terça-feira, 17 de abril de 2012

O projeto de memória que faltava no futebol



Um projeto inédito e de extrema importância para a memória do futebol brasileiro. É o que o Museu do Futebol de São Paulo e o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC) estão fazendo há um ano e pouquíssima gente sabe até agora. Juntas, as duas instituições prometem resgatar a história de todos os jogadores da seleção brasileira de futebol que ainda estão vivos, titulares ou reservas.

Até o momento, foram gravados 31 depoimentos, e até o final de 2012 prometem ter registradas histórias dos jogadores que participaram até a Copa de 1982. O mais importante neste projeto é a forma como tudo será disponibilizado para o público e, principalmente, estudiosos e pesquisadores do esporte brasileiro. Um acervo que, com certeza, permitirá a produção de diversas obras literárias, biografias, registros de períodos de competições, e diversas temáticas envolvendo a história do futebol brasileiro.

Confira a entrevista com Clara Azevedo, diretora de conteúdo do Museu do Futebol e Mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo.

Literatura na Arquibancada:
Quando e por que surgiu a ideia do projeto?

Clara Azevedo:
O projeto Futebol, Memória e Patrimônio, financiado pela FAPESP, é fruto de uma parceria entre o Museu do Futebol, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, e o CPDOC-SP, Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas. O desejo de realizar esse projeto surgiu em meados de 2010 em conversas com a direção do CPDOC. Percebemos que seria um golaço estabelecer uma parceria entre o Museu, que tem como missão a preservação do futebol brasileiro, e o CPDOC-FGV, que tem entre suas expertises o desenvolvimento de projetos com o foco na chamada História Oral.

Instalações do Museu do Futebol
Vale lembrar que o Museu do Futebol tem como principais objetivos preservar a memória do esporte e mantê-la disponível para consulta e apreciação pública. Assim, desde a inauguração do Museu elegemos como fulcral que tal preservação também deveria se dar por meio da constituição de um acervo audiovisual com a história de vida destes que protagonizam o dia-a-dia do futebol. Neste projeto optamos por focar as Copas do Mundo e seus principais atores, especialmente os atletas que participaram dos selecionados brasileiros, seja como titular, seja como reserva. O projeto faz parte de uma das linhas de pesquisa do Museu intitulada Memória Viva, que tem como foco o registro de entrevistas, às vezes somente em áudio, mas preferencialmente em audiovisual.

L.A:
Onde e como estão sendo feitos os depoimentos?

C.A:
Em São Paulo as gravações são realizadas no auditório do Museu e no Rio de Janeiro na sede do CPDOC. Mas é claro que isso depende da disponibilidade dos entrevistados. Em alguns casos as entrevistas são realizadas na casa do depoente ou em algum lugar indicado por ele. Vale lembrar que muitos já são idosos e, por isso, têm maior dificuldade para deslocamentos e viagens. Quando as entrevistas ocorrem no Museu geralmente damos uma volta pela exposição antes da entrevista. Tal procedimento é muito interessante e costuma funcionar como um aquecimento, já que o entrevistado se surpreende e se emociona ao rememorar, dentro do Museu, episódios de sua vida e da vida dos seus colegas. Nas entrevistas, sempre participam pelo menos um representante do CPDOC e um representante do Museu. Em alguns casos, para representar o Museu, chamamos algum convidado. Já participaram, entre outros, os cineastas José Carlos Asbeg e Aníbal Massaíni e o jornalista Celso Unzelte. Parte das entrevistas já está disponível no site do CPDOC (http://cpdoc.fgv.br/museudofutebol/resultados). Em breve, estarão disponíveis também em um banco de dados do Museu do Futebol que poderá ser consultado on-line.

L.A:
Há alguma curiosidade que tenha ocorrido nos bastidores da produção dos personagens que já foram gravados?

C.A:
Uma coisa interessante a notar é que muitos dos jogadores, principalmente aqueles que tiveram maior destaque e exposição na mídia, costumam vir com um discurso pronto, acostumados que estão às inúmeras entrevistas que já concederam à imprensa. Assim, percebemos que há um estranhamento inicial com esse enfoque na história de vida proposto pelo tipo de entrevista que estamos fazendo. Teve casos interessantes, como o Piazza (Copa de 1970 e 74), que trouxe algumas relíquias suas, dentre elas, diversas radiografias que comprovavam suas contusões ao longo da vida dedicada ao esporte. Com ele, inclusive, fizemos uma entrevista longa: mais de quatro horas de duração.

