segunda-feira, 9 de abril de 2012

Andreoli: o CQC "bom" de bola


Fazer humor inteligente seja com qual for o tema não é tarefa fácil. Ainda mais para um escritor iniciante. Mas Felipe Andreoli, jovem talento do programa humorístico CQC, que virou “febre” na tevê brasileira, demonstra em seu primeiro livro como a literatura esportiva poderia explorar muito melhor esse tema.

São raros os livros de humor sobre futebol, e quando existem, normalmente tratam de maneira grosseira o esporte. Felipe Andreoli consegue em seu “O pior futebol de todos os tempos” (Editora Panda Books, 2011) criar uma história divertida, repleta de informações reais, apesar de seu narrador ser um personagem fictício.

Felipe Andreoli fez o que costuma fazer no CQC nas matérias que gravadas em estádios de futebol, jogadores e dirigentes esportivos: humor com sutileza e ironia. E escolhe logo um tema complicado no universo do futebol e da vida: a derrota. E é pelo que há de mais vergonhoso no mundo da bola que Andreoli nos apresenta fatos inesquecíveis como goleadas e fracassos de clubes e seleções. O que não falta são exemplos: o Mazembe x Inter, Corinthians x Tolima, Palmeiras x ASA de Arapiraca, Santos 10 x 0 Naviraiense, Austrália 31 x 0 Samoa Americana...São muitos, mas muitos casos interessantíssimo que você leitor encontrará.

Apesar de o narrador ser fictício, a pesquisa rigorosa feita pelo jornalista Gustavo Longhi dá ao livro o “tom sério” necessário àqueles que precisam se informar de verdade. Um bom exemplo é a história do clube belga SSA Atwerpen que perdeu 30 partidas disputadas na 8ª divisão da Bélgica (271 gols sofridos e uma derrota de 20 a 0 na última rodada), fato que o próprio Andreoli ironiza pedindo para que ninguém lhe pergunte por que um minipaís como a Bélgica possui 8 divisões.

Mas o que mais fascina na obra de Andreoli é o personagem escolhido por ele para ser o narrador de sua viagem pelo mundo dos fracassos e das derrotas. E é o próprio Felipe Andreoli que nos explica suas razões para escolher o tema derrota e o perfil de seu personagem divertido.

“Desde menino nunca tive muita sorte em disputas esportivas. Como tinha bunda grande e era preguiçoso, dificilmente era o primeiro a ser escolhido, qualquer que fosse a modalidade.

Como eu sempre sobrava nos times de segunda linha, os títulos passavam longe da minha prateleira. Relegado às derrotas, ao esquecimento e, muitas vezes, ao banco de reserva, só me restava observar os vencedores.

Quando cheguei à adolescência, emagreci e comecei a ser eleito pelos bons de bola para fazer parte do escrete. A dos times da escola. Nem assim consegui levar um título no colégio, na faculdade...nem no par ou ímpar.

Parei nas semifinais, na final, com gol contra, com pênalti perdido (inclusive por mim), e até hoje a estante continua vazia, não há um troféu sequer.
Na hora de escrever um livro, nada mais justo do que falar do que eu entendo bem: derrotas.
Mas perder não é ruim. Sempre me lembro da célebre musica dos Los Hermanos, que canta mais ou menos assim:

“...Olha lá quem pensa que perder é ser menor na vida...
Olha lá, quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar.
Eu que já não quero mais, ser um vencedor...”
Espero que vocês também possam admirar a beleza das derrotas neste livro.”

Meu nome é Ota

Décio Piccinini, 3º da direita para a esquerda.
Sou a figura mais temida dos bastidores do futebol, embora você não me conheça. Mas vai me conhecer hoje. Resolvi abrir meus arquivos. Meu nome é Ota. Na verdade, meu sobrenome é Ota. Meu nome mesmo é Dércio. Minha mãe era fã de um antigo jurado daqueles programas do Silvio Santos, Décio Piccinini, e escolheu meu nome para homenageá-lo. Mas mamãe sempre foi meio surdinha e teimosa. Achava que o nome do desgraçado era Dércio. E assim ficou: Dércio. Dércio Ota.

Embora meu sobrenome seja Ota, na verdade não é nem de pai, nem de mãe. Mamãe chamava-se Vitória Silva e meu pai, o japonês dessa história, é o senhor Saburo Takawara. Saburo, em japonês, significa “terceiro filho”. Meu pai é o caçula, o último filho de meus avós.

Meus pais se conheceram num daqueles caraoquês que você vê em filmes sobre o Japão. Minha mãe era a estrela em uma casa de shows-caraoquê-rodízio de sushi no bairro de Ota, em Tóquio, perto do aeroporto de Haneda. No dia em que pôs os olhos naquela carioca de Bangu, papai se apaixonou perdidamente – mas só conseguiu conquista-la depois de muita insistência e litros e litros de saquê. Casaram-se e viveram no mesmo bairro até meu nascimento, quando vieram morar no Brasil, mais perto da família da mamãe.

