sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sem Limites

César Cielo

A literatura esportiva referente às modalidades olímpicas, infelizmente, ainda é bem pequena no Brasil. Temos poucos campeões se pensarmos no tamanho do país, é verdade, mas um número incontável de histórias que bem poderiam virar livros. Desde que foi criado há apenas seis meses o Literatura na Arquibancada procura também resgatar e apresentar artigos deste segmento esportivo do país. Afinal, seremos ou não o país sede de uma Olimpíada?

Neste domingo, dia 8 de abril comemora-se o Dia da Natação e não nos pergunte a razão desta data porque se tentar fazer o mesmo que fizemos, pesquisando na internet, não encontrará nenhuma informação. Se alguém souber, que nos informe.

E para marcar essa data, lembramos a produção literária em torno deste esporte que, diferente das modalidades coletivas, depende do empenho solitário de um atleta. Uma modalidade que pode ensinar muito sobre o comportamento humano, especialmente, na questão sobre vitórias e derrotas.

Fernando Scherer e Gustavo Borges.
No Brasil, tivemos conquistas importantes como as medalhas de prata de Ricardo Prado, nos Jogos Olímpicos de 1984 e de Gustavo Borges, em 1992 e 1996. O fenômeno da natação brasileira mais recente é César Cielo com o ouro olímpico inédito conquistado na última Olimpíada de Pequim, em 2008. Mas já tivemos Fernando Scherer, o Xuxa; Manoel dos Santos, Tetsuo Okamoto e a equipe medalha de bronze olímpico em 1980 com Jorge Lutz Fernandes, Marcus Laborne Mattioli, Cyro Marques e Djan Madruga. Em 2000, outra equipe medalhista com Xuxa, Gustavo Borges, Carlos Jayme e Edvaldo Valério.

Apesar de todas essas histórias pessoais de conquistas, apenas Gustavo Borges tem um livro sobre sua trajetória no esporte. 

Em 2002 ele lançou “Lições da Água” (Editora Gente), onde narra sua bem sucedida trajetória e um retrato do limiar entre vitória e derrota.

Gustavo Borges gostou de escrever e em 2009 decidiu lançar “Tchibum”, um livro para jovens editado pela Cosac Naify com ilustrações de Daniel Kondo. 

A obra foi um sucesso tanto que recebeu menção honrosa, em 2010, na Feira de Bolonha, a principal de livros infantis do mundo.

César Cielo, nosso campeão e estrela mundial na modalidade, também já anunciou que quer entrar para esse restrito mundo da literatura esportiva. 

Ano passado prometeu um livro infantil e uma biografia. O infantil deve ser lançado entre 2012 e 2013 e será feito inspirado em um personagem similar ao “Senninha”, de Ayrton Senna. Já a biografia está prevista para 2017, após a realização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Se pouco investimos em títulos nacionais, uma editora brasileira decidiu importar uma história espetacular da natação mundial. 

Em 2009 foi lançado pela editora Thomas Nelson do Brasil “Sem Limites, a incansável busca pelo prazer de vencer”, uma autobiografia do supercampeão Michael Phelps. 

A obra foi escrita com a colaboração do jornalista e uma das maiores autoridades em Jogos Olímpicos, Alan Abrahamson.


Michael Phelps
Phelps revela como se tornou o maior recordista da história dos Jogos Olímpicos, conquistando uma multidão de adeptos de todo o mundo para a natação. O livro serve também como um “guia” para aqueles que tem um objetivo e lutam para alcança-lo a qualquer custo. Apesar do discurso, nada parecido com os livros de auto-ajuda. A prosa de Abrahamson deixou a história de vida de Phelps prazerosa.

Abaixo, Literatura na Arquibancada apresenta um trecho da obra em que podemos perceber como a formação familiar na vida de um supercampeão é de extrema importância. Phelps, abre o coração e revela segredos que podem ajudar muitas pessoas nesta trajetória da busca pela vitória.

“Comecei a nadar aos sete anos.
Mamãe me pôs em uma escola de natação cuja professora era uma grande amiga dela, Cathy Lears.
Lembro-me de reclamar:
– Estou com frio.
– Preciso ir ao banheiro.
– Não posso só ficar sentado aqui olhando as outras crianças? Fico aqui do lado.

