quinta-feira, 3 de abril de 2014

O futebol no dia internacional da literatura infantil


No país onde o futebol é o esporte número um de quase todo brasileiro, a literatura infantil poderia e deveria ser muito mais explorada do que efetivamente acontece hoje e sempre. Em um país onde existem diversas campanhas para formação de novos leitores temos a certeza de que se livros da literatura esportiva, especialmente aqueles que utilizam o futebol como pano de fundo, fossem mais utilizados, nas escolas, em casa, nos clubes, e, principalmente, nas livrarias, teríamos, com certeza, o despertar do interesse pela literatura de uma maneira geral, esportiva ou não.

2 de abril é o Dia Internacional do livro infantil. 

A data foi escolhida em homenagem ao dia do nascimento do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, um dos que mais escreveram sobre o gênero. 

Entre as histórias mais famosas estão “O patinho feio”, “O soldadinho de chumbo” e “A pequena sereia”.

A literatura infantil surgiu no século XVII com o propósito de educar as crianças moralmente. 

Com o tempo a literatura infantil e as histórias surgidas com ela tornaram-se ferramenta poderosa para o aprendizado e a reflexão de diversos valores do cotidiano das crianças. 

Uma ferramenta que passou a desenvolver o imaginário dos pequenos leitores.

No Brasil, também temos uma data importante para comemorar o dia do livro infantil. Dezoito de abril, dia do nascimento de Monteiro Lobato. Curiosamente, ele, Lobato, foi um fiel defensor do futebol quando da juventude dele e do esporte. Em 1905, quando tinha 23 anos e o futebol, 11 de existência, Lobato escreveu:

"Não se pode dizer que o futebol seja o fator da formidável raça anglo-saxânica, porque ele é um filho dela. Mas não errará quem afirmar ser esse um bom filho um dos conservadores máximos  da energia imensa da sua loira mãe. E na verdade o futebol é o estimulante mais poderoso que entre os fortes estimulantes encontra o sangue anglo-saxão.

É por isso que se tornou ele o esporte nacional da Inglaterra e da terra Ianque. Nos colégios, no Exército, na Marinha, em toda e a toda hora joga-se o futebol, religiosamente, como quem cumpre um dever. 

É um ritual, quase. Vêm daí em parte, as eminentíssimas superioridades do inglês. Porque o futebol dá em primeiro lugar uma grande força física.

Dá resistência, dá tática. Dá agilidade. Dá calma, sobretudo nas emergências mais escabrosas. Dá golpe de vista pronto, seguro e firme.

Monteiro Lobato
Dá energia moral, porque a energia moral é quase sempre um reflexo da energia física. Dá iniciativa. Dá confiança em si próprio.

Dá responsabilidade. Os porquês da tantos "dás"? Dá energia muscular porque o jogo movimenta a musculatura do corpo, os músculos do pé e da perna em primeiro lugar, e os do torso e do pescoço em seguida.

Essa energia cria resistência, é lógico, uma sendo recíproca da outra. Dá tática porque nas múltiplas fases dum ataque ou duma defesa, num dribling, inesperado, num chute falho, em qualquer das mil peripécias da luta, o espírito dos foot-ballers, pela tensão prolongada de todas as suas faculdades, acarreta o aperfeiçoamento da mais necessária e da de mais evidência, a presteza da percepção, a tática. (...)

E assim mil outras faculdades morais e qualidades físicas este precioso jogo aprimora. (...) Rimos (o brasileiro reacionário e conservador) alvarmente de quem afirma que um esporte como este é mais fecundo em benefícios para o presente e para o futuro  da nossa raça do que todas as academias de Direito, todos os grupos escolares somados, multiplicados e elevados à décima potência. Mas a resposta-rolha ao nosso boçal risinho está no ianque e no inglês, esses modernos Alexandres , conquistadores de tudo, ante os quais os povos se curvam. (...) Um ditador que tomasse conta desta República (o Brasil) e acabasse com as fábricas de bacharéis e normalistas, substituindo-os por severos teams de futebol, faria mais pelo Brasil que as dez gerações de Feijós, Zés Bonifácios e Cotegipes e demais estadistas que nos têm governado". 

