terça-feira, 10 de abril de 2012

Ary Barroso e o Futebol


Ary Barroso, um dos maiores compositores da música brasileira (“Aquarela do Brasil”, “Tabuleiro da baiana”, “No rancho fundo” e tantas outras) era um homem apaixonado pelo futebol, tanto que chegou a arriscar ser jogador pelos campos do Rio de Janeiro. Pelo futebol não, pelo Flamengo, o clube pelo qual protagonizou histórias incríveis. Além de compositor, Ary também foi uma das grandes estrelas do rádio brasileiro, e também nesta área tornou-se um ícone do radio esportivo.

Ary Barroso e o sonho de ser jogador.
Diz a história que Ary, antes de se tornar um rubro-negro apaixonado cometera a “heresia” de torcer pelo Fluminense, um dos seus maiores rivais. Está lá, no livro “Torcedores de Ontem e Hoje”, de João Antero de Carvalho: “Ferrenho torcedor do Flamengo, dispensar, antes, simpatias ao Fluminense, a qual começou arrefecer em 1929, ao sofrer seu clube de então inesperada derrota do Andaraí e em consequência de lhe haverem aplicado, após, suspensão disciplinar e ulterior eliminação do quadro social por não pagamento de mensalidade, fato esse que ocorreu durante uma viagem ao exterior”.

Ou seja, uma decepção com o clube tricolor fez Ary se tornar flamenguista.
Mas a história de Ary Barroso com o futebol é muito maior...E foi justamente em uma partida entre os dois clubes pelo qual torceu que acabou estreando no rádio esportivo.

Mineiro de Ubá, ele fez sua primeira narração em um partida do campeonato carioca entre o Vasco e o São Cristóvão. Artista fantástico, Ary queria marcar suas transmissões com algo diferenciado. Foi assim que surgiu a famosa gaitinha do Ary. Em suas transmissões ele trocava o grito de gol pelo sopro de uma gaita, igual às que os vendedores de sorvete usavam nas ruas para atrair a criançada. E é o próprio Ary quem explica como tudo aconteceu. Vale a pena ouvir:

O efeito sonoro inovador, precursor das vinhetas e efeitos sonoros em futuras transmissões, tinha uma razão de existir. Além do fato de ser obrigado a narrar no meio dos torcedores, o que abafava a voz de qualquer locutor, o som da gaitinha, que diferenciava suas transmissões, também ajudava na hora de vender os anúncios.

Foi nesse período que Ary conheceu o jornalista e publicitário Antônio D’Ávila, ou simplesmente, Zuzu, um pernambucano de 18 anos, na época apenas contato publicitário, que fazia a venda de suas transmissões.

Zuzu vendia anúncios como se fosse água. Os preços, nem um pouco populares, variavam entre 5 e 10 mil réis por irradiação, eram divididos em cotas de três ou cinco textos e tinham em média trinta palavras. Vendia-se para todo tipo de anunciante, desde fabricantes de calçados e móveis até para o óleo perfumado Pindorama, que dizia “de cabeça em cabeça, corre a fama do óleo perfumado Pindorama”.

A dupla Zuzu e Ary fez tanto sucesso de público e para os cofres da emissora, que no ano seguinte, em 1937, foram contratados pelo empresário Assis Chateaubriand para trabalhar na Rádio Tupi. Ary ficaria por mais quinze anos na Tupi, enquanto Zuzu continuou a fazer sucesso também na política, e anos mais tarde viria a ser assessor especial do presidente Jânio Quadros, criando o jingle histórico: “Varre, varre, vassourinha...”.

Ao contratar Ary Barroso, Chateaubriand estava se preparando para enfrentar a concorrência da mais poderosa rádio criada nos anos 1930. No sábado, dia 12 de setembro de 1936, o locutor Celso Guimarães anunciava: “Alô, alô Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro”.

Ary Barroso com bigode raspado por causa
de uma aposta com Haroldo Barbosa sobre
o resultado de um Fla x Flu. Ary perdeu...
A forma apaixonada de narrar fazia de Ary Barroso um espetáculo à parte, atraindo na certa a audiência do torcedor. 

Especialmente o torcedor do Flamengo. 

Ary Barroso costumava narrar assim quando o rubro-negro era atacado: "Ih, lá vem os inimigos. Eu não quero nem olhar".  

Durante a disputa do sul-americano de 1937, com os nervos à flor da pele, o narrador chegou a desmaiar durante a transmissão.


Ouça o próprio Ary Barroso descrevendo em detalhes a cobertura deste evento:



Ary Barroso, transmitindo jogo
em cima de um telhado.
Essa paixão extrema pelo futebol fez de Ary um caso à parte no rádio esportivo. No Brasil, quando o Flamengo entrava em campo contra qualquer adversário, perdendo ou ganhando, lá estava ele para defender os seus craques rubro-negros.