Do que mais me lembro é que simplesmente não gostava de pôr a cara embaixo d’água.

A srta. Cathy observou que, se quisesse, podia usar o nado de costas. Mas tinha de fazer todos os itens do plano de prática.
– Você vai aprender de um jeito ou de outro – concluiu.
Reclamei e choraminguei um pouco mais.
Mesmo assim, terminei cada item do plano dela. E aprendi bem depressa como virar de barriga para baixo e nadar o estilo livre.

Só dois anos depois fui diagnosticado com o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Tudo o que todos sabiam – especialmente minha mãe, minhas irmãs e meus treinadores – era que eu tinha toda essa energia e podia gastar boa parte dela fazendo esportes: beisebol, futebol, lacrosse, natação, qualquer coisa.

Logo depois de começar a nadar, descobri que a piscina era um refúgio seguro. Sem dúvida, não conseguia pôr esse sentimento em palavras na época, mas hoje, ao olhar em retrospectiva, percebo isso. Parede nas duas pontas da piscina. As raias delimitadas por cordas dos dois lados. Uma linha preta no fundo para orientação. Podia ser rápido na piscina, conforme logo descobri, em parte porque a piscina acalmava minha mente.

Na água, senti-me no controle pela primeira vez. Os nadadores gostam de dizer que “sentem” a água. Mesmo no início, sentia a água. Não tinha de brigar com a água. Ao contrário, podia sentir como me movia nela. Como ter equilíbrio. O que fazer para ser mais rápido ou mais lento.

Seria ridículo dizer que fui um excelente exemplo desde o início. Se não fosse o fato de que Hillary e Whitney nadavam, provavelmente não teria nem mesmo começado a nadar.
Era criança. Uma criança dada a se lamuriar e – é verdade – a chorar. Parecia que estava sempre à beira das lágrimas. Meus treinadores lembram que eu era o tempo todo provocado. E parecia que quase tudo conseguia me levar a um ataque emocional ou me lançar em um acesso de fúria descontrolada.

É provável que toda essa agitação fosse uma maneira de me tornar o centro das atenções. Acima de tudo, queria me encaixar, em especial, com as crianças mais velhas. Apenas queria ser aceito.

Contudo, em meio a todos esses episódios complicados, já tinha um sonho: queria ganhar uma medalha de ouro olímpica.
Uma.
Apenas uma. No início, era isso. Apenas uma medalha.
Também sabia que era possível ganhar medalhas olímpicas. Acontecera com pessoas que conhecia. Quando tinha sete anos, Anita Nall, nadadora de North Baltimore, ganhou uma medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze nas Olimpíadas de 1992, em Barcelona. Quando tinha onze anos, Beth Botsford, outra nadadora de North Baltmore, ganhou duas medalhas de ouro em Atlanta.

Talvez minhas ambições olímpicas não fossem óbvias nem estivessem garantidas, em especial, no início e nas manhãs, quando tinha de levantar para praticar. Nunca fui o que se poderia dizer um entusiasta quanto à levantar cedo.

Mamãe me tirava da cama. Podia ainda estar escuro lá fora. Ela acendia uma luz suave em meu quarto, uma pequena lamparina, e dizia:
– Bom dia, Michael. Está na hora do treino da manhã.
Eu resmungava e gemia.
Mamãe descia a escada. E eu ficava deitado na cama, aconchegante e confortável. Poucos minutos depois, ela voltava:
– As torradas estão prontas. Estou no carro. Pegue o lanche antes de sair, Bob está esperando para o treino.
Minha mãe então saía e ficava sentada no carro esperando por mim. Bob é uma pessoa matinal, que gosta de levantar antes do alvorecer. Essa é sua parte favorita do dia. Sempre foi.

Alguns anos depois, quando eu estava no ensino médio, lembro que ainda escuro minha mãe e eu íamos à piscina. No caminho, nenhuma casa tinha luzes acesas. Às vezes, minha mãe bocejava; ainda não acredito como bocejava alto.

