quinta-feira, 31 de maio de 2012

Quarentinha: "O artilheiro que não sorria"


Que o futebol brasileiro é rico na formação de craques, isso qualquer meio entendedor sobre o tema sabe. O que a grande maioria não sabe é identificar aqueles que realmente mereceriam entrar para a história do futebol brasileiro. Alguém que, por exemplo, merecesse virar um livro. Muitos mereceriam, mas, infelizmente, a literatura esportiva brasileira ainda tem muito a resgatar. Ou felizmente, porque a quantidade de jogadores históricos que deveriam ter suas vidas resgatadas é enorme, portanto, um mercado que pode e deve continuar a crescer.

Biografia é um tema que a grande maioria dos leitores, de livros esportivos ou não, adora. Normalmente, o personagem deve ser alguém “famoso”, “importante”, um nome que de “bate-pronto” identifiquemos e nos leve a ler e conhecer sua vida em detalhes. No universo do futebol, esse “alguém” deve ter sido, no mínimo, polêmico, dono de conquistas mirabolantes, históricas...


Mas quando este personagem tem um apelido estranho ou curioso como “Quarentinha”? E ainda sendo ele um craque que pouco falava, introvertido, diferente de quase tudo que estamos acostumados a ver nos “grandes ídolos”?

Como a “orelha” do livro escrito pelo talentoso jornalista e escritor Rafael Casé, “O artilheiro que não sorria” (Livrosdefutebol.com, 2008) diz: “Se você está lendo estas linhas é porque ficou curioso para saber quem é Quarentinha”. E prossegue na argumentação: “Se gosta de futebol, talvez já tenha ouvido falar nele. Se tem 60 anos ou mais, provavelmente o viu atuar. Quarentinha era um craque. Um goleador. O maior da história do Botafogo. E como se não bastasse, possuía um canhão nas duas pernas, para desespero dos goleiros de sua época.


Fez parte do melhor time alvinegro de todos os tempos. Atuava ao lado de Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo e Zagallo. E aqui, aquele velho ditado se encaixa como uma luva: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Era dono de uma timidez sem par e de uma frieza glacial. Não comemorava seus gols, por mais belos e decisivos que fossem. Considerava-se um operário da bola, sendo os gols sua obrigação. E aí você se pergunta: por que comprar um livro sobre um jogador que nem sei ao certo quem é?

Porque nestas páginas você vai conhecer através da trajetória deste paraense que brilhou mundo afora com a bola nos pés, a história de tantos outros jogadores que viveram um período romântico do futebol brasileiro. Casos engraçados e curiosos, que acabaram virando folclore, numa época em que o amor à camisa era levado a sério. Uma época de verdadeiros ídolos. Uma época que não volta mais”.

Didi, Zagallo, Paulo Valentim e Quarentinha.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo alguns fragmentos da biografia de Quarentinha que revelam a incrível trajetória deste craque do futebol brasileiro. Um jogador que inspirou nada menos do que um dos maiores escritores brasileiros, João Ubaldo Ribeiro. Isso mesmo, João Ubaldo que pouco fala sobre sua paixão pelo futebol tinha em Quarentinha um de seus maiores ídolos. E no ocaso de vida, Quarentinha, como tantos outros craques do futebol brasileiro, teve a história triste de sempre...Vale a pena conferir...

Bate-bola 
(orelha de "O artilheiro que não sorria")


Entre a batida seca na bola e o estufar das redes, poucos segundos. Tempo suficiente, apenas, para o torcedor se preparar para festejar mais um gol de Quarentinha. Afinal, quando o pé esquerdo do maior artilheiro da história do Botafogo pegava de jeito na bola, o desfecho do lance era inevitável: trabalho, na certa, para o garoto do placar. Waldir Lebrego, um paraense que acabou vindo parar no Rio de Janeiro, empurrado por sua potente canhota, integrou um dos mais talentosos elencos da história do futebol. Ao lado (e ao lado, aqui, quer dizer tão competente quanto) de mestres como Didi, Nilton Santos e Garrincha, colocou o Botafogo entre os maiores clubes do mundo. Foram 313 gols em menos de 450 partidas com o manto alvinegro. Na Seleção, uma média de quase um gol por jogo. Números tão impressionantes quanto relevantes. Entre os torcedores que o viram jogar, não há quem não se lembre de sua principal característica, a fria reação após os gols que marcava, por mais decisivos que fossem. Mas, a desculpa que o próprio atacante usava, de que não fazia mais do que sua obrigação, pois ganhava para isso, não passava de uma forma de mascarar seu jeito tímido de ser.


Tal característica fez, até mesmo, com que fosse comparado a um daqueles mocinhos que duelam em filmes de western. Ao invés da rua principal de uma pequena cidade do Velho Oeste, o gramado. No lugar da pistola, a perna esquerda. Em comum, a imperturbável certeza de seu destino: usar sua arma para acabar com os rivais. Por sua importância para o futebol brasileiro, não podíamos correr o risco de que os fatos que ajudaram a compor a carreira de Quarentinha se perdessem na inexorável marcha do ponteiro (como diriam os velhos speakers, aboletados nas cabines do, outrora, “Maior do Mundo”).

As torcidas alvinegra e brasileira merecem conhecer melhor este jogador que só não obteve um reconhecimento ainda maior por não ter tido a felicidade de participar dos dois primeiros títulos mundiais da nossa Seleção. Mesmo assim, Quarentinha conseguiu um grande mérito, o de saber agradar em cheio aos admiradores do bom e velho esporte bretão fazendo gols, muitos gols...

