sábado, 14 de abril de 2012

Futebol e Orgasmo


Quando dizemos aqui que a literatura esportiva tem livros sobre todos os temas possíveis e imagináveis muita gente “torce o nariz”. O artigo de hoje demonstra e comprova muito bem nossa prática (e não teoria). Você já havia pensado nas relações entre Futebol e Orgasmo? Por acaso sabe o que é Orgonomia? E quantas vezes você já viu ou ouviu polêmicas sobre o tema? Lembra-se quando Romário, craque do futebol brasileiro, disse que sexo antes de um jogo faz bem? Pois bem, há muito tempo, em 1998, um dos nomes mais respeitados da psicologia, Cláudio Mello Wagner, preocupou-se em revelar em um livro, “Futebol e Orgasmo” (Summus Editorial), as curiosas e interessantes relações entre esses dois temas que fazem parte do cotidiano de qualquer ser humano.

Para explicar o que o autor escreveu, trazemos a versão do jornalista Juca kfouri, prefaciador da obra:

Wilhelm Reich
“No ano (1957) em que o austríaco Wilhelm Reich morria, o brasileiro Pelé nascia para o futebol.

É bem possível que, se Reich o visse jogar, num de seus quase 1.300 gols, teria a ideia de estabelecer a analogia agora feita por Cláudio Mello Wagner em seu Futebol e Orgasmo.

Aliás, tantas vezes ouvi de jogadores de futebol que a sensação de um gol só é comparável à de um orgasmo que nem consigo me lembrar de uma resposta específica para ilustrar esta pequena apresentação.

Mas como torcedor bem sei quantas vezes pude comprovar a correção da teoria.

Porque nada é mais equivocado do que tratar o torcedor como mero assistente, como alguém que participa apenas passivamente de um jogo de futebol.

Ao contrário, o torcedor defende junto com seu goleiro, dá o passe ao mesmo tempo com seu armador, cabeceia e marca o gol com o artilheiro.

Não foi à toa que uma recente pesquisa na Inglaterra revelou que os homens preferem um jogo de futebol à mulher amada – pelo menos na hora do jogo. Como certas expressões também não surgiram do nada.

A bola não penetra na meta adversária por acaso, é claro que não.

Em resumo, o futebol justifica sim a teoria, preocupação inicial do autor. E ele sabe explicar muito bem por quê.”

E agora, fragmentos da obra do psicólogo Cláudio Mello Wagner...


O amor sexual nos proporciona a mais intensa e avassaladora experiência de sensação prazerosa, fornecendo assim o arquétipo para nossa aspiração à felicidade.
O Mal-Estar na Cultura
Sigmund Freud
(...)


“O título deste livro pode parecer, à primeira vista, um pouco estranho. Qual a relação entre futebol e orgasmo, uma vez que estas atividades são muitas vezes consideradas antagônicas (muitas pessoas acreditam que o sexo é prejudicial ao desempenho do atleta) ou ao menos compensatórias? O que significa orgonomia? O que é a curva orgástica? O que o futebol tem a ver com tudo isso?

Para que ninguém se assuste com esses termos esquisitos nem com uma possível dificuldade com o assunto, proponho um roteiro para este ensaio.

No primeiro capítulo faço uma reflexão sobre o surgimento dos jogos e dos esportes na história da humanidade. Ideias antropológicas, psicanalíticas e orgonômicas, entrelaçadas com uma dose de imaginação, procuram explicar as origens dos jogos e esportes e suas funções sociais, culturais e psicológicas.

Depois disso, procuro realizar uma breve análise e classificação dos jogos, esportes e jogos esportivos. Fazendo assim, poderemos perceber que os jogos solicitam o desempenho de determinadas funções humanas enquanto os esportes mexem com outras funções. Daí concluir que jogos esportivos como o futebol são situações mais complexas e, talvez por isso, mais atraentes e envolventes.

Do panorama geral de origens dos jogos e esportes e de suas características genéricas, passo a focalizar o futebol como esporte específico. O que há de particular e único no futebol, no seu simbolismo, que o torna tão popular e atraente?

Nos três primeiros capítulos temos teorias psicanalíticas e orgonômicas aplicadas à análise e interpretação dos esportes e do futebol. O capítulo seguinte será dedicado à apresentação das próprias teorias de Psicanálise e Orgonomia. Alguns conceitos destas ciências, se apresentados de forma simples e clara, podem ser compreendidos por qualquer pessoa alfabetizada. Este é o desafio para o autor: conseguir ser claro, para que todos possam acompanhá-lo. Uma ciência incompreensível não pode ser aplicada e, portanto, não apresenta nenhum interesse.

A seguir, veremos o conceito de curva orgástica aplicado ao futebol. Já tendo sido vistas as características específicas do futebol como esporte e como jogo e como essas características tornam difícil a conquista de um gol, percebemos como as curvas de tensão e relaxamento no futebol são muito próximas das curvas de tensão e relaxamento no ato amoroso sexual.

