quinta-feira, 12 de abril de 2012

Cruzando os bigodes


Ainda sobre a polêmica criada pelo grupo de pesquisadores de Bangu sobre quem seria o verdadeiro “Pai” do futebol brasileiro, trazemos agora a versão do biógrafo de Charles Miller, o pesquisador John Mills. Em e-mail enviado ao editor deste blog, Mills, serenamente, afirma não querer “polemizar”, até porque os “fatos” apresentados pelo pessoal de Bangu já foram questionados no ano passado e teriam sido desacreditadas as informações.

Charles Miller
A opinião de John Mills se torna muito oportuna neste momento, porque na próxima sexta-feira, 14 de abril, é considerado o dia em que se realizou o primeiro jogo “oficial” de futebol no Brasil. 

O jogo foi organizado por Charles Miller entre os times batizados assim: “The Gas Works Team”, formado por funcionários da companhia, contra “The São Paulo Railway Team”, formado por funcionários desta ferrovia.

Para John Mills, como reproduzido abaixo em seu e-mail, Charles Miller não apenas “brincou” de jogar bola:

“Miller trouxe o livro de regras e o jogo de 1895 obedecia a estas regras. Não quero polemizar, e nem tenho tempo para isso. 

Ninguém tira o mérito de Thomas Donohoe ter uma bola naquela época. Mas jogos com regras claras como Miller fez, eles não fizeram em Bangu, pois eram ‘mera diversão’ de 5 x 5 ou 8 x 8.


Thomas Donohoe
Cada um pode ver a história como ela é ou como pode ter sido. O grande historiador e jornalista Thomaz Mazzoni jamais mencionou nada sobre isto em seus livros. Todo historiador deve-se basear em fatos documentados e interpretá-los da melhor forma possível.

Acho que essas polêmicas não ajudam em nada. Acredito que podemos ‘cortar’ o problema pela raiz, da seguinte maneira, e você, da imprensa pode fazer isto melhor que ninguém. 

Leia o artigo do jornalista Rodrigo Bueno, da Folha de S. Paulo, do dia 26 de março de.2011. 

No final do parágrafo 5 está escrito: ‘organizou um jogo com dez atletas, cinco de cada lado’. 

Isso não é um jogo de futebol com as 13 regras de 1863, correto? É um joguinho de salão, fulbito (em espanhol) ou "five-a-side (em inglês). Com que base podem reivindicar a obra do Miller no futebol paulista.
O Bangu somente foi fundado em 1904, quando o SPAC já era tricampeão paulista. A onde leva esta polêmica, pergunto eu? Para satisfazer a imprensa e vender mais jornais, com estas conjecturas?”

Para John Mills, não há dúvida sobre a versão de quem é reconhecidamente o “pai” do futebol brasileiro. Literatura na Arquibancada reproduz abaixo trecho da biografia de Charles Miller, escrita por John Mills e que teve duas edições. A primeira edição (do autor e patrocinada pela Price Waterhouse), em 1996, tinha o título “Charles William Miller – 1894/1994 - Memoriam SPAC”. O segundo livro é “Charles Miller, o pai do futebol brasileiro”, editado pela Panda Books, em 2005.

“Charles Miller imaginou que pelo menos alguns britânicos residentes em São Paulo deveriam conhecer o futebol. Sim, conheciam e tinham ouvido falar, mas estavam demais apegados ao críquete para se lançarem a um outro esporte.

A ‘missão’ de Charles Miller, de introduzir o futebol no Brasil, começava aqui. 

Num depoimento à revista O Cruzeiro em 1952, Charles Miller relata como foi o primeiro treino em solo paulistano:

‘Numa tarde fria de outono de 1895, reuni os amigos e convidei-os a disputarem uma partida de ‘football’. 

Aquele nome, por si só era novidade, já que naquela época somente conheciam o críquete.

Charles Miller, no centro com a bola.
‘Como é esse jogo?’ – perguntavam uns.
‘Com que bola vamos jogar?’ – indagavam outros.
‘Eu tenho a bola. O que é preciso é enchê-la’ – respondeu Miller.
‘Encher com que?’ – perguntaram.
‘Com ar’ – retrucou Miller.
‘Então vá buscar, que eu tenho’ – respondeu um dos integrantes.

Charles Miller foi e trouxe a bola. Não se limitou apenas ao ensinamento do futebol a tarefa de Charles Miller naqueles primeiros ensaios nos terrenos da Várzea do Carmo, mas sim à catequese junto aos próprios britânicos.

