sexta-feira, 20 de abril de 2012

Wanderley Nogueira, o repórter


Ele é um dos maiores nomes do rádio esportivo brasileiro. E lá se vão 37 anos dedicados ao jornalismo esportivo, em jornal, rádio, internet e televisão. Cobriu oito Copas do Mundo e Jogos Olímpicos. Wanderley Nogueira não é apenas um grande repórter de rádio, mas também um grande contador de histórias colecionadas nas centenas de viagens realizadas ao redor do mundo. Em seu site www.wanderleynogueira.com.br são inúmeras as reportagens especiais que ele já fez em sua longa carreira (ver seção Memórias).

A entrevista que você vê abaixo foi extraída deste site, concedida ao poeta Álvaro Alves de Faria no livro “Jovem Pan: a voz do rádio”. Acrescentamos a ela apenas duas perguntas referentes ao universo dos livros. Delicie-se, porque não é a toa que Wanderley Nogueira foi o primeiro cronista a fazer parte do “Hall dos Notáveis”, um espaço físico criado na Associação dos Cronistas Esportivos de São Paulo para aqueles que já conquistaram mais de 10 premiações da entidade.

Álvaro Alves de Faria – Como você começou na profissão?
Wanderley Nogueira - Eu trabalhava em jornais e também no Grupo Sílvio Santos, onde fiquei por 12 anos. Então, era uma loucura porque eu ficava até  seis da tarde no escritório central do Grupo e depois saía, tirava o terno, e ia para a redação dos Diários Associados, na rua Sete de Abril, ou para a Federação. Depois, comecei a assinar uma coluna bem apimentada no Diário Popular e no Popular da Tarde chamada “FPF Pegando Fogo”. Fiz isso todo esse tempo. Quando chegou num determinado momento, cheguei para a Nilde, minha mulher – nós tínhamos casado em 75 – e disse a ela que não suportava mais e que iria pedir demissão do Grupo Sílvio Santos. Era uma maravilha, eu adorava trabalhar lá, mas o meu negócio era jornalismo mesmo. Não teve jeito. Isso foi mais ou menos em 1977.

AA – Você fazia jornalismo no Grupo Sílvio Santos?
WN - Não, eu trabalhava na área de propaganda e marketing. Andava de terno, tinha secretária, essas coisas todas. Mas eu falava: não tem mais jeito. Eu vou ficar doente, quero jornalismo. Só para se ter uma ideia, eu ganhava cinco vezes mais do que a oferta que eu tive na ocasião para trabalhar na Rádio Jovem Pan. Eu perguntei para a Nilde: “Quanto a gente precisa para viver?”. Fizemos as contas. Deu para empatar. A proposta cobria rigorosamente as despesas, mais nada. Quer dizer, a gente não poderia ter nem uma gripe. E lá, no outro emprego, o dinheiro sobrava. Cinco vezes mais. Aí, eu falei para ela: “Você topa?” Ela respondeu: “Topo”. Então pedi demissão.

Todos foram maravilhosos comigo, queriam que eu continuasse. Foi exatamente na época em que o Sílvio comprou a TV Record. Eles disseram: “Então, já que você quer trabalhar com jornalismo, a gente arruma uma maneira de você ir para a TV Record”. Mas eu não aceitei. Eu queria cortar o cordão, eu queria a Jovem Pan. Antes de sair falei: “Só peço um favor: se não der certo na Jovem Pan, gostaria que vocês deixassem a porta aberta para mim”. Fechado. E eu fui. Então, fui ganhar cinco vezes menos e minha filha estava quase nascendo, a Patrícia. Eu entrei na Jovem Pan no dia 7 de julho de 1977 e a Patrícia nasceu no dia 13 de julho de 1977. Alguns dias depois de eu começar na Pan. Então, ela cresceu aqui na Pan junto comigo.

AA – Mas, quando você entrou na Jovem Pan foi para a reportagem?
WN – Entrei para a reportagem. No começo, eu fazia o outro lado do jogo. Nós inventamos esse negócio, mostrando o cara fazendo xixi, o cara xingando o árbitro e coisa assim.

