segunda-feira, 23 de abril de 2012

Salve São Jorge


23 de abril, dia de São Jorge. Santo padroeiro em diversas partes do mundo: Inglatera, Portugal, Geórgia, Catalunha, Lituânia e da cidade do Rio de Janeiro. São Jorge para os católicos, Ogum para os seguidores de religiões afro-brasileiras. São Jorge padroeiro dos escoteiros, da Cavalaria do Exército Brasileiro. E São Jorge, claro, o santo que ficou conhecido como padroeiro do Corinthians. Curiosamente, não há apenas uma única versão para que isso tivesse acontecido. As versões mais próximas da realidade foram todas descritas e muito bem explicadas no fantástico livro do centenário do clube, “Corinthians – 100 anos de paixão”, lançado em 2010 pela editora Magma Cultural e escrito pela dupla de craques Marco Piovan e Newton Cesar.


“A lâmina, afiada e impiedosa, fez a cabeça do jovem guerreiro se separar do corpo, dando cabo de sua vida. O jovem guerreiro, que também era conde, morreu no dia 23 de abril de 303. O imperador de Roma, Diocleciano, mandou torturar e depois degolar o jovem por renegar as crenças nos ídolos adorados nos templos pagãos e defender a crença em Jesus. O jovem, nascido na antiga Capadócia, chamava-se Jorge.

Conta a lenda que Jorge mudou-se para a Palestina com a mãe depois que seu pai morreu em batalha. Devido a sua bravura, dedicação e habilidade, tornou-se capitão do exército romano. Pelo excelente trabalho, aos 23 anos, foi viver na corte imperial sendo condecorado com o título de Conde.


Não fosse sua convicção religiosa contrária à do imperador, ele não teria perdido a cabeça. Sua morte, todavia, fez sua fé inabalável em Jesus espalhar-se e ganhar força popular. Por todo o Oriente, houve cultos em seu nome. Por ocasião das Cruzadas, seu culto espalhou-se pelo Ocidente. Adentrou casas, a igreja, o papado e o futebol. São Jorge transformou-se no padroeiro do Corinthians e, graças a dois homens santos, o papa e o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, permanece. No livro Corintiano, graças a Deus!, há um trecho explicando o fato.

‘Fui recebido muitas vezes pelo papa Paulo VI. [...]Num dos encontros, levei um item a mais na agenda. Motivo: a imprensa acabara de divulgar a famosa lista que os jornalistas logo iriam apelidar de ‘cassações de santos’.


[...] Tal publicação, ao menos em São Paulo, suscitou uma onda de reclamações por parte dos que não se conformavam com o fato de seus santos favoritos terem sido excluídos do catálogo. Foi o caso de São Jorge, patrono da Inglaterra e do Corinthians. Nosso povo entendeu que a Igreja não mais o considerava santo. E começou a protestar. Pois bem: decidi levar esse clamor popular ao próprio papa.

‘Santo padre, nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil, sobretudo entre a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo’.


Logo percebi, pela expressão de seu rosto, que Paulo VI entendera o problema. Respondeu-me sem pestanejar: ‘Não podemos prejudicar nem a Inglaterra (São Jorge era o santo protetor da Inglaterra), nem o Corinthians’.

Com o consentimento da igreja, Jorge continuou santo. E guerreiro: Tão guerreiro quanto qualquer torcedor ou jogador do Corinthians. Há uma certa controvérsia a respeito da escolha de São Jorge para proteger o clube. E comentários de que São Jorge não é tão popular entre os torcedores, também. Há, ainda, informações de que, na Capadócia atual, região no centro da Turquia, São Jorge não seja tão conhecido dos moradores locais. Mas isso de fato importa a nós, corintianos? Não. São Jorge fez e sempre fará parte do clube, não importa o tamanho da fé que cada um tenha.


‘Realmente o símbolo de São Jorge nunca caiu na boca do torcedor corintiano. Nos anos de fila, esta ligação entre o time guerreiro e o santo guerreiro foi bastante explorada. Mas não sobreviveu muito’, afirmou o jornalista Celso Unzelte, autor do Almanaque do Corinthians’. Nos anos de fila, como disse Celso, a imagem do santo teve mesmo grande ligação com o torcedor. Tanta, que este não media esforços. No jogo contra o Internacional de Porto Alegre, na final do Campeonato Brasileiro de 1976, torcedores desfilaram entre os colorados com enormes e pesadas estátuas do santo na cabeça.

Capela São Jorge, no Corinthians.

Sobre a escolha do santo, algumas fontes citam que São Jorge fora escolhido após o time ter mudado suas instalações para o Parque São Jorge, no Tatuapé. Outras dão crédito ao termo ‘fiel’. A fidelidade de Jorge à verdade cristã até o fim de seu martírio parece identificar-se com a paixão “fiel” corinthiana, popular entre várias agremiações do time. Também segundo o monsenhor Arnaldo Beltrame, falecido em 2001, e que foi responsável pela capela do clube, o Corinthian Football Club tinha como padroeiro o São Jorge. Por essa razão, o nosso Corinthians inspirou-se no nome e no santo do clube que veio de longe. O que for, não importa. A fé, afinal, não pede confirmações. O importante mesmo é que nosso glorioso São Jorge é o retrato da bravura, da persistência, da coragem, da luta, do sofrimento e da fé que existe em cada coração corinthiano.


E os sofredores corinthianos, a cada dificuldade, recorrem ao santo, mesmo aqueles que não levantam a bandeira de São Jorge devem pedir uma ajudinha. Foi assim em vários momentos delicados do time. Não por outra razão, na década de 1960, a capela em homenagem ao santo foi erguida, inaugurada exatamente em 27 de novembro de 1967, pelo então presidente Wadih Helú. Desde então, a mística entre Corinthians e São Jorge se fortaleceu. Quem vai à capela, ou mesmo quem roga pelo santo no campo, em casa, sabe a oração do santo protetor. E, no ano do centenário (ou agora, na Libertadores), rezar pelo nosso protetor maior é, entre outras coisas, uma forma de agradecimento. Pode fazer a sua reza”.

Oração a São Jorge


“Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.

Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades de perseguições dos meus inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós.

Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.

São Jorge, rogai por nós.”

Sobre os autores:
Marco Piovan (direita)

Marco Piovan é paulistano, fotógrafo publicitário desde 1991 e publicou o livro “Making Of – Revelações sobre o dia-a-dia da fotografia”, pela editora Senac em 2007. 

Trabalhou para as principais agências de publicidade de São Paulo, além de projetos no terceiro setor. Atualmente é responsável pela área de “Novos Negócios” da Magma Cultural.




Newton Cesar
Newton Cesar é artista plástico, publicitário e escritor. Escreveu alguns romances, entre eles “Jardim de sangue” e “Alice”. Na área de propaganda, escreveu “Direção de arte em propaganda e Making of”. 

Desde 1987 trabalha como diretor de arte e diretor de criação em agências de publicidade. 

Possui vários livros já publicados, entre ficção e negócios. Eu, Beatriz e Angela é seu primeiro romance.

Um comentário:

  1. Anônimo01:42

    Sou fã do autor. Estudamos um pouquinho de Literatura juntos há algum tempo!

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