sexta-feira, 27 de abril de 2012

Choram os deuses


A derrota do Barcelona nesta semana para a equipe do Chelsea e a provável perda do título do campeonato espanhol para o Real Madrid, levantaram intensos debates e reflexões em torno do poderio da equipe catalã. A questão principal gira em torno do eterno “futebol de resultados” x “futebol-arte”. Tema que conhecemos muito bem, pois, após a fatídica derrota na Copa de 1982, com a chamada “equipe dos sonhos”, e a conquista da Copa de 1994, com o tal pragmatismo de Parreira, nunca mais paramos de discutir sobre essas questões.

Guardiola deixa o Barça.
A derrota do Barcelona, equipe com torcedores apaixonados pelo mundo inteiro, deixa mais uma vez no ar a questão: melhor vencer jogando feio ou perder com um futebol bonito? Na equipe catalã, mesmo com o anúncio da saída do técnico Pepe Guardiola, essa discussão deve ter resposta rápida, baseando-se no histórico de formação, não apenas da equipe, mas de uma filosofia de jogo e vida.

Afinal, qual equipe do mundo faz o que o Barça fez hoje (27/04) ao anunciar a saída de seu comandante? Vale a pena conferir o vídeo.


É o que também nos mostra o mestre em literatura brasileira, Mauro Rosso em suas brilhantes reflexões sobre o Barça. Apesar de torcedor ferrenho da “escola Barça”, Rosso revela as razões do sucesso obtido pela equipe catalã nos últimos anos.

Choram os deuses !!!
Por Mauro Rosso

Os deuses devem estar a chorar...,e por extensão todos os amantes do futebol. Porque, do ocorrido com o Barcelona recentemente, seremos privados daqui por diante, por um tempo (espero, nesses mesmos deuses do futebol, que pouquíssimo), de... encantamento – assim também vaticina mestre Tostão – do futebol jogado como gostamos, queremos e propugnamos ele seja. 

Minha adoração pelo Barça, seu estilo, a escola que na verdade expressa, é, por esse amor incontido a esse futebol. [o porquê de minha paixão, na verdade idolatria pelo Barça: porque o verdadeiro futebol, comme il faut, de troca de passes, bola no chão (sem chutões, chuveirinhos pragas de hoje por todos os campos do Brasil) sem brucutus (média de 9 faltas por jogo !!! ao contrário dos facínoras e truculências por aqui), com harmonia, categoria e qualidade, sem nunca perder o plumo.

Porque não é um mero time de futebol, e sim uma “escola de futebol”, os times formados nas diversas categorias, do infantil ao profissional, com o mesmo estilo de jogo, e de vida, de cidadania: os meninos que lá entram desde os 12 anos recebem toda uma infraestrutura de treinamento e formação, inclusive escola, no sentido educacional propriamente dito, e mais: de lisura, ética, moral (há dois anos, na final do campeonato infantil, contra o Espanhol, após o reinício do jogo, em que um jovem jogador do Barça, sob o espírito de “fair-play” deveria devolver a bola ao adversário, ao contrário saiu driblando e fez um golaço, o técnico (antigo jogador dos anos 90, não lembro o nome) ficou irritadíssimo, deu uma bronca geral e exigiu que o time desse um gol ao Espanhol, o que o zagueiro do Barça fez entregando a bola gratuitamente ao atacante que fez o gol mas no final o Barça meteu 5 x 1 no Espanhol...

Quer dizer, além ou mais do que formar jogadores, para ganhar, etc, formam-se homens, cidadãos. Isto é o Barça . Não é à toa que o clube “patrocina” a Unicef, não é patrocinado, caso único no mundo !!!

Amo o Barça também porque é da Catalunha, região rebelde basca, o que sempre tem minha simpatia ideológica [o pomposo Real Madrid, ao contrário que desde suas origens, apesar das inúmeras e notáveis conquistas nos anos 1950 e 1960 (mas sempre formando times “galácticos”) presume que dinheiro, poder, marketing e presunção servem para ganhar e conquistar esteve visceralmente ligado ao sanguinário Franco e ao franquismo.

O Barça de hoje promove dupla revolução no futebol: no campo, técnica e taticamente (qual o time no mundo, por exemplo, que joga apenas com um volante Busquet que sabe marcar e sair jogando? Sem centroavante fixo, “matador”, daqueles bastante comuns por aí que matam bola na canela? Que muda de esquema tático no meio de um jogo sem mudar os jogadores, fazer substituições?); na gestão, pelo que faz em seu centro de formação, a que aludi acima que deveria ser modelo, molde e exemplo para todos os clubes de futebol do mundo.

E pior, depois desse acontecido com o Barça: com isso, pode vir agora outra vez uma era de culto ao tal futebol de resultados, pragmático dos Mourinhos, Felipões, Tites, que tormentosamente grassam por aí (como já grassaram Lazaroni, Parreira, Carlo Bianchi, Fabio Capelo, etc, argh!) ainda bem existem Guardiola e “el loco” Bielsa ! ave glória !; de esquemas defensivos, retrancas, 'encaixotamentos' o termo da moda: inventou-se que "Messi foi encaixotado"... exatamente como se deu depois de 1982, com a derrota daquela fantástica seleção brasileira, uma era que só começou a dissipar-se um pouco 16 anos depois, por volta de 1998\2000 (em termos de Copa do Mundo, a excelente seleção francesa de 1998 na defesa, meio-campo e ataque, dera indícios dessa inflexão).

Lamentemos, choremos como devem estar fazendo os deuses do futebol.

Sobre Mauro Rosso:
É professor e pesquisador de literatura brasileira, ensaísta e escritor. Palestrante e conferencista em universidades e entidades culturais. 

Escreve textos, artigos e ensaios sobre literatura brasileira para revistas acadêmicas e sites de literatura. 

Desenvolve projetos e programas de pesquisa literária para entidades acadêmicas.

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