Prefácio
Por João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro

O conteúdo deste prefácio, na verdade, surgiu de um pedido de entrevista a João Ubaldo Ribeiro. Mas o depoimento gravado, enviado por ele, foi muito além. Mostrou o nosso artilheiro sob a visão de uma criança e o surgimento de uma grande admiração. Motivos de sobra para que este texto abrisse, com chave de ouro, este livro, com as bênçãos de nosso Imortal.

“Eu nasci na ilha de Itaparica, na Bahia, mas fui levado, ainda bebê, pra Sergipe, onde fui criado a maior parte do tempo, passando eventuais temporadas na Bahia. Então, até os dez, onze anos de idade, mais ou menos, eu era sergipano. Eu torcia pelo Confiança, nos tempos em que o futebol sergipano ainda era amador. Quando a família se mudou de volta para a Bahia, eu nem tinha time por lá, porque, na verdade, eu me considerava sergipano. Levei tempo para aceitar a minha condição de baiano. Eu morava na mesma rua da Associação Atlética da Bahia, que nem sei se ainda existe. Era um clube de classe média. E era no campo de futebol de lá que o Vitória treinava. O time, naquela época, era muito vinculado à Barra, ao bairro da Barra, onde se encontrava esse clube. Tanto assim que o apelido dos jogadores do Vitória era ‘Leões da Barra’. Como eu sempre gostei de futebol, embora ruim de bola, ia lá assistir aos treinos.


Mas eu não era Vitória ainda, até que um dia vi o Quarentinha dar um chute do meio de campo, aparentemente sem fazer grande esforço, e acertar o travessão, que ficou balançando.
A bola tirou uma lasca deste tamanho da trave, que naquela época era de madeira e quadrada, diferente das de hoje, que são redondas e de metal. É bem verdade que as traves da Associação Atlética eram velhas, com a madeira já meio apodrecida. Mesmo assim eu, que estava na quadra de basquete ao lado do campo, fiquei impressionadíssimo com aquilo. E dei pra seguir Quarentinha assim, até porque ele era famoso. Um dia eu estava passando perto de Quarentinha, na beira do campo; ele aí me olhou e esticou a bola pra mim e disse: ‘Chuta aí, campeão’. Eu pensei, e realmente é de ruborizar, que ele tinha me visto jogar em algum lugar e que me achava mesmo um campeão. Fiquei num estado que mal pude retornar o passe dele, porque a perna não obedecia.


Desse dia em diante eu virei Vitória até morrer. Uma coisa que não podia deixar de ser. Até porque o Vitória facilitava. Foi campeão em 1953, com um time que eu lembro até hoje. Eu acho que era: Nadinho, Valvir e Alírio; Turunga, Gago e Joel; Pombinho, Alencar, Juvenal, Quarentinha e Ciro. Se não era isso, era parecido. Eu vi esse time ser campeão. (Memória de torcedor não falha. A escalação era exatamente essa)

Eu achava que era amigo de Quarentinha. Ele me cumprimentava na rua. E eu me gabava, no colégio, dessa amizade. Enfim, pra mim ele nunca foi um jogador. Pra mim ele sempre foi uma criatura muito especial, acima dos outros. Eu fui muito fã de Ademir [atacante do Vasco], mas Quarentinha sempre teve um lugar muito especial no meu coração de torcedor.”

A última volta do ponteiro
(primeiro capítulo de "O artilheiro que não sorria")


O telefone de Jorge Lebrego toca. A má notícia vem em tom dramático, como todas as más notícias. Do outro lado da linha, aflita, estava Maria, companheira de seu pai. Quarentinha havia passado mal e ela não sabia o que fazer. O trajeto até a casa do pai, na Baixada Fluminense, foi tenso. Não dava para saber o que realmente havia acontecido. Quarentinha sofria de hipertensão. Ao chegar à casa em que o ex-atacante estava vivendo, na Vila Norma, em São João de Meriti, Jorge, segundo filho de Quarentinha, mesmo sem ser médico, constatou que o pai havia sofrido um derrame. Porém, o ex-jogador estava lúcido, e chegou mesmo a dizer:
– Pensei que você não chegaria nunca.
Quarentinha estava com o lado esquerdo todo paralisado.
– Minha irmã chegou logo a seguir. Tivemos muita dificuldade para colocá-lo dentro do carro, porque uma das pernas não obedecia. De lá, seguimos direto para o hospital do Fundão. Só que entre chegar a um hospital público e conseguir ser atendido vai uma grande diferença.

Quarentinha e João Saldanha.

Foram precisos alguns telefonemas. Uma rede de amigos se mobilizou para garantir o atendimento. Mesmo assim, os problemas estavam longe de terminar. Para Myrthes, a filha mais velha, a demora no atendimento pode ter agravado o estado de saúde do pai.
– Lá no hospital ele ficou um bom tempo até ser atendido. Brigamos para poder entrar com ele na emergência. De repente surgiu um médico colombiano, que não prestou a menor assistência.

Comecei a falar, em espanhol, com ele. Foi no tom de bronca mesmo. Lembrei que ele nem podia estar clinicando sem o acompanhamento de um médico brasileiro. Uma médica veio saber o que era aquela confusão toda e só então conseguimos interná-lo. Quarentinha foi transferido para o setor de repouso masculino da emergência, onde realizou uma tomografia computadorizada que confirmou os sinais de avc [acidente vascular cerebral] isquêmico na região do lobo frontal direito do cérebro. O exame clínico demonstrava paralisia facial, além de diminuição da força muscular no braço e na perna do lado esquerdo. Exames cardiológicos também evidenciaram sinais de insuficiência cardíaca avançada. Um dos médicos residentes que prestou atendimento a Quarentinha foi o doutor Humberto Cottas.