Certa vez, minha mãe me deixou dormir em Meadowbrook, cerca de quinze minutos de onde morávamos, em Towson, Maryland; em geral, eu só voltava para casa quando estava escuro de novo. Bob levava-me do treino para a escola, ou para tomar café da manhã e depois para a escola. À tarde, voltávamos para o treino. Mamãe pegava-me umas sete horas.
Era sempre o último a sair da piscina. Minha mãe sempre trabalhava até tarde; lembro que eu parecia ser sempre o último a ir embora. A não ser quando Bob me excluía cedo do treino, por não fazer o que ele queria da forma como queria nem quando queria; nesse caso, ficava sentado lá e, de todo jeito, esperava por ela.

Todo esse trabalho de dirigir, ir e voltar para o trabalho exigia uma enorme dedicação e sacrifício da parte de minha mãe. E, ao mesmo tempo, é um reflexo de quem ela é. Serei sempre grato a ela por isso, por ter deixado tão claro que nós – ela, minhas irmãs e eu – vínhamos em primeiro lugar, mesmo quando ela insistia na paixão pela vida, por si mesma ou por algum objetivo.

Tínhamos de ter metas, empenho e determinação. Tínhamos de trabalhar por nossos sonhos. Esforçávamo-nos para alcançar a excelência, e você, para alcançar excelência, precisa trabalhar nela e por ela.

Débora Phelps e o filho Michael
Mamãe chama isso de senso comum. Ela cresceu em uma área industrial a oeste de Maryland. O pai dela era carpinteiro. O avô por parte de mãe era mineiro. Meus avós maternos não fizeram faculdade. Tiveram quatro filhos – mamãe era a segunda dos quatro – e todos fizeram curso universitário; mamãe continuou a estudar e fez mestrado.

Meu pai, Fred, costumava levar-me para pescar e também aos jogos do Baltimore Orioles. Ele me ensinou a olhar nos olhos das pessoas quando falo com elas e a apertar as mãos com firmeza. Era um bom atleta – jogador de futebol de uma pequena faculdade – e, sem sombra de dúvida, herdei dele meu instinto competitivo em atletismo. Se eu fazia algum esporte, qualquer um, a orientação do meu pai era simples: jogue pesado e, lembre-se, os bonzinhos terminam em segundo lugar. Não era um conselho para que eu agisse mal com os outros, mas sim para que eu me empenhasse o quanto pudesse. O momento de ser amigo era depois da competição; durante a competição, a ideia é vencer.

Fred Phelps, o pai de Michael.
Meus pais começaram a namorar na escola de ensino médio de uma cidade industrial no oeste de Maryland. 

Papai jogou futebol na Faculdade Estadual de Fairmont (oeste de Virgínia); mamãe foi com ele para lá. Depois de casados, eles se mudaram para a região de Baltimore. Meu pai saiu de casa quando eu tinha sete anos. Com o passar do tempo, passamos cada vez menos tempo juntos. No fim, deixei de tentar incluí-lo em minhas atividades; e ele, por sua vez, deixou de tentar envolver-se nas minhas.

A última vez em que vi meu pai foi no casamento de Whitney, em outubro de 2005. 

Nós não conversamos no casamento, simplesmente porque, no momento, não tínhamos nada para dizer um ao outro. Talvez tenhamos mais tarde.

Dito isso, acho que respondi a tudo o que pudessem perguntar sobre as pessoas na minha vida. Tenho muito apoio e carinho à minha volta.

Minha mãe é educadora, agora diretora de uma escola, e a paixão dela é mudar a vida de crianças. 

Quando reconheceu o amor pela natação em seus filhos, empenhou-se totalmente para ajudar cada um de nós.

Ao mesmo tempo, ela queria que tudo fosse feito do jeito certo: as tarefas de casa, a lição da escola, o treino. Estávamos todos juntos nisso.

E não só isso: toda criança era bem-vinda ali. Se precisassem passar a noite para treinar na manhã seguinte, tínhamos um saco de dormir e um travesseiro.

Essa ética e esse senso de trabalho em equipe sempre estiveram presentes em nossa casa. Desde a mais tenra idade, tudo isso sempre foi comigo para a piscina.

Por isso, quando ganhei minha primeira medalha olímpica de ouro, as primeiras pessoas que queria ver, quando tive um momento de sossego, foram minha mãe e minhas irmãs.”

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