segunda-feira, 16 de abril de 2012

Um locutor chamado Maria

Antônio Maria

Sua passagem por este mundo foi breve, mas nos 43 anos em que esteve por aqui, ele deixou seu nome inscrito na literatura brasileira como um de nossos maiores cronistas. Antônio Maria foi além de cronista, locutor esportivo, diretor e produtor de programas de rádio, compositor de jingles e sobretudo boêmio incontido e poeta de mão cheia.

Quis o destino que a decepção com a tragédia ocorrida na final da Copa do Mundo realizada no Brasil, em 1950, tirasse Maria de seu maior sonho profissional: o de locutor esportivo.
Mas antes de revelarmos as andanças de Maria pelo mundo da bola, Literatura na Arquibancada apresenta o texto revelador da trajetória de Maria por este mundo publicado na “orelha” da obra “Um homem chamado Maria” (Objetiva,2005) escrita pelo craque Joaquim Ferreira dos Santos.

Sua passagem por este mundo foi rápida – mas intensa, cintilante, romântica. Antônio Maria nos legou crônicas deliciosas, hoje inscritas no melhor que a literatura brasileira já produziu. Compositor, fez lindas músicas que ajudaram a criar o que conhecemos como “samba-canção”. Viveu, como seu grande amigo Vinicius de Moraes, em estado de poesia, o tempo todo voltado para a paixão pelas mulheres.

O pano de fundo de tudo isso é um Rio que não existe mais, pré-bossa nova, de glamour hollywoodiano. Pois Maria, um pernambucano que chegou à cidade para ser locutor esportivo, acabou se transformando num dos personagens cariocas mais queridos, emblema de uma época e de um estilo de viver.

Era doce, brejeiro, o poeta frustrado autor de “Ninguém me ama/Ninguém me quer”, e a quem ninguém chamava de Baudelaire. Era o homem que sabia escutar as mulheres e seus dramas, um dos melhores papos da cidade, colega de copo de grandes artistas brasileiros, como Dorival Caymmi, Rubem Braga e Di Cavalcanti. Com eles atravessava as noites de Copacabana, em boates famosas como Vogue e Sacha’s, onde circulavam políticos, playboys e estrelas do cinema internacional.

Foi brigão, boêmio. Maria se metia em confusões e delas saía com candura. Também empolgava os corações femininos, depois das duas regulamentares horas de conversa, e costumava se esquecer em namoros apaixonados com as grandes vedetes de sua época. “É muito melhor estar mal acompanhado”, disse em alguma noitada, contrariando o senso comum que preferia a solidão. Cardisplicente, como também se chamou, morreu do coração – meses depois da separação de Danuza Leão, com quem viveu quase três anos. Era de noite, foi em Copacabana.”

Antonio Maria abandonou o sonho de se tornar locutor esportivo após a derrota do Brasil para o Uruguai, na Copa do Mundo de 1950. Joaquim Ferreira dos Santos revela em seu “Um homem chamado Maria”, as andanças de Maria pelos microfones esportivos. Um caminho que teve idas e vindas, primeiro, no Nordeste (Recife, Fortaleza e Salvador) e depois no Rio de Janeiro, na Rádio Ipanema e mais tarde, na Tupi, onde trocaria (ainda bem para a literatura brasileira) o sonho dos microfones esportivos pela crônica jornalística, que acabaria se tornando a espinha dorsal de sua obra literária.

Antonio Maria Filho
Enquanto o sonho durou, Maria deixou sua marca – como sempre o fizera na vida – na história do rádio esportivo brasileiro. Quis o destino que seu sonho de trabalhar na imprensa esportiva fosse realizado pelo seu filho, Antônio Maria Filho tornou-se um dos mais respeitados cronistas do jornalismo esportivo brasileiro. Joaquim Ferreira dos Santos ainda revela em sua obra uma surpresa para muitos rubro-negros, a descoberta de que o vascaíno Maria foi o criador da expressão “Mengo”.

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Ary Barroso
“A vinda ao Rio, chamado por Fernando Lobo, era uma aventura do mesmo tamanho que a de continuar no Recife. Maria queria continuar irradiando futebol porque fazia esse trabalho com algum destaque na Rádio Clube de Pernambuco. Não era pouca pretensão. Aquele tinha sido um dos primeiros gêneros a se solidificar no rádio brasileiro com as transmissões feitas, no início dos anos 30, pelos paulistas José Siqueira, Nicolau Tuma e Armando Pamplona. Agora já surgiam as bossas de Ary Barroso, Valdo Abreu, Geraldo José de Almeida e Oduvaldo Cozzi.

