quinta-feira, 3 de maio de 2012

30 anos da "Tragédia do Sarriá"


Trinta anos se passaram e até hoje ela é a seleção mais discutida entre torcedores e jornalistas. Nem mesmo a fatídica derrota para a Itália fez mudar a idolatria pela Seleção Brasileira de 1982. Uma paixão muitas vezes “cega”, mas que agora é, finalmente, revista em seus mínimos detalhes, pelo livro “Sarriá 82 – O que faltou ao futebol arte?”, mais um lançamento da Editora Maquinaria com patrocínio da MPE – Engenharia e Serviços.

Os autores são dois cariocas apaixonados pelo futebol, Gustavo Roman e Renato Zanata Arnos. A obra tem ainda prefácio de Mauro Beting e textos de apresentações de Lédio Carmona e Mauro Cezar Pereira. Evidentemente, os personagens centrais desta seleção não poderiam ficar de fora. Foram ouvidos os jogadores Zico, Júnior, Leandro, Batista, Oscar, Paulo Isidoro, Adílio e Reinaldo, além de uma enorme pesquisa em acervos de jornais, revistas e livros. Outra ferramenta de pesquisa importante foi o acervo em vídeo de jogos da Seleção Brasileira de Gustavo Roman, um dos maiores do mundo.

O livro deve ser lançado próximo da data em que o Brasil acabou desclassificado pela Itália, na Copa de 1982, em 5 de julho. Enquanto isso, apresentamos as observações dos jornalistas convidados pela dupla de autores sobre o conteúdo da obra. Primeiro, Mauro Cezar Pereira, comentarista dos canais ESPN, responsável pela “orelha” do livro e logo a seguir, Lédio Carmona, comentarista do canal SPORTV, que escreveu a “quarta capa” da obra. E mais abaixo, uma bate papo com um dos autores, o jornalista Gustavo Roman.


“O Brasil não ganhou a Copa disputada na Espanha, mas entrou na história. Como húngaros de 1954 e holandeses de 1974, os “canarinhos” de 1982 serão, pela eternidade, considerados superiores à maioria dos que levantaram o troféu. Mas por que perderam? O que explica os 2 a 3 protagonizados por Paolo Rossi?

Fatalidade, azar, casualidade, um dia ruim...Desculpas são muitas, e fáceis de criar. Difícil é entender o que há por trás de um desfecho tão surpreendente para a maioria massacrante dos que acompanhavam, torciam e se deliciaram com o talento de Leandro, Júnior, Falcão, Cerezo, Zico, Sócrates, Éder...

O triangular foi aberto pela Argentina, campeã mundial e reforçada pelo prodígio Maradona. Era favorita ante a Itália, que não vencera na primeira fase. Mas o calcio mostrou sua velha faceta, fingir-se de morto para inesperadamente, apunhalar o inimigo. Assim, merecidamente, a Azurra derrotou a albiceleste.

No duelo seguinte, o Brasil superou os rivais. No programa noturno da TV Globo, debatedores quase gargalharam quando Zezé Moreira alertou para as virtudes dos italianos, próximos oponentes dos brasileiros, que jogariam por um empate em Barcelona.

Paolo Rossi, o carrasco brasileiro.
O experiente técnico era um observador de Telê Santana, e notou que a Azurra renascera. E tinha ótimos jogadores. Como Rossi. O “Bambino D’Oro” escolheu a seleção do momento como vítima para despertar e disparar sua série de tentos que conduziriam a Itália ao terceiro título.

Zezé tinha razão. E avisou antes. Mas as explicações vão além daquele quase ignorado alerta do velho mestre, homem que armava uma sólida defesa como poucos.

Algo que faltava à seleção de Telê, defensor de nobres ideais, mas que atingiria a maturidade como treinador apenas algum tempo após a derrota no Sarriá.

Nas próximas páginas, você entenderá porque a Seleção de Telê estava longe da perfeição. Conhecerá seus defeitos, vulnerabilidades, pontos fracos explorados pela Itália em 1982. E perceberá isso não apenas graças às análises dos autores, mas também pelas palavras dos atletas. Sim, se pudessem voltar lá, eles fariam diferente. Eu também”.

“Quanto mais o tempo passa, novas teorias surgem para explicar porque aquela fantástica Seleção Brasileira perdeu a Copa. Qual é o enigma da Tragédia do Sarriá? O ótimo livro dos amigos Gustavo Roman e Renato Zanata Arnos é a esperança diante desse mantra interrogativo. Roman, sobrenome de craque argentino, e Zanata, referência a um clássico apoiador brasileiro nos anos 70, estão dispostos a desmistificar esses fantasmas. Roman estuda jornalismo. Zanata é professor de História. Ambos amam o futebol. E se transportaram para os anos Pré-Mundial 82 e até a Copa da Espanha para tirar todas as nossas dúvidas. Viram e reviram os jogos. Entrevistaram personagens e testemunhas. Entraram dento da história. Eu aposto nessa viagem, como sempre apostei no mega-time de Telê Santana”.