Meus pais saíram de mala e cuia de Tóquio. Trouxeram todos os documentos necessários para que eu fosse registrado devidamente aqui no Brasil. Na hora do registro, o figurinha do Sétimo Cartório de Bangu se embananou e colocou o nome do bairro onde nasci como se fosse meu sobrenome. Mamãe achou uma linda coincidência, um aviso do destino para prestar uma homenagem ao local em que ela e papai se conheceram e deixou desse jeito. Virei Dércio Ota.

Meu pai é um japa diferente. É bem alto, forte, braços largos, pernas grossas e pés enormes. Realmente, está fora do padrão nipônico. Para ter uma ideia do que estou dizendo, veja só o apelido de papai lá em Bangu: seu Sabugo Taca a Vara. E seu Saburo tem outros dons. Meu pai possui grandes aptidões esportivas. Nunca vi um japonês jogar futebol tão bem quanto ele. Mas a posição é a menos querida no esporte: goleiro. Grandão, seu Takawara pegava até pensamento. Adorava aquele 0 x 0 em que os arqueiros fechavam o gol. Também tem mania de torcer pelos mais fracos. Sempre torceu pelos times azarões.

Aqui no Rio de Janeiro é Bangu, claro. Em São Paulo, Juventus. E assim por diante. Apesar de ser muito bom nos esportes, papai nunca foi competitivo. Se ganhar, ganhou. Se perdeu, ótimo também. Hoje, ele faz parte da Seleção de Curling de Bangu, apesar do calor médio de quarenta graus por aqui.

Já a dona Vitória sempre foi supercompetitiva. Por isso foi parar no Japão e acabou conhecendo meu pai. Minha mãe disputou todo tipo de campeonato. Depois de ganhar o Torneio de Caraoquê de Bangu, mamãe foi premiada com uma viagem para o Japão e só voltou de lá casada com seu Sabugo, digo, Saburo.

Mas minha mãe não é Vitória só no nome. Quer ganhar até no par ou ímpar. Ela me cobrava conquistas à exaustão, principalmente as esportivas. Pobre dona Vitória...Mal havia percebido a cacofonia que havia feito e que mudaria para sempre minha sorte e minha vida.

Quando vim morar no Brasil, ganhei um apelido que, na verdade, é o diminutivo do meu nome: Dér. Mas sabe como é carioca, né, merrmão? Puxa muito, pra caraca, o “r”. Aí, quando a moçada começou a juntar meu apelido com meu sobronome, ferrou. DérrOta. Simplificando: Derrota. Em vez de ser um descendente de Taca a Vara, tornei-me Derrota. Saí perdendo desde meu nascimento e, a partir daí, nunca foi diferente.

Frustrações

Meu nome foi só o início de uma vida de poucas vitórias, na realidade, só uma: minha mãe mesmo. Nos tempos de colégio, perdia todas as minhas bolinhas de gude. Era sumariamente rapelado no bafo; não sobrava uma figurinha pra contar história. Quanto maior a bola, maior a decepção. Pro basquete não tinha altura, não puxei meu pai em nenhum de seus dotes; repito, infelizmente: nenhum de seus dotes. Sempre fui franzino, mirrado, o que já dificulta numa disputa esportiva. Péssimo levantador de vôlei, sem fôlego pra o handebol, raquete de tênis então...nem pensar! Mas o esporte que mais amo é justamente aquele em que sou mais pereba: o futebol. Tentei todas as posições – atacante de péssima pontaria, na meia faltam habilidade e criatividade, de volante falta pegada, pras laterais não tenho força física, e até pra zagueiro sou muito grosso. Restou o que sempre sobra para os pernas de pau: goleiro. Porém, como já disse, não puxei meu pai também no quesito “tamanho”, portanto faltaram-me muitos centímetros para fechar o gol; aliás, faltaram-me muitos centímetros para ser um verdadeiro Takawara, mas esse – ainda bem – não é o assunto.

Na educação física era sempre o último a ser escolhido. Nunca venci aquelas malditas olimpíadas de colégio. Nem do Torneio Internacional de Pedra-Tesoura-Papel (também conhecido como joquempô – aliás, do japonês jan-ken-po, o que deveria, por osmose, tornar-me especialista no jogo) aqui de Bangu eu participei. Fui eliminado na etapa regional.

Mas não sou desprovido de talento. Sou muito bom em matemática, consigo contar e calcular em alta velocidade, tenho boa memória, sempre sei onde tudo está. Embora esse dom tenha me levado a uma profissão um tanto insólita: arquivista.