– Estava participando da rotina clínica no setor da Emergência. Dirigi-me à unidade de repouso masculino para assistir um paciente recém-chegado, um senhor de 62 anos, cor parda, de nome Waldir Cardoso Lebrego. Confesso que, inicialmente, nem imaginei que se tratava do famoso craque, apesar de ser, eu, um botafoguense apaixonado. Após ler a ficha clínica e realizar a anamnese inicial [entrevista com o paciente] e o exame físico, pude constatar que se tratava de um caso de avc. O paciente estava acordado, porém com uma certa confusão mental, falando com dificuldade. Alguém chegou a me falar que se tratava de um ex-jogador de futebol. Lembro que cheguei a ter a impressão de que teria a ver com o Botafogo, provavelmente sugestionado por fotos do passado. Ao examinar suas pernas, verifiquei inúmeras marcas e pequenas cicatrizes em ambas as canelas e imaginei quantas entradas duras aquele senhor já deveria ter enfrentado em sua carreira.

O jovem médico só foi, mesmo, descobrir quem era aquele velho jogador ao ter contato com a família.
– Quando soube que era o Quarentinha, fui tomado por grande comoção e imaginei que naquele momento o maior goleador da história do meu time estava sob meus cuidados.


Após a estabilização de seu quadro de saúde, Quarentinha foi liberado da emergência e transferido para a enfermaria da clínica médica. Mesmo assim, Humberto continuou a acompanhá-lo.
– Passei a visitá-lo na enfermaria, porém não mais como médico, e sim, como fã. Conversava com ele, para tentar fazer com que refizesse alguma imagem dos jogos e momentos históricos de meu imaginário. Ele estava dislálico [dificuldade em articular as palavras; seqüela do derrame], porém conseguia contar algumas passagens.  Perguntei pela final de 62 (3 a 0 no Flamengo, com dois gols do Mané). Seus olhos ficaram marejados, o olhar dirigiu-se para o horizonte e contou-me: “Aquela foi uma tarde ensolarada, quente e jogamos de camisa alvinegra com manga comprida [acho que tentou explicar o motivo da manga comprida em pleno verão, porém não entendi suas palavras]. Deu tudo certo”. E ainda completou: “Aquele time tinha o Garrincha, que ia levando todo mundo pela direita. Éramos canhotos e ficava fácil”.


Traduzi essa frase da seguinte forma: Didi lançava pra Garrincha, que ia driblando pela ponta e deveria atrair a marcação de dois, três ou mais marcadores adversários; como sempre, chegava à linha de fundo para cruzar com precisão e lá estavam os canhotos (Quarentinha, Amarildo e Zagallo), todos exímios definidores, quase sem marcação oponente após o estrago do Mané.

As lembranças, e a emoção que as envolvia, eram a maior prova de que, mesmo mais de 25 anos depois de ter abandonado os gramados, o coração do velho artilheiro, embora bastante enfraquecido, ainda batia no ritmo do futebol. E não poderia ser diferente para um homem que teve a história de vida que teve.

Uma história que começou muito tempo atrás.

Sobre Rafael Casé:

Apesar de trabalhar há 20 anos com TV, a alma e o coração de Rafael Casé são e sempre foram em preto e branco. Marido de Fernanda e pai de Clara, que também possui genes alvinegros, é jornalista e relações públicas, formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E é na própria Uerj que dá aulas de Jornalismo. Também é editor-executivo do programa “Observatório da Imprensa”, da TV Brasil. Já escreveu outros três livros: “Programa Casé – O rádio começou aqui”; “De Homem pra Homem – Manual de Sobrevivência para Solteiros e Descasados na Cozinha” e “100 Anos Gloriosos – Almanaque do Centenário do Botafogo”, este, em parceria com o também jornalista Roberto Falcão.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Nelson Rodrigues: "Ninguém é imparcial".

Crédito: Arte revista Vip

Em tempos que a fidelidade a um clube não existe mais, muito mais do que descobrir o clube de coração do próprio ídolo de seu clube, o torcedor brasileiro pagaria o que fosse preciso para descobrir por qual time os mais famosos jornalistas esportivos torcem. Aliás, não precisam nem pagar, decretam, muitas vezes, que fulano de tal rádio ou tevê, torce para esse ou para aquele clube e pronto. Essa talvez seja uma das maiores polêmicas do futebol: jornalista deve declarar o clube pelo qual torce?


Hoje, são raros os que se atrevem a tomar tal decisão, e cada um deles tem a sua justificativa: ética, medo, folclore ou profissionalismo. 

Recentemente, por exemplo, o narrador mais famoso (querido e odiado por muitos), Galvão Bueno, revelou ser torcedor do Flamengo. 

Um risco, claro, em tempos da violência e delírio extremos que tomaram conta das arquibancadas e fora delas.


Silvio Luiz

Que o diga o narrador Sílvio Luiz que nunca escondeu de ninguém que, no passado (e quem sabe ainda) andava armado nos estádios, pronto para qualquer “eventualidade”. 

Silvio Luiz disse que “nunca tive que puxar o revólver para ninguém, mas estava preparado para o que viesse a acontecer”. E esse dia por muito pouco aconteceu. 

É que em um episódio que teria tudo para ter final trágico, Silvio Luiz estava junto de outro jornalista que sofre constantemente com esse tipo de pressão dos torcedores.