L.A:
Quais são os jogadores que ainda serão gravados?

Djalma Santos e os entrevistadores do projeto,
Daniela Alfonsi (direita) e Bernardo Buarque.
C.A:
Como o foco são as Copas do Mundo, temos dado preferência para os mais antigos. Começamos com a Copa de 1954 (antes desta não há nenhum jogador vivo) e a nossa idéia é chegar nesse segundo ano do projeto pelo menos até a Copa de 1982. Até agora entrevistamos 31 pessoas. Como estamos privilegiando jogadores mais antigos, já perdemos, infelizmente, a oportunidade de entrevistar alguns. A título de exemplo, estávamos com a entrevista marcada com o Pinheiro, que jogou em 1954, porém no dia da entrevista ele passou mal e acabou falecendo antes que conseguíssemos remarcar, infelizmente. Costumamos dizer que o tempo ruge e que precisamos correr para ter registradas as histórias de vida desses personagens que fizeram e fazem do nosso futebol o que ele é.

Confira abaixo alguns trechos dos depoimentos já gravados e disponibilizados online na página do CPDOC (http://cpdoc.fgv.br/museudofutebol/resultados).

Dadá Maravilha
Dadá Maravilha [gravado dia 10 de julho 2011, no Museu do Futebol. Entrevistadores: Fernando Herculiani (CPDOC/FGV), José Carlos Asbeg (Museu do Futebol)]. Acesse o link para ler ou assistir a entrevista na íntegra. http://cpdoc.fgv.br/museudofutebol/dariosantos

Dario relembra a infância problemática e sofrida...

“Bem, em primeiro lugar, eu vou dizer a todos que ninguém precisa esconder carteira porque o Dadá não é mais ladrão. Hoje, eu sou um homem de bem, sou pai de três filhas e um filho, quatro netos e uma neta, sou respeitado no Brasil e Deus permitiu que eu saísse da marginalidade. Eu era bandido, ladrão. Eu fui interno com cinco anos. Proveniência que meu pai era muito pobre e a minha mãe era doente mental. Minha mãe se suicidou. Ela tacou fogo no corpo. Querosene no corpo. Saiu correndo pela rua. Um nome feio: minha mãe era maluca. Era doente mental. E eu, vendo a minha mãe correndo, aquela tocha humana, eu saí correndo atrás da minha mãe.

E você vê o que é o instinto maternal: a minha mãe, em última instância, vendo que eu ia morrer com ela, me jogou na vala. E ela me salvou. E ela morreu. Meu pai me botou no SAM: Serviço de Assistência a Menores. Depois, FEBEM e FUNABEM. E eu, sem nenhuma condição, vivia no meio de bandidos, me tornei bandido. Usando aquela frase que eu acho perfeita: “O homem é produto do meio”. E, naquela época, eu andava com canivete, assaltando, roubando, e com o bolso cheio de pedras para quebrar a cabeça dos outros, porque os caras ficavam “gozando” a gente e eu tinha o apelido de Maluco. Me chamavam de Maluco, eu quebrava a cabeça do pessoal.”

(...)

“Eu era um cara muito revoltado. Eu só vivia olhando para os outros com... Vou ser sincero: eu era primo do capeta. Eu só pensava no diabo. Não acreditava em Deus, não acreditava em nada. Para mim, era o capeta, era maldade... Eu era sanguinário. Eu andava com faca para enfiar a faca... Eu queria ver sangue. Então, era primo em primeiro do diabo. Eu não acreditava em nada. Eu achava que a vida era um assalto, que a vida era uma injustiça, que ninguém gostava de ninguém, que era tudo falsidade... Eu tinha o diabo no corpo.”

Djalma Santos, craque bicampeão mundial, revela que era torcedor do Corinthians e uma “simpatia” feita pela mãe que acabou o salvando para o futebol...

