quarta-feira, 11 de abril de 2012

Donohoe: o novo "pai" do futebol brasileiro?

Thomas Donohoe
Já foram levantadas diversas hipóteses (todas questionadas por vários pesquisadores) sobre as verdadeiras origens do futebol no Brasil. A mais aceita e que se tornou “oficial” é a de Charles Miller, um jovem nascido em São Paulo em 1874, filho de ingleses. Agora, outra pesquisa minuciosa feita por um grupo de estudiosos da história do Bangu, no Rio de Janeiro, traz novamente à tona a polêmica. Desta vez, a hipótese levantada e apurada com rigor é a de que Thomas Donohoe, um escocês tenha sido o verdadeiro “pai” do futebol brasileiro.

Quem foi Donohoe? 

É o que você vai descobrir logo abaixo na entrevista feita com o jornalista Carlos Molinari, pesquisador e torcedor banguense, e Clécio Régis, um cenógrafo respeitado e fanático torcedor do Bangu. 

A polêmica levantada pelos banguenses ganhará ainda mais força a partir do lançamento de um Portal construído por Clécio e que será inaugurado nos próximos dias no bairro.


Clécio Régis sabe que tudo isso causará enorme polêmica e por isso mesmo decidiu se preparar para o que vem pela frente. Para se cercar de todas as “provas” possíveis do que está afirmando vai viajar até a Escócia para trazer toda a documentação possível sobre Donohoe. E para isso vai até acompanhado com uma equipe de televisão do Brasil para registrar tudo.

Documentos de Thomas Donohoe encontrados
pelos pesquisadores do Bangu.
Mas afinal, como esses pesquisadores chegaram a essa conclusão? É o que você confere agora no bate-papo com Clécio Régis e Carlos Molinari. Ainda neste “post” você poderá também assistir um documentário produzido sobre a história do Bangu.

Literatura na Arquibancada:
Quem foi Thomas Donohoe?

Carlos Molinari:
Thomas Donohoe, escocês, nascido em 1863 na vila industrial de Busby, a oito quilômetros de Glasgow. Como todo morador da vila, Donohoe teve como destino trabalhar na fábrica Printworks, lidando diretamente com o setor de tingimento de tecidos. 

Casado com Elizabeth Montague e vivendo na vila operária da cidadezinha, num sobrado, que dividia porta a porta com seu irmão, um bombeiro da fábrica, Donohoe começou a perceber que as finanças vinham mal quando nasceu o primeiro filho: John, em 1891.

Documentos de Thomas Donohoe encontrados
pelos pesquisadores do Bangu.
A vida de um operário no berço da Revolução Industrial não era fácil: trabalhava-se muito, ganhava-se pouco. Em 1894, nasceu o segundo filho do casal: Patrick. Foi aí que Donohoe notou que o ordenado pago pela Printworks não cobriria as despesas da família. 

Por sorte, seu irmão James passou a ser o chefe da seção de tinturaria. Mas a fábrica vinha mal das pernas. Fundada em 1796, a Printworks de Busby encaminhava-se para a falência (de fato, encerraria suas funções em 1901).


Platt Brothers & Co, de Oldham.
Foi o irmão de Thomas Donohoe quem o indicou para a Platt Brothers & Co., de Oldham, que estava recrutando trabalhadores para uma nova fábrica têxtil instalada no Brasil, justamente a Companhia de Bangu.

Assim, após ser bem recomendado pelo seu patrão-irmão, Thomas Donohoe saiu do vilarejo de Busby e foi de trem até Oldham, sede da Platt Brothers & Co. assinar o seu novo contrato. Antes de embarcar, recebeu também uma espécie de “salvo-conduto” assinado por John Wodehouse, 1st Earl of Kimberley, que garantiria toda a proteção em terras brasileiras ao cidadão britânico.

Foi assim que, em 4 de maio de 1894, no porto de Southampton, o novo mestre da Companhia Progresso Industrial do Brasil embarcou para o porto do Rio de Janeiro a bordo do S. S. Clyde, junto com outros 48 passageiros. Uma viagem que duraria 21 dias. Emprego garantido como Mestre da Tinturaria, uma boa casa na vila operária, passagem paga pela Companhia, salário pago por dia de trabalho de acordo com a cotação da Libra, vantagens que os brasileiros ofereceram para o destemido escocês que cruzou o Atlântico para desenvolver a nossa incipiente indústria têxtil.