Juca Kfouri

Juca Kfouri, torcedor assumido do Corinthians desde os tempos em que comandava a revista Placar sentiu de perto o terror vindo das arquibancadas. Nem mesmo da própria torcida Juca escapou da pressão. Quando era diretor da revista Placar, fez uma manchete, “A Fiel Verde está Feliz”, referindo-se à boa fase do arquirrival Palmeiras, e teve de ouvir no estádio xingamentos e ainda ler em uma faixa a ameaça “Juca traidor, a Fiel é uma só”. Em outro episódio, em 1984, na mesma revista Placar, após uma série de capas que revelavam o doping de Mário Sérgio, jogador do Palmeiras na época, Juca teve a vida ameaçada. No retorno após um jogo do Palmeiras em Campinas, Juca dirigia na estrada e parou em um posto de gasolina. Foi cercado por vários torcedores da extinta Mancha Verde e ameaçado: “Eles me disseram que estavam armados e que iam me matar se não saísse correndo” (depoimento a Gustavo Maia, Revista Isto É Gente). E é nesse exato momento que a figura de Silvio Luiz entra em cena. Silvio chegou a oferecer a Juca o revólver que carregava, mas o jornalista corintiano declinou.

Nelson Rodrigues

Exemplos idênticos a esses relatos não faltam pelo Brasil afora, infelizmente. Mas um dia essa história foi diferente. No passado, muitos jornalistas esportivos declaravam escancaradamente para quem torciam. O mais famoso e célebre deles foi o genial Nelson Rodrigues, torcedor do Fluminense.  Era amado e odiado por essa postura, mas pela riqueza de sua prosa estampada em livros e crônicas diárias, acabou cativando até mesmo os “inimigos”.

Na crônica abaixo, uma reflexão atualíssima para tantos jornalistas da atualidade. Evidentemente, estivesse Nelson Rodrigues trabalhando atualmente na imprensa, não receberia “as 10 cartas por dia” que ele revela no texto. Teria certamente a caixa de e-mails entupida de protestos e xingamentos. No ano de seu centenário Nelson Rodrigues continua atual, como sempre e uma de suas famosas frases responde a muitos dos torcedores que querem descobrir por qual clube jornalistas esportivos torcem:  “Nas profundezas do cronista, ruge uma paixão imensa”.

Ai de nós
Por Nelson Rodrigues


Amigos, não tenho a correspondência de um Frank Sinatra. Mas alguns leitores escrevem para mim uma média de dez cartas por dia. Agora mesmo, tenho, diante de mim, uma carta bem curiosa. O leitor me pergunta, em resumo, o seguinte: – “É válido que um cronista, como você, venha à boca de cena, declarar de fronte alçada: – “Meus senhores e minhas senhoras, eu sou pó-de-arroz nato e hereditário”?

Antes de mais nada, aquilo de vir à boca de cena, declarar, etc., etc., é um dos meus recursos de linguagem. Posso agora completar: um cronista, como eu, vir à boca de cena, fingir um pigarro e declarar de fronte alçada: – “Meus senhores e minhas senhoras, etc.”. E o leitor diz mais: – “Um cronista não é obrigado a ser imparcial?”. Realmente, qualquer um dos meus colegas, antes de começar a escrever, toma ares de isenção e objetividade. Realmente, porém, isso é uma pose. O ser humano é capaz de tudo, até de uma boa ação. Não é, porém, capaz de imparcialidade.

Armando Marques

Vejamos o futebol, por exemplo. Começarei dizendo que nasceu morto o torcedor imparcial. Os colegas mais delicados fingem melhor e representam de imparcial. Mas até hoje, que eu saiba, está para nascer o cronista isento. Nunca me esqueço de um certo Fla-Flu. Há um ataque Tricolor, entre o pó-de-arroz Wilton e o goleiro do Flamengo. Com a mão, escandalosamente com a mão, Wilton tira o goleiro da jogada; e, em seguida, coloca. Era o juiz o Armando Marques. E, simplesmente, Armando não viu e deu o gol. Mas todos nós, Tricolores, celebramos o gol como se fosse o mais válido do mundo. Não deixa de ser doce esse caradurismo. Mas é assim que reagimos no futebol. O sujeito é paixão pura.

O meu leitor, porém, não está falando do torcedor anônimo. Alude ao cronista que tem, incontestavelmente, responsabilidades precisas. Mas creia o leitor: – nas profundezas do cronista, ruge uma paixão imensa. Na hora do gol, nós, da tribuna de imprensa, só faltamos subir pelas paredes como uma lagartixa profissional. A meu ver, isso é a honestidade. Nada mais puro do que o sentimento sincero que leva a dar comoventes urros.


E o que tenho de dizer ao meu leitor é o seguinte: – jamais escondi o meu sentimento clubístico. Se me perguntarem desde quando sou pó-de-arroz, direi de maneira singela e forte: – desde os quatro anos. E não resta dúvida de que nada é tão intenso como os sentimentos que se teve na infância profunda.

É fato, porém, que sou o caso único do cronista que diz “o meu clube”, “o nosso Fluminense” etc.,etc. Não acho justo o sujeito afivelar a máscara de imparcial. O Zé Maria Scassa, por exemplo. É rubro-negro e jamais negou esta qualidade (enganei-me quando, linhas atrás, escrevi que sou o único etc., etc. Scassa é outro único).

Certa vez, numa roda de jornalistas, discutia-se, justamente, sobre imparcialidade. Um dos presentes disse o seguinte: – “Só acredito na isenção do sujeito que declarar que a própria mãe é uma vigarista”. E concluía o colega: – “Ninguém fará isso, porque ninguém é imparcial”.

O que fascina no futebol é o jogo de paixões. Ninguém é lúcido, ninguém é sóbrio. O sentimento clubístico sobe à cabeça na mais generosa embriaguez. E o sujeito diz horrores. Ainda com relação ao Fla-Flu citado, um pó-de-arroz como eu e doente, dizia-me de olho rútilo e lábio trêmulo: – “Aquela bola do Wilton não foi mão nem aqui, nem na China”. Vejam vocês: – ele sabia que fora mão, sim; eu também sabia. Mas ambos, com doce cinismo, negávamos.