Djalma Santos [gravado dia 17 de junho de 2011, em Uberaba, Minas Gerais. Entrevistadores: Bernardo Buarque (CPDOC/FGV) e Daniela Alfonsín (Museu do Futebol)]. Acesse o link para ler ou assistir a entrevista na íntegra. http://cpdoc.fgv.br/museudofutebol/djalmasantos

“...Antes da minha mãe morrer eu tinha bronquite, coisa que agora já está me atacando um pouco. Aí um dia  ela, minha mãe, apareceu com um negócio lá dizendo que era coelho e tal. Mas mentiu só para mim, as outras irmãs não podiam comer, aí eu punha até banca, né? [risos]. Só eu! Depois que eu vim saber que era gato, minha mãe me deu gato pra comer, por causa da bronquite. Sarava bronquite... Simpatia, não é? Falei: “Ah! Agora já foi, já tá bom”. Por cargas d'água, não sei  se foi o tal gato, só sei que depois quando comecei a jogar futebol parou, diminuiu.

Djalma Santos (esq), Pelé e Garrincha,
comemorando o título mundial de 1958.
Joguei futebol não tive mais nada. Não sei se foi porque me movimentava muito. E eu fiquei entusiasmado foi com o gato mesmo, falei: “Foi o gato”. Aí comecei a jogar na Portuguesa, tirei minha irmã do serviço, fazia as horas extras na fábrica para ir treinar. Tinha que pegar o ônibus essas coisas todas.  Mas foi indo, aí um dia a Portuguesa ia fazer um jogo amistoso lá na Penha. 

Aí me convocaram. No meu bairro, na Parada Inglesa, pus a maior banca: “Vou jogar no time da Portuguesa, lá na Penha”. Foram cinco ou seis rapazes da Parada Inglesa, me ver jogar. Aí eu fiquei na reserva, não joguei [risos].”

Coutinho
Coutinho, craque da era de ouro do Santos Futebol Clube, revela os apertos passados nas intermináveis viagens que o clube fazia ao redor do mundo...Acesse o link para ler ou assistir a entrevista na íntegra. http://cpdoc.fgv.br/museudofutebol/antoniohonorio

Coutinho [gravado no dia 21 de julho de 2011, no Museu do Futebol, São Paulo. Entrevistadores: Bernardo Buarque (CPDOC/FGV) e Clarissa Batalha (Museu do Futebol)].

“Conheci praticamente o mundo todo, vamos dizer assim. Mas na época não era esses aviões de hoje. Era uns teco-teco danado. Era “brabo”, era “brabo” o negócio. Eu sei lá, a gente está vivo contando porque demos sorte.

Mas as coisas eram feias. Nossa, para chegar em Portugal, meu irmão! [risos] Aquele Atlântico não terminava nunca. Nunca! E o avião parecia que não saía do lugar. Mas fazer o quê, não é? Estamos aí. Teve viagens que a gente... O cinto de segurança era o nosso cinto. [risos] Não tinha.  Então, sei lá... Viajamos com bode no avião, cabra, gato, cachorro, porco... Tudo dentro do mesmo avião, na África. O que vai se fazer? “Só tem este avião pra ir em tal lugar”. “Então vamos neste. Tudo bem”.

Dino Sani, craque da seleção campeã mundial em 1958 revela caso do jogador que pediu ao juiz para que expulsasse o próprio técnico...

Dino Sani e a equipe de entrevistadores do projeto.
Dino Sani [gravado no dia 3 de junho de 2011, no Museu do Futebol, São Paulo. Entrevistadores: Paulo Fontes (CPDOC/FGV), Clarissa Batalha (Museu do Futebol) e Fernando Herculiani (CPDOC/FGV). Acesse o link para ler ou assistir a entrevista na íntegra.

“D.S. – Era um ‘baita’ time. Era uma seleção de tirar o chapéu (1958). Se você pegar posição por posição e jogador por jogador, você vai tirar o chapéu.
P.F. – Quem que entrou no lugar do senhor quando se machucou?
D.S. – Jogou o Zito. Com mais raça, com mais força, física né. O Zito era pulmão. Ele ali, ele marcava mais... Era diferente do meu estilo.

Dino Sani
D.S. – Era diferente, completamente diferente. Mas era um baita jogador também.
P.F. – Ele era mais marcação, o senhor era mais passe.
D.S. – Mais marcação. Ele gritava muito, com Pelé, com todo mundo. E a gente falava: “Cala a boca aí, ô!” (risos) Teve o Jair Maria, uma vez, no Corinthians, o Brandão estava gritando muito com ele, ele parou o jogo – o Jair Maria – chamou o juiz e falou: “Faz favor. Manda aquele senhor embora, expulsa aquele senhor, que ele está me atrapalhando”. (ri) Mandou expulsar o treinador. (risos) O que nós rimos dele no campo! Jair Maria fez isso. Expulsa aquele senhor ali, que ele está me atrapalhando. E o treinador, quando começa a gritar muito, falar muito com o jogador, atrapalha, pô. Ele está preocupado lá com os companheiros, com a bola...”

