segunda-feira, 2 de abril de 2012

O peso de ser olímpico

Mascotes Londres 2012

Às vésperas da realização de mais um Jogos Olímpicos, atletas do mundo inteiro estão nos últimos preparativos para a maior e mais antiga competição esportiva do planeta. Há mais de 100 anos, os melhores atletas representantes de centenas de países de todo o planeta estarão em Londres para a realização de um verdadeiro sonho. Para poucos, a consagração. Para a grande maioria, a superação.

Equipe brasileira de Ginástica.
No caso dos atletas brasileiros a busca por uma medalha se torna ainda mais dramática devido aos problemas estruturais que o país tem em praticamente todas as modalidades. Ser vencedor, portanto, pode ter outro significado para os 250 atletas que devem ir à Londres, número estimado de brasileiros que devem participar dos Jogos.

Portanto, não voltar com uma medalha no peito, o mais provável, pode trazer a homens e mulheres, valores e consequências completamente distintas, dependendo da formação que cada um teve ao longo de sua trajetória como atleta e pessoa.

No texto abaixo, a psicóloga do esporte, Dra Katia Rubio, traz uma reflexão interessantíssima sobre “o peso de ser olímpico”.  

De suas palavras, uma definição é exemplar: “Para muitos ser olímpico é um peso demasiado, incapaz de ser suportado em uma existência comum. Não há explicação possível para uma vida monocromática quando se chegou tão perto do brilho celeste”.

O peso de ser olímpico
Por Katia Rubio

Há quase 20 anos estudo a história de vida de atletas olímpicos brasileiros. 

Fui atraída para esse tema por perceber a relação dessa figura espetacular com o mito do herói, resultando em minha tese de doutorado. 

Para tanto mergulhei no estudo da mitologia com Eliade e Campbell, sem falar em Junito Brandão, nas estruturas do imaginário de Gilbert Duran, de Castoriadis e de Anzieu, e claro na leitura que a Psicologia Analítica faz com apurada sensibilidade aproximando psicologia e mitologia.

Joaquim Cruz
Aquela pesquisa me fez buscar na sequencia os medalhistas olímpicos brasileiros, afinal eles se transformaram em fonte de inspiração e projeção para muitas crianças e jovens que sonhavam em ser atletas. 

E assim pude ouvir histórias maravilhosas, singulares e emocionadas de pessoas como Joaquim Cruz, que não poupou esforço nem tempo para me conceder 8 horas de entrevista, que começou em São Paulo e acabou no Rio de Janeiro; a persistência de Tetsuo Okamoto e Manoel dos Santos que nadavam em uma época que não existia piscina aquecida e muitos treinos eram realizados com a água a 13º no inverno;


Jackie Silva
a coragem de Jackie Silva que lutou pelo que achava justo e por isso teve que sair do país para depois voltar e ser a primeira medalhista de ouro da história brasileira; a saga de Rogério Sampaio e Aurélio Miguel na luta pelo direito de treinar e competir sem ter de se curvar aos desmandos institucionais, enfim, não há história olímpica que não seja repleta de atitudes de coragem, que só fazem reforçar a condição heroica do atleta.

Adhemar Ferreira da Silva
Estudar a trajetória de quem foi medalhista olímpico me proporcionou a condição de entender o perfil do atleta brasileiro naquilo que se refere a superação dos limites individuais e sociais. Isso porque chegar à conquista de uma medalha não é apenas expressão de talento pessoal excepcional, porque muitos gozam dessa condição, mas é estar no lugar certo, na hora certa para usufruir de algum tipo de estrutura que permite que esse talento se desenvolva. E talvez esse seja o quesito fundamental para a manifestação do talento que alguns chamarão de motivação, outros de garra e mais alguns de determinação. Ou seja, equilibrar essa disposição pessoal com as condições do meio para que ele se desenvolva é um misto de natureza e cultura.

O final da pesquisa com os medalhistas me levou a uma nova investigação. 

Dessa vez meu foco eram as mulheres olímpicas brasileiras que embora debutaram em Jogos Olímpicos em 1932 só foram conquistar as primeiras medalhas em 1996. 

A questão central da pesquisa era: o que aconteceu ao longo dessa trajetória? 

Depois de passar dois anos entrevistando as atletas olímpicas entendi que ali havia outra questão paradigmática: eu comecei a ouvir o discurso de quem perdeu.

Os medalhistas me contavam histórias às vezes tristes, às vezes dramáticas, mas todas elas tinham um final feliz. As mulheres, por sua vez, me contavam tudo isso também e várias delas, quando estavam prestes a abraçar seu sonho, o via escapar por entre os dedos. 

E ali comecei a atentar para a derrota. Ao final dessa pesquisa entendi que era preciso buscar a história de todos, independentemente do sexo, idade ou classe social, afinal há muito mais derrotados na história do esporte do que medalhistas.