AA – Mas, você já tinha noção desse potencial de, além de repórter, se testar como show-man?
WN - Claro. Eu acho que tinha. A gente fazia jornal e quando entrei na rádio, isso começou a emplacar. Coisas engraçadas começam a acontecer no ar. Um dia, ia começar um grande clássico e tinha um cara tocando piano clássico em uma mansão do Morumbi. O Morumbi lotado e eu fui bater na porta dele para saber o que ele estava fazendo. Do lado da casa dele, o mundo caindo… mais de cem mil pessoas no estádio lotado. Corinthians e Palmeiras e o cara não estava nem aí, tocava uma valsa vienense no piano. E eu entrei com esse cara tocando valsa vienense e, desde então, a gente começou a fazer muita coisa diferente. Essas coisas começaram a marcar muito aqui na Jovem Pan. Estou contando uma história de 1977. Aí veio a Copa de 78. Uma Copa difícil de ser feita na Argentina, sob a ditadura militar. Depois a Copa de 82, na Espanha, outra Copa em 86, as de 90, 94, 98, 2002.

AA – Nessas histórias, você já viajou o mundo inteiro trabalhando, não?
WN - Pela Jovem Pan, em todos os continentes, dezenas de países, falamos dos lugares mais incríveis, transmissões das mais difíceis, muita entrevista boa a gente fez. Então, foi uma história… meus filhos cresceram compreendendo tudo isso. Quer dizer, a Patrícia tem hoje 24 anos e eu faltei em 18 aniversários dela. Estava sempre fora. O meu filho Rodrigo nasceu um pouquinho mais para a frente, nasceu em setembro de 1980. Mas a gente nunca teve problema por causa disso. Eles sempre deram muito valor para toda essa agitação e compreenderam. Minha família sempre foi e é muito estruturada.

AA – Vai também da sua mulher entender, porque não é fácil você ter um cara que trabalhava num horário certinho ganhando uma bolada e ele dizer “não, esse é o meu sonho” e ela bancar.
WN - Eu queria dizer que nada disso teria acontecido se não fosse a Nilde. Ela é a pessoa mais importante da casa, a pessoa mais importante da nossa vida, a pessoa que dá aquele ponto de equilíbrio. É ela quem comanda o espetáculo e dá estrutura. Quer dizer, o cara vai viajar, fica setenta dias fora. Se o cara não souber como está a vida dele aqui, vira um inferno para quem fica e um inferno para quem vai. Então, por conta disso, ela criou as crianças sozinha praticamente. A ausência, em muitas ocasiões, a gente tenta compensar pela qualidade, não pela quantidade de tempo que pode oferecer. Mas a Nilde foi incrível. Ela foi fantástica desde o primeiro momento da minha vida profissional. Então, ela foi a base de tudo. Sem ela, eu não sei o que teria acontecido. Eu não sei o rumo… o que teria feito… para onde teria ido. Não sei. A Nilde foi fundamental.

AA – E para dar certo, tem o período em que você está trabalhando longe da família…
WN - Claro. E não deu certo da noite para o dia. As coisas tiveram um processo. Estamos falando de uma empresa em que estou há quase 25 anos. As coisas foram por etapas. Deu certo, me sentia feliz, isso já era um ponto extremamente importante. Nunca tive minha mulher me pressionando porque existia São Silvestre… Por dezoito anos, eu não passei a virada do ano com ela. Por dezoito anos, eu passei na Avenida Paulista. Então, ela passava com todo mundo, menos com o marido dela. Os filhos, a mesma coisa, porque a corrida de São Silvestre era a meia noite. Não é qualquer mulher que aguenta isso. Veio o Pique da Pan, quase 20 anos… 20 anos sem poder receber ninguém em casa à noite. Eu estou falando de coisas pessoais. Não pudemos convidar ninguém para jantar em casa a noite nos dezoito anos em que estou fazendo o Pique da Pan. Faz 25 anos que não tenho Domingo.

Para isso, primeiro, você tem que amar aquilo que faz, isso é o ponto básico. Segundo, fazer daquilo uma mescla entre prazer e profissão, que é o caso, e ter uma família que não transforma a tua vida em um inferno porque você diz: “Que maravilha, eu estou aqui, mas agora, vou pegar o carro, vou para casa e encontrarei um inferno”. Nariz atravessado, reclamações, filho desestruturado, o pai culpado por tudo o que acontece, é um ausente. Então, nada disso acontece comigo. Eu sou um cara feliz, absolutamente feliz neste campo. Não tenho problemas e tenho uma mulher que bancou tudo isso. Quer dizer, toda noite, sabe o que são dezoito anos te esperando? Dezoito anos só jantando quando você chega? Isso é quase um prêmio na loteria, porque você não vive só o teu universo. Se eu fosse um cara só, tudo bem. Saio daqui, vou para o flat e acabou. Estou consciente de que minha vida é uma solidão. Então, está tudo certo. Mas eu não, eu sou carente.

