domingo, 29 de abril de 2012

Lemyr Martins: 50 anos de jornalismo


Dia 1º de maio, além do tradicional feriado nacional do Dia do Trabalho, também é dia de uma data triste para o esporte mundial: a morte de Ayrton Senna, em 1994. Senna tinha alguns “confidentes” no polêmico e concorrido “circo” da Fórmula 1 e um deles, que o conhecia como ninguém era um jornalista brasileiro que fez história – assim como Senna – no universo do jornalismo.

Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Lemyr Martins é dono de uma carreira impressionante no jornalismo esportivo. São mais de 50 anos dedicados ao esporte brasileiro, especialmente ao futebol e ao automobilismo. Respeitado mundialmente, Lemyr, além de escrever, tornou-se um dos maiores fotógrafos do esporte. Trabalhou em diversos jornais e revistas como Ultima Hora, Zero Hora, Jornal do Brasil, Estadão, Jornal da Tarde, Edição de Esportes, Placar (da qual foi um dos fundadores e editor de fotos, editor de automobilismo e editor executivo), Grid, Ação e Quatro Rodas.

Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Lemyr cobriu seis Copas do Mundo, 14 finais das Copas Europeias de futebol (Clubes Campeões, UEFA e Recopas), 307 GPs de Fórmula 1, desde o GP de Mônaco de 1970. 

Testemunhou as carreiras de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubinho Barrichello, desde o kart até as vitórias e os títulos na Fórmula 1.




Lemyr e Pelé.
Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Lemyr foi o único repórter brasileiro a cobrir o milésimo jogo de Pelé, em Paramaribo, Suriname, em 28 janeiro de 1971 e todas as despedidas do Rei do Futebol, na seleção, no Maracanã, contra a Iugoslávia, em julho de 1971; do Santos na Vila Belmiro, em outubro de 1974, contra a Ponte Preta; e o adeus ao futebol, no Cosmos, no Giant Stadium, em novembro de 1977, em New Jersey, EUA.

É dele uma das fotos mais famosos de Pelé, na Copa de 1970, no jogo contra a Tchecoslováquia. Seu “clique” foi parar nas primeiras páginas dos principais jornais e revistas do mundo inteiro e hoje é uma das imagens do Museu do Futebol, em São Paulo.


Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Mais do que isso, segundo o próprio Lemyr, “Que se tornasse o retrato oficial de Pelé, a fotografia mais publicada no Brasil - a anterior era aquela do Einstein, mostrando a língua - e fosse eleita pelo jornal Folha de S. Paulo a foto esportiva do século”. (ver texto de Lemyr contando na íntegra a história do clique mais famoso que já deu no esporte brasileiro http://www.lemyrmartins.com.br/pele_70_anos.html).


Evidentemente que com tantas histórias vividas no mundo do esporte, haveria o dia em que Lemyr teria de escrever um livro sobre essas tantas andanças. 

Até hoje foram seis: “Arquivos da Fórmula 1”, “Uma estrela chamada Senna”, “O pequeno grande Senna” (infantil), “A Saga dos Fittipaldi”, “Fitti-1,o Fórmula 1 brasileiro”, “Loucuras, histórias, lendas e mistérios da F-1” e “50 anos de Fotojornalismo”.


Há  três anos, aposentado, Lemyr vive em seu sítio, em Pareci Novo, no sul do país. 

Mas foi há 12 anos que seu primeiro livro “Os arquivos da Fórmula 1”, da Editora Panda Books, causou e ainda causa enorme repercussão. 

A começar pela apresentação da obra, feita pelo próprio editor e proprietário da editora:



Lemyr Martins, testemunha ocular dos fatos
Por Marcelo Duarte


“Uma de minhas primeiras preocupações ao começar a trabalhar na redação da revista Placar, em 1984, foi conhecer aquele repórter que me encantava com suas reportagens sobre Fórmula 1: Lemyr Martins. Ele era um dos meus ídolos no jornalismo. 

Desde 1972, ano em que passei a comprar a revista todas as terças-feiras cedo, iniciava a leitura pelas páginas finais. Era ali que ficavam seus textos e suas fotos. Em cada linha lida, eu sonhava entrevistar aqueles pilotos, viajar o mundo atrás do circo. Sujeito de sorte esse Lemyr, pensava. Pois sorte mesmo eu tive trabalhando ao seu lado. 

Quando o fechamento terminava, os jornalistas se reuniam para escutar as suas impressionantes histórias. Lemyr não perde o seu espírito de repórter. Participou de alguns dos momentos mais marcantes da história esportiva brasileira.

