quinta-feira, 19 de abril de 2012

Manuel Bandeira: o poeta e o futebol

Manuel Bandeira

Ele está entre o seleto grupo de craques da literatura brasileira que adorava escrever sobre o futebol. Poeta, cronista, tradutor, Manuel Bandeira era torcedor do Sport Recife, da terra onde nasceu no dia 19 de abril de 1886. Embora tenho vivido a maior parte da vida no Rio de Janeiro, Bandeira, na infância e juventude com certeza era ligado em futebol e a prova desse fato já foi encontrada aqui mesmo pelo Literatura na Arquibancada quando registramos uma correspondência com o seu primo, João Cabral de Mello Neto, outro poeta não menos famoso e tão apaixonado pelo futebol que até jogador um dia foi. Vale a pena ler esse documento precioso


Manuel Bandeira parecia ser mais discreto do que o primo João Cabral. Apesar de ter se consagrado como um dos maiores poetas da língua portuguesa, Bandeira também fazia parte da seleção brasileira dos grandes cronistas brasileiros.

E foi nesse gênero, a crônica, que Bandeira deixou para a literatura esportiva registrada sua paixão pelo futebol. E houve um período muito especial em que esses textos surgiram com maior visibilidade. 

A conquista do primeiro título mundial, na Copa de 1958, fez Bandeira revelar seu coração de torcedor e deixar anotados a alegria e sofrimento vividos naqueles dias.


Em 1997, a editora Nova Fronteira lançou a sua “Seleta de Prosa” e nela podemos conferir alguns desses momentos de euforia nacional quando o poeta se juntou à multidão que lotou a avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, para festejar a passagem dos campeões mundiais:

Crédito: arquivo JB/Campanella Neto

“Tenho 62 anos de residência no Rio e nunca vi nas ruas afluências de povo como a que encheu o centro da cidade para saudar os campeões mundiais de futebol. E o que eu digo é confirmado pelos mais velhos habitantes da maravilhosa, os que assistiram à chegada de Nabuco, de volta da Embaixada em Washington, de Rio Branco, repatriado para assumir a pasta das Relações Exteriores, de Santos Dumont, depois das ascensões heroicas em balão e aeroplano, de Rui, águia de Haia”.

(...)


“Santos Dumont, Rui obtiveram grandes triunfos para o Brasil, os do primeiro também esportivos em parte, mas ambos encontraram logo opositores, até nacionais. Curvou-se a Europa ante o Brasil? 

Não foi muito, não foi como agora diante das proezas de Garrincha, Vavá, Pelé e seus companheiros. Agora curvou-se não só a Europa: todo mundo”.

(...)


“Justifica-se, pois, o delírio coletivo que empolgou a cidade e o país. Explica-o, porém, a pura vitória esportiva, o entusiasmo que desperta em nosso povo o jogo inglês? A velha ambição, sempre baldada, de trazer para cá a Copa do Mundo? Não haverá, talvez, no fundo de tudo isso um tocante desabafo por todas as nossas frustrações em todos os sentidos? (No terreno do esporte só um brasileiro nos lavara o peito até hoje: Ademar Ferreira da Silva, o campeão olímpico do salto tríplice)”.

(...)


“Como quer que seja, desta vez trouxemos a Copa e tudo correu direitinho e da melhor maneira, visto que passamos por três pontos críticos em que a excelência do jogo não bastava; era necessário fibra, a raça: quando estávamos empatados com os ingleses, depois com os galeses, depois quando os suecos abriram o escore da partida decisiva”.

(...)

“Os nossos campeões vão ganhar muita coisa e merecem mais. Merecem... cartórios. Crie V. Exa.  mais vinte e três cartórios, presidente Juscelino. Vinte e dois para os titulares e reservas, e mais um para o Feola. Prestaram eles enorme serviço ao Brasil, fazendo mais do que a propaganda oficial diplomática e extradiplomática em 69 anos da República”.


Neste mesmo ano de 1958, outro texto de Manuel Bandeira também foi utilizado pelos organizadores do livro “Antologia da Copa do Mundo” (Mário Cordeiro e José Lívio Dantas pela Simões Editora). 

A crônica, publicada no Jornal do Brasil, diário para o qual o poeta colaborava, revela um Bandeira torcedor tão apaixonado quanto qualquer um das arquibancadas dos estádios...




GOL!


Gol! Gol do Brasil! Uma jogada espetacular do Brasil!

Isto é para falar na linguagem sensacional dos locutores de rádio (esses homens são de fato extraordinários e sabem criar o suspense que pode provocar o enfarte). Por todo o dia e toda a noite de domingo para segunda-feira fiquei com aquelas vozes no ouvido, aquelas vozes e o eco dos estouros de bombas, que a gente não sabia mais se eram em homenagem aos campeões ou a São Pedro.

Afinal o Brasil arrebata o cobiçado título depois de tantos fracassos memoráveis. Não sei se esta apagada e vil tristeza em que vimos vivendo há tantos lustros não correria por conta do complexo de inferioridade dos nossos patrícios pela frustração da máxima aspiração brasileira, que sempre foi ser o Brasil o “maior” em futebol.


Também eu participei do delírio coletivo e desde o começo do campeonato fiquei chumbado ao meu rádio a escutar as partidas dos brasileiros. 

Passei por momentos de grande emoção nos matches com os ingleses, com os galeses, com os suecos. 

Com os austríacos, com os russos e os franceses a emoção foi menor, embora na verdade o que eu fazia mais questão era primeiro que sovássemos os russos para que eles não ganhassem o campeonato e não fossem atribuir a vitória ao regime político soviético.


Ainda mais do que a vitória me encantou o comportamento dos nossos craques, desta vez irrepreensível e merecendo esta coisa inefável – os carinhos das louras menininhas da Suécia. Em matéria de futebol o que mais me doeu nestes lustros de fracassos foram aquelas palavras do comentarista inglês, que, a propósito do nosso sururu com os húngaros, em 1954, nos chamou de “uma malta de negroides histéricos”. Espero que o enfatuado ariano ainda esteja vivo para morrer de despeito diante de nossa classe. Porque, não resta a menor dúvida, desta vez ganhamos “na classe”.

Mário Trigo, abraçando o Rei da Suécia.

Só uma coisa veio empanar o brilho de nossa representação: o gesto daquele membro da delegação brasileira abraçando com palmadinhas nas costas o rei sueco. Felizmente não foi o chefe, não foi o Feola, não foi nenhum dos jogadores. Todos estes se conduziram sempre como grandes esportistas e impecáveis cavalheiros. Merecem os presentes, o entusiasmo, a alegria com que iremos recebê-los (estou escrevendo na radiosa manhã de segunda-feira e repetindo os belos versos de Ronald de Carvalho: “Nesta hora de sol puro...ouço o canto enorme do Brasil!”).


Para saber sobre Manuel Bandeira, acessar: http://www.releituras.com/mbandeira_bio.asp

E para recordar o poeta maior, vale acessar também essa verdadeira raridade, uma obra-prima feita por Joaquim Pedro de Andrade, um curta-metragem em que vemos o poeta em seu apartamento simples, seus aposentos, a máquina que certamente escreveu muitos de seus versos e até mesmo o rádio que, com certeza, foi seu companheiro durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo de 1958. E o mais fantástico de tudo, poemas históricos interpretados pelo próprio Manuel Bandeira:

                                          Filme "O poeta do Castelo"

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