Eu quero ter uma mulher legal, uma mulher carinhosa, que conversa comigo. Eu quero ter o carinho dos meus filhos, quero trocar ideias com meus filhos, quero dar opinião, saber o que ele pensa, saber como é que vai na faculdade, o que a minha filha está fazendo. Tudo isso às duas da manhã. Quais as pessoas que compreenderiam isso? São poucas. Então, minha vida foi na Jovem Pan, meus filhos cresceram na Jovem Pan, aprenderam a gostar da Jovem Pan, são tão fãs da Jovem Pan quanto eu. Minha mulher gosta da Jovem Pan como se fosse dona da rádio. Meus filhos têm orgulho da emissora em que o pai deles trabalha, até porque eles a viram crescer.

AA – Enquanto a vida de vocês foi crescendo, o sonho foi crescendo junto…
WN - As conquistas fizemos juntos. Conquistas pessoais, conquistas patrimoniais. Meu pai se dedicou em minha vida inteira para conquistar o espaço que pretendia alcançar sem grandes atropelos. Então, é assim. Em alguns Natais, por exemplo, larguei a ceia para vir à rádio dar uma notícia. São coisas que marcam a gente e que se for parar para pensar, vem tanta coisa na cabeça, tantos momentos incríveis, trabalhos incríveis, reportagens, dificuldades…


AA – Aliado a tudo isso, você é conhecido por conseguir se dar bem mesmo com pessoas consideradas difíceis. É uma capacidade de conviver que é uma coisa extraordinária. Não uma capacidade de conviver tolerando e gerenciando problemas. Você convive bem.
WN - Eu acho que a vida é simples, não é complicada, apenas uma questão matemática. Por exemplo: eu passo 70 por cento da minha vida na Jovem Pan ou a serviço da Jovem Pan. Aqui é minha casa. Eu seria um idiota se alimentasse um inferno, se eu alimentasse uma intriga, divisão, rachadura ou rompimento.

Wanderley, Tostão e Milton Leite.
AA – Você também não faz isso de maneira passiva. Você consegue colocar as suas ideias, fazer as coisas do seu jeito sem arranjar encrenca com ninguém.
WN - Mas eu acho que isso é possível desde que as pessoas percebam que você não está entrando na rota de colisão, que você está expressando a sua opinião, está querendo contornar algumas dificuldades, talvez até aproximar algumas pessoas. Tem uma pessoa aqui na rádio que fala que se eu não fosse jornalista, eu daria muito para ser um extraordinário bombeiro para apagar incêndios. Eu encaro isso até como elogio. Eu acho que é isso mesmo. Se eu puder fazer com que as pessoas se aproximem, seja aqui, fora daqui, ou na minha família, eu faço isso com o maior prazer. Isso faz com que eu me sinta bem. Acho que é isso mesmo. Primeiro, é preciso saber que a vida é extremamente rápida. Segundo, as pessoas não sabem, mas se você for a um hospital com pacientes terminais, pegar um médico desses que tem a triste missão de estar segurando a mão de quem dá o último suspiro, pode ser o rei do país mais rico do mundo ou o cara mais pobre, quase todos eles – e posso dizer porque tenho dois ou três amigos que fazem esse tipo de trabalho – o médico pergunta o que gostaria de ter feito e o que não fez.

De cada dez, oito dizem que é ter dito para minha filha que a amo muito, dizer para minha mulher que ela é maravilhosa, que é apaixonado por ela, queria ter pedido desculpas para este ou aquele, gostaria de ter falado… ele não fala que gostaria de ter ganho mais dinheiro, de ter comprado dois prédios, queria ter outro carro de ouro. As pessoas não falam isso. É uma coisa muito emocional e pessoal. Quer dizer, o mais importante é que naquele momento da despedida, em que tudo acaba, ele queria falar exatamente isso: “Eu queria ter dito para a minha mulher que eu gosto para cacete dela. Eu passei trinta anos sem falar isso”. Se as pessoas tivessem esse tipo de experiência, eu acho que muitas coisas mudariam e se daria menos valor a tantas coisas… como quando você passa no elevador e a pessoa não te cumprimenta, se cria um rompimento: “Ele não me cumprimentou, não lhe cumprimentarei mais”. Eu morro de rir quando penso nessas coisas.

