terça-feira, 24 de abril de 2012

A Enciclopédia da Várzea


Ele surgiu antes mesmo de o futebol se tornar “oficial” no Brasil pelas regras de Charles Miller ou dos vários “pais” que o futebol brasileiro tem espalhados pelo país. A própria expressão “futebol de várzea” justifica o local onde tudo começou: na região conhecida como Várzea do Parque Dom Pedro, em pleno coração de São Paulo. No imenso Brasil, ele se espalhou como uma epidemia incontrolável.

Mas eram outros tempos, de cidades pequenas cercadas por imensas áreas desabitadas. Local perfeito para se praticar um jogo pra lá de interessante. Somente o crescimento urbano o desafiou, mas resistiu e resiste bravamente.

Se um dia os clubes de várzea eram celeiros de craques e de onde as grandes equipes não tiravam os olhos, há alguns anos deixaram de cumprir essa missão para continuar realizando sua eterna função: manter viva a paixão pelo futebol jogado entre amigos.

O futebol varzeano, como é tratado pelos especialistas, tornou-se uma das mais importantes ferramentas de lazer e integração social. Um espaço que sobrevive pela dedicação de poucos, mas que sem ele a vida não teria sentido. Driblando as dificuldades do dia a dia, a várzea segue resistindo, também pelo esforço de gente da mídia que acredita neste espaço democrático do futebol.

Diego Viñas (centro), durante gravação
de documentário sobre a  Várzea.
É o caso do jovem jornalista Diego Viñas, que, diferentemente de tantos outros profissionais da área abriu mão do sonho de trabalhar com as grandes estrelas do futebol brasileiro para se dedicar não apenas à cobertura do futebol varzeano, mas também a de ser um de seus raros pesquisadores. 

Parece loucura, mas ele chegou longe em pouco tempo. Tornou o futebol de várzea em uma verdadeira enciclopédia !!!

Assim surgiu a “Várzeapédia” – A enciclopédia do futebol amador. O projeto funciona em um site www.varzeapedia.com.br , mas já chegou inclusive à uma das principais rádios de São Paulo, a Jovem Pan, onde histórias da várzea vão ao ar todos os sábados no programa No Mundo da Bola. Diego também levou a Várzea para as telas de cinema, tornando-se vencedor do 1º Festival de Cinema de Várzea com o curta “Contos da Várzea”.


                                          "Contos da Várzea" – Clipe Oficial

Para os jovens das grandes cidades, acostumados a jogar futebol em quadras com gramados artificiais a preços muitas vezes absurdos, e que um dia ouviram falar do tal “futebol de várzea”, aí vai uma boa definição do próprio Diego Viñas sobre o que é esse tal jogo:

“Imagine um clássico de futebol! Corinthians e Palmeiras, Flamengo e Fluminense, Atlético e Cruzeiro… enfim! Agora, no lugar do tapete verde, um campo irregular de terra batida de cor bem laranja e mal demarcado. Ao invés de craques milionários, os ídolos respeitados da vizinhança. As arquibancadas e camarotes dão lugar a qualquer lugar: pedra, árvore, muro, a janela do barraco e, talvez, alguma escada de concreto improvisada. A torcida organizada aqui são moradores apaixonados pelo time que leva o nome do seu bairro.

Conseguiu imaginar? Então, parabéns, porque você acaba de descobrir o que é, afinal, futebol de várzea”.

Para se ter a noção exata deste universo chamado várzea, veja abaixo uma das histórias resgatadas por Diego Vinãs.

Uma família varzeana 
e 100% Social
Por Diego Viñas

Em pleno sábado de manhã, sol de rachar e a oferta de recepção dos moradores do Parque Panamericano, no Jaraguá, Zona Norte de São Paulo, foi uma travessa com bolo de laranja e uma garrafa de Coca-Cola de 2 litros (isso até descobrir que a pedida também permitiu cerveja).

Família varzeana reunida. Da esquerda para direita:
Mariângela, esposa do diretor Alessandro, filho da 'lava-fardamento'
Maria Auxiliadora, que é mãe do técnico Romualdo.

No meio de uma rua entre casas e bares fica a sede do Social Clube, time de várzea fundado em 15 de novembro de 1978, que é bar na parte de baixo e casa na parte de cima. Lá mora a aposentada pernambucana Maria Auxiliadora da Silva, 52, que fez questão de perguntar se o bolo que ela trouxera estava bom. Estava! Por R$ 50 por mês, ela é responsável por lavar uniformes, marcar jogos, cobrar time que está atrasado para partidas. “Eu tenho o telefone de todos os times. Quando tem festival, sou a cabeça e organizo tudo. E qualquer coisa errada, quem leva bronca sou eu. O dinheiro que ganho gasto com coisas para mim, e comprar bola com meu dinheirinho, nem pensar!”, avisa.

