terça-feira, 22 de maio de 2012

Um Diamante Tricolor


Há 71 anos, na tarde de um domingo, dia 24 de maio, Leônidas da Silva, o popular Diamante Negro fazia sua estreia pelo São Paulo Futebol Clube. Um fato que mobilizou os torcedores de todos os clubes paulistas e toda a mídia da época. Tanto que o clássico disputado contra o Corinthians tornou-se recorde de público do estádio do Pacaembu com mais de 70 mil pessoas. Todos queriam ver o famoso Diamante Negro jogar pela primeira vez com a camisa tricolor.

A partir deste dia, o SPFC passava a fazer parte do seleto grupo dos chamados “grandes” de São Paulo. Durante a década de 1940, o SPFC tornou-se quase imbatível chegando a ser chamado de “Rolo Compressor”, na campanha de 1946.

Leônidas morreu em 2004, aos 90 anos, deixando seu nome inscrito para sempre na história do futebol paulista e brasileiro. Abaixo, Literatura na Arquibancada resgata como tudo isso começou, a partir de sua chegada ao futebol paulista. O trecho faz parte do livro “Diamante Negro” (Editora Cia dos Livros, 2010)

O Diamante tricolor

Leônidas da Silva carregado pela multidão em sua chegada.

Leônidas não tinha ideia de como seria sua recepção ao desembarcar em São Paulo, mas logo que o trem parou na Estação do Norte, no bairro do Brás, pôde ver pela janela que o clima era de festa. De onde estava a visão que tinha era restrita, mas ao descer as escadas, Leônidas não acreditou no que seus olhos viam: naquela tarde de sexta-feira, 10 de abril de 1942 quase dez mil pessoas se espremiam na frente da estação para receber o novo ídolo.

Uma multidão se arrastava atrás do craque do futebol brasileiro. Todos que ali estavam pareciam não acreditar que aquele era Leônidas da Silva em carne e osso. O jogador foi levado pela multidão e em poucos minutos estava nos ombros dos torcedores, como se tivesse acabado de conquistar um título. O mais empolgado, dentre todos, era um personagem muito famoso no jornalismo esportivo, o locutor Geraldo José de Almeida, são-paulino doente, que fez questão de carregá-lo nas costas.

Friedenreich e Leônidas da Silva.

Os dirigentes do São Paulo pretendiam levar Leônidas para a sede do clube onde seria apresentado oficialmente a seus torcedores. Mas não precisaram ter esse trabalho, os próprios torcedores incumbiram-se de levá-lo nos ombros pelas ruas do centro da cidade até a sede do clube, na Rua Dom José de Barros. A cidade inteira foi ver Leônidas de perto com seu sorriso largo, brilhante, vestido com um terno rigorosamente alinhado.

Leônidas acenava para todos os lados. Estava emocionado pela recepção. Mesmo com toda a fama, não podia esperar uma festa tão grande assim:

“Eu me sentia como se fosse jogar pela primeira vez na vida. Depois de oito meses de inatividade até meus ossos rangiam”.

Quem não gostava de futebol não sabia quem poderia ser aquele homem carregado por um mundo de pessoas. O próprio Leônidas narra uma piada da época por causa da recepção tão calorosa: Contam que uma senhora idosa, vendo a multidão carregando um homem de cor nos braços dissera: Será o Benedito?!


Não era o Benedito, muito menos um “João Ninguém”, tratava-se de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, que chegava para jogar no São Paulo Futebol Clube. Esse era o maior negócio já realizado pelo São Paulo em sua curta existência (até 1935 era chamado de São Paulo da Floresta).

A diretoria são-paulina decidiu decidira gastar tanto dinheiro com Leônidas porque precisava entrar definitivamente para o rol dos grandes clubes de São Paulo. Até o ano de 1942, ou o Palmeiras – que na época chamava-se Palestra Itália –, ou o Corinthians, é que acabava conquistando o título de campeão paulista. Leônidas era o jogador de que o São Paulo precisava para dar fim à hegemonia de Corinthians e Palestra. E era isso que o torcedor tricolor mais desejava.


Leônidas voltou a viver uma situação parecida à de alguns anos antes, ao chegar ao Flamengo, em 1936, e encontrar o time na fila de espera de um Campeonato Carioca. Somente em 1939 tinha conseguido conquistar um título para o Flamengo. No São Paulo, as cobranças seriam ainda maiores. Se Leônidas fora capaz de tirar o Flamengo da fila depois de 10 anos, por que não faria a mesma coisa no São Paulo, que não sabia o que era um título havia 11 anos?

