diferenciasse. 

Até que o camisa 9, lesionado após uma sessão de exercícios na barra, teve que colocar esparadrapos nos pulsos. 

E assim ficou, para a alegria dos torcedores e dos profissionais de rádio.


LA:
Coutinho chegou à seleção brasileira, mas acabou não sendo titular, em 1962. O que aconteceu?

Coutinho (agachado ao centro), em uma das formações da
seleção brasileira de 1962.

CF:
Assim como o ponteiro Pepe – que teve o azar de se machucar três semanas antes da Copa num amistoso contra o País de Gales -, Coutinho também se lesionou. Se ambos estivessem em boas condições, formariam o ataque dos sonhos – que começou jogando contra Gales –, com Garrincha, Coutinho, Pelé e Pepe. Quis o destino que Pelé também se machucasse na Copa do Chile.

LA:
Coutinho sempre foi avesso a entrevistas. Como foi fazer sua biografia?


CF:
Coutinho sempre foi muito reservado com repórteres e jornalistas em geral, mas jamais se furtou a dar entrevistas e a atender a imprensa. No meu caso específico foi uma benção de Deus eu ter a oportunidade de conviver com um homem de história tão rica, com companheiros tão especiais (e que dispensam maiores apresentações). Fizemos uma série de entrevistas, mais de uma dúzia, e ele sempre me atendeu de pronto e com muitíssima boa vontade. Parece ter guardado suas boas histórias para esse livro-documento, que também conta o período fantástico do Santos F.C., e da cidade de Santos, que agora está na moda por causa do pré-sal.

LA:
Recentemente a coluna de Monica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo divulgou nota dizendo que Coutinho e Pelé discutiram em um jogo e teriam dito um ao outro que não jogariam mais juntos? O que de fato aconteceu?


CF:
Essa história está no livro (rs), e novamente a vitima foi o Corinthians, que na era de ouro do time de Pelé e companhia, ficou 11 anos sem vencer os santistas. Nesta partida debaixo de imenso temporal no Pacaembu, Coutinho fora de forma, ficou plantado na área, e marcou 3 gols na vitória do Santos por 3 a 0. Pelé chamou Coutinho de fominha, história que os diverte até hoje.

LA:
O que incomoda Coutinho na relação com o Santos Futebol Clube? Recentemente ele proibiu sua aparição no documentário sobre o centenário do Santos, produzido pela cineasta Lina Chamie. Coutinho é o mais temperamental entre os ídolos santistas dos anos 1960? Antes de proibir sua aparição no documentário ele já havia impedido que seu nome fosse incluído no livro “Os dez mais do Santos”.


CF:
Coutinho – assim como vários jogadores geniais daquela época -, talvez tenham razão em pedir um pouco mais de reconhecimento e valorização por parte das várias diretorias do Santos e também de quem tratou do centenário. Acho que no fundo, os jogadores santistas se sentem um pouco marginalizados a despeito da superexposição de Pelé. Essa é uma opinião particular minha. E no caso do Couto, ele vive uma vida sossegado, sem badalações, e sempre foi assim. Ele nunca gostou de ser o centro das atenções, talvez por causa de sua timidez em público. Em particular e com os amigos ele é extrovertido e muito brincalhão. O livro mostra bem a personalidade do gênio da área.


LA:
De tantas histórias ouvidas por você para compor seu livro, qual o momento mais marcante na vida de Coutinho?


CF:
Você como brilhante e experiente biógrafo (que contou vidas riquíssimas como as de Telê Santana ou Leônidas da Silva) sabe o quanto é difícil escolhermos este ou aquele momento ou história. A obra de Coutinho confunde-se com a arte de Pelé, pois um era o espelho do outro, sem exageros. E as famosas tabelinhas - que se eternizaram como algo fora de série -, que nenhuma outra dupla de atacantes conseguiu fazer em time nenhum, talvez seja o ponto alto do livro.

LA:
Por que a escolha do título “9 de ouro – Coutinho, o Gênio da Área”?


CF:
Primeiro, que as gerações mais novas, talvez não tenham ideia do que o Santos dos anos dourados era capaz de fazer. A referência hoje é Neymar, Ganso...para os mais velhos, Romário, Ronaldo Fenômeno, Adriano Imperador. Se esses jogadores – espetaculares- receberam tais adjetivos, o que dizer de Pelé e Coutinho? Dentro da grande área, Coutinho era dono, soberano, e muitos jornalistas (como se verá no livro) comparam os craques do presente (ou passado recente) à genialidade do camisa 9 do Santos. E “9 de ouro” porque sou místico, e sei que é uma carta de tarô que traz muita sorte e coisas boas. E Coutinho merece tudo de bom.