Literatura na Arquibancada:
Qual a justificativa de rever a trajetória da seleção brasileira de 1982 em busca de respostas para a eliminação contra a Itália?

Gustavo Roman:
Aproveitamos o fato de a derrota estar completando 30 anos e resolvemos desmitificar alguns pontos em relação àquela seleção. É claro que, com a bola nos pés, era um time lindo de se ver jogar. Tínhamos quatro gênios (Zico, Sócrates, Falcão e Júnior) além de outros grandes jogadores (Leandro, Luisinho, Cerezo). Depois de 1970 esta foi individualmente a melhor seleção brasileira que se formou. Infelizmente, taticamente, não podemos dizer o mesmo. Então, posso dizer que a justificativa principal da obra é exaltar, onde o time precisa ser exaltado e ao mesmo tempo, criticar a parte tática da equipe.

LA:
Como foi o processo de produção da obra? (tempo, métodos utilizados, acervos, etc)

GR:
A obra durou cerca de seis meses para ser concluída. O tempo foi um pouco maior porque assistimos as partidas do Brasil de 77 até 82, para entendermos o processo de formação da equipe. Basicamente, nós atuamos em duas frentes. A primeira, revendo os vts dos jogos (que eu possuo em meu acervo) e a segunda fazendo pesquisas em livros, revistas, blogs, sites e jornais. E, claro fazendo as analises táticas.

LA:
Existem novos fatos que explicam a derrota brasileira para a Itália na Copa de 1982?

GR:
Acho que existe uma análise em todo o processo. Posso citar como exemplo, o problema da ponta direita. Tita e Paulo Isidoro passaram praticamente os dois anos de preparação para a Copa revezando-se na posição.

Paulo Isidoro
Na estreia da Copa, entra o Dirceu e dali em diante o Falcão. Combinou-se de haver um revezamento para ocupar aquele lado do campo. Entretanto, segundo os próprios jogadores, isso sequer foi treinado. Além disso, ao revermos e analisarmos o videoteipe dos jogos, conseguimos tirar aquela memória seletiva, na qual lembramos apenas dos méritos daquele time, nos esquecendo dos equívocos.

LA:
Quais as maiores virtudes e os maiores defeitos da seleção brasileira de 1982?

GR:
Acho que a grade virtude daquele time foi colocar em campo os melhores de cada posição com a bola nos pés. Claro que vai haver grande discussão em torno do nome do Serginho e do Valdir Peres, mas 95% do time era formado pelos melhores jogadores, tecnicamente falando.


Comissão Técnica da seleção brasileira
O grande pecado daquela seleção foi a falta de uma estrutura tática mais sólida (decorrente da mudança do posicionamento em cima da hora do mundial). Os avisos foram dados durante a preparação, quando a falta de cobertura dos defensores já era um problema.

LA:
No texto assinado no livro pelo comentarista Mauro Cézar Pereira, ele cita: “Fatalidade, azar, casualidade, um dia ruim...”. Para vocês, autores, o que aconteceu?

GR:
Na realidade, a Itália tinha um grande time. E naquele dia, além de ter sido mais eficiente, conseguiu jogar dentro de suas características. Vale lembrar que o Brasil jogava com a vantagem do empate e a Azurra teria que atacar.

Porém, não conseguimos atuar nem 10 minutos com essa vantagem. Isso fez com que os italianos ficassem a vontade, jogando da maneira como gostavam, fechados, explorando os contra-ataques. E também tivemos alguns erros individuais naquele dia que prejudicaram, e muito a seleção.

LA:
A seleção de 1982, como toda e qualquer seleção, não era “perfeita”. O que faltava aquele grupo?

GR:
Faltou um pouco mais de estrutura tática. Um esquema melhor definido, treinado. Com a qualidade individual que tínhamos, se tivéssemos atuado de maneira estruturada, provavelmente teríamos vencido a Copa.

LA:
Ao afirmar que "faltou um pouco mais de estrutura tática”, pode-se dizer que Telê falhou?

GR:
Não sei falhar é a melhor palavra. O Telê, todos sabem, era adeptos de inúmeros coletivos para acertar o time. E ele passou dois anos preparando o time de uma maneira e na hora da Copa, entrou com outra. O próprio Zico fala no livro que o Paulo Isidoro deveria ter sido titular no mundial, nem que fosse no lugar do galinho mesmo, tal a sua importância tática. O Leandro passou a Copa abandonado por lá. Outra coisa que atrapalhou foi a indefinição do centroavante. Mas acho falhar muito forte. Ele talvez tenha se equivocado. E tudo isso serviu pra ele atingir o ápice a maturidade como treinador quase uma década depois, no São Paulo.

LA:
Por que se criou quase um “mito” em torno dessa seleção de 1982, mesmo derrotada na Copa?