O Diamante tinha consciência de que suas responsabilidades seriam bem maiores dali para frente. E para que essas obrigações não pesassem tanto, a primeira coisa a fazer era recuperar a forma física, pois não disputava um jogo oficial havia quase um ano. Estava gordo, totalmente fora de forma e para poder jogar tudo que sabia, era fundamental estar bem. Seu desempenho dependia muito de seu condicionamento físico.

O Campeonato Paulista de 1942 estava em andamento e a expectativa geral era saber o dia em que Leônidas estrearia. Do jeito em que o craque se encontrava, o pessoal do São Paulo achava que seria loucura lançá-lo no time e por isso resolveu esperar. Mas como esperar, se o que os torcedores mais queriam era ver Leônidas em campo? Foi difícil explicar à torcida que o craque ainda não tinha condições de jogo. Para os torcedores, um jogador que custara a fortuna de 200 contos tinha de entrar em campo e mostrar tudo o que sabia imediatamente.


O que os dirigentes do São Paulo e muito menos os torcedores não sabiam era que o estado físico de Leônidas era muito pior do que pensavam. Nos primeiros dias de treino, ele era obrigado a se exercitar com camisas e macacões inteiriços de lã para perder peso mais rápido. Essa experiência não ajudou muito e o clube teve que contratar uma nutricionista para resolver o problema do jogador, que tinha muita facilidade para engordar. Só depois de algumas semanas é que teria condições de entrar em campo e realizar os primeiros treinos coletivos com bola. A sensação que teve, ao sair de campo, foi de que havia desaprendido a jogar.

Pouco a pouco, porém, Leônidas começou a recuperar sua melhor forma física. Só faltava o entrosamento com o restante da equipe para que pudesse estrear. Contudo, surpreendeu-se com a forma de jogar do futebol paulista e pensou que não conseguiria o mesmo desempenho que tinha no futebol carioca:


“No íntimo sabia (...) que não se tratava apenas de um problema de entrosamento na equipe, mas de outro, qual seja, um estilo diferente de futebol, mais rápido, talvez devido ao próprio clima. Lembro-me de que nos treinos, quando eu conseguia livrar-me de um adversário, procurando construir a jogada, via-me novamente acossado por aquele que já havia batido. Isto diz bem a movimentação dos atletas paulistas. Apesar de toda a experiência e bagagem trazidas, cheguei mesmo a descrer da minha recuperação”.

Esse receio surgiu no momento em que tinha aceitado a proposta dos paulistas em trocar o Rio de Janeiro por São Paulo. Nascido e criado no Rio, um autêntico carioca da gema, era lógico que nos primeiros dias se assustaria com a disciplina de trabalho do povo paulista, que se estendia até mesmo para os campos de futebol.

Logo que assinou contrato com o São Paulo, Leônidas foi morar num apartamento na zona sul da cidade, na Rua Vergueiro, com sua mãe, e já separado da primeira mulher, Lourdes, que ficara no Rio. Sua rotina diária era de casa para o clube e do clube para casa, nada de praia, nada de conversas no Café Rio Branco. Tinha que entrar no ritmo da cidade e entrar em forma o mais rápido possível. Os torcedores continuavam cobrando sua estreia, o campeonato já estava na quarta rodada e nada de Leônidas jogar. Não dava mais para esperar, os dirigentes aguardavam apenas o primeiro clássico do torneio para lançá-lo oficialmente.


Não demorou muito e o clássico apareceu. A tão esperada estreia seria contra o Corinthians, que no ano anterior havia cedido sete jogadores para a seleção paulista campeã brasileira de 1941. Na concentração para a partida, Leônidas descobriu mais uma novidade do futebol paulista: ele teria que ficar 15 dias longe de sua família e dos amigos. O São Paulo Futebol Clube tinha uma disciplina rígida e controlava rigorosamente o dia a dia de seus atletas, principalmente nos períodos que antecediam os grandes encontros. O clube levava todo o grupo para uma casa nas imediações do Estádio do Pacaembu e providenciava o que fosse preciso para manter os jogadores longe de preocupações. Passeios, caminhadas pelo bairro, espetáculos de teatro, circo e mesmo revistas e jornais eram levados pelos próprios dirigentes. Tudo para evitar qualquer pretexto de fuga da concentração.

No dia 24 de maio de 1942, Leônidas vestiria pela primeira vez a camisa do São Paulo Futebol Clube. A partir das primeiras horas da manhã o movimento dos torcedores que se dirigiam ao Pacaembu já era grande. Às 10 horas, os portões foram abertos. Seis horas antes de o jogo começar, corintianos e são-paulinos acotovelavam-se em longas filas em busca de um lugar privilegiado para acompanhar a estreia de Leônidas. Ninguém queria ficar de fora desse verdadeiro acontecimento. Até mesmo torcedores dos outros times foram ao Estádio do Pacaembu. Não se passava por uma roda de conversa sem que o nome de Leônidas não estivesse no meio.


