domingo, 22 de abril de 2012

Campos: terra de craques e escritores


O Brasil é imenso e resgatar a história de ídolos regionais que tiveram projeção nacional, além da produção literária local, é missão de quem por ali vive. É o que o jornalista Wesley Machado, pós graduando em "Literatura, Memória Cultural e Sociedade" pelo Instituto Federal de Ciência e Tecnologia (IF-Fluminense), em Campos dos Goytacazes-RJ traz hoje aos leitores do Literatura na Arquibancada. E há uma razão especial. Neste 22 de abril, Mário Seixas, considerado “o menino de ouro do futebol campista”, completaria 110 anos.

Campos, localizada na região norte do Rio de Janeiro é a cidade do interior do estado do Rio de Janeiro de maior extensão territorial, mais de 4 mil metros quadrados de extensão, duas vezes mais do que a capital. 

É ainda a maior produtora de petróleo do Brasil, além de concentrar a maior parte da indústria cerâmica fluminense. Das sete usinas de açúcar e álcool do estado, seis estão em Campos.

Mas Campos também é terra que respira futebol e berço de alguns craques esquecidos, outros famosos, e vários autores com obras importantes para a história da literatura esportiva brasileira.

Mário Seixas, marcou 2 gols pelo time do Santos, na vitória por 6 a 1
contra a seleção da França, no dia 30/07/1930.
Crédito: www.acervosantista.com.br
Um dos jogadores campistas mais famosos, com certeza não é conhecido no resto do Brasil, mas para quem é da terra, falar em Mário Seixas é recordar um ídolo eterno. Mário Seixas jogou no Americano (campeão em 1921-22-23 e 25), no Clube Bahiano de Tênis (futuro Bahia), na Portuguesa, no Santos (67 gols entre 1930 e 1935) e também nas seleções baiana e brasileira. Isso mesmo, Mário Seixas chegou a jogar pela Seleção Brasileira, no Sul-Americano de 1923. Nessa mesma seleção também estavam dois outros campistas, Amaro Silveira (pai de Amarildo, “O possesso”, ex-seleção brasileira bicampeã em 1962) e Soda.

Sobre Mário Seixas, o craque da literatura brasileira, Nelson Rodrigues, escreveu na orelha de um livro sobre a história do Americano (e que você, leitor, verá abaixo) sobre o craque campista:

"(...) Campos tem uma tradição fulgurantíssima. Dois exemplos de cracks de nível mundial: - Mário Seixas e Amaro Silveira. Este último é o pai de Amarildo, o Possesso, que é outro campista autêntico. 

Começamos por Mário Seixas. Nos meus tempos de garoto, eu o vi jogar. Ele fora magro, mas eu já fui encontrá-lo gordíssimo. Mas a vida é surpreendente: - com peso de Feola, de Abade da Brahma, o Mário Seixas era um jogador ágil, elástico, rápido. Tinha um altíssimo domínio de bola. Estava no mesmo nível dos maiores cracks do Brasil"

Ainda sobre Mário Seixas, o ex-presidente do Flamengo, Gilberto Cardoso, que também era campista, disse que "Mário Seixas foi melhor que Pelé". Pode parecer uma heresia, mas por aí temos noção do quanto jogava o "menino de ouro do futebol campista".


Da direita para a esquerda, em pé: Brilhante, Fausto,
Hermógenes, Itália, Joel e Fernando.
Agachados: Poly, Nilo, Araken, Preguinho e  Teófilo.
Em 1930, outro campista, Poly (Policarpo Ribeiro de Oliveira), vestiria também a camisa da Seleção Brasileira, desta vez na primeira Copa do Mundo, contra a Iugoslávia.

A partir daí vários craques campistas chegaram à Seleção Brasileira, alguns se tornaram ídolos eternizados também por jornalistas da terra, mas essa história quem nos conta é o jovem Wesley Machado.




Campos: uma terra de craques e escritores
Por Wesley Machado

Didi
O município de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, é um dos maiores celeiros de craques para o futebol brasileiro. Além de Mário Seixas, nasceram em Campos craques geniais como Didi, o “Gênio da Folha Seca”, primeiro jogador a marcar um gol no Maracanã; Pinheiro, um dos jogadores que mais vestiram a camisa do Fluminense com passagens pela Seleção Brasileira; e Amarildo, “O Possesso”, que substituiu Pelé na Copa do Mundo de 1962 no Chile.

Campos, conhecida no país como “A cidade petrolífera” também é berço de escritores e jornalistas que contaram histórias do esporte, oriundo da Inglaterra, mas que no Brasil se tornou o esporte mais popular do país. Se em São Paulo Charles Miller realizou a primeira partida de futebol tendo como público algumas vacas, em Campos a primeira bola chegou por meio de um circo. Os jogadores eram palhaços que já faziam do futebol uma arte.