Lemyr e Maradona.
Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Entrevistou superatletas como Cassius Clay, Maradona, Emerson Fittipaldi e Pelé. Cheguei a ver vários pilotos na redação de Placar. De passagem por São Paulo, eles iam contar as novidades ao repórter que os acompanhava desde o início da carreira. Havia até um jovem piloto que disputava a Fórmula Ford inglesa em 1981 e lhe enviava cartas, contando progressos, acertos e contramarchas. Aquele garoto, Ayrton Senna, se tornaria tricampeão mundial e um dos maiores ídolos da história do esporte brasileiro. Lemyr se tornaria amigo e confidente de Senna e de tantos outros pilotos desde que cobriu o seu primeiro GP, em Mônaco, no dia 10 de maio de 1970. No total, foram 264 (hoje 307), o que o torna o jornalista brasileiro c om o maior número de grandes prêmios no currículo.


As histórias eram tantas que, invariavelmente, escutava alguém dizer – praticamente exigir – que ele deveria publicar um livro. Foram anos de pedidos, quase súplicas. Eu me juntei a esse coro. Enfim, Lemyr Martins se rendeu a seus fãs. Ter participado deste projeto foi uma honra. São histórias de bastidores, curiosidades, estatísticas. Embora eu já tenha assistido a inúmeras corridas, Lemyr conseguiu me surpreender em cada página, com detalhes que quase sempre nos passam despercebidos. Não para ele. Salários, mulheres, publicidade, lavagem de dinheiro, detalhes técnicos, nada ficou de fora. Há também um caderno de fotos, com cenas espetaculares de acidentes, de pódios e de pilotos.


Entre suas façanhas, ele foi o único jornalista a registrar as cenas do acidente com o piloto austríaco Karl Wendlinger durante os treinos de Mônaco em 1994. Um furo mundial que foi parar no Jornal Nacional e nas revistas Veja e Paris Match. Arrisco a dizer que Lemyr conseguiu juntar tudo o que nós sempre esperamos ler sobre a Fórmula 1”.

Abaixo, Literatura na Arquibancada resgata três histórias contadas por Lemyr, sobre três dos maiores pilotos da história do automobilismo brasileiro: José Carlos Pace, Nelson Piquet e Ayrton Senna.

Moco e o peso da flecha

José Carlos Pace
Crédito: www.lemyrmartins.com.br

“José Carlos Pace, o Moco, estava com o rosto iluminado durante o GP dos Estados Unidos em 6 de outubro de 1974. Pensei que fosse porque fazia 30 anos naquele domingo, ou por causa da decisão do título entre Emerson Fittipaldi, Clay Regazzoni e Jody Scheckter. Mas não era.
Ele me deu uma pista: tamborilou sobre o capacete, como se passasse informações em código morse. Não entendi. Antes de entrar no carro ainda mandou outra dica, batendo com a mão fechada na cabeça, já coberta pelo capacete negro com a flecha amarela: “Está tudo aqui”. Continuei sem entender, e fui para a largada torcer por Emerson Fittipaldi intrigado com a charada proposta por Pace. Moco – corruptela de ouvidos moucos, apelido ganho por só ouvir o que lhe interessava – nunca foi mesmo fácil de decifrar.

O GP foi uma festa brasileira. Emerson Fittipaldi tornou-se bicampeão com um quarto lugar e Moco chegou em segundo e fez a volta mais rápida.


Finalizada a corrida, era hora de resolver o enigma. Voltei à carga. 

Pace riu e mostrou novamente o capacete. Senti-me atordoado. Ali havia uma grande notícia e eu nada de enxergar. Implorei: “Qual é o mistério?”. 

Ele pegou o capacete reserva e colocou ao lado do usado na corrida. Finalmente entendi: o capacete titular estava sem a parte lateral da flecha.




Capacete de Pace, antes da conversa com o pai.

Ele me revelou algo surpreendente: seu falecido pai tinha lhe aparecido na noite anterior desaprovando o desenho. 

“A flecha apontada para baixo pesa muito, meu filho, livre-se desse peso”, teria aconselhado. 

Moco saltou da cama e de gilete em punho raspou as pontas agudas da flecha, transformando-a numa faixa amarela.



Capacete de Pace, após a conversa com o pai.

O enigma finalmente estava resolvido, mas outra coisa me assustou: com um gemido gutural, levou a mão perto do coração. Só que dessa vez não havia mistério. O gemido era de dor pelas duas costelas quebradas num impacto contra a lateral do carro quando o cinto soltou-se do cockpit na segunda volta da corrida”.