O jornal A Gazeta Esportiva, falando desse jogo, dá bem a medida do que representou esse dia para o futebol paulista:

“Impressionante, inesquecível, jamais presenciado no futebol brasileiro. Pode parecer exagero, mas quem esteve naquele dia no Estádio do Pacaembu jamais se esqueceu daqueles momentos: pela primeira vez, o Pacaembu não se prestou apenas para o futebol e sim também para... pic-nics [sic], sim, porque milhares de afeiçoados desde as dez horas da manhã, quando foram abertos os portões, começaram a abarrotar o estádio, e lá para o meio-dia não eram poucos os que almoçavam, tendo como mesa os degraus do colosso de cimento”.

É difícil imaginar que algum dia os torcedores iriam para um estádio e almoçariam em plena arquibancada – uma cena impraticável nos dias de hoje. Mas, para ver Leônidas, o torcedor fazia de tudo. O jornal segue o relato impressionante daquela tarde:

“O movimento maior foi entre as 11 e meio-dia. Às 14 horas, os bondes e os ônibus não estavam mais lotados. Até às 13 horas, grande parte das 70 mil pessoas já estava no estádio. Não faltou quem subisse até a estátua do atleta olímpico, até mesmo o pedestal estava tomado de gente. Às 14horas os portões estavam fechados. Tudo superlotado”.


Setenta mil pessoas, para ser mais preciso, 72.018 pagantes. No dia da estreia de Leônidas da Silva, o Estádio do Pacaembu batia um recorde que até hoje não foi quebrado (em 1977, no jogo entre Santos e Palmeiras, o público no Pacaembu chegou a 68.327). O depoimento do repórter de A Gazeta, responsável pela matéria do jogo chega a ser cômico: “Parecíamos figos secos em cestas (...) para se ter ideia da loucura, o público que estava no morro das avenidas, dava para encher o Parque São Jorge”.

Antes da grande partida que seria a estreia de Leônidas, os torcedores que se espremiam nas arquibancadas do Pacaembu acompanharam duas preliminares. A primeira entre os amadores do São Paulo e do Corinthians, que terminou 3 a 2 para o alvinegro, e a segunda entre o Comercial e o Espanha, vencida pela equipe de São Paulo por 4 a 2. Apesar de tantos gols, a expectativa era mesmo ver Leônidas em campo e de preferência marcando seus gols espetaculares.

Joreca

Ninguém aguentava mais tanta espera, quando o árbitro Jorge Lima, também conhecido como “Joreca”, apitou o início da partida. Faltavam 10 minutos para as 4 da tarde. Leônidas deu o pontapé inicial para o São Paulo e o público foi ao delírio. Até essa partida, Corinthians e São Paulo estavam invictos no campeonato. O jogo foi repleto de emoção, do começo ao apito final. Já nos primeiros minutos, o Corinthians marcou o seu gol deixando os torcedores tricolores calados. Os corintianos provocavam os inimigos: Cadê o tal de Leônidas?

A recomendação do técnico corintiano era para que Brandão, um dos melhores jogadores da equipe, não descolasse de Leônidas. E foi assim durante os 90 minutos. Onde estivesse Leônidas, logo aparecia Brandão para pressioná-lo. Mas o São Paulo não era só Leônidas. Tinha Valdemar de Brito, um craque, e outro experiente atacante, Luizinho, o doutor Luiz de Mesquita de Oliveira. Leônidas ressentia-se do ritmo do jogo, rápido, eletrizante, uma forma à qual não estava acostumado. Bastava tocar na bola para a torcida corintiana pegar no seu pé.

Leônidas estava visivelmente fora de forma, mas tinha que seguir em frente. Decorridos mais de 30 minutos de jogo, Luizinho bateu um escanteio. Mesmo com sua baixa estatura, Leônidas bem colocado na área, subiu de cabeça e desviou sutilmente a trajetória da bola; Lola quase de dentro da pequena área chutou forte e empatou a partida. Não era um mau começo para quem não jogava há tanto tempo.

O primeiro tempo terminou com empate em 1 a 1; nas arquibancadas os torcedores discutiam a atuação de Leônidas. Para os corintianos, ele não era nada daquilo que tanto se falava; para os são-paulinos restavam dúvidas se aquele era o verdadeiro Leônidas, o Leônidas de 200 contos.