Ai de nós no dia em que a verdade reinasse em tudo. Imagine um zagueiro correndo atrás do juiz: – “Foi pênalti, senhor juiz, eu fiz pênalti”. Imaginem o horror da torcida, dos outros jogadores, de todo mundo. Há um livro célebre, em que um dos personagens é caixeiro de venda. Chegava um freguês, pedia um vinho e o personagem dizia-lhe baixo: – “Não compra isso, que é uma droga”. O freguês pedia outra coisa e o caixeiro cochichava: – “Vai na loja do vizinho, que é mais barato”. Esse honradíssimo funcionário levou a casa à falência. Seria a falência do futebol no dia em que desaparecessem as deformações da torcida.

[fonte: Fla-Flu...e as multidões despertaram! (Edição Europa, 1987)

Para saber mais sobre Nelson Rodrigues, vale a pena acessar o site: http://www.nelsonrodrigues.com.br

terça-feira, 29 de maio de 2012

Saldanha: O João Sem Medo

Manga x Saldanha

Um fato inédito e que entrou para a história do futebol brasileiro: o dia em que João Saldanha, disparou tiros contra o goleiro Manga. Inédito e polêmico, porque durante décadas muitas versões foram dadas ao ocorrido naquele mês de dezembro de 1967, em um tradicional restaurante carioca. Tudo aconteceu após a conquista do título carioca de 1967 pelo Botafogo contra o Bangu. Manga, goleiro do Botafogo, fora acusado por Saldanha de ter se vendido ao bicheiro Castor de Andrade, presidente do Bangu.

Manga, goleiro do Botafogo.
Mesmo com a vitória por 2 a 1, Saldanha, técnico alvinegro achou “estranhas” algumas atitudes de seu próprio goleiro durante a partida e parecendo saber muito mais sobre o episódio decidiu, como sempre, colocar a “boca no trombone” aos microfones de rádios e tevê.

O que se viu a seguir é uma história incrível digna de um filme policial.

Testemunha ocular do fato, Luiz Mendes, um dos maiores jornalistas esportivos do país e que, infelizmente, nos deixou recentemente, registrou o sururu entre Saldanha e Manga.


Dois tiros no escuro
Por Luiz Mendes

A final entre Botafogo e Bangu, em 1967.
“Um dia, João Saldanha desconfiou do goleiro Manga. O Botafogo ganhou a decisão com o Bangu, foi campeão, mas duas bolas vadias andaram por entrar. Nilton Santos salvou uma e a outra chocou-se com o poste. João disse ao microfone, quando fez seu comentário, que a atuação de Manga havia sido muito estranha. Depois do jogo, retornando comigo do Maracanã, João ouviu, no rádio do carro, o Manga concedendo entrevista ao repórter Luiz Fernando, que era, então, da Continental. “João Saldanha afirmou que sua atuação foi muito estranha” – disse o repórter. E o goleiro, prontamente, respondeu: “Ele que diga isso na minha cara, amanhã, na festa do clube pelo título”. João Saldanha, de pronto, aceitou o desafio:

– Amanhã, sem falta, estarei lá.

João Saldanha, o "João Sem Medo".
Tentei demovê-lo, mas ele não concordou.

– Estarei lá e pronto.

– Então eu vou com você, não vou deixar você fazer loucura – disse-lhe.

João olhou e me avisou:

– Tudo bem, mas não fique por perto, porque minhas brigas não se de arranhão, são de talho...

Dia seguinte, eu no meu Karmanghia, ele no seu Fusca, fomos ao Mourisco. João, conselheiro do clube, estacionou o carro n o pátio interno. Eu deixei o meu no estacionamento da churrascaria, do lado de fora.

Instalações do antigo restaurante Mourisco, no RJ.
O Mourisco era o local da comemoração do título de 67, alcançado com a vitória de 2 x 1 sobre o Bangu, no dia anterior (17/12/1967).

Estavam presentes: os jogadores campeões, os dirigentes do Botafogo, tendo à frente o Dr. Nei Cidade Palmeiro, presidente do clube, o presidente eleito, mas ainda não empossado, Altemar Dutra de Castilho, jornalistas, torcedores etc. Era uma festa botafoguense. A certa altura das conversas de um grupo de jornalistas onde eu e João estávamos, o radialista Sérgio Moraes apontou o Mangua que, um pouco afastado, olhava na nossa direção. João se desgarrou de nós e chamou o goleiro.

– Venha cá, seu moleque! – disse bem alto, e Manga veio em sua direção em passos lentos. Vi João Saldanha sacar um objeto de metal prateado e apontá-lo na direção de Manga. De imediato, pelo lado direito de Saldanha, saltei para empurrar a mão que empunhava a arma, para baixo. E Bebeto de Freitas, sobrinho de João, fez o mesmo, mas pela frente. João acionou o gatilho e o tiro foi se cravar no chão, perigosamente, entre os pés de Bebeto, então craque do voleibol.

Bebeto de Freitas,
sobrinho de Saldanha.
Manga correu em fuga. João se desvencilhou de nós e saiu atrás dele. E deu mais um tiro na sua direção. Manga pulou o muro que cercava o hoje demolido Mourisco.

Imediatamente se estabeleceu a confusão. A polícia foi chamada. João Saldanha, então, aproximou-se de Altemar Dutra de Castilho, entregou-lhe a arma e dirigiu-se a seu carro para ir embora antes da chegada da polícia. Mas o carro estava preso no estacionamento congestionado do Mourisco. Imediatamente convidei João para sair comigo. Saímos dos limites da Sede, pegamos o meu carro no estacionamento fronteiro e nos mandamos para Copacabana. João fez questão que eu o levasse diretamente à televisão onde faria o programa “Dois Minutos com João Saldanha”. Quando chegou, é claro, a polícia não encontrou mais nem a presumível vítima, nem o autor da suposta tentativa de homicídio...Digo suposta, porque nunca descobri se João teve ou não a intenção de atingir o alvo. Penso que ele só quis assustar o grande goleiro...E assustou”. [fonte: “7 mil horas de futebol” (Freitas Bastos Editora, 1998)]

A equipe da Resenha Facit
E como assustou. Segundo Sandro Moreyra, jornalista com sacadas incríveis e irônico como sempre, garantiu que Manga, naquela noite, batera o recorde mundial do salto em altura, pois o muro do Mourisco era muito alto, quase três metros de altura.