Curiosamente, mais tarde, quando já era “adulto”, Monteiro Lobato se tornou um ferrenho crítico do futebol, como revela o biógrafo do escritor, Edgar Cavalheiro: "'O futebol', escreve Monteiro Lobato a Godofredo Rangel, 'empolgou-me de corpo e alma; escrevo crônicas de futebol e jogo. O futebol apaixona e contunde.' Em dois longos artigos Lobato extravasa seu entusiasmo pelo novo esporte, estimulante poderoso, dá resistência, tática, agilidade (...) E dá também, acrescentamos nós, contusões. O que leva Monteiro Lobato a abandoná-lo às primeiras caneladas. Nunca mais jogou e quando adulto manifestou sempre o maior desprezo pelo jogo. Pode afirmar que o futebol em Lobato não passou de um ligeiro 'sarampo da mocidade'”.

A literatura infantil que se utiliza do futebol como ferramenta de aprendizado para as crianças brasileiras é grande, mas, infelizmente, muito mal aproveitada. Ruth Rocha, por exemplo, uma das autoras de livros infantis que mais vendem no país tem em “Marcelo Marmelo Martelo” uma passagem sensacional:

(...)

“...Daí a alguns dias, Marcelo estava jogando futebol com o pai: — Sabe, papai, eu acho que o tal de latim botou nome errado nas coisas. Por exemplo: por que é que bola chama bola?


— Não sei, Marcelo, acho que bola lembra uma coisa redonda, não lembra? — Lembra, sim, mas... e bolo? — Bolo também é redondo, não é? — Ah, essa não! Mamãe vive fazendo bolo quadrado...O pai de Marcelo ficou atrapalhado.


E Marcelo continuou pensando: "Pois é, está tudo errado! Bola é bola, porque é redonda. Mas bolo nem sempre é redondo. E por que será que a bola não é a mulher do bolo? E bule? E belo? E bala? Eu acho que as coisas deviam ter nome mais apropriado. Cadeira, por exemplo. Devia chamar sentador, não cadeira, que não quer dizer nada. E travesseiro?Devia chamar cabeceiro, lógico! Também, agora, eu só vou falar assim".

Ruth Rocha também escreveu outra história fantástica que demonstra bem valores que podem ser utilizados com o tema futebol como pano de fundo. Em “Faca Sem Ponta Galinha Sem Pé”, a autora cria os personagens Maria e Pedro, onde o preconceito da menina jogar futebol é discutido de uma maneira inteligente. Abaixo reproduzimos apenas o início da história, mas se quiser saber o final, acesse: http://www2.uol.com.br/ruthrocha/historias_19.htm

Esta é a história de dois irmãos.
Com eles aconteceu uma coisa muito esquisita, muito rara e difícil de acreditar.
Pois eram dois irmãos: um menino, o Pedro. E uma menina a Joana.
Eles viviam com os pais, seu Setúbal e dona Brites.
E os problemas que eles tinham não eram diferentes dos problemas de todos os irmãos.
Por exemplo...

Pedro pegava a bola para ir jogar futebol, lá vinha Joana:
- Eu também quero jogar! 
Pedro danava:
- Onde é que já se viu mulher jogar futebol?
- Em todo lugar.
- Eu é que não vou levar você! O que é que meus amigos vão dizer?
- E eu estou ligando pro que os seus amigos vão dizer?
- Pois eu estou. Não levo e pronto!

Joana ficava furiosa, batia as portas, chutava o que encontrasse no chão, fazia cara feia.
Dona Brites ficava zangada:
- Que é isso, menina? Que comportamento! Menina tem que ser delicada, boazinha...
- Boazinha? Pois sim! - respondia Joana de maus modos.