Escola Municipal Getúlio Vargas, em Bangu.
Comecei de maneira quase intuitiva como arquivista na Escola Municipal Getúlio Vargas, em Bangu. Minha turma criou uma espécie de Google pré-histórico, guardando todas as informações e provas de todas as matérias, dos mais variados anos escolares. Eu era o responsável por guardar essa vasta documentação e repassar, a preços módicos, informações valiosas para alunos em desespero escolar. Era capaz de achar uma prova de química do segundo colegial C, do primeiro bimestre, da professora Margarida, em poucos segundos. Sou bom nisso!


Do Bangu à Fifa

Equipe do Bangu, em 1970.
Após me tornar o arquivista oficial do colégio, iniciei um novo trabalho. Ainda muito jovem passei a arquivas fichas e dados dos jogadores do Bangu Atlético Clube (BAC). Para os desavisados, logo digo que pelo campo de Moça Bonita já passaram muitos craques e que o Bangu já teve grandes resultados. O Bangu, pasmem, empatou com a Seleção Brasileira que seria tricampeã mundial de 1970: no dia 14 de março desse ano, ficaram no 1 x 1.

Domingos da Guia
Além disso, a linhagem da família Da Guia saiu de Bangu. Ladislau da Guia é até hoje o maior artilheiro do clube. Domingos da Guia, pai de Ademir, foi um dos maiores jogadores do BAC. Paulo Borges também jogou no Alvirrubro. Outro que fez muitos gols pelo glorioso Banguzão foi o artilheiro Cláudio Adão. Além de Fausto, supervolante da primeira Copa do Mundo, a de 1930. Ele fez uma Copa tão impressionante que ganhou dos uruguaios o apelido de Maravilha Negra.

Falando em negros, em 2001, o Bangu recebeu a Medalha de Tiradentes do governo carioca, por ter sido o primeiro clube do Rio de Janeiro a escalar negros em seu time, em 1905. Está tudo arquivado lá em Moça Bonita. Sei onde estão guardadas todas essas notícias e fatos do clube do meu coração.

O Bangu foi vice-campeão brasileiro de 1985, sendo vencido pelo Coritiba na final. Quando a CBF decidiu fazer uma homenagem aos vice-campeões daquele torneio, recorreu aos arquivos do Bangu. Os emissários da Confederação ficaram surpresos com minha rapidez para achar os documentos, e logo fui contratado pela entidade para trabalhar com os arquivos do futebol nacional.

Com a proximidade entre CBF e Fifa, foi um pulo até chegar a Zurique, onde fica a sede da entidade máxima do futebol mundial.

O senhor João Havelange, então presidente da Fifa, visitava com frequência a sede da CBF e se encantava com minha agilidade em achar a ficha dos mais diversos jogadores. Adorava me ver em ação ao procurar e encontrar com rapidez a ficha dos seus jogos favoritos, comumente do Fluminense, seu time de coração. Não demorou muito tempo para me levar à Suíça, para trabalhar na Fifa. E é na terra do chocolate e das contas secretas que começa esta história.

Minha secretária trilíngue o arquivo Y

João Havelange, o "homem".
Cheguei a Zurique com o status de apadrinhado do “homem”. Ganhei uma sala no subsolo, com direito a secretária trilíngue. Loira, seios fartos, coxas torneadas e alta, muito alta. Seu nome era Nadezhda Putina, mas o diminutivo de Nadezhda é Nadya. Já o sobrenome veio de um primo de terceiro grau famoso, o ex-primeiro ministro Vladimir Putin. Na Rússia, em alguns casos, o sobrenome da mulher leva um A no final, por isso Putin tornou-se Putina. Dona Nadya Putina.

Sempre sonhei com uma dessas secretárias maravilhosas que se sentam à mesa do chefe para tomar notas. Mas, para mim, de nada adiantou, pois as três línguas que ela falava eram inglês, francês e russo. Eu só sabia o português mesmo. Comunicava-me com ela por mímica. Mais uma derrota, logo de cara.

Vladimir Putin
Nos primeiros dias, pensei que não teria nada para fazer. Porém, alguns meses depois, tive plena certeza disso. Numa bela tarde, fui pedir papel sulfite emprestado a outro brasileiro que trabalhava lá. Precisava renovar a frota de aviõezinhos, pois a última operação havia consumido uma resma inteira. 

O brasileiro era descendente de mexicanos e, diziam, apadrinhado do presidente da Conmebol. Tinha uma sala ao lado da minha, com o dobro do tamanho e o dobro de secretárias! O cara tinha duas Putinas! Na verdade, elas não eram russas, mas tinham os mesmos dotes de Nadya: eram boazudas e boas, muito boas, de língua (isso dizem as más-línguas...).


Guacamole
Flor – como era conhecido o chicano-brazuca, embora de flor não tivesse nada – não estava na sala. O que não era novidade. Florêncio Paz costumava ficar dias sem aparecer na sede da Fifa. Deixava os pertences jogados em cima da mesa e sumia do mapa. Dizia a todos que ia visitar os pais em