Vale a pena ler o artigo que o próprio Ary escreveu e que faz parte de seu maravilhoso site na internet:

Ary Barroso era tão flamenguista que na década de 1930 quando fora convidado por nada menos do que Walt Disney para trabalhar nos Estados Unidos respondeu que não, pois lá “não existia um Flamengo”.

Ary Barroso também fazia qualquer coisa, literalmente, para conseguir realizar suas transmissões no rádio esportivo. Era um período de concorrência acirrada entre as rádios e suas grandes estrelas, na década de 1940. No campeonato Sul-Americano de seleções de 1942, por exemplo, Ary aprontou mais uma das suas quando soube que a concorrente, Mayrink Veiga transmitiria o jogo do Brasil com exclusividade.

Ele não teve dúvida: pegou um avião para a Argentina e, confortavelmente instalado no apartamento de amigos, sintonizou uma rádio local que retransmitia o jogo narrado por Oduvaldo Cozzi, dublou o colega e fez chegar sua narração à Rádio Tupi.

Modesto Bria
Ary Barroso tinha um prestígio enorme não apenas com os torcedores. 

O patrão, Assis Chateaubriand, não media esforços para satisfazer o ego de sua principal estrela nas transmissões esportivas. 


Em 1943, ele chegou a se envolver na compra do jogador paraguaio Modesto Bria, pelo Flamengo, e para trazê-lo até o Brasil conseguiu emprestado o avião particular do chefe.



Ary em seu sítio, em Araras, ao lado de amigos: Lúcio Rangel (3º da fila)
Isaac Zinkenmann (penúltimo, com chapéu mexicano) e o filho Flávio Rubens.
Crédito: www.arybarroso.com.br
Ary tinha também companheiros inseparáveis nas transmissões esportivas. Isaac Zinkenmann, repórter de sua equipe na Tupi, utilizava um aparelho semelhante a um ferro de passar roupa, com gancho de telefone acoplado. Ari, com seu “flamenguismo” declarado, chamou a participação do jovem repórter e disse: “Alô Isaac!”. O repórter, todo enrolado com a nova engenhoca, respondeu: “Quem fala?”. Ari ficou furioso com a resposta e devolveu: “Como, quem fala. Quem poderia ser Isaac?”. O locutor não perdoou o vacilo do repórter e emendou: “É o Ary, aliás, deixe esse microfone de lado, que você não tem jeito para a coisa. Está despedido”.

Mais uma das eternas brincadeiras de Ary, que não mandou Isaac embora porque era um grande amigo do repórter. Tudo fazia parte do “show”.

Antonio Maria
Na Copa de 1950, disputada no Brasil, Ary Barroso faria sua última participação como locutor no rádio esportivo. Ele foi um dos que presenciaram uma das maiores “tragédias” do futebol brasileiro. Não foram apenas os torcedores que sentiram a dor daquela derrota para o Uruguai para sempre. Ary Barroso e seu amigo e companheiro com quem dividiu a transmissão do jogo fatídico, Antonio Maria, decidiram abandonar o rádio esportivo naquele momento.

Em sua trajetória no rádio esportivo, Ary Barroso transmitiu também além do futebol, corridas de cavalos e de automóveis. 

Também escreveu muitas crônicas, publicadas no “O Jornal” e teve o sonho de fazer um livro. Em seu site, uma crônica escrita por ele revela:

- "Vou escrever o "Livro Negro do Futebol Brasileiro".

Entrei para as fileiras rubro-negras em 1926, levado pelas mãos de José de Almeida Netto, o famoso zagueiro "Telefone". Integrei-me, desde então, à vida social, política e desportiva do clube. Depois de 33 anos de dedicação incondicional ao Flamengo, orgulho-me de seu passado, dos homens que construíram seus alicerces de grandeza, dos atletas que elevaram seu cartel de triunfos e de tantos e tantos abnegados que, ornados da virtude imarcescível da modéstia, sustentavam o prestígio do clube e o projetaram, como um gigante, no coração e no amor das multidões.

 Conheço esses homens e esses atletas desde a sede da Praia do Flamengo, desde o campo do Paissandu, passando pela Gávea, cuja pedra fundamental assisti ao ser lançada, pelo "Rio Branco", até os dias de hoje. Sempre senti o clube coeso, unido, como um bloco de granito, seguindo a sua rota inexorável. 

Havia dissenssões políticas passageiras, mas não se esgrimia o ódio pessoal. Era um conforto freqüentar-se a sede do grêmio nos seus dias de festas ou de reuniões administrativas. Cada um, dentro de suas possibilidades, dava um pouco de si ao clube, sem transformar a sua dedicação em lábaro sectário de propaganda individual.