Silvina das Graças Pereira:
fez parte da equipe de atletismo brasileiro
nos  Jogos Olímpicos de 1976 e hoje,
líder comunitária no Rio de Janeiro.
E então, nos últimos dois anos, busco pelos atletas olímpicos brasileiros de todos os tempos. Já foram algumas centenas de entrevistas e há ainda outras centenas mais para chegar ao fim. Muitas histórias, muitas angústias, tragédias, tristezas e frustrações foram ouvidas ao longo desses anos. 

E por mais que eu e todos os membros do grupo que se aventuram a colher essas narrativas tenhamos nos preparado para ouvi-las, em algumas situações ficamos com uma impressão, um gosto amargo de desgosto ao final da entrevista e muitas vezes não sabemos dizer por que. 

Já tentei de diferentes maneiras explicar essa sensação, usando para isso, inclusive a teoria da contratransferência, porque invariavelmente essa impressão surge após uma história incolor, inodora e insípida. Claro que não me conformava com esse tipo de impressão, afinal, ninguém chega aos Jogos Olímpicos sem ter para isso algum talento.

Essa semana, porém, acredito que encontrei uma resposta para esse incômodo que todos do grupo já sentiram em algum momento. 

Depois de entrevistar mais um atleta que foi aos Jogos sem conseguir um resultado expressivo e observar sua trajetória, sua vida após essa experiência e suas expectativas no presente em relação ao futuro, ficou claro que tudo aquilo aconteceu sem que ele tivesse controle, sem que tivesse planejado ou até desejado realiza-lo.

Erlon Souza e Ronilson Oliveira,
destaques brasileiros na canoagem.
Ou seja, ele treinava sim, ele competia sim, mas diferente de outros para quem viver a aventura olímpica era uma questão vital, esse atleta foi pego de surpresa por uma daquelas artimanhas que te põe no olho do furacão sem que você soubesse ao menos o que era uma chuva. E então, num estalar de dedos uma vida simples e sem muitos solavancos se torna uma montanha russa em que o controle do carrinho está nas mãos de alguém a quem não se sabe nem o nome.

Mauro Vinícius da Silva, o "Duda",
revelação do atletismo brasileiro.
E de um ilustre desconhecido o sujeito se torna a celebridade da cidade, assediado pela imprensa local e nacional, que tem que responder a questões que dizem respeito a sua vida e seu futuro e para quais ele nunca ousou construir uma resposta. 

Levado por aquele tsunami é preciso então se preparar para falar, para vestir o uniforme certo, para treinar, competir e ganhar, porque assim todos passam a desejar e exigir… mas, até tão pouco tempo atrás a vida era só treinar… como fazer com tudo isso?

O salto de ouro de "Duda",
no mundial indoor de atletismo, na Turquia.
Crédito: Matt Dunham/AP
Chegam então os JO e vive-se uma experiência momentânea que se eterniza. Durante uma tarde, três jogos, tudo aquilo se apaga como as velas de um bolo de aniversário após se cantar o parabéns, anunciando o final de uma festa deseja há muito. E aquela derrota faz a vida voltar ao seu lugar de origem, cercada pelo peso do esquecimento que quase sempre acompanha quem perdeu. E, da mesma forma que a consciência não tem o apelo do esquecimento ou da volta ao estágio anterior ao contato com o conhecido, a sensação heroica também não se apaga quando a festa olímpica se acaba e o resultado foi pífio. Porque foi possível, ainda que por um breve instante, experimentar uma condição quase divina, de imortalidade, de marca para a posteridade, de eternidade. E assim como se é preciso preparação física e técnica para se chegar a esse nível de competição é preciso preparo emocional para lidar com qualquer que seja o resultado advindo dela.

Não é simples visitar o Olimpo e depois voltar à irrealidade cotidiana, ordinária.

Ao final daquela entrevista pude constatar o que já havia percebido, mas não entendido em outras entrevistas. Para muitos ser olímpico é um peso demasiado, incapaz de ser suportado em uma existência comum. Não há explicação possível para uma vida monocromática quando se chegou tão perto do brilho celeste. Contudo, lá está ele, buscando de alguma forma dar direção à sua existência normal, mortal, simples como um prato de arroz com feijão, que mata a fome sim e que pode ser tão especial como um banquete. E, assim como o contato com o conhecimento impede o retorno à ignorância, conviver com os deuses pode causar a falsa impressão da imortalidade.

Desfile delegação brasileira,
nos Jogos Olímpicos de 2008.
E então, uma vez mais é preciso chamar à razão os dirigentes sobre a responsabilidade sobre a convocação de atletas que não tenham sido preparados para esse desafio. 

As sequelas de uma experiência frustrada podem comprometer toda uma existência.






Sobre Katia Rubio:
Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.

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