Luiz Mendes só não contou em sua versão da história que antes do episódio dos tiros em Manga houve um outro entrevero, dessa vez, envolvendo Saldanha e o bicheiro, presidente do Bangu, Castor de Andrade. Após o jogo decisivo entre Bangu e Botafogo que gerou toda a polêmica, Saldanha, à noite, na famosa Resenha Facit, que contava com o próprio João Saldanha, Luiz Mendes, José Maria Scassa, Vitorino Vieira, Armando Nogueira, Nélson Rodrigues e Hans Henningsen (“o marinheiro sueco”), voltou a atacar o goleiro Manga e dizer em alto e bom som e de forma muito clara, como era de seu feitio, que o bicheiro Castor de Andrade havia subornado o goleiro botafoguense.

Castor de Andrade, bicheiro
e ex-presidente do Bangu.
Foi uma confusão tremenda. Em poucos minutos, o bicheiro Castor invadiu o estúdio do programa, protegido por seguranças. Foi um sururu com Saldanha e Castor fazendo xingamentos um ao outro. O programa, evidentemente, teve de ser interrompido.

Pensava-se que, por conta dessa atitude truculenta do bicheiro Castor de Andrade, Saldanha fosse “refugar” do encontro no restaurante Mourisco, conforme Luiz Mendes descreveu em sua crônica, mas para quem conhecia João um pouco de perto sabia que ele não deixaria de enfrentar seus desafetos. 

O que de fato aconteceu, quem conta é o próprio João Saldanha, em entrevista ao programa Roda Viva de 1987.


                                                Programa Roda Viva, em 1987.

Sobre Luiz Mendes:
Nasceu em 09 de junho de 1924, em Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul. Começou a trabalhar numa estação de alto-falantes, em sua própria cidade. Gostava também de futebol, e jogava no time juvenil. Foi para a capital, Porto Alegre, e fez teste na Rádio Farroupilha. Passou e foi contratado como locutor. Chegou ao Rio de Janeiro com 19 anos,  já na  locução esportiva.  Ingressou na Rádio Globo em 1944.  Embora contratado como locutor comercial, Luiz Mendes logo passou para o esporte da Rádio Globo, pois Gagliano Neto, o titular, faltou a uma transmissão e Luiz Mendes o substituiu. No dia seguinte foi chamado pelo presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, que o convidou para ser locutor esportivo da emissora. Em 1946, um concurso com o público carioca, elegeu-o como “o melhor locutor esportivo da cidade”. Foi para a TV Rio e, por 15 anos dedicou-se exclusivamente à TV. Fez também os programas: “TV Ringue” e “A Grande Revista Esportiva Facit”.  Participou da primeira transmissão a cores, no Rio de Janeiro, em 19 de fevereiro de 1972. Cobriu 13 Copas do Mundo. Foi também comentarista na Rádio Globo conquistando muitos prêmios ao longo da carreira, entre eles uma placa comemorativa, da Rádio Globo, recebida das mãos do próprio Roberto Marinho. Luiz Mendes era chamado de “o comentarista da palavra fácil”. Morreu no dia 27 de outubro de 2011.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Vicente Matheus: o eterno presidente corinthiano


Para aqueles que tem mais de 30 anos, ele foi o maior presidente que o Corinthians teve em sua trajetória centenária de vida. Vicente Matheus é um dos dirigentes esportivos mais carismáticos e populares em todo o Brasil, mesmo após a sua morte, há 17 anos, no dia 8 de fevereiro de 1997. Suas frases de efeito como: “Gostaria de agradecer a Antarctica pelas Brahmas geladas...” tornaram-se célebres. Mas Vicente Matheus é um personagem muito mais do que simplesmente um dirigente folclórico. Ele é a própria história do Corinthians, clube considerado o de maior torcida em todo o país.

Filho de imigrantes espanhóis, Matheus chegou ao Brasil com apenas 10 anos de idade, poucos anos depois do nascimento do Corinthians, clube que iria transformar a sua vida. Os caminhos percorridos pela família Matheus em terras brasileiras emocionam a todos.

O taurino Vicente Matheus, nasceu na cidade de Zamora, Espanha, no dia 28 de maio de 1908 e naturalizou-se brasileiro em 1945. O pai, Luiz Matheus, de origem portuguesa, era artesão e trabalhava com pedras. A mãe, Manglória, era espanhola. Tiveram 13 filhos, dos quais dois faleceram precocemente.

Mesmo ainda tão jovem, Vicente ajudava ao pai, Luiz Matheus quebrando pedras, na pedreira adquirida pela família na região de Guaianazes, na época uma pequena vila na periferia de São Paulo. Anos depois, tornou-se um dos maiores empresários no ramo de pavimentação. Trabalhava tanto na pedreira porque tinha de ajudar o pai na educação dos irmãos. Mas também não deixava de lado sua grande paixão, jogar futebol.

Certo dia, pediu uma chuteira ao pai, por conta da realização de um festival em Guaianases. Queria jogar de todo jeito, mas o pai não lhe trouxe a chuteira tão sonhada. Vicente ficou muito triste e foi chorar no fundo do quintal. A mãe foi consolá-lo, e disse ao filho, que já trabalhava duro na pedreira, que um dia ele teria tudo na vida, até camisa de seda. Sem saber Dona Manglória fazia uma profecia que virou realidade.