No entanto, duas preocupações ainda povoavam a cabeça de Thomas Donohoe. Sua esposa e seus dois filhos pequenos tinham ficado na Escócia e, outra, adepto dos sports, jogador do Busby F.C., o intrépido mestre tinha reparado que não se jogava football em Bangu, sequer existia uma bola à venda nas casas comerciais do centro do Rio.

A bola de Thomas Donohoe.
Não perdeu tempo: foi até a diretoria da fábrica. Certificou-se que seu contrato era longo, iria realmente ficar no bairro, precisava trazer Elizabeth. Foi assim que a fábrica pagou a viagem da sra. Donohoe, que embarcou no S.S. Liguria, em Liverpool, no dia 16 de agosto de 1894, trazendo os filhos John, com 3 anos, e Patrick, de seis meses, mais uma bola de couro na bagagem – pedido feito por Thomas em carta escrita à mulher.

No mês de setembro, quando Elizabeth desembarcou no porto do Rio, junto com outros 39 passageiros, Thomas estava lá para recepcioná-la. 

Esta bola, ao que tudo indica, foi a primeira a existir no Rio de Janeiro. A partir daí, Thomas pode organizar os primeiros jogos entre os compatriotas da fábrica nos grandes espaços vazios que existiam no bairro de Bangu.

O time do Bangu em 14 de maio de 1905, antes da partida
contra o Fluminense no campo da Fábrica. Da esquerda
para a direita, última fila: José Villas Boas (presidente interino),
Frederich Jacques e João Ferrer (presidente honorário); fila
do meio: César Bochialini, Francisco de Barros, John Stark,
Dante Delocco e Justino Fortes; fila da frente: Segundo Maffeu,
Thomas Hellowell, Francisco Carregal, William Procter e James Hartley.
Curiosamente, somente dez anos depois da chegada da pelota, em 1904, os britânicos receberam autorização do novo gerente da fábrica para fundarem um clube de football nos moldes dos que conheciam na Inglaterra. Assim, em 17 de abril, foi organizado o Bangu Athletic Club, e Thomas eleito seu primeiro vice-presidente. Aos 41 anos, “seu” Danau – como já era chamado pelos operários brasileiros da Companhia – jogou pouco pelo novo clube. Já não tinha o mesmo pique dos tempos de Busby.

No entanto, seu filho Patrick, que se formou em químico industrial, seguiu o legado profissional e esportivo do pai. Aos 18 anos, ou seja, em 1912, empregou-se na fábrica Bangu e a partir de 1913 passou a figurar entre os titulares do time de football. Logo na estreia de Patrick, os banguenses enfrentaram o time de outra Companhia têxtil, a América Fabril. Vitória esmagadora do Bangu por 9 a 0 e o jovem Donohoe marcou três gols.

Jogadores do Bangu, campeões da Taça Francis Walter.
No alto: Luiz Antonio da Guia, Alberto Vidal e Othelo Medeiros.
Fila do meio: James Stirling, Roldão Maia e Patrick Donohoe.
Fila de baixo: Augusto Alves, Archibald French, Avelino de Souza,
Carlos Rocha e Estácio Alves.
Seu pai estava honrado. Para quem era um simples operário na Escócia, a vida no Brasil trouxera muitos lucros para Thomas Donohoe: virara Mestre, ganhara projeção no bairro por ter trazido a primeira bola para o Rio de Janeiro, fundara um clube e ganhara status de dirigente, e agora era o pai do maior talento que o time de Bangu já revelara.

Morador da Rua Fonseca, nº 7, até o seu falecimento, no dia 2 de abril de 1925, não existia alguém no bairro operário que não conhecesse e não prestasse reverência ao importante Mestre de Tinturaria da Fábrica.

L.A:
Relate o processo de como chegaram a conclusão de que o futebol brasileiro pode ter começado em Bangu, e não com Charles Miller, em SP ou Oscar Cox, RJ.

Carlos Molinari:
Não cheguei sozinho a essa conclusão. Antigos banguenses já falavam sobre isso. Textos de um antigo diretor de patrimônio histórico do clube, o Vivi - Manoel Rodrigues de Moura - já sinalizavam na direção de que Thomas tinha sido um pioneiro. Em publicações feitas pelo próprio Bangu A.C. nos anos 80 já se falava sobre isso. Aliás, até mesmo em edições de diversos jornais - a respeito do aniversário do Bangu Atlético Clube, em 17 de abril - sempre que entrevistavam o Vivi ele tocava no assunto. Foi assim que O Globo chegou a publicar sobre este pioneirismo em 1961. 