A intimidade de Nelson Piquet


“Na tarde de 6 de março de 1988 o pessoal da Fórmula 1 trabalhava tranquilamente no circuito carioca de Jacarepaguá quando um ultraleve tentou um pouso forçado em frente aos boxes da Williams. Os mecânicos correram para socorrer os passageiros do minúsculo aparelho e tiveram uma surpresa quando o piloto tirou o capacete: era Nelson Piquet, que, às gargalhadas, em companhia da namorada Katherine, simulara a pane para assustar os seus ex-companheiros da Williams.

Piquete sempre foi brincalhão, mas muda de humor com rapidez quando invadem sua privacidade. Tem sempre uma piada nova para contar ou uma gozação pronta, principalmente contra os adversários.


Rico, famoso e polêmico, Piquet teve tantas equipes quanto casamentos. Ganhou milhões de dólares, comprou avião, helicóptero e iate, mas era na Fórmula 1 que satisfazia suas emoções mais fortes. No amor, Maria Clara, Manoela, Sylvia, Katherine, Ana Cristina e, mais recente, Viviane preencheram a vida do namorador que se expunha como piloto para proteger o homem.

“Eu passei oito anos sem ver carnaval, e só porque fui a um baile no Rio de Janeiro os jornais inventaram romances com metade das atrizes que estava lá. Agora eu me fechei”, me disse irritado antes do GP do Brasil, em março de 1987. “Sobre automobilismo falo à vontade Pode me perguntar tudo. Eu conto”. E contava mesmo, principalmente se estava magoado por alguma notícia inverossímil.


“Veja a diferença dos jornais franceses para os nossos. Como eles preservavam, por exemplo, o Alain Prost. Ele é um cara café-com-leite, superpolítico, que jamais guiou um carro ruim. Mas sempre teve o suporte da sua imprensa, coisa que nós nunca tivemos no Brasil. Pois esse Prost não foi nada ético na vida particular. Acabou com o casamento de Didier Pironi (piloto da Ferrari), com o casamento do Gerard Larousse (ex-piloto e dono da equipe Larousse-Lola) e do Jacques Laffite (piloto francês), e os jornais franceses não deram uma linha sobre isso.


Um cara-de-pau, que começava a frequentar a casa do amigo, não saía de lá, e depois comia a mulher. Foi isso que ele fez com o Pironi, o Larousse e o Laffite. Mas até acho que ele tinha que agir assim para conseguir alguma coisa, porque é muito feio. Eu sacaneei muito o Prost no dia que ele trocou os cacos de dentes que tinha por uma dentadura e saiu rindo para o mundo. Ele dava volta no circuito para não me encontrar. Passou meia temporada fugindo para não sorrir pra mim”.

No próximo dia 1º de maio completaremos 18 anos sem o ídolo do esporte mundial, Ayrton Senna. E Lemyr não poderia deixar de até os últimos instantes de vida do piloto brasileiro ter uma história para contar:

Ele não tinha mais nada a fazer por aqui


O pódio do GP de San Marino, naquele 1º de maio de 1994, foi o mais triste da história da Fórmula 1. Os acordes do hino nacional da Alemanha, que saudava o vencedor Michael Schumacher, soava como a marcha fúnebre. Nicola Larini e Mika Hakkinen, segundo e terceiro colocados, estavam cabisbaixos. Não houve champanhe e o alarido normal do burlesco autódromo italiano de Imola caiu num pesado silêncio. Eu fotografei a corrida mecanicamente desde que foi dada a segunda largada, após o desastre de Ayrton Senna na traiçoeira curva Tamburello. Mas, a cada volta da corrida, eu esperava pela passagem de seu Williams, tentando, inconsciente, negar a morte que só dependia do comunicado oficial.


De repente, me lembrei do dia anterior. Ayrton saía do trailer da equipe para os treinos. 

Quando me viu, fez um sinal amistoso e disse: “Preciso falar com você. Depois”. 

Curioso, o fotógrafo Alex Ruffo, que estava ao meu lado, achou que o assunto tinha alguma relação com a reportagem que eu fizera para a Playboy, na qual Senna abrira muito da sua intimidade. Não era. Já havíamos comentado o texto. Por isso também fiquei curioso.