Aos 12 anos de idade, o menino Matheus já vivia uma dupla jornada de trabalho. Além dos serviços pesados da pedreira, trabalhava num pequeno armazém da família, que fornecia alimentos e produtos para os próprios empregados. Apesar de ser um serviço mais braçal, ainda assim preferia a pedreira, porque lá podia jogar futebol com outros garotos. Até os 18 anos essa foi a rotina de sua vida, trabalho e futebol amador, em clubes que ajudou a fundar em Guaianases e pelos quais jogava. Vicente Matheus sempre afirmou aos amigos que era bom de bola.

Amadurecido precocemente por tanto trabalho, aos 18 anos, Vicente Matheus começou a expandir os negócios da família, iniciando o fornecimento de pedras para a Prefeitura de São Paulo, uma cidade que crescia em ritmo acelerado. Ele era uma espécie de gerente, de executivo mesmo e os negócios iam de vento em popa.

Em 1934, com 26 anos, se casou com a primeira mulher, Dona Ruth, com quem teve duas filhas, Abigail e Dalva. Passaram a morar na rua São Jorge, perto do Sport Club Corinthians Paulista. Corinthiano assumido desde pequeno, Vicente Matheus sentia orgulho de morar em uma casa de cuja janela podia ver o clube do coração.

Homem de visão, Vicente Matheus decidiu fundar a Pavimentadora Vicente Matheus, expandindo ainda mais seus negócios, com a fabricação de tubos de concreto armado, extração de paralelepípedos, britagem e pedra britada em geral, usinagem de concreto asfáltico e de cimento, contando com pedreiras em Arujá e Ribeirão Pires. Também tinha depósito e oficinas na rua São Jorge, maquinário para obras e frota de transporte. Assim, foi se tornando um homem cada vez mais próspero.

Louco por futebol, chegou a ter um time na própria empresa, o Paveme Futebol Clube, nome derivado da Pavimentadora Vicente Matheus, e em 1966 construiu um estádio na avenida Marginal, o Estádio Vicente Matheus, que durante anos foi um espaço aberto para o futebol de várzea da região.

Matheus foi presidente do Corinthians em 1959, 74, 75, 77, 79, 87 e 89. Em todo este período, dois títulos marcaram sua vida com a do clube: a quebra do jejum de 22 anos em 1977 e a conquista inédita do campeonato brasileiro em 1990.

Vicente Matheus virou uma lenda no clube. Amado por muitos arrumou inimigos na mesma proporção. Tornou-se famoso por suas frases folclóricas (e ainda várias delas atribuídas a ele), entre elas: "Quem sai na chuva é para se queimar", "Quero mesblar jovens e velhos da diretoria", "Tive uma infantilidade muito triste", "O difícil não é fácil", "De gole em gole, a galinha enche o papo", "Não veio o Falcão, mas comprei o Lero-Lero" (referindo-se ao jogador Biro-Biro), "Peço aos corinthianos que compareçam às urnas para naufragar nossa chapa", “Comigo ou sem migo o Corinthians será campeão”, “jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático” e “O Sócrates é INEGOCIÁVEL, INVENDÁVEL E IMPRESTÁVEL”.

Apesar da frase hilária, Sócrates gostava muito de Vicente Matheus, às vezes brincava chamando-o de inimigo, por suas posições contrárias ao movimento da democracia corintiana. Sócrates costumava se referir a Vicente como “o velho”. Eram amigos, a ponto de Sócrates ter a liberdade de frequentar a sua casa. Em uma dessas visitas inesperadas, Vicente Matheus ganhou de Sócrates um presente muito especial, uma verdadeira homenagem. Um disco, do cantor e compositor Renato Teixeira.

Nesse disco, chamado “Uma Doce Canção”, lançamento da RCA de 1981, Sócrates canta com o Renato Teixeira uma música que se chama “Vicente”, em homenagem ao dirigente que trouxe do interior paulista Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira para ser um dos maiores ídolos da história corintiana e do futebol brasileiro. A letra da música é uma verdadeira poesia. No final, Renato Teixeira e Sócrates improvisam, com Renato dizendo que quer levar o Doutor pro Taubaté. E Sócrates diz que tem de falar com o Vicente, pois é ele quem manda no Corinthians.


Vicente Matheus morreu aos 88 anos, de insuficiência pulmonar, provocada por um câncer generalizado, após ficar 14 dias internado no Instituto do Coração, em São Paulo.

Para aqueles que quiserem conhecer melhor Vicente Matheus, essa verdadeira lenda entre os dirigentes esportivos brasileiros, vale a pena assistir a sua entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura:



Vicente Matheus também tem dois livros publicados.

O primeiro, a biografia escrita pelo jornalista Luiz Carlos Ramos, “Quem sai na chuva é pra se queimar” (Editora do Brasil, 2001).

O outro tem a assinatura de Marlene Matheus, sua esposa, “Matheus, o senhor Corinthians” (Editora Leia Sempre, 1998).

domingo, 27 de maio de 2012

Profissão: Centroavante


Eles são os personagens centrais do espetáculo chamado futebol, pois se não cumprirem a missão que lhes foi dada em campo, são execrados pela torcida. Fazer gols é a missão de todo centroavante, o camisa 9, o homem gol. Pouco importa onde joga, mas quando veste a camisa 9, de qualquer time, seleção ou timinho de várzea, tornam-se seres especiais.

É assim que um dos maiores nomes da literatura brasileira, Luis Fernando Veríssimo, enxerga esses homens especiais. Em sua definição eles são: sombrios, tristes, raros, difíceis. Pelo menos, no tempo em que Veríssimo viu esses “homens raros” em campo...Pelo menos, na imaginação que só mesmo ele poderia ter...