Mas o Vivi (1908 - 1990) era um garoto de 13 anos quando T. Donohoe morreu. Ele pode ter convivido muito tempo com o filho de um outro técnico têxtil, William Wallace Hellowell (falecido em 1954), e creio, que daí ele tirou a conclusão que o futebol em Bangu começou antes dos jogos de Charles Miller. W. W. Hellowell era filho de Thomas Hellowell, um técnico têxtil que veio trabalhar na fábrica na mesma época de T. Donohoe. A diferença é que a família Hellowell era de Yorkshire. 

Depois, em 1999 quando comecei a pesquisar e a escrever a história do clube, deparei-me com o atual presidente da FFERJ, Rubens Lopes. Fui por três anos diretor de patrimônio histórico do clube, entre 1999 e 2001, e o "Rubinho" - de quem hoje sou desafeto - disse assim: "Você sabe que o futebol no Brasil surgiu aqui em Bangu, não é? Você tem que escrever sobre isso. Tua história não será verdadeira se você não conseguir provar isso".

Daí, eu comecei a buscar informações que me permitiram reconstruir o cenário da chegada desses imigrantes, as datas corretas em que desembarcaram, em que começaram a trabalhar na fábrica, para verificar que, realmente, era extremamente possível que eles tenham jogado futebol aqui antes do jogo inicial de Charles Miller, em abril de 1895, em São Paulo.

A única explicação possível para um fracasso do meu argumento é que eles tenham aberto mão de qualquer tipo de lazer, de prática esportiva nos dias de folga, o que me parece estranho. Afinal, em 1897 eles solicitam à direção da fábrica a fundação de um clube esportivo, que é negado pelo administrador Ferreira Gomes, por achar que jogos esportivos eram a mesma coisa que carteados e jogos de azar e que isso seria negativo para os trabalhadores da fábrica. 

Literatura na Arquibancada:
Quando e por que decidiu ir até a Escócia atrás da história de Donohue?

Clécio Regis:
Em 2010 resolvemos fazer um filme sobre o pioneiro Thomas, sob direção de Hélios Dutra, morador do bairro, a partir dai resolvi criar o Monumento ao Pioneirismo em frente ao estádio de Moça Bonita.

A ida à Escócia já está alinhavada através da internet com familiares e pesquisadores de lá. Assim teremos mais detalhes a acrescentar.

Literatura na Arquibancada:
Em breve você inaugura um Portal sobre essa história que pode mudar as origens do futebol no Brasil. Fale sobre o trabalho que você fez e o que espera dele.

Clécio Regis:
O portal é fato! Vai ser erguido. Trata-se de uma enorme escultura do Thomas em bronze medindo 4,5m sobre uma bola de concreto medindo 2m de diâmetro, ladeado por dois enormes painéis duplos, remetendo tecidos feitos de azulejos gravados com o acontecimento na ordem cronológica e bem didático.


Não acredito que exista clube no Brasil com histórias parecidas com a do Bangu, principalmente, no que diz respeito a pioneirismos e causas sociais. 

Este projeto enriquece ainda mais a nossa história e fará justiça. Melhorando a autoestima de um bairro de verdade que tem como principal marketing o Bangu Atlético Clube.

Literatura na Arquibancada:
Qual a importância de Bangu na história do futebol brasileiro?

Carlos Molinari:
Se obtivermos provas cabais da realização dos primeiros jogos aqui no bairro, a importância de Bangu para a história do futebol brasileiro passa a ser total. Já provamos por meio de fotografias e notícias de jornais que o Bangu foi o primeiro clube de futebol do país a aceitar a participação de atletas negros. Isso em 1905. 

Daí, obtivemos a Medalha Tiradentes, dada pela ALERJ, em 20/11/2001. 

Aquela balela do argumento do Vasco de 1923 caiu totalmente por terra: 18 anos depois ninguém poderia ser pioneiro em nada.

