quarta-feira, 25 de abril de 2012

Goleiros: heróis e anti-heróis da camisa 1


Quase sempre são raras as homenagens aos jogadores que escolheram, talvez, a pior profissão dentro do futebol. Mas neste dia 26 de abril goleiros espalhados pelo mundo inteiro podem comemorar o seu dia.

Na literatura esportiva mundial, isso mesmo, sem medo de errar, é de um brasileiro, que nunca sequer jogou no gol, o autor da obra espetacular, talvez a melhor e mais completa que se já produziu sobre esta posição inglória do futebol: “Goleiros– Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1” (Editora Alameda, 2006).

Leão, ex-goleiro do Palmeiras.
O jornalista Paulo Guilherme revela-se um craque com as palavras e dono de uma prosa incrível, embasada sob uma pesquisa fantástica. 

Um livro para ser lido de cabo a rabo em poucas horas. Para não dizer que são elogios de um amigo, confira abaixo suas definições sobre o que é ser um goleiro e ainda a lembrança de grandes nomes da literatura mundial que ousaram um dia jogar como goleiro. 

Absolutamente, genial.

“Bendito seja o Senhor, minha rocha, que adestra as minhas mãos 
para a peleja e os meus dedos para a guerra” (Salmos, 144:1).

Marcos, ex-goleiro do Palmeiras.
Ajoelhado sobre a linha do gol, de olhos fechados, com os braços abertos em sinal da cruz, o goleiro declama o salmo de Davi contra Golias da Bíblia Sagrada. O primeiro versículo não poderia ser mais apropriado para fortalecer seu espírito. Às suas costas, o número um ultrapassa o jargão de que todo bom time começa com um grande goleiro. Ele simboliza a união de esperanças e angústias de milhões de pessoas que transferem para o gramado a fantasia de vitória, de glória e grandeza que lhes faltam no dia a dia. O futebol é um esporte coletivo: são onze jogadores em cada equipe, mas, no fundo, é dele, o goleiro, a responsabilidade de manter esse sonho vivo.

Júlio César, goleiro da Inter de Milão.
Ser goleiro não é apenas ser original, diferente, ir contra a maioria. Não é apenas vestir um uniforme que se destaca dos outros jogadores do time, ter o privilégio de jogar de luvas, às vezes, de calças compridas, joelheiras e, principalmente, ser o único em campo que pode pegar a bola com as mãos. É, acima de tudo, ser bravo, corajoso e autossuficiente. É estar em constante desafio. É calar uma multidão que aguarda ansiosa a consolidação do objetivo máximo do futebol, o gol. É desafiar os mais consagrados rivais mostrando ser capaz de neutralizar toda a pompa que faz do outro o goleador das multidões, o matador, o gênio da bola.

Taffarel, ex-goleiro da seleção brasileira.
Ser goleiro é estar pronto para viajar do céu ao inferno em ida-e-volta, várias e várias vezes, todas sem escalas. Passar o jogo fazendo defesas espetaculares e colocar tudo a perder ao sofrer um gol no minuto final que signifique a derrota de sua equipe. Ou então sair de campo como herói, carregado nos ombros ao defender um pênalti.

Ser goleiro é acordar mais cedo e ir embora do treino mais tarde do que todo mundo. É passar horas fazendo treinos específicos de saídas de gol pelo alto, por baixo, apurar os reflexos, defender dez, vinte, cem, mil bolas em um dia. É estar pronto para  fraturar o dedo, levar uma bolada na cara, um chute no rosto, na barriga, onde for, se isso for preciso para evitar que sua meta seja vencida. E ter forças para levantar a cabeça depois de tomar aquele frango, que o transforma em culpado sem direito a fiança, sendo apontado na rua, nos jornais e na televisão como “o frangueiro”.

Andrada, ex-goleiro do Vasco.
Enquanto o atacante é sempre protagonista dos “melhores momentos” e faz sua carreira mostrando os gols que marcou, as estatísticas que ele preencheu, o goleiro não tem o que mostrar. Ele só aparece na tevê tomando gols. Suas defesas não entram em nenhuma estatística; ao contrário, os números mostram apenas o total de gols sofridos, como se todo o resto do trabalho feito não contasse. E, na maioria das vezes, não conta mesmo.

O goleiro está na contramão do futebol. Enquanto os outros dez jogadores da equipe andam para a frente, com objetivo máximo de marcar o gol, o goleiro vê todo o fluxo da partida seguindo em sua direção, como um gladiador acuado na arena.

Até que suas mãos ganham uma elasticidade inusitada e ele consegue esticar a ponta dos dedos para desviar a bola o suficiente para transformar todo o clímax gerado por aquela jogada em uníssono: uuuhhhh!




É o goleiro, o estraga-prazeres, o anticlímax do futebol”.



Cassilas, goleiro do Real Madrid.
Como no Literatura na Arquibancada procuramos sempre resgatar grandes nomes da literatura mundial e suas relações com o futebol, Paulo Guilherme tem também em seu “Goleiros”, um trecho dedicado a “Cientistas, Pensadores e Revolucionários”, todos, sim, goleiros pra lá de famosos...