Às vezes Pedro chegava da rua todo esfolado, chorando.
- Que é isso? - Espantava-se seu Setúbal. - O que foi que aconteceu?
- Foi o Carlão! foi o besta do Carlão! Me pegou na esquina - choramingava Pedro. 
Seu Setúbal ficava furioso:
- E você? O que foi que você fez? Por acaso fugiu? Filho meu não foge! Volte pra lá já e bata nele também. E vamos parar com essa choradeira!
Homem não chora!” (...)

Existem inúmeras opções de livros e autores que se utilizam do futebol na literatura infantil. A editora Cosac Naify, por exemplo, lançou "Ora Bolas", um livro ilustrado com CD de músicas compostas por Paulo Tatit e Edith Derdyk, que nada mais é do que uma viagem ao mundo da bola.

Como diz a sinopse da editora: “A bola que está no pé do menino, que mora na casa, que está na rua, dentro da cidade...

O limite para o jogo é o espaço sideral. Numa seqüência de perguntas e respostas, que lembra a embolada nordestina, o coro infantil dá ritmo a essa infinita partida de futebol. 

Como o enfrentamento de duas torcidas. Andrés Sandoval criou ilustrações que se desdobram pelo livro, acentuando o efeito de continuidade da embolada e os malabarismos da letra manuscrita.”



Vale a pena ver e ouvir a bela canção...


Outra história surgida nas páginas da literatura infantil utilizando o futebol e que por pouco não ganha até mesmo o primeiro Oscar de Hollywood foi o livro escrito por José Roberto Torero, “Uma história de Futebol” (Objetiva). Trata-se da história de nada menos do que o maior jogador do planeta, por um “acaso” um brasileiro chamado Pelé. O livro ganhou prêmios dos Estados Unidos à Índia e disputou o Oscar de Melhor Curta-Metragem de 2001.

Zuza é um menino como tantos outros. Adora se reunir com os colegas para uma partida de futebol. Mas, quando chegamos às páginas finais de Uma história de futebol, percebemos que, na verdade, Zuza não é como os outros. 

Afinal, você conhece algum outro menino que tenha jogado futebol com Pelé?

Zuza jogou. 

E era o melhor amigo de Dico, apelido de infância de Edson Arantes do Nascimento, que, ao crescer, ficou famoso nos quatro cantos do mundo como 'O Rei Pelé'.


Pelé, primeiros chutes no futebol. 
Esta novela, como bem define Ana Maria Machado, trata de começos. Começo de vida nova, começo de carreira. Mas nela nada é exatamente o que parece à primeira vista. Como se de algum modo houvesse um jogo de revelar e ocultar, uma brincadeira de esconde-esconde. O jeito é entrar no jogo e ir descobrindo aos poucos.

Enquanto vamos recolhendo as pistas, descobrindo o encoberto, nos deliciando com as aventuras desta turminha de Bauru, o tempo vai passando na vida de Zuza, Dico e demais garotos.

Dico, como todos do time Sete de Setembro desconfiavam, levava mesmo jeito para a bola. Ou, como escreve Torero, "a bola gostava dele". E deu no que deu: o maior de todos os tempos dentro das quatro linhas.

Já Zuza foi trabalhar numa grande empresa. E, certa vez, para curar a tristeza do amigo Paulo Machline, após uma derrota do Santos, resolveu contar-lhe uma história... Machline, diretor de cinema, transformou a história em filme, com roteiro de José Roberto Torero.”

É fácil perceber por esses poucos exemplos que o Literatura na Arquibancada traz que a literatura infantil poderia e deveria ser melhor explorada. 

Mas há também um outro lado nessa história que o escritor mineiro Léo Cunha expõe de forma brilhante em texto publicado alguns dias atrás em sua página do Facebook. 
Constatações conhecidas só mesmo por quem tenta viver da literatura no Brasil. 

Vale a pena a leitura.



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