GR:
Porque foi a última seleção a atuar de forma romântica. Atacávamos mesmo podendo nos resguardar um pouco mais. Além disso quem não gostou de ver Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Leandro, Cerezo, Éder e Luisinho atuando juntos. Eram jogadores fantásticos. Infelizmente, nem sempre vence quem tem mais qualidade.

LA:
Levou-se muito tempo para que se reconhecessem as virtudes da seleção italiana naquele jogo e naquela Copa. Conseguiram resgatar algo (com e sobre eles) no livro?

GR:
Damos todos os méritos a Azurra. Ela atuou de maneira inteligente, taticamente muito bem definida para explorar as fraquezas do Brasil. E ninguém pode dizer que Antognioni, Tardelli, Zoff e, especialmente Conti (que para nós foi o melhor jogador daquela Copa) eram grandes jogadores. Com a vantagem de ter um esquema tático sólido por trás.

LA:
O resultado negativo na Copa influenciou de alguma maneira o estilo de jogo de futuras seleções (brasileiras e de outros países)?

GR:
Sem dúvida. O futebol mundial costuma se basear em quem vence. Infelizmente, entendeu-se errado o que aconteceu. A Itália, mesmo defensiva, até por questões culturais, era um baita time. Equivocadamente, passou a colocar-se o time todo atrás, sem alternativas para atacar. Não tenho dúvida de afirmar que se o Brasil tivesse conquistado a Copa, o modelo teria sido o futebol ofensivo.

LA:
O que seria, afinal, o tal rótulo de “futebol-arte” que aquela seleção ganhou?

GR:
Futebol-arte quer dizer um time técnico, de maneira extremamente ofensiva, jogado com a bola nos pés. Devido a grande qualidade dos jogadores, via-se muitos dribles, jogadas individuais, passes em profundidade. Enfim, acho que equivale ao futebol em sua essência.

LA:
O livro tem participações especiais de Mário Marra (CBN), André Rocha e Ariel Judas (correspondente argentino em Nova York). O que trazem exatamente?

GR:
São participações muito importantes. O Marra fala um pouco do Reinaldo e o que ele fez em gramados europeus, pouco depois da eliminação da Copa. O André traz todo seu conhecimento tático para as análises que fizemos e o Judas traz a palavra de admiração que aquela equipe conquistou, até mesmo em um argentino.

LA:
Para muitos torcedores e jornalistas, a seleção de 1982, mesmo derrotada, seria a melhor da história. Concordam com isso?

GR:
Acho que todos vamos concordar que a melhor seleção da história foi a de 70. Depois vem a de 58. Essa foi uma grande equipe, que de tão brilhante, é lembrada até hoje, sem nem mesmo ter chegado as semifinais da Copa. Não é a melhor, mas está certamente entre as melhores.

Sobre os autores:
Gustavo Roman tem 36 anos, estuda jornalismo e é um dos maiores colecionadores de jogos de futebol do mundo. 

Colabora com Mauro Beting em seus livros e blogs, já tendo participado de vários programas de TV e rádio, como o “Loucos por Futebol”, “Beting e Beting.” 

Sempre foi apaixonado por futebol. Administra dois blogs. O www.futebolpitacos.blogspot.com, onde fala de futebol atual e o www.futebolacervo.blogspot.com  onde fala da história do futebol.

Renato Zanata Arnos é niteroiense, 45 anos, e formado em História. É o idealizador do blog "Resenha Tática" (http://resenhatatica.blogspot.com.br/), administra em parceria com o jornalista Wagner Bordin, o blog "Futebol Argentino" no portal Globoesporte.com (http://globoesporte.globo.com/platb/futebolargentino), e conta com vários artigos publicados no blog do jornalista Mauro Cezar Pereira dos canais ESPN. Entre 2010 e 2011 Zanata Arnos trabalhou na TV Esporte Interativo como comentarista de futebol argentino, espanhol, alemão, Inglês, e ainda, dos campeonatos estaduais, e Brasileiro, sempre priorizando as análises táticas.

Um comentário:

  1. Ricardo16:20

    Tele deixou Dinamite....Edinho....e batista no banco.Nao levou Leao.Luisinho se superou,na copa,contra a Italia jogou melhor ate que Oscar.Mas o edinho era um genio.Batista,vimos oque ele jogou contra a Argentinha.ja pensou Zico e Dinamite tabelando....Leao,experiente,craque ele e gilar dos santos neves, para mim os melhores do brasil de todos os tempos no gol. falha tatica...sim.....olhem leandro e junior....os dois perdidos,subindo ao mesmo tempo....qtas bolas nas costas de luisinho e oscar....junior no corner,dando condiçao ao terceiro gol de rossi...cerezo....cruzando a bola no meio....e tirar chulapa,com socrates fazendo o pivo na frente.....olha....muita colher para a italia... Leao:leandro,oscar,edinho e junior: Batista, falcao,socrates e zico:Eder e Dinamite. Ja pensaram...

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