"Ao Livro Verde",  a
livraria mais antiga do Brasil.
Para uma cidade, que não é uma capital, são vários os livros que abordam as histórias do futebol campista e brasileiro em geral. Mas considerando que Campos tem a livraria mais antiga do Brasil, “Ao Livro Verde”, fundada em 1844, bem que poderíamos ter uma publicação de literatura esportiva mais extensa, especialmente sobre futebol.

Campos é terra de autores conhecidos como Oldemário Touguinhó, que não escreveu especificamente sobre a cidade, mas é campista de nascimento. 

Foi um dos maiores repórteres esportivos do Brasil e cobriu 10 Copas do Mundo de 1962 a 1998 para o Jornal do Brasil e a Agência Estado.

Oldemário Touginhó





Além de toda essa experiência jornalística, Touguinhó foi um dos repórteres que mais entrevistaram Pelé e para se ter ideia de sua relação com o Rei do Futebol, chegou a ser seu compadre.

Touguinhó deixou para a literatura esportiva obras fundamentais como “As Copas que eu vi” (Editora Relume Dumará, 1994); Maracanã: Onde todos são iguais (Editora Relume Dumará - Coleção "Contos do Rio", 1998) e “O Curingão” (Editora Erregê,1981).









Péris Ribeiro
Mas o jornalista campista de maior destaque na literatura esportiva brasileira é Péris Ribeiro, da Revista Placar e autor da biografia “Didi – O gênio da folha seca” (Editora Imago, 1993), que surgiu de um conto premiado no Concurso José Cândido de Carvalho.

“Perinho”, como é tratado carinhosamente pelos amigos, também é autor de “Brasil e as Copas” (Editora Mitavaí, 1986) e “Em Cima do Lance” (Edição do autor, 2001).

Outras obras de autores campistas merecem destaque. O primeiro exemplo é o livro de Paulo Ourives, radialista gaúcho radicado por aqui que escreveu “História do Futebol Campista” (Editora Cátedra, 1989). 

Uma pesquisa minuciosa que conta a história futebolística de Campos dos Goytacazes com dados coletados em arquivos de jornais sobre os clubes profissionais da cidade, resultados de partidas e lista de campeões. 

Ourives destaca na obra a rivalidade entre Goytacaz e Americano, dois dos principais clubes locais.

Há ainda a importante obra do pesquisador Hélvio Santafé, autor de “Ídolos do Esporte” (Edição do autor, 2006), uma publicação que reúne biografias inéditas de esportistas campistas, resumos históricos de clubes e curiosidades esportivas da cidade.

Recentemente tivemos publicada a pesquisa do jornalista Aristides Leo Pardo, que foi a campo desvendar os mistérios de clubes das antigas Usinas de Campos, como Cambaíba e Sapucaia. O livro “No país do futebol, cidade sem memória: A história futebolística de Campos dos Goytacazes” (Editora: Agbook, 2010) é fruto de uma minuciosa pesquisa de quatro anos que foi reduzida para ser apresentada como monografia de conclusão do curso de jornalismo da FAFIC e teve nota máxima dada pela banca julgadora. Pardo narra desde a chegada da primeira bola de futebol a Campos dos Goytacazes, passando pelos mais de 20 clubes profissionais existentes na cidade, seu auge, sua decadência, o surgimento e desaparecimento de clubes, a elite canavieira, os craques campistas entre outras curiosidades do nosso futebol.

Em “Futebol Pitoresco”, o professor de Educação Física aposentado Osvaldino Pedro Vieira, e ex-jogador profissional campeão com time campista nos campeonatos de 1959 e 1960 e supercampeão em 1963, fala sobre vários personagens do futebol de Campos, do futebol do Rio de Janeiro, São Paulo e de Cachoeiro de Itapemirim (ES).

Não podemos esquecer de Tite, ex-jogador do Santos, que enveredou pela música e deixou para nós “Futebol x Música – Minha História e seus detalhes” (Editora Grafisa, 2002). São relatos e crônicas do ex-jogador de futebol, Augusto Vieira de Oliveira, o "Tite", revelado no Goytacaz e que foi jogar no Santos com Pelé. 

A obra contém a trajetória do ex-jogador e também detalhes de sua carreira musical.

Mas, definitivamente, a mais importante obra sobre o futebol de Campos dos Goytacazes, foi e é até hoje, mesmo após 50 anos de seu lançamento completados em 2012, “Almanaque Esportivo do Jubileu de Ouro do Futebol Campista” (Editora Atlas, 1962), de Nilo Terra Arêas.

Arêas faz o registro pioneiro em homenagem aos 50 anos do futebol de Campos dos Goytacazes-RJ por intermédio de documentos relevantes sobre times de futebol, jogadores, dirigentes e cronistas esportivos, além de fotografias de formações históricas.