Trechos da obra:

Brigas e intrigas (pg 67)


Em campo, Pelé e Coutinho se conheciam pelo olhar. Mas se xingavam também, principalmente quando um não concordava com a atitude do outro. Foi o que aconteceu, por exemplo, no dia 8 de outubro de 1966, durante o jogo contra o Corinthians, pelo Campeonato Paulista. O tabu continuava, não havia meios de o time do Parque São Jorge vencer a máquina santista. O radialista Vitor Moran, que acompanhou bem de perto a fase dourada do Santos, lembra com perfeição da história dessa partida.

Coutinho estava machucado, recuperando-se de mais uma lesão, mal podia correr. No dia anterior ao clássico, o centroavante estava relaxado, lavando o carro estacionado na calçada, bem em frente ao Estádio Urbano Caldeira. Foi quando Lula passou cabisbaixo. Coutinho puxou assunto, perguntando se o técnico estava preocupado com o jogo. Ouviu como responda: “O Corinthians não tem medo de Pelé, não. Eles têm medo de você.”

Lula, técnico do Santos.

O jogador começou a rir e disse que não era verdade. Além do mais, imaginava-se fora da partida, pois o médico havia liberado para jogar apenas 30 minutos. Coutinho se esquivava como um bom lutador de boxe, argumentando que estava gordo, fora de forma, muito acima do peso. Sabia que este era mais um daqueles truques que Lula usava para motivar os jogadores.

O treinador tanto fez que conseguiu convencer o atacante a acompanhar a delegação até o Pacaembu. No vestiário, Coutinho chegou a fazer um teste decisivo e foi aprovado, com restrições. Iria para o sacrifício, principalmente porque o gramado estava pesado, chovia a cântaros. Faria número em campo, enquanto Pelé achava que teria ter tarefa dobrada.
Em função dos problemas físicos, Coutinho teve que ficar plantado dentro da área adversária, como se fosse um poste. Mas, curiosamente, acabou por se dar muito bem: marcou três gols. Aos 21 minutos do primeiro tempo, o ponta-esquerda Edu tocou para Coutinho, que viu Pelé passando por ele, recebendo a marcação dos corintianos, inclusive do goleiro Marcial. Ao perceber a situação, ao invés de devolver para Pelé, o camisa 9, vendo o gol aberto, chutou e fez 1 a 0. Pelé ficou bravo, pois esperava receber o passe. Ao que Coutinho justificou: “A bola está dentro do gol e isso é o que importa”.


Seis minutos depois, fato semelhante aconteceu e Coutinho, que mal podia andar, chutou fraco, mas com efeito suficiente para a bola passar de forma indefensável pelo goleiro Marcial: Santos 2 a 0. Aos 38 minutos, novo gol de Coutinho e outra vez Pelé se desgastou, fez bico e terminou o primeiro tempo bravo. Xingava o companheiro sem parar, pois, mais uma vez, lutava pela artilharia do campeonato.

Quando o árbitro apitou o fim da primeira etapa, Pelé permaneceu em campo com a imprensa, enquanto o resto do time desceu para o vestiário. Foi quando Coutinho aproximou-se do técnico Lula e falou “que não jogaria mais com ele, pois o Negão estava reclamando muito”. Era apenas um desabafo.

Pelé chegou ao vestiário, também reclamando do companheiro: “Professor, é melhor jogar com dez, porque com Coutinho eu não jogo, tira ele.” O xerife Zito ainda tentou acalmar o ambiente, em vão. Lula, que vestia um macacão preto, como recorda Vitor Moran, caminhou pensativo para lá e para cá, enquanto todos esperavam pela reação do treinador.


Para surpresa de todos, Lula abaixou a parte de cima do macacão, mostrou a bunda grande e branca para todos e disse em alto e bom som: “Bom, se um não joga com o outro, então eu é que tô ferrado. Já que vocês querem me ´fudê`, pronto, tá aqui ó.

Foi uma gargalhada geral. Pelé e Coutinho dizem não se recordar do episódio, pois estavam certamente de cabeça quente. Mas o fato é lembrado saudosamente por alguns jornalistas que acompanhavam o time na época. O Santos retornou para o segundo tempo, com os dois em campo, e garantiu a vitória por 3 a 0, construída na primeira etapa, com os três gols do camisa 9.

