quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um anjo chamado Dener


No dia 19 de abril de 1994, Dener, um jovem talento do futebol brasileiro, nos deixou precocemente. Dener morreu tragicamente em um acidente automobilístico quando tinha apenas 23 anos. Nessa época, jogava pelo Vasco da Gama do Rio de Janeiro, mas seus dribles e jogadas sensacionais começaram na zona Norte de São Paulo, pela Portuguesa de Desportos.


Dener teve a trajetória comum aos gênios do futebol brasileiro que surgem das periferias. Família pobre, teve de abandonar o sonho de ser jogador profissional quando tinha 15 anos para poder ajudar a mãe nas despesas da casa. Era órfão de pai desde os oito anos. Se não podia jogar profissionalmente, Dener arrumou um jeito de se manter em atividade. O dia era longo: de manhã, aula; a noite, trabalho e futebol quando o colégio Olavo Bilac o convocava para jogar em troco de um cachê.


Dener sabia que poderia jogar profissionalmente e por isso tentou novamente retomar o sonho interrompido. Depois de tentar a sorte no São Paulo sem sucesso, em 1988, começou a treinar na Portuguesa de Desportos, nas categorias de base. Três anos depois, em 1991, deixou todos perplexos com gols e jogadas durante a conquista da Copa São Paulo de Juniores. Não apenas torcedores e jornalistas, mas inclusive o técnico da seleção brasileira, Paulo Roberto Falcão que o convocou pela primeira vez nesse mesmo ano. Dener tinha apenas 20 anos. Era nome certo para a Copa de 1994.


Mas como acontece com a maioria dos gênios no futebol, Dener era indisciplinado fora dos gramados. A fama e dinheiro rápidos mexeram com a cabeça do garoto. Saiu da Lusa, não deu certo no Corinthians, no Grêmio até achegar ao Vasco, em1994. Não deu certo, mas nunca deixou de realizar suas jogadas fantásticas. Exímio driblador, chegou a ganhar coro especial da torcida vascaína. Em São Januário, a rima "Ê, cafuné, ê cafuné, o Dener é a mistura do Garrincha com o Pelé!" tornou-se comum nas arquibancadas. Isso tudo, em apenas 17 jogos realizados pelo clube carioca.


Dener havia completado 23 anos recentemente quando no dia 19 de abril sofreu o acidente trágico que lhe roubaria a vida. 

Estava no banco de passageiro do Mitsubishi Eclipse de um amigo vindo de São Paulo onde estivera para acertar com os dirigentes da Lusa sua transferência para jogar na Europa, pelo Stuttgart, da Alemanha.

                                          Reportagem sobre o acidente e a morte de Denner.

Dener dormia quando o carro bateu em alta velocidade em uma árvore na Avenida Borges de Medeiros, no bairro da Lagoa. A morte foi instantânea. Dener foi estrangulado pelo cinto de segurança. Miranda, o motorista, perdeu as duas pernas. Apesar de jovem, Dener já era casado deixando três filhos. Durante anos sua esposa tentou na justiça receber alguma indenização dos clubes em que Dener jogou, já que Vasco e Portuguesa não assumiam quem na verdade era dono de seu passe. Miranda, causador da tragédia, morreu um ano depois, assassinado por integrantes do Comando Vermelho, facção criminosa com a qual mantinha ligações. 


De toda a tragédia envolvendo a morte precoce de Dener, restou a lembrança de um craque driblador para milhares de torcedores do país. Tanto que no local onde o acidente ocorreu uma placa registra que ali “perdeu a vida um dos últimos poetas da bola”.

Dener deixou guardado na memória de muitos torcedores a imagem do futebol-arte brasileiro. Um deles, no Nordeste brasileiro, mais precisamente na cidade de Natal, Rubens Lemos Filho, cronista de mão cheia, autor de livros que em breve o Literatura na Arquibancada irá apresentar neste espaço, decidiu há dois anos extravasar os sentimentos que Dener lhe causaram. A crônica abaixo é uma das muitas que Rubens Lemos Filho escreve e publica em seu site: www.rubenslemos.com.br

DENER AUGUSTO, DOS ANJOS
Por Rubens Lemos Filho


Quem vê Neymar, não viu o que eu vi. Ou aquilo que só a minha geração teve direito como num efêmero voo de uma gaivota. Se os que endeusam o hábil Neymar pudessem, ainda que por segundos sutis, haver olhado Dener Augusto de Sousa, a concepção de magia seria outra. Muito melhor.

Dener morreu há 18 anos, num 19 de abril. Vinha de carona no seu carro que se espatifou contra uma árvore na Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro. O cinto de segurança matou Dener por asfixia, logo ele, que liberava pelos seus pés, o ar de graça, estilo e deboche perdidos no futebol mecânico.


Dunga já mandava na seleção. Era o capitão do time de Parreira, que vetara Dener pela sua irreverência exagerada. Tenho quase certeza de que o dedo de Zagallo funcionou como em outros casos.