“Um bom goleiro precisa ter total conhecimento das leis da física. Precisa saber dominar o tempo e o espaço para poder estar na hora certa e no lugar exato para tocar a bola. Deve subjugar a lei da gravidade e compreender a força centrípeta da trajetória de um cruzamento.

Ele deve ser também perito em geometria analítica, dominando as equações matemáticas que envolvem ângulos, senos, co-senos e tangentes, a fim de tapar a área de quase dezoito metros quadrados formada pelo espaço entre as duas traves laterais, distantes 7,32 metros uma da outra, o travessão e a linha do gol, separados por 2,44 metros.

Mas se no campo das Exatas faltou aprofundar mais a relação entre ciência e o ofício do arqueiro, na área de Humanas foi possível compreender o lado antropológico da profissão. Entre tantos garotos que ousaram encarar a tarefa de defender uma meta, surgiram alguns homens que se destacaram por sua liderança, serenidade, segurança, sagacidade e seu carisma, capazes de arrastar multidões para onde iam, cujas palavras ganhavam milhões de ouvidos atentos, cujos atos foram usados como exemplos de altruísmo e personalidade.

Che Guevara
O papa João Paulo II foi goleiro. O líder revolucionário Ernesto Che Guevara foi goleiro. O presidente Café Filho, que governou rapidamente o Brasil após o suicídio de Getúlio Vargas, foi goleiro. O escritor Albert Camus foi goleiro. Artur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Homes, foi goleiro. O cantor romântico Julio Iglesias foi goleiro. O ensaísta russo Vladimir Nabokov (1994) não foi goleiro. Mas queria muito ter sido, como revelou:

“Eu era louco para ser goleiro. Na Rússia e nos países latinos, esta arte altaneira sempre esteve cercada de um halo de fascínio singular. Distante, solitário, impassível, o grande goleiro é seguido nas ruas pela meninada em transe. Rivaliza com o toureiro e os aviadores como objeto de emocionada veneração.

Vladimir Nabokov
A camisa, o boné, as joelheiras, as luvas saltando dos bolsos da calça o distinguem do resto do time. 

É a águia solitária, o homem misterioso, o último defensor. 

Os fotógrafos se ajoelham com reverência para imortalizá-lo em pleno salto espetacular, desviando com a ponta dos dedos um fulminante chute rasteiro, e o estádio ruge de aprovação, enquanto ele permanece estendido onde caiu durante uns instantes, com a meta ainda intacta”.

O idealizador de Lolita não se arriscou nas peladas, ele preferiu fazer das palavras a sua forma de atuação nessa utopia.



Albert Camus
Outro famoso escritor, no entanto, pôde provar do gosto dessa paixão. Na Argélia ainda colonizada pela França, um jovem alto, magro, de aspecto frágil, defendia a meta do time da Universidade de Argel no início dos anos 1930, quando o futebol começava a ser um denominador comum para as diversas nações do planeta, com a realização das primeiras copas do mundo. Albert Camus ainda não era o consagrado romancista de A peste e O estrangeiro, mas fazia do seu ofício de goleiro objeto de reflexões existencialistas.

Ele percebeu a lição de vida que a posição proporciona. Camus gostava muito de futebol quando era menino, mas como não tinha muito dinheiro, acabava indo para o gol, onde o sapato gastava menos sola. Toda noite a avó de Camus conferia as solas do guri e dava uma surra nele caso estivessem gastas. Não era um grande goleiro, mas já demonstrava ser um excelente observador e pensador, como mostraria nos seus livros. Do futebol, Camus sempre declarou ter aprendido importante lições:

“Ser goleiro é um dos trabalhos mais solitários que existem. Todas as defesas extraordinárias da história colocadas juntas não podem compensar um erro em um momento vital. Depois de muitos anos em que vivi numerosas experiências, seguramente tudo o que sei sobre moral e responsabilidade eu devo ao futebol. Aprendi que a bola nunca vem para a gente por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente pensa que são...”

Arthur Conan Doyle
Outro famoso escritor, Arthur Conan Dolyle, foi o primeiro goleiro da história do Portsmouth FC, o clube inglês do qual ele foi um dos fundadores em 1884, três anos antes de publicar As aventuras de Sherlock Holmes, o primeiro livro com o esperto detetive de humor um tanto peculiar que decifrava os mais enigmáticos casos policiais usando elaborados métodos científicos. 

Provavelmente, os mistérios do futebol eram elementares demais para Sir Conan Doyle, que preferiu trocar a bola pela escrita”.




Sobre Paulo Guilherme:
Nasceu em São Paulo em 10 de abril de 1970. Jornalista formado pela ECA/USP, cobriu pelo Jornal da Tarde e o O Estado de S. Paulo o tetra do Brasil em 1994. Cobriu também a Copa do Mundo de 1998, a Copa América (1995 e 1997) e a Eurocopa (1996). Foi colaborador da revista Placar e da Reuters, editor do portal PSN.com e editor-assistente do Jornal da Tarde. Atualmente, trabalha no G1 – O portal de notícias da Globo.


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