Acho muito pequeno o motivo de alguns rompimentos. Numa entrevista, por exemplo, eu pergunto o que eu quero para quem eu quero perguntar, sem nenhum tipo de censura e o cara me responde porque eu pergunto com respeito. Eu não trato o entrevistado como interrogado. É diferente: as pessoas confundem entrevista com interrogatório. Não existe comigo esse negócio de brigar com entrevistado. E fazer a entrevista se transformar numa discussão. Isso ocorre e dizem que tudo aquilo ficou bonito naqueles trinta segundos no ar. Nossa, que impacto! E daí?”. Eu não quero brigar com o entrevistado. Quem tem de brigar com o entrevistado é o júri, é o promotor de justiça, não é o repórter. Eu quero perguntar e quero a resposta. A vida é prática assim.

Você quer pegar uma formiga, você pega com um pratinho de mel, não pega com pratinho de vinagre. No vinagre, elas desaparecem, no mel, pulam todas. Então, acho que se você souber perceber que essa relação é importante, conversar com pessoas, acho que você cresce todos os dias. Acho que essa é a minha filosofia. Como jornalista, pergunto para todo mundo o que quero e obtenho as respostas sem precisar dar uma bofetada no entrevistado. Mas é uma questão de linha, postura, respeito. As minhas observações fazem com que eu perceba que essa é a linha que funciona.

AA – Agora, tem a questão das brincadeiras. De todas essas brincadeiras do dia-a-dia, tem alguma que você tenha planejado mais ou que tenha sido memorável pelo trabalho que te deu? Que você dedica boa parte do seu tempo a pensar nisso.
WN - Eu não digo boa parte do tempo, mas eu sempre dedico boa parte do meu dia para saber como provocar uma situação de riso. Acho engraçado alguma coisa. Sou um cara de bom humor, costumo brincar muito com as pessoas fora do ar e no ar também. Esse clima faz bem. Você não pode ter o fígado na boca.

Wanderley e mestre Telê Santana
AA – E esse negócio de encomendar roupas para os outros?
WN - Eu encomendo. Eu descubro o alfaiate da pessoa e telefono dizendo que a pessoa está precisando de duas, três calças, mas com urgência, para entregar, com endereço certinho. É muito engraçado. Cada dia dá para sacar uma. Você acorda as pessoas de madrugada e vai fazendo. Isso cria um clima, uma relação. As pessoas riem, acham legal… A minha vida é muito ligada à Jovem Pan, eu acho que é quase uma coisa junto com a outra.

AA – Agora, Wanderley, para finalizar, tem alguma história nessas viagens todas… em 25 anos de rádio, devem existir muitas histórias, mas tem algum acontecimento, alguma experiência que você tenha tido em viagem ou reportagem que tenha descortinado um mundo novo, uma coisa que você não imaginava encontrar, um costume diferente, um local diferente?
WN - São 25 anos. Então, é difícil vir alguma coisa na cabeça. Até porque eu não gosto muito de registrar essas coisas, porque acho que um dia vou escrever um livro. Eu preciso escrever um livro contando histórias, mas eu tenho que passar seis meses escondido só pensando nas coisas, tudo aquilo que aconteceu nesse tempo todo. Coisas profissionais e não profissionais. Eu acho que daria um livro maravilhoso. Então, eu não registro. Mas, aconteceram tantas coisas que eu não consigo discorrer agora. A gente enfrenta tanta coisa.

Por exemplo: Você vai a cordilheira dos Andes e, ao tentar atravessá-la, encontra uma estrada bloqueada. Não tem jeito: você tem que ir por dentro da cordilheira e, está no topo dela, sem acostamento, em cima de um caminhãozinho. Cinco mil metros para baixo, só neblina. Parece coisa de filme, mas a gente fez tudo isso a queda de uma barreira na estrada Panamericana, que tem um nome pomposo, a Grande Rota, mas é um lixo.

Certa vez, fui para um lugar chamado Surabaia, que fica na Ásia, a terra da tartaruga gigante. Para chegar a um lugar ou outro, três ou quatro horas para andar 50 quilômetros. Você imagina a estrada. O ônibus que tinha um volante com jogo terrível e abismo para os dois lados. Para chegar a um determinado lugar em Surabaia, já fiz um pouso forçado no mar da Ásia com um aviãozinho de 25 lugares. Começa a vir essas coisas na cabeça. Uma vez, num dia 6 de outubro, data em que me casei com a Nilde, eu fui a um casamento na Indonésia, só porque eu estava morrendo de saudade da minha mulher. Um casamento absolutamente diferente. Os noivos ficam doze horas sentados num templo e as pessoas vão chegando com frutas. Então, o templo fica lotado de frutas. Fui lá ver o casamento porque estava com saudade da Nilde. O convite era um leque que guardo até hoje. Para lembrar que eu estive naquele lugar.