Acidente fatal com o piloto Roland Ratzemberg

Não falamos mais naquele sábado. A morte de Roland Ratzemberg nos treinos transtornou Senna. Ele foi até o local do acidente, na curva Villeneuve, examinou as marcas deixadas pelo Simtek-Ford do piloto austríaco e deixou claro a desaprovação do circuito. Os cartolas não gostaram da sua atitude e o advertiram. Mesmo contrariado, Senna cumpriu o ritual da entrevista coletiva obrigatória do pole position e deixou o autódromo Enzo e Dino Ferrari em silêncio.

Acidente fatal com Ayrton Senna

No centro de imprensa, depois da corrida, 213 jornalistas enviavam detalhes da vitória de Schumacher, com epitáfios de Ayrton Senna prontos, à espera da confirmação da tragédia. Momentos de desconfortável suspense em que eu recebi os mais estranhos gestos de solidariedade. Alguns repórteres, que me conheciam da Fórmula 1 há 25 anos, me davam pêsames antecipados, dissimulando o motivo da abordagem. Como sabiam que eu acompanhei a carreira de Senna desde o kart, pediam, solenes, fatos exclusivos da vida do piloto.

Recebi várias ofertas para dar depoimentos especiais a jornais, revistas, rádios e TVs. Tive até uma polpuda proposta de uma revista japonesa para gravar minhas memórias sobre a carreira de Ayrton Senna. Eu vivia a experiência difícil do luto pessoal e da fonte privilegiada, sem conseguir controlar a emoção da perda do amigo. Mas era preciso manter a frieza para conseguir realizar o meu trabalho de repórter. Às 18h45 de Imola, chegou o anúncio oficial do Hospital de Bolonha: Ayrton Senna da Silva, 34 anos, havia morrido. A sala de imprensa ficou mais nervosa, o caminho entre o circuito e o hospital virou uma procissão, e eu desejei estar cobrindo um torneio de sinuca.

Dois dias depois, na estrada de Bolonha-Milão, o Ruffo não se conteve e me perguntou sobre que assunto que Ayrton queria falar comigo. Foi aí que me lembrei da voz de barítono do signore Montanha, o decano e protocolar chefe de imprensa do autódromo de Monza. Ele apertou o meu braço na escadaria de Imola e disse, despedindo-se num tom clérigo de pregador: “Lamente, mas não chore a partida de Ayrton. Ele tinha provado tudo, não havia mais nada a fazer por aqui”.

“Não sei”, respondi a Ruffo. E, distraído, repeti as palavras de Montanha: “Só sei que ele não tinha mais nada a fazer por aqui”.

Sobre Lemyr Martins:

Catarinense de Mafra, SC, jornalista cinqüentenário na profissão, com passagens pela Ultima Hora, Zero Hora, Jornal do Brasil, Estadão, Jornal da Tarde, Edição de Esportes, Placar (um dos fundadores e editor de fotos, editor de automobilismo e editor executivo), Grid, Ação e Quatro Rodas. Coberturas em seis Copas do Mundo, 14 finais das Copas Europeias de futebol (Clubes Campeões, UEFA e Recopas), 307 GPs de Fórmula 1, desde o GP de Mônaco de 1970. Testemunha das carreiras de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubinho Barrichello, desde o kart até as vitórias e os títulos na Fórmula 1. O único repórter brasileiro a cobrir o Milésimo Jogo de Pelé, em Paramaribo, Suriname, em 28 janeiro de 1971 e todas as despedidas: do Rei da Seleção, no Maracanã, contra a Iugoslávia, em julho de 1971, do Santos na Vila Belmiro, em outubro de 1974, contra a Ponte Preta, e o adeus ao futebol, no Cosmos, no Giant Stadium, em novembro de 1977, em New Jersey, EUA. Seis livros publicados: Arquivos da Fórmula 1, Uma estrela chamada Senna, O pequeno grande Senna, infantil, A Saga dos Fittipaldi, Fitti-1,o Fórmula 1 brasileiro, Loucuras, histórias, lendas e mistérios da F-1 e 50 anos de Fotojornalismo. Prêmios: Associação Riograndense de Imprensa, ARI, 1966 e 1967, Foca de Ouro Brasileiro (SP) 1969, Prêmio Esso Equipe Jornal da Tarde, Prêmio Abril (fotos) e cinco Prêmios Abril (texto). Prêmio da Associação Brasileiras dos Transportadores de Carga – sobre os uso do “rebite”, anfetamina e estimulantes, pelos caminhoneiros. Prêmio Internacional de fotos: sequências: “O vôo de Gugelmin”, no GP da França de 1989, e do acidente de Karl Wendlinger, no GP de Mônaco de 1994.

Para conhecer o trabalho de Lemyr Martins como fotógrafo, acesse:

Nenhum comentário:

Postar um comentário