O último capítulo apresentará a curva orgástica descrita por alguns jogos. Veremos, pelas curvas, como podem acontecer jogos orgásticos mas também jogos brochantes.

Curva orgástica Brasil x Itália, copa de 1970.
Para aqueles que compreendem que este ensaio é apenas um exercício de prazer intelectual, que a curva orgástica e as estatísticas do jogo não substituem o espetáculo, que o prazer pode estar em tudo aquilo que se faz e se vive, para estes, eu desejo boa leitura e bom divertimento.

(...)

Orgonomia é o nome de uma ciência relativamente nova, mas muito interessante. Ela começou a ser formulada nos idos de 1940-1950 pelo austríaco Wilhelm Reich (1897-1957).
Antes de estabelecer as teorias básicas da orgonomia, Reich foi aluno de Freud e tornou-se psicanalista. Naquela época as teorias de Freud sobre libido, sexualidade, princípio do prazer e outras mais eram consideradas apenas como modelos teóricos referenciais.

Wilhelm Reich
Reich acreditava tanto nas teorias psicanalíticas que resolveu encontrar formas de demonstrar fisicamente o que era considerado apenas abstração. Passou então para a pesquisa e medição da tal libido no corpo humano. Depois de muitas experiências constatou que não só o humano tem libido – e ele passou a chama-la de bioenergia – mas que tudo o que é vivo também tem e funciona segundo o princípio do prazer.

As pesquisas de Reich eram muito ousadas para sua época. (...) Seguindo as pistas do mestre Freud sobre sexualidade, libido e princípio do prazer, Reich verificou que o orgasmo amoroso não é só uma descarga sexual isolada ou setorizada, mas um fator fundamental para o bem-estar geral do organismo como um todo e, por isso, não pode ser substituído por nenhum outro tipo de prazer.

A partir daí, Reich analisou como o orgasmo acontecia e constatou que sempre havia uma mesma sequência de uma tensão muscular inicial que se transformava em carga bioenergética. Esta carga bioenergética se acumulava até um ponto máximo e então se descarregava, proporcionando o relaxamento muscular.

Foi por intermédio do orgasmo amoroso que Reich percebeu a sequência descrita e desenhou a curva orgástica. Este nome é uma homenagem à situação que propiciou a descoberta da fórmula de funcionamento de tudo o que é vivo e, ao mesmo tempo, é o paradigma do prazer e felicidade, como aliás dizia Freud.

(...)

Se fizermos agora um paralelo entre futebol e encontro amoroso poderemos notar algumas equivalências. Os encontros iniciam-se com alto grau de tensão e expectativa. Os dois lados buscam a descarga orgástica e sabem que as preliminares, a construção das jogadas para chegar ao orgasmo, são importantes e devem ser conduzidas de maneira sutil e delicada. As curvas de tensão devem subir até um grau ótimo para a descarga. Além disso, os dois lados sabem que correm o risco de, passados os noventa minutos, não conseguir sair do 0 x 0.

Outro paralelo é o tempo de ensaio e preparação da jogada. O traçado reto não é o melhor caminho para o gol. A jogada começa com o olhar. Do olhar vai para o beijo. Desce até a intermediária e volta para a orelha. Vira para o outro lado do campo e encontra o seio, totalmente desmarcado. Avança até a intermediária do adversário. Recebe um afago no pescoço e relaxa a marcação. Respira e prepara uma nova jogada. Muitos minutos, idas e vindas, preparam o momento de entrar na área. Mais alguns minutos de bola na área devem ser gastos antes de se fazer o gol.

Orgasmo e gol são alcançados com muita transpiração. Sua realização brinda o esforço com muita satisfação. Mas não devem ser encarados como obrigação. Isso gera muita angústia e acarreta, quando muito, alívio. Ou seja, não se deve ir a campo para brigar e xingar, mas para jogar por prazer.”

Sobre Cláudio Mello Wagner:
Nasceu em São Paulo em 1956. Jogou futebol dente-de-leite no Mirins do Brasil da Vila Pompéia, e no infanto-juvenil no Corinthians. Em sua estada pré-psicologia na França, jogou na Associação Portuguesa de Aix-en-Provence (1977-1978), time de segunda divisão. Psicólogo, mestre e doutor em psicologia clínica pela PUC-SP. Professor do curso de formação de terapeutas corporais (FONTE) e Integrante do Movimento R-76: Ação e prevenção em saúde psicor-  poral. Autor dos livros Freud e Reich: continuidade ou ruptura, Futebol e orgasmo (Summus) e A transferência na clínica reichiana (Casa do Psicólogo).  

Um comentário:

  1. Posso pensar então que é... um orgasmo basicamente entre homens? Se formos pensar que mulheres no futebol sao meras coadjuvantes, isso quando não são rechaçadas! Parou pra pensar que qualquer uma que 'se aproxima' dos jogadores são maria chuteiras? E a polêmica em torno do selinho? Seria ciúme...?

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