Futebol na vida de Dona Auxiliadora só apareceu quando conheceu Manuel Vieira da Silva, 69, também aposentado, fundador e hoje presidente do Social. E deu tão certo que os dois brigavam juntos pelo time. Mas às vezes, não. “A gente sempre brigou muito por causa do time. Ele falava um, eu falava dois”, completou.

Troféus e medalhas decoram a sala de estar
No bairro, Manuel é conhecido como Tota (com o som do “o” forte, “ó”). “Eu vi o primeiro time de várzea aqui nascer, o Grêmio. O nosso time em 1972 se chamava Estrela do Parque e seis anos depois que foi oficialmente fundado e mudou de nome”, lembra Tota.

Com muito amor, o casal vive feliz em nome do time e da família que, neste caso, tornou-se uma coisa só. Foram nove filhos. Um deles é Alessandro Alves, 34 anos, analista financeiro que jogou em várias categorias do Social até se tornar uma espécie de diretor de futebol. “Sou o ‘faz tudo’ do time. Pessoal aqui me conhece por Alê ou Sandro só. Eu nasci nesse meio e toda minha família foi do Social”, lembrou Sandro, que confessa ter chorado muitas vezes porque ‘Seo’ Tota não o deixava entrar em campo para jogar. “Mas o momento mais triste foi quando meu pai precisou parar e o time ficou sem atividades em 2008. Acho que foi só uns três meses, mas foi horrível”.

Depois da mãe que lava uniforme, o pai fundador e presidente e um filho mais velho que é diretor, Romualdo Pereira da Silva, de 22 anos, ficou com o difícil cargo de treinador.

Atendente de telemarketing durante a semana, o fã de Vanderlei Luxemburgo conta que nunca jogou pra valer pelo Social, e tão pouco era um apaixonado pelo time do bairro como todos da família, até que… “Eu levei um rojão na cabeça numa partida pela Copa Pirituba. Foi um jogo difícil e aquela dor me fez ter vontade de defender o time, que era minha família. De repente, comecei a perceber que treinar era meu forte. Num jogo contra o forte Iamandú aqui na nossa casa, o campo da Sapan, saímos atrás do placar. Empatamos, mas nosso melhor jogador, o meia Dé, estava mal. Olhei para o banco e falei: ‘vou pra cima’. Tirei o nosso craque e coloquei o Juninho, nosso centroavante gordinho. E não é que ele marcou o gol da virada?”, diz orgulhoso o professor Romualdo.

Guarda-roupas e taças dentro do quarto
Tudo em casa

Ao entrar na casa da família (lembrando, fica sob o bar sede do time do Social Clube) uma surpresa não tão imprevisível assim. A sala pequena, com uma estante grande, também é morada de diversos troféus que equipe acumulou ao longo da sua história. Ao lado do aparelho de som, duas de bronze, material raro hoje em dia, adornadas por diversas medalhas. No mesmo móvel, várias outras taças também dão a decoração do ambiente.

São dois quartos pequenos e bem aconchegantes. E parecem um museu do futebol. Mais taças sob o guarda-roupas, confortadas ao canto das camas, decorando a mesa do computador. “Só não tem troféu no banheiro. O resto, essa casa tá cheia”, simplificou a dona do lar, Dona Auxiliadora.

Futebol, altar e vice-versa

De tantas histórias dentro dessa família varzeana, o casamento de Alessandro é uma que merece ser contada em detalhes. A começar pela escolha de uma esposa corintiana, o que para um palmeirense poderia ser o fim do mundo. A dona da façanha é Mariângela de Oliveira, 33 anos, que se tornou a mulher oficial de Sandro em junho de 2000, justo num dia de jogo do Social e final de Campeonato Paulista.

“Eu saí cedo de casa e só me preocupei em ficar linda no salão. Depois não vi mais nada e fui para o casamento”, simples assim.

Família e amigos na sede do Social Clube,
no Jaraguá, Zona Norte de SP.
Enquanto isso, Sandro acordou cedo, lavou o carro para o casamento e recebeu uma ligação. Jogo do Social às 10 da manhã. “Dava tempo e fui jogar. Terminou 14h e eu falei pro pessoal que tinha que casar, mas eles falaram pra ficar pra tomar cerveja. Acabei ficando e saí correndo às 16h. O casamento começava às 17h30. Sorte que minha noiva atrasou, porque deu tempo de se arrumar e tomar mais uma com os padrinhos”, confessou.

O breve futuro marido confessou que quando a porta da igreja abriu, enxergava três noivas. “E o curioso foi que quando ela entrou, começou o foguetório de artifício na rua. Pensei que eu estava muito bêbado, mas não. O padre era sãopaulino e escutava o jogo da final do Paulistão e me disse que tinha saído gol do São Paulo. Maior coincidência”, e riu demais.

Sobre Diego Viñas
É jornalista e pesquisador de futebol de várzea, editor do site VárzeaPédia e membro do Memofut, Grupo de Memória e Literatura do futebol.
Literatura na Arquibancada sugere ainda a leitura da entrevista feita com Diego Viñas pelo site Ludopédio:

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