Cabeção, ex-goleiro da Seleção Brasileira
Luiz Moraes, o popular “Cabeção”, goleiro do Corinthians e da Seleção Brasileira, revela o polêmico episódio de um suborno que lhe causou a saída do Timão, em 1954...

Cabeção [gravado dia 20 de maio de 2011, no Museu do Futebol. Entrevistadores: Bernardo Buarque (CPDOC/FGV), Daniela Alfonsi (Museu do Futebol) e Fernando Herculiani (CPDOC/FGV)]. Acesse o link para ler ou assistir a entrevista na íntegra.

“Em 1954, eu saí do Corinthians. Houve uma de casos acontecidos, eu tive de sair do Corinthians. Eles acharam que eu tinha me vendido, que eu ia ser vendido em um jogo Corinthians X Portuguesa. Porque o médico da família da minha mulher era presidente da Portuguesa. E a minha mulher precisava ser operada com este médico. Então eu cheguei pro Brandão, o treinador,  e falei: “Brandão, a minha mulher vai ser operada por Dr. Mário Augusto Isaías. Já estou avisando, porque nós vamos jogar com a Portuguesa, não quero encrenca”. “Não, tudo bem. Tudo bem. Ela pode operar, pode...”.

Porque esse Dr. Mário Augusto Isaías tinha salvado a minha sogra de uma hemorragia em casa. Ele foi em casa e salvou a minha sogra. Então, ficou. Como ele era português, com a Portuguesa, acharam que... E eu, também: “Minha mulher vai ser operada com ele”. Então, avisei antes de qualquer coisa. No dia do jogo da Portuguesa, em um sábado... O jogo Corinthians X Portuguesa foi feito em um sábado. Nós concentrávamos aqui [aponta para a direita]. O Brandão costumava... Na véspera do jogo, à noite, ele escalava o time. Falava: “Vai jogar Fulano, Ciclano, Ciclano. Vão jogar assim, assim, assim. Amanhã, vocês estão já sabendo que vai jogar”. Nessa sexta-feira, ele não fez a reunião. Deixou em aberto. Aí, todo mundo ficou meio cabreiro. Não fez a reunião. Perguntavam e ele: “Não, não, amanhã eu faço”.

Cabeção (esq) e Gilmar
No sábado, no dia, na hora do jogo, ele reuniu em um desses quartos que tinha aqui e falou: “Olha, o time vai começar... Vai jogar Gilmar no gol, Fulano, Fulano, Fulano, Fulano e Fulano”. E eu tinha jogado as seis primeiras partidas. Aí todo mundo, todos os jogadores ficaram: “Mas, espera aí, está mudando?”. “Ah, não, vai jogar assim, assim, assim”. Ficou todo mundo... 

Aí eu me queimei, me queimei. Saí, aqui, do vestiário, nem troquei de roupa, fui ficar no alambrado, ali. Aí, chamei um diretor, falei: “Oh, enquanto o Brandão estiver aqui, eu não jogo mais aqui. 

Eu vou embora. Vocês podem me mandar para onde vocês quiserem, só que com o Brandão, eu não fico mais aqui”.

Ele costumava fazer isso com outros jogadores, então ele quis fazer comigo. Fez comigo. E foi danado.  Passei uma temporada... Eu tive que mostrar uma carteira de poupança que eu tinha na Caixa Econômica... Uma carteira com o dinheiro que eu tinha, guardava todo mês, ganhava, recebia do clube e punha lá... 

Então, saiu publicado em todos os jornais aqui da capital, a carteira de quanto eu ganhava, quanto eu tinha de depósito... Se tinha algum depósito naquela data. 

Aí, eu me queimei. Me queimei, e falei que enquanto ele ficava aqui, enquanto ele era o treinador, eu ia embora. Fui embora. Fui para o Bangu. Fui jogar no Bangu.

Um comentário:

  1. Projeto muito importante para a memória do futebol brasileiro.

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