Peguei o M-19, guerrilheiros da Colômbia, fiz entrevistas com eles. Peguei o vulcão da Colômbia, em que morreram mais de 20 mil pessoas. Peguei um terremoto no México em que morreram, só em uma escola, quase 500 crianças. Fiz o terremoto do México, fiz o vulcão da Colômbia. Quando achei que tinha me livrado do terremoto, nós pousamos em Bogotá, a erupção do vulcão. Fiquei em Bogotá e fui com a Defesa Civil francesa, que estava ajudando os colombianos a sobrevoar o local. Gravamos tudo isso e colocamos no Jornal da Manhã da Jovem Pan. Tem matérias que, se começar a pensar, tem coisas inesquecíveis. Coisa que quem fez, fez e quem não fez não vai fazer nunca mais. Não tem jeito de fazer, são coisas que aconteceram. Peguei toque de recolher na Malásia. Então, a gente ia caminhando junto às paredes para chegar a um posto de telégrafo. Fechado de madrugada. Você só vê isso em filme. Bate no telex e a tecla vai até o fundo e depois volta. Veja a lentidão para você poder mandar algum tipo de mensagem, algum tipo de informação. Ligação telefônica demorava de cinco a seis horas em alguns lugares em que estive. Então, hoje, é uma outra coisa, essas coisas todas vão ficando na sua cabeça. São coisas incríveis.

Isso que eu falei da América do Sul, ônibus cheio de galinha, porco, aquelas pessoas que você só vê em filme e você dentro do ônibus. Passando por aquela experiência, muda a cabeça. É minha herança. Eu sou um cara riquíssimo. Minha conta, minha bagagem, meu cofre dessas experiências é impensável. A gente até esquece. A gente tem que ir falando para lembrar. Tenho muita foto disso tudo que já vivi. Nessa viagem cheia de vulcões e terremotos, fiquei 119 dias fora. Quando eu saí, o meu filho não andava. Quando eu voltei, e você sabe que uma criança muda rapidinho em dois ou três meses, encontrei um molequinho correndo no aeroporto: era o Rodrigo. Fui para países incríveis, onde pessoas não costumam ir. Eu acho que vivi mesmo e ainda tenho tanta coisa para fazer, acho. É uma coisa totalmente fascinante. Minha mulher sabe disso. Meus filhos sabem disso e eles incorporam isso. Eles acham isso um tesão. Eles acham uma coisa fascinante. Isso não tem preço.

AA - Se você pensar em tudo o que tem hoje em dia, do que você mais se orgulha?
WN - Eu me orgulho de tanta coisa. É um grupo de coisas. Eu já pensei nisso. Eu me orgulho de ter sido um cara honesto a vida inteira, me orgulho de ter uma explicação para tudo, me orgulho da mulher que tenho, me orgulho dos meus filhos. Vamos parar porque me sinto muito emocionado…

Literatura na Arquibancada:
Você pensa em escrever um dia um livro sobre suas "aventuras" no mundo do jornalismo esportivo? (Não uma biografia, mas suas andanças por esse universo da notícia)

Wanderley Nogueira:
Penso sim. Mas, confesso, está faltando tempo. Um dia escreverei. Tenho compensado essa "falha" com palestras contando as melhores passagens ao longo da minha caminhada. Vitórias, derrotas, ressurgimento e tudo mais que o esporte proporciona. Falo sobre momentos emocionantes, grandes entrevistas e passagens imperdíveis. Felizmente, o público tem gostado.


LA:
Quais os 5 livros nacionais e 5 internacionais já publicados no Brasil, que você elege como os melhores.

WN:
Sei que vou esquecer muita coisa. Mas,tem livros que devem mesmo ser recomendados. O Negro no Futebol Brasileiro, de 1947, escrito por Mario Filho é um clássico.  Orlando Duarte tem bons livros sobre muitas modalidades. A Dança dos Deuses, livros sobre violência, biografias de atletas e treinadores internacionais. E, parabéns pelas suas obras. Sei que o seu trabalho não é fácil. É preciso gostar e ter talento.

Sobre Wanderley Nogueira:
Trabalha há 37 anos na rádio Jovem Pan de São Paulo. Na TV, é integrante do programa “Mesa Redonda Futebol Debate”, da TV Gazeta, um dos mais antigos e tradicionais programas de debates. Na internet, Wanderley Nogueira trabalha no Portal Terra, onde assina um blog e o programa Terra Esportes Show. E ainda faz palestras sobre suas aventuras no mundo do jornalismo esportivo batizadas de “No Pique da Vida”.

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