Servílio

O segundo tempo começa com o Corinthians passando a frente no placar, com um gol do centroavante Servílio de Jesus, o “Bailarino”, pai do outro Servílio, que anos depois jogaria pelo Palmeiras e que até aquele instante era a maior figura do jogo. Mas Leônidas era a estrela do espetáculo e mesmo sem estar brilhando, todas as atenções estavam voltadas para suas jogadas. O torcedor tricolor queria um gol, um único golzinho para arrasar com a banca dos corintianos. Podia até perder, não fazia mal, contanto que Leônidas fizesse o seu. Mas estava difícil, a marcação continuava forte. A descrição da jogada do gol de empate do São Paulo feita pelo jornal A Gazeta Esportiva mostra bem a preocupação que a defesa corintiana tinha com Leônidas:

“Depois de passar por momentos difíceis entre a defesa contrária, Leônidas conserta logo as coisas e põe em ação Pardal. Este, já na área, devolve o couro a Leônidas. Imediatamente o “Magia” improvisa um lance típico, fazendo esperar o seu tiro de perto. Dino não espera nada. Advinha do que é capaz o centroavante contrário e, como um tigre, se arroja aos seus pés para lhe travar o chute! Nesse seu providencial arrojo, Dino salva, talvez o tento, mas dá margem a um escanteio, que é fatal para o Corinthians. Cobra-o Pardal, alto, forte: o couro atravessa toda a meta e matematicamente é alcançado de cabeça por Luizinho junto ao poste e põe dentro – dois a dois... estoura outra vez o estádio”.

Teixeirinha

Leônidas não marcou, mas, como no primeiro gol, o lance decisivo passara por ele. Os torcedores do São Paulo acreditavam que o jogo terminaria naquele empate até que, aos 34 minutos do segundo tempo, Leônidas, de novo, iniciava a espetacular virada são-paulina. Dos seus pés saiu o chute forte que acabou encontrando o ponteiro Teixeirinha quase na linha do gol; aí foi só tocar, era o terceiro gol do São Paulo.

Os torcedores vibraram, Teixeirinha marcou, mas era Leônidas que merecia ter feito aquele gol. Os minutos finais transformaram-se num drama, porque Valdemar de Brito machucou-se e foi obrigado a abandonar o campo; o São Paulo teria que terminar a partida com dez homens, pois não eram permitidas substituições. Foi um sufoco geral. Faltando 3 minutos para o fim do jogo o Corinthians empatou, 3 a 3.

Leônidas não conseguiu fazer o seu gol. Até o último minuto, Brandão foi implacável na marcação; pouco antes de o árbitro apitar o fim do jogo, Leônidas estava com a bola caminhando em direção ao gol, quando apareceu Brandão e fez uma falta violenta. A torcida corintiana vibrava. Brandão não deixou Leônidas brilhar.


No dia seguinte os jornais tinham avaliações diferentes, principalmente sobre a tão esperada atuação de Leônidas. Para A Gazeta Esportiva:

“O jogo foi eletrizante, teve toda a tensão, os júbilos, as tristezas, a generosidade, a combatividade, o estilo e o clima dos grandes acontecimentos, tanto para o público como para os jogadores (...) Em nenhum momento a peleja deixou de ter vibração... foi toda ação, nervos e dinamismo! Que partida!!!”.

Sobre a atuação de Leônidas o jornal foi taxativo:

“Não há dúvida, Leônidas será em São Paulo o mesmo ”az” que foi no Rio. O tabloide A Hora parecia ter acompanhado a outra partida. Para o jornal, Leônidas não jogara nada e preferiu destacar a atuação de seu implacável marcador, Brandão. Mas as críticas tinham lá uma razão. Era fácil perceber que o tabloide talvez fosse escrito por uma equipe de corintianos, tanto é que alguns dias antes da estreia de Leônidas, o jornal estampara a seguinte manchete:

São Paulo compra Bonde de 200 contos


Os redatores de A Hora queriam dizer que o São Paulo tinha comprado um jogador velho e gordo, e usaram a expressão muito em voga naquela época para definir um mau negócio, um conto do vigário, que nascera de uma piada, segundo a qual um mineiro, a passeio em São Paulo, teria comprado de um vigarista um bonde da Light.

Lógico, portanto, que após a estreia o pessoal de A Hora não mudasse de opinião. Fizeram inclusive uma brincadeira que se espalhou pela cidade, principalmente entre os torcedores do Corinthians. O comentário irônico dizia que Brandão tinha sido preso pela polícia com um diamante no bolso. A piada pegou e Leônidas, o Diamante Negro, ficou furioso com a gozação. Mesmo assim, foi humilde ao admitir que não fizera uma grande partida:

“Não joguei nada, mas Brandão também não, por isso o Corinthians também não venceu”.