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Antônio Maria
Maria, no entanto, não chegou em nenhum momento a entrar para a história dos locutores brasileiros. Pagou o preço, percebeu-se mais tarde, de estar um pouco à frente dos seus marcadores, em situação futebolística de impedimento. Os bordões que seriam marcantes nas décadas seguintes em locutores como Valdir Amaral (“o relógio marca”), Orlando Batista (“bota no meio, Malcher”) ou o Sílvio Luís (“pelas barbas do profeta”), em 1940, destoavam.

Ainda era cedo para se ouvir que “Domingos da Guia está caindo mais do que Gabinete francês” ou que “Ademir está passeando mais do que pitomba em boca de velho”, outras expressões com que Maria marcava suas aparições na Ipanema.”

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Na Tupi, a partir de 1947...

“Nesse período Tupi, Maria batia o córner e corria para cabecear. Dirigia o departamento artístico, fazia musicais, humorísticos, jingles e, a imagem futebolística não era à toa, transmitia jogos. O speaker entrava em campo novamente, não como os outros, é claro. Nessa temporada nos estádios, já transmitindo diretamente do Maracanã, continuou com suas expressões curiosas e manias esdrúxulas (se houvesse dois jogadores com o mesmo nome em campo, dois Paulinhos, por exemplo, chamava um pelo sobrenome, mesmo que ninguém o reconhecesse assim).

Na tentativa de se diferenciar dos rivais, extrapolou. Inventou com Ary Barroso a transmissão em dupla. Assim: num Flamengo e Vasco, por exemplo, Ary irradiava as jogadas do Flamengo. Quando a bola passava para um jogador do Vasco, Maria assumia o comando. Complicado, mas era preciso enfrentar as feras da Rádio Nacional, onde Antonio Cordeiro e Jorge Curi logo fariam coisa semelhante: cada um narrava uma metade do campo.


Brasil x Uruguai, 1950
Graças, ou desgraças, a esse esquema, coube a Maria transmitir as jogadas do Uruguai contra o Brasil na trágica final da Copa do Mundo de 1950 e deixar para a posteridade a gravação do gol de Ghigia. Um documento impressionante: ouve-se o grito de gol, seco e rápido. Segue-se o silêncio de pasmo no estádio. Uma enorme pausa na narração. E a mão de Maria dando uma porrada, ódio puro, na mesa da cabine. Outro silêncio e a leitura de um anúncio.



Ademir, o Queixada
Maria ainda transmitiria jogos por mais dois anos, e parou. ‘Perdi o gosto do futebol naquele gol do Ghigia’, dizia. 

Na verdade, ele torcia por Ademir de Meneses Futebol Clube. No Recife era Sport, porque o jogador, o inesquecível Queixada, artilheiro dono de um estilo requintado, jogava lá. 

Depois, Ademir veio para o Vasco, e Maria virou cruz-maltino. 

Ademir estava na Seleção de 1950, o que aumentou a força da porrada na mesa.

Zizinho (centro), no Bangu.
Maria ainda tentou encontrar alguma motivação depois de Ghigia e do fim da carreira de Ademir, em 1956, e, segundo o radialista Luiz Mendes, se entusiasmou pelo Bangu de Zizinho, do goleiro Oswaldo Topete, do paraguaio Cabrera e do ponta-esquerda Nivio. Mas os uruguaios tinham acabado com o prazer da coisa. ‘O futebol virou um emprego e a ida para o estádio, um caminho tedioso’, escreveu Maria, decepcionado. ‘Duravam séculos os 90 minutos de qualquer partida. Larguei tudo. Envelhecera’.

Sua passagem pela Rádio Tupi, no entanto, deixou como marca principal os humorísticos, numa série de programas que o incluiria entre os redatores clássicos do gênero no rádio. O mais célebre de todos os programas, nessa fase da Tupi, foi o Rua da Alegria, toda segunda-feira, às 21h05. O ator Orlando Drumond garante que foi Maria, num dos quadros do programa, quem primeiro passou a tratar o Flamengo de Mengo. Era parte de um bordão, aquela frase que o humorista repete várias vezes para marcar o personagem, de um ator chamado Germano.

– Mengo, tu é o maior – repetia Germano, que ficou tão marcado pela frase que, anos depois, quando foi para a Nacional, levou o bordão junto, como se lhe fosse parte inalienável da personalidade artística.”

Sobre Joaquim Ferreira dos Santos
Dono de um dos textos mais refinados da imprensa brasileira, já trabalhou na Veja, O Dia, Jornal do Brasil e atualmente colunista de O Globo. Organizou duas coletâneas de crônicas e o diário íntimo de Antônio Maria. “Um homem chamado Maria”, escrito inicialmente para a coleção “Perfis do Rio” com o título de Noites de Copacabana, em 1996, foi totalmente revisto e atualizado por Joaquim.


Para saber mais sobre Antônio Maria, acessar: http://www.releituras.com/antoniomaria_bio.asp

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