Entretanto os sócios do São Paulo Athletic Club não levaram o seu apego ao críquete e à tradição ao ponto de desprezar de todo o futebol. Estavam ansiosos para aceitar novidades e não tão bitolados no críquete. Aos poucos foram-se aumentando os treinos na Chácara da Família Dulley, onde existe hoje a Rua Três Rios no Bom Retiro, e lá tiveram lugar, cada vez mais animados, esses treinos e bate-bolas.

(...)

Esses treinos fechados valeram, e muito. Serviram para que a cidade ficasse sabendo que ‘lá pelos lados da Luz, do Bom Retiro, um grupo de britânicos, maníacos como eles só, punham-se, de vez em quando, mais propriamente aos sábados, dia de descanso laboral, a dar pontapés numa coisa parecida com bexiga de boi, dando-lhe grande satisfação e pesar, quando essa espécie de bexiga amarelada entrava num retângulo formado por paus’. (carta enviada de São Paulo para o Rio de Janeiro pelo jornalista Celso de Araújo, ao jornalista Alcino Guanabara).

Charles Miller
Pouco a pouco estava tudo propício para o primeiro jogo, que seria disputado na Várzea do Carmo, em 14 de abril de 1895, e os treinos que ele também efetuou com seus colegas do São Paulo Railway iriam ajuda-lo n o grande dia que ele tanto almejou. Os cronistas da época, tais como Leopoldo Sant’ana e Paulo Várzea são unânimes em apontar essa data como o dia do primeiro jogo de futebol no Brasil.
Foto jornal
Em depoimento ao jornalista Thomaz Mazzoni (A Gazeta Esportiva, 1942), Charles Miller conta como foi esse primeiro jogo em terra paulistana:

‘Realizamos o primeiro ensaio em terras brasileiras no ano de 1895, precisamente na Várzea do Carmo, nas proximidades da Rua do Gasômetro e da Rua Santa Rosa. Para isso, reuni um grupo de britânicos da Companhia de Gás, London Bank e São Paulo Railway. É interessante lembrar que essa primeira tentativa foi efetuada com a bola do jogo disputado em 1894, que me fora presenteada por um companheiro de seleção do Condado de Hampshire, que mais tarde presidiu a Liga de Futebol na Inglaterra’.

Miller prossegue: ‘Logo que nos sentimos traquejados, e que o número de praticantes do jogo havia crescido, convoquei a turma para o primeiro cotejo regulamentar: ‘The Gas Works Team’, formado por funcionários da companhia, contra ‘The São Paulo Railway Team’, formado por funcionários desta ferrovia. Foi em 14 de abril de 1895. Ao chegar ao capinzal, a primeira tarefa que realizamos foi enxotar os bois da Cia Viação Paulista, que tosavam a relva pacificamente. Logo depois iniciávamos nosso jogo, que transcorreu de forma interessante, sendo que alguns dos companheiros jogaram mesmo de calças compridas, por falta de uniforme adequado. Venceram os da São Paulo Railway por 4 a 2, entre os quais eu me encontrava. Quando deixamos o campo já havíamos assumido o compromisso de promovermos um segundo jogo’.

A exclamação geral dos que tinham disputado esse jogo histórico, entre eles, William Snape, Wood, Sparks, Taylor e seus dois filhos, Blacklock, Crewe, Bley, Carter e outros, foi esta: ‘Que ótimo esporte, que joguinho bom’”.
(fonte: ““Charles William Miller – 1894/1994 - Memoriam SPAC”, pg 37-39)

Sobre John Mills
John Mills (centro)
John Robert Mills nasceu em Vigo em 1938, de pai inglês e mãe basca. Seu amor por história e esportes vem do berço, pois seu avô traçou um caminho paralelo ao de Charles Miller, ao ser o único britânico que, juntamente com 32 bascos, fundou o Athletic de Bilbao em 1898. Mills viveu parte de sua infância e juventude no Peru, cursando o secundário na Inglaterra. Formado em administração, veio para o Brasil em 1967 para permanecer por quatro anos, mas acabou se apaixonando pelo país do futebol. Interessou-se pela história do futebol paulista e a vida e obra de Charles Miller ao ingressar como associado do SPAC. Sempre acompanhando o futebol brasileiro e mundial, possui um acervo razoável de livros sobre o assunto e freqüentemente participa de programas de rádio e TV relacionados ao tema. Também é membro honorário do Corinthian Casuals Football Club, da Inglaterra.


Um comentário:

  1. Olá André Luiz, tudo bem?
    Estou elaborando um livro-documentário sobre os mascotes do futebol Brasileiro. Além dos tradicionais times, estou pesquisando alguns mascotes de times de futebol já extintos. Você teria o contato do historiador Jonh Mills? Gostara de saber se o SPAC chegou a ter um mascote.
    Grande abraço!
    Leonardo Gomes, jornalista e escritor
    e-mail: jornalista07@yahoo.com.br

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