Independente do resultado e da atuação de Leônidas, em apenas um jogo o investimento do São Paulo começava a ser recuperado. A renda atingiu a marca recorde de 245 contos (R$ 200.000,00). Descontadas todas as despesas e feita a divisão entre os clubes, o São Paulo recebia, em uma única partida, quase 80 contos, praticamente metade do que gastara na compra de Leônidas.


Os jornais também faturavam alto em cima do prestígio do craque. A Gazeta Esportiva vendeu um quarto de página para publicar em destaque o anúncio:

Cigarros Leônidas
Campeão dos cigarros de $600
Cigarros Leônidas é um produto
da fábrica Sudan

Se o jornal faturava, o que não dizer da empresa fabricante dos cigarros. Leônidas era dinheiro em caixa, só os dirigentes do Flamengo não tinham visto isso, como lembra bem Mário Filho, em seu livro O Negro no Futebol Brasileiro:

“O melhor anúncio era um anúncio de Leônidas, fosse o que fosse. De uma pasta de dentes, o sorriso de Leônidas; de uma loção para cabelo, o penteado de Leônidas, repartido de lado. Até de geladeira. Leônidas recebia geladeiras, rádios, das melhores marcas em troca de uma fotografia ao lado de um rádio, de uma geladeira. Um anúncio que chamava atenção, não havia quem deixasse de ler. Quando uma casa comercial queria arrumar uma vitrine de sucesso, já sabia. Botava um retrato de Leônidas lá dentro, apinhava-se gente na calçada, o trânsito ficava impedido”.


Leônidas, aos poucos, se adaptava à nova vida na capital paulista, principalmente ao frio e à tradicional garoa. Apesar do prestígio, todos os dias pegava o bonde no Largo São Bento para ir treinar no Canindé, campo de treinamento do São Paulo. Embora muito vaidoso, não gostava da ostentação de outros jogadores, como Remo, que preferia chamar um táxi daqueles que faziam ponto diante do famoso Ponto Chic, conhecido pelos seus sanduíches bauru.

A repercussão da estreia não tinha sido das melhores, mas Leônidas estava feliz e sabia que só com a sequência das partidas conseguiria voltar a jogar todo seu futebol. Só não esperava que, já no segundo clássico do campeonato, duas semanas depois do jogo contra o Corinthians, sua reputação de craque seria definitivamente comprovada. Se havia alguma dúvida quanto à volta dos seus gols espetaculares, a resposta veio no jogo contra o Palmeiras, o Palestra Itália, na tarde de 14 de junho de 1942.

Único registro de Leônidas executando a
jogada "bicicleta", em 1947.

O São Paulo perdeu o jogo por 2 a 1, mas ninguém jamais esqueceria o único gol que o São Paulo fez. Aos 44 minutos do primeiro tempo, Leônidas marcava pela primeira vez no futebol paulista um gol de bicicleta. A jogada deixou os torcedores que estavam no Pacaembu de queixo caído. A maioria já tinha ouvido falar de sua tradicional jogada mas, ao vivo, era diferente. Os torcedores tinham guardado na memória a locução de Gagliano Neto, na Copa de 38, quando descreveu a bicicleta contra o gol tcheco. Agora, todo mundo passou a entender por que Leônidas ficara tão famoso. A partir daquele instante, ninguém mais duvidava do que seria capaz de fazer dentro de um campo de futebol, nem mesmo os críticos que tanto ironizaram sua atuação de estreia.

Para acabar de vez com aquela história de bonde, o locutor da Rádio Record, Geraldo José de Almeida, decidiu imortalizar a jogada gritando com toda a força:

“De bicicleta... De bicicleta meus amigos... Taí o bonde... o bonde de 200 contos marcou um gol de bicicleta...”

                                              Narração do gol de bicicleta feita por Geraldo José
                                              de Almeida. Antes, depoimento rápido de Luiz Ernesto 
                                              Kawalll, do Museu da Voz, descobridor da raridade.
                                                    
Leônidas tinha certeza de que a única forma de calar seus críticos era jogando futebol.

Naquele jogo contra o Palestra teria que enfrentar novamente a marcação cerrada de seus adversários – como já havia acontecido com Brandão, o Palestra colocava dois gigantes na sua cola. Primeiro Og Moreira e, se escapasse, teria sempre a companhia de Begliomini. E foi assim mesmo, cercado por dois adversários, que Leônidas fez seu primeiro gol de bicicleta. Essa seria a primeira, mas não a última bicicleta no time tricolor.

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