Diretoria do Bangu recebendo Medalha Tiradentes.
Rubens Lopes (E), Noel de Carvalho e Paulo Giancristóforo.
Crédito: Márcia Feitosa.
Lendo o livro "O Negro no futebol brasileiro", de Mário Filho, fica evidente o pioneirismo e a luta do Bangu neste campo. Isso sem falar na participação popular, na participação do operário, do pobre em uma associação para práticas esportivas, o que é uma inovação, já que os clubes eram sempre destinados ao lazer da elite. O Bangu constituiu, no início do século XX, uma revolução nos costumes, tal como aponta o historiador Waldenyr Caldas, no seu livro "O pontapé inicial". 

Outros historiadores, tal como Leonardo Affonso de Miranda Pereira, no livro "Footballmania" também elencam inúmeras lutas do Bangu pela popularização do esporte e a participação efetiva de negros e operários no jogo inglês.

Bangu, 1922.
Recentemente escrevi uma crônica sobre um antigo jogo Bangu x Flamengo, ocorrido em 1922. E um leitor do Bangu.net me mandou um e-mail me chamando a atenção. Vejam os dois times, o Bangu, ao lado, e o Flamengo, abaixo:




Flamengo, 1922.
O Bangu com um time mestiço, negros, brancos, mulatos, pardos, todos juntos, formando uma equipe. Já o Flamengo todo branco, um time unirracial. Daí é estranho pensar que ele se tornou o time do povo e o Bangu não. O povo, ao meu ver, não queria se identificar com o preto, o pobre, o operário, quis se identificar com o vencedor, o que ganhava títulos, jamais com o Bangu, que sempre foi uma equipe de fábrica, humilde, extremamente amadora.

Fora tudo isso, foi no campo do Bangu, na Rua Ferrer, que as primeiras placas publicitárias foram expostas em um campo de futebol no país. E foi o Bangu que, em 1949, iniciou o sistema de patrocínios nas camisas, ao estampar o losango da Fábrica Bangu no peito dos atletas. Na época, ninguém tinha tido tal ideia. Como o time tinha o mesmo nome da fábrica, não iria ficar estranho, nem ninguém iria proibir.

Hoje o Bangu tem toda sua historia registrada em dois livros de minha autoria: "Nós é que somos banguenses" e o "Almanaque do Bangu", para que ninguém tenha dúvida sobre os feitos que este clube já conseguiu desde 1904 até hoje.

Literatura na Arquibancada:
O que é ser banguense? Torcedor e morador.

Clécio Regis:
Um bairro que se confunde com um clube. Estão intimamente ligados pela história. Símbolo maior. Religião! O Banguense é fiel, nunca abandonamos o Bangu nos estádios. E a nossa vida; histórias e glórias.

Somos Bangu, eternamente Bangu !

Sobre os entrevistados
Clécio Regis
Trabalha na área de cenografia, escultura, pintura de arte, com clientes importantes como Rede Globo, Oi, MetroRio, Fashion Rio, Fashion Business, incluindo também vitrines das mais importantes marcas de roupa do Brasil. É autor das esculturas: Filme “Nosso Lar” (Muralha) maior Escultura do Cinema Brasileiro; Dr. Roberto Marinho (tamanho natural, TV Globo – Portaria 3); Memorial da Pediatria Brasileira: Maternidade (tamanho natural); Pasteur (busto, tamanho natural); Hipócrates (busto, tamanho natural); Zumbi dos Palmares (busto, 80 cm); Domingos da Guia (busto, tamanho natural). É autor da pintura, Hoje é dia de Maria – Micro Série, 1ª e 2ª jornada, o maior painel de pintura arte já feito no mundo, com mais de 8000 M² de área pintada.

Carlos Molinari
É pesquisador da história do Bangu, autor dos livros: "Nós é que somos banguenses" e o "Almanaque do Bangu". É colaborador permanente do site www.bangu.net



6 comentários:

  1. Anônimo09:10

    Bangu berço do futebol brasileiro!

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  2. Anônimo10:41

    Bangu eternamente Bangu. Que orgulho tenho de torcer por este time...

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  3. Anônimo16:01

    E o título que Bangu ganhou no torneio de NY? Não deeveria ser considerado também um título mundial?

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  4. Anônimo20:54

    Parabéns e bola pra frente isto tudo engrandece cada vez mais o nosso querido clube.

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  5. Bangu o berço do futebol brasileiro!

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  6. Ler isso foi uma delícia..... Sempre Bangu!!!

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