Os centroavantes
Por Luis Fernando Veríssimo

Eles são difíceis, os centroavantes. Reúnem-se em lugares certos, em várias partes do mundo, mas não se olham nos olhos. Trocam lamúrias e reminiscências, como em qualquer confraria de especialistas, mas é como se estivessem sozinhos. De vez em quando levantam a cabeça e olham e voltam, à procura de um possível empresário ou de um fã antigo. Mas não se encaram. Sabem que a qualquer momento terão que trair o companheiro ao lado. Se lhes perguntarem: “Conhece um bom centroavante?”, terão que responder:

– Só conheço eu mesmo.

E se insistirem, “Me disserem que o Fulano ainda joga...”, responderão:

– Não joga, bebe muito e arrasta uma perna. De centroavante só conheço eu mesmo.

Eles são sombrios e tristes, os centroavantes.

Você os encontrará em velhas tascas do bairro Gótico em Barcelona depois de se acostumar com a escuridão. Em algumas esquinas de Milão, encolhidos do frio dentro das suas japonas. Em Chacarita. Na Cinelândia. Em Marselha, no restaurante de peixe do velho Renard, um centroavante que desistiu antes dos 36 porque perdeu um joelho.

– E o seu joelho, Renard?

O velho corso toma um gole de blanc.

– Ainda está rolando por um campo da Catalunha.
– Como é que foi, Renard?
– Um beque sem mãe.
– E onde está o beque, Renard?
– Junto da sua mãe.

Você os conhece de longe.

Centroavantes, toureadores velhos e mercenários, você os conhece de longe. São sobreviventes de profissão. Estiveram com a morte e voltaram, e têm as cicatrizes para provar. Restam poucos centroavantes no mundo. O jeito desconfiado, os gestos tensos, o cigarro nos dedos nervosos, os olhos cansados, você os conhece.

Os centroavantes só falam nos companheiros mortos ou nos que pararam, os outros são concorrentes. Centroavante bom e vivo só conheço eu mesmo. Eles fumam muito, os centroavantes. Mas cuidam para não tossir na frente do empresário.

– Com quantos anos você está?
– Vinte e sete.
– Você quer dizer 37.
– A bola não sabe a diferença.

Nos treinos tratam de brigar logo com o treinador, chutar a bola longe e sair de campo, senão não aguentariam. Eles sabem que o treinador os irá procurar depois no quarto do hotel e pedir perdão. São raros, os centroavantes.

– Você me insultou.
– Só disse que você estava muito parado.
– Meu pé conhece mais futebol do que você inteiro.
– Eu não treino. Eu jogo.
– Está certo.

São difíceis, os centroavantes.

Quando se reúnem, falam dos que morreram ou dos que pararam. Sem se olharem nos olhos.
Falam de Carrara, o Italiano Louco, que uma vez comeu um bandeirinha vivo e foi retirado de campo por um batalhão  de carabineri, ainda mastigando o pano da bandeira e ofendendo a arquibancada. Nenhum bandeirinha jamais viu Carrara em impedimento, depois disso.

Falam de Bahal, o Turco de olhos vermelhos, o peito de um touro e um dedão de dez centímetros em cada pé. Bahal, morto com uma adaga na nuca dentro da pequena área, na cobrança de um córner. Antes de morrer – mas isto já é lenda – teria feito o gol com uma lufada de sangue.

Falam de Lúcio, o Poeta, um brasileiro esguio com pomada no cabelo, outra história trágica. Lúcio tinha um chute mortal. Um dia errou a goleira, a bola subiu, venceu a cerca, venceu a arquibancada de São Januário, caiu na rua, acertou a cabeça de uma moça dentro de um Lincoln conversível – a cantora Rosa de Rose, o Rouxinol Louro – e a matou. Rosa era noiva de Lúcio, o caso emocionou o Brasil. Esperava o fim da partida para levá-lo ao Cassino da Urca. Lúcio enlouqueceu. Nunca mais jogou futebol. Hoje é funcionário do Maracanã e de vez em quando se distrai. Em vez do grande círculo, desenha com cal no gramado o nome de Rosa de Rose.

Estádio São Januário
Falam de Tamul, a Gazela Africana, rápido como o raio, que jogava descalço e mordia a trave sempre que perdia um gol. Tamul tinha os dentes esculpidos. Um era o Taj Mahal. O outro, a torre Eiffel. Um torto, bem na frente, era a torre de Pisa. Outro, o obelisco da Place Vendôme. O arco de Constantino.

Falam de McMoody, o Anão Escocês, que batia pênalti de cabeça e tinha placas de aço em vez de canelas.

Falam do argentino Lombroso, que chutou a cabeça do goleiro para dentro do gol. Não teria sido nada se ele não tivesse saído comemorando.

Falam de goleiro com desdém e de beques centrais só antes de cuspir. Os centroavantes tendem a engordar e a emagrecer como os outros respiram. E têm pesadelos. Sonham que a grande área é um pântano, que não conseguem pular, que a bola é de ferro e que o tempo passa.

São raros, os centroavantes.


Sobre Luis Fernando Veríssimo:

É gaúcho de Porto Alegre, filho do grande escritor Érico Veríssimo. É torcedor do Internacional de Porto Alegre. Tem dezenas de livros publicados e com o tema futebol é autor, entre outros, de O cachorro que jogava na ponta esquerda (Editora Rocco), Time dos Sonhos – Paixão, Poesia e Futebol (Editora Objetiva) e Internacional - Autobiografia de uma paixão (Ediouro). Para saber mais sobre Luis Fernando Veríssimo, acessar: http://www.releituras.com/lfverissimo_bio.asp