Arêas também deixou para a literatura esportiva local e brasileira a história de um dos clubes mais tradicionais de Campos, “Americano Futebol Clube - Sua História e suas Glórias de 1914 a 1975” (Edição do Autor, 1976).

E mais boas notícias para a literatura esportiva. Ainda neste ano, devem ser publicados mais dois livros sobre o futebol campista, ano do centenário do Goytacaz, Campos e Rio Branco (time que revelou Didi). 

O primeiro é sobre a história do Goytacaz e está sendo escrito pelo radialista Josélio Rocha e o jornalista Humberto Rangel, com supervisão editorial de Péris Ribeiro, autor da biografia de Didi. 

O outro sobre os três centenários, de Hélvio Santafé, mesmo autor de "Ídolos do Esporte".

Enfim, Campos não é somente terra do “ouro negro”, é lugar de craques e escritores que jogam em qualquer seleção brasileira de todos os tempos.


Sobre Wesley Machado:
Wesley tem 30 anos e começou no jornalismo em 1997 fazendo charges para o "Fala Galera”, jornal da antiga Escola Técnica Federal de Campos (ETFC), atual IF-Fluminense. Entre 2000 e 2001 estagiou como repórter fotográfico do jornal Folha da Manhã, em Campos. De 2001 a 2003 estudou Cinema & Vídeo na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, onde acompanhou de perto seu time do coração, o Botafogo, frequentando o Caio Martins e o Maracanã.
Em 2003 voltou para Campos para trabalhar na Rede Litoral de Rádio e TV, como produtor. E em 2004 ingressou no curso de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia de Campos (Fafic), tendo se formado em 2008 com habilitação em Jornalismo. Durante a faculdade, estagiou na Rádio Educativa da Fafic (FM 107,5), como redator-noticiarista. Em 2009, começou a trabalhar como assessor de imprensa da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. Em 2011 foi trabalhar na Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Campos e no jornal O Diário. Atualmente ainda trabalha na Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Campos e é bolsista da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), onde alimenta as mídias sociais (blog, twitter e facebook) da Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Populares (ITEP) e desenvolve o Projeto Cineclube Cabeça, idealizado por ele, que divulga o cinema brasileiro nos telecentros comunitários de Campos e Cardoso Moreira. É autor de crônica "O Palito de Churrasco", publicada no livro "A Magia do 7" (http://estrelasolitarianocoracao.blogspot.com.br/2011/10/o-palito-de-churrasco.html). Está escrevendo o livro sobre o centenário do Campos Athletic Association, campeão citadino de 1918, 1924, 1932, 1956 e 1976. Também dirigiu alguns documentários, um sobre futebol:



10 comentários:

  1. Ricardo provisano12:03

    muito bom texto Wesley. parabéns. muito bom saber q existem pessoas como vc, q ama e valoriza essa linda cidade. q deus te abençoe sempre. abraços

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  2. O Mário Seixas não jogou no Bahia e sim no Clube Bahiano de Tênis que, mais tarde, se juntaria a Associação Atlética da Bahia e fariam surgir o Esporte Clube Bahia.

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    1. Corrigido, caro José Ricardo Almeida.

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  3. Amigo, belíssima pesquisa, com certeza um trabalho árduo de presenças em bibliotecas e visita a acervos particulares! Sou admirador e fã da seriedade do seu trabalho! Salvei o arquivo e as imagens para mostrar aos meus filhos.

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  4. Conheço Wesley desde quando ele era um garoto entusiasmado por jornalismo, estudante da extinta Escola Técnica Federal de Campos. Sei de sua seriedade enquanto cidadão e pesquisador e admiro sua paixão pelo que faz e que, quase sempre, está relacionado a cinema e futebol. Aproveito o espaço para lhe dar os parabéns pelo trabalho e dizer que está perdoado (pelo fato de, infelizmente, ser botafoguense).
    Avelino Ferreira (jornalista)

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  5. Parabéns Wesley, por deixar esse registro tão importante sobre a história do nosso futebol.

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  6. Amigo, vc por acaso tem algumas fotos de times antigos, estou a procura de escudos, caso tenha entra em contato

    ligacampistaddesportos@hotmail.com

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    1. Amigos, o maior pesquisador de escudos do país chama-se José Renato Sátiro. Favor em entrar em contato com ele: jrsantiago@jrsantiago.com.br. Podem escrever em meu nome, é um grande amigo.

      abraços

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  7. Alguém sabe informar como consigo encontrar o livro "Americano Futebol Clube - Sua História e Suas Glórias - de 1914 a 1975"?

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  8. Caro Glauco Rangel, este livro pode ser encontrado na Livraria Ao Livro Verde (https://www.facebook.com/Ao-Livro-Verde-371341429610222/?fref=ts)

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