Dener, o camisa 10 perfeito para o time campeão de 94 sem um camisa 10 de respeito. No dia seguinte à sua morte, o Brasil jogou contra a França, em Paris. Se fosse convocado, Dener não haveria de passar pela Rodrigo de Freitas naquele fim de madrugada.


Mas a vida não faz concessões ao se. O se é o pequeno rasgo de qualquer sentimento. 

De esperança: “Se Deus quiser”, De inveja: “Se eu fosse igual a ele”. De remorso: “Se eu tivesse pensado antes”. De soberba: “Se fosse comigo, tinha sido diferente!” Dener pode ser considerado o se do futebol brasileiro embora tivesse sido, por um tempo mais-que-finito, de verdade.

Driblava com a facilidade que as crianças têm de se enturmar num parque. 

Ele era um menino. 

Achava o drible mais bonito do que o gol. Surgiu e foi-se ligeiro, porque os bons partem primeiro.


Dias antes do acidente, lá estava eu na arquibancada do Machadão, ABC x Vasco pela Copa do Brasil. Dener absolutamente inerte, aéreo, longe do jogo. Recebe uma bola pela ponta-direita, em frente à Frasqueira, onde ficava a massa alvinegra. Dener tenta um cruzamento e a bola sai torta, horrível.

Toda a multidão é assustadora e, na cega paixão, comete sua estupidez. A torcida do ABC cobriu de vaias o camisa 10 do Vasco. A cena está aqui, à minha frente, no HD da memória, tanto tempo depois. Dener olha ao povão e levanta a mão mandando que todos esperassem, numa ameaça que deixou o estádio lotado num silêncio fúnebre e premonitório.


No lance seguinte, quase no mesmo lugar, balança diante do volante Júlio e do lateral-esquerdo Jailton. Na ginga, os dois se chocam e ele passa, luminoso, partindo, em quadro belo e assombroso, para cima do capitão Romildo.

Experiente, o zagueiro espera, com instinto de defesa aceso. Dener também está parado. Entre os dois, assustada, a bola. São poucos segundos torturantes. Touro e toureiro. Numa inversão, o touro era franzino, o toureiro, um Hercules de força e raça.


Dener passa o pé sobre a bola. Romildo parado. Olhos nos olhos. Dener decide finta r para dentro, dando um toque rápido que fez o corpo do marcador se movimentar em sua direção. Dener puxa o freio imaginário, Romildo, gira e lhe dá às costas, sem querer, postando-se como um pêndulo. Suas pernas abrem por um milésimo. Fecham-se quando Dener, já jogara jogado a bola por dentro delas e, à Charles Chaplin, seguiu sorrateiro para chutar na trave.

A torcida do ABC, num aplauso reverencial, me fez provar que é mesmo o futebol a maior expressão cultural da história, porque é acessível a todos. Dener foi mais importante que o jogo e seus 21 figurantes. Ainda no primeiro tempo, driblou os dois volantes do ABC e tabelou na perna esquerda do zagueiro-central Edmar.


A bola, como uma prostituta apaixonada, abriu-se para o que quisesse fazer. Ele ameaçou bater e o goleiro Marcelo caiu. Ele tocou com classe e fez o seu penúltimo gol na vida.

Dener Augusto de Sousa, o se do futebol, deveria ter nascido Dener Augusto dos Anjos.
Foi um poeta intuitivo, com repentes de ternura e final de tragédia grega.


Para se ter noção do que Rubens Lemos Filho está dizendo sobre o seu “Dener Augusto, dos Anjos”, vale assistir o vídeo abaixo:


Sobre Rubens Lemos Filho:

Rubens Manoel Lemos Filho nasceu em Natal (RN) em 20 de agosto de 1970. É jornalista desde abril de 1988. Trabalhou como editor e repórter em jornais como a Tribuna do Norte e Dois Pontos e editor de cadernos especiais no Diário de Natal. Foi editor dos telejornais Bom Dia RN e RN TV da afiliada Rede Globo em Natal, da TV Potengi (Band Natal). 

Coordenou assessoria de imprensa em cinco campanhas eleitorais. 
Foi subsecretário de Comunicação Social do Estado de 1995 a 2001 e Secretário de Comunicação de 2003 a 31 de março de 2010. É Coordenador de Comunicação Social da Assembleia Legislativa do RN e colunista do Jornal de Hoje. Autor de dois livros: Danilo Menezes, o Último Maestro(2001) e o Homem Óbvio(2009).

Um comentário:

  1. Olá amigo André...Uma ótima noite para você.
    Foi uma grande perda quando este jogador Dener morreu Sou torcedora do Vasco da Gama e na época do acidente ele já não estava mais no Vasco e se não me falha a memória estava na portuguesa, mas foi enterrado com a bandeira com a bandeira do meu time também (Vascão).
    Grata por compartilhar sempre que postar me indique que eu gosto de participar e ser retribuída se não houver empecilho, pois fica a critério de cada um. Abraços sempre.

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