O que se fazia pelo clube, o que se ofertava ao clube, diluía-se na sua vida, incorporava-se ao seu corpo e quem fazia ou dava retomava ao afã de servir, dentro do sistema fratemo de igualdade aos demais, de humildade natural, dentro da ordem natural de bem servir por dever de servir.

Hoje tudo está completamente modificado. O egoísmo cindiu o clube em grupos. A vaidade abriu penhascos entre os homens. A ignorância afastou do clube as suas tradicionais vigas de sustentação. Não há amor, há vingança. Não há fraternidade; há ódios.
(fonte: Início do Livro Negro do Futebol Brasileiro)

Não há registros de que Ary Barroso tenha publicado tal livro. Pelo menos o Literatura na Arquibancada não o encontrou. O mesmo teria ocorrido com outra obra inacabada por ele: Memórias de um locutor esportivo teria apenas a crônica reproduzida abaixo:

Memórias de um locutor esportivo
Ary Barroso

O impasse continua - Não há futebol na Guanabara. Em compensação temos visto e ouvido muita coisa. Inclusive estúdios, cameras, iluminação e cenário de televisão servindo de palco a paredros para meterem a lenha na televisão. Alguns, mais sensíveis a fenômenos alérgicos ou mais contaminados pelo "virus" da raiva, chegam a dizer, com a major sem-cerimônia, que tem "asco" às tevês. E, com isto, justificam a posição que assumiram. Justificam ou tentam justificar. Tem asco à televisão, mas comparecem aos estúdios de TV. Pessoalmente. Dirão: "fomos convidados". E o asco? Na hora de se exibirem nos videos não tem asco? Eu, quando tenho asco a alguém ou a alguma coisa, fujo deles como o diabo da cruz.

Coerentes tem sido os ilustres presidentes do Botafogo, do Fluminense, do América, etc., etc. Não querem nada com televisão. Declararam guerra à televisão: não botam os pés na televisão! Isto é coerência. Os que vão às teves levam sempre o Sr. Antonio do Passo. Para falar. E como fala! Que admirável resistência! Que linda capacidade pulmonar! Que tom de voz! Entre barítono e tenor: quando fica irritado, tenor; mais calmo, barítono. E fala sempre a mesma coisa: os argumentos das televisões não valem nada; os dele, definitivos e preciosos! As estatísticas que as televisões mostram são discutíveis; as que ele tem são as legitimas, mas, não mostra. Enquanto isto, as televisões trazem de São Paulo para os lares cariocas os "goals" admiráveis do Pelé! As jogadas belíssimas do Chinesinho! As defesas sensacionais de Waldir! Hoje todo mundo sabe que o Palmeiras tem um goleiro pintando para a Copa do Mundo.

Em compensação, esse fulgurante Garrincha desapareceu. O Didi rega flores de seu jardim. Ninguém sabe onde anda Gerson. Os técnicos treinam sem objetivo.

Os clubes dão balies ou biribas-amigos. E a torcida tratando de procurar praias, passeios, visitas. Eis a realidade! O govemador vai deixar correr o prazo constitucional e devolver à Assembléia Legislativa a lei que os senhores deputados votaram. Competira, pois, ao presidente da Assembléia sancionar a lei. E fica sendo lei mesmo. Ai os clubes irão ao Judiciário. Caminho longe... Etapas longas… Discussões longas... E continuamos sem futebol na Guanabara!...

Assim, só mesmo cantando um samba:

Fui matar saudades da Mangueira, fui sambar
Alta madrugada o samba está de lascar!
Vamo'nós!
Vamo'nós!
Nisto apareceu Chico Promessa e o pau cantou
Pois a Graziela estava lá com o Zé Fulô!
Vamo'nós!
Vamo'nós!

Ary Barroso morreu no dia 9 de fevereiro de 1964, em um domingo de carnaval, após lutar três anos contra a cirrose.  Quatro anos antes fora nomeado vice-presidente do departamento cultural e recreativo do Flamengo.

Para saber mais sobre Ary Barroso, acessar: http://www.arybarroso.com.br/
Neste site, destacamos abaixo alguns textos produzidos por Ary Barroso. Vale a leitura.




http://www.arybarroso.com.br/sec_textos_list.php?language=pt_BR&page=8&id_type=2&id=304 (sobre a morte de Gilberto Cardoso, ex-presidente do Flamengo)

E para encerrar, um vídeo raríssimo de Ary Barroso tocando piano em uma de suas composições mais famosas: "No rancho fundo".

2 comentários:

  1. Olá,
    Gostei do blog.Excelente qualidade!
    Gosto de artes, especialmente de música.
    Seguindo...
    Viste o meu Travessia.
    Um abraço.

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  2. Oi,
    Encontrei seu blog enquanto procurava assuntos relacionados à Ary Barroso. Muito bacana a postagem!
    Abraços,
    Lu Oliveira
    www.luoliveiraoficial.com.br

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