O comentarista Mário Morais, da Rádio Tupi, falou surpreso ao microfone: “Isso é impressionante. Coutinho fez uma coisa que nem Pelé conseguiu na vida: jogou 90 minutos debaixo de chuva, saiu com o uniforme molhado, sim, porque não jogava de guarda-chuva, mas saiu com a chuteira, as meias, o calção e a camisa tudo branquinho. Ele praticamente não tocou na bola e por isso não dividiu com nenhum zagueiro adversário. Foi o pior homem em campo, ou seja, o Santos jogou com dez jogadores. Mas resolveu a partida.”

As dionisíacas tabelinhas (pg. 63)

Na mitologia, Dioniso é o deus das festas, da alegria, do vinho, dos prazeres, da dança, símbolo do teatro grego. O teatro está para a sociedade como uma representação viva das manifestações humanas, da tragédia e da comédia. Assim como as tabelinhas mágicas e dionisíacas da dupla Pelé e Coutinho estão para o futebol.

Pacaembu, São Paulo, 25 de janeiro de 1964. Por falta de espaço no calendário da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), Santos e Bahia fazem o primeiro jogo decisivo da Taça Brasil de 1963. O estádio estava lotado para ver o time santista, bicampeão mundial, pronto para mais um show de bola. Foi o que aconteceu, pois a dupla estava endiabrada. O jornal A Tribuna de Santos destacou uma das tabelinhas, que ficou na memória de muitos torcedores. Quem viu o lance, aplaudiu de pé:


“A dupla veio tocando a bola pelo alto, desde o meio de campo. Pelé matou no peito, deu um chapéu em um zagueiro e devolveu para Coutinho, que fez o mesmo e tocou de volta. Sem espaço para dominar, Pelé subiu e tocou de cabeça. Coutinho repetiu o gesto. Pelé cabeceou de novo e assim foram tabelando e se aproximando da pequena área do Bahia. Os zagueiros apavorados não acreditavam no que viam, até a conclusão da jogada.”

Este lance não resultou em gol, mas deu mais sabor e brilho ao placar. Ao final da partida, o Santos goleou o Bahia por 6 a 0, com dois gols de Pepe, dois de Pelé, um de Coutinho e um de Mengálvio. No jogo seguinte, em Salvador, o Santos venceu por 2 a 0 e se tornou tricampeão brasileiro.

                                         Jogo do Santos contra o XV de Piracicaba. A dupla
                                         Pelé e Coutinho estava impossível.

Enganam-se aqueles que acham que as jogadas produzidas pela dupla vinham dos laboratórios dos treinos. Pelé diz que as tabelinhas aconteciam quase que por telepatia, ao acaso:

Nós treinávamos futebol e jogadas de ataque, mas as tabelinhas saiam na hora. Os treinamentos não eram como hoje em dia. Para nós, nossas jogadas eram muito simples. Aí eu perguntava para o Coutinho: ‘se o Dorval pegar a bola pela ponta direita, quem vai na frente, eu ou você?’ Ele dizia: ‘deixa que eu vou, pois eu fico mais na frente, no primeiro pau’, e eu me posicionava no segundo pau, aguardando o cruzamento da bola na área.”

Sobre o autor:

Carlos Fernando Schinner, profissional de rádio e televisão (desde 1979) é radialista, jornalista, escritor e publicitário. Narrador esportivo das tevês Bandeirantes, ESPN-Brasil, Sportv, Directv, Cultura, Record e Gazeta, e das rádios Globo, Record e Gazeta de São Paulo. Participou das transmissões de quatro Copas do Mundo de futebol, quatro Jogos Olímpicos, além dos Jogos Panamericanos, esportes motorizados e X-Games. Âncora da rádio CBN de 1991 a 1998 e apresentador de programas da rádio Globo de São Paulo. Atualmente trabalha no canal Bandsports e na Rádio Bandnews FM, ambas do Grupo Bandeirantes de Comunicação. Criou o primeiro Curso de Narração Esportiva (CNE) em rádio e televisão, no Senac-SP, em 2000. É autor dos livros Manual dos Locutores Esportivos (Pandabooks, 2004) e da biografia Rui Viotti – A arte de falar com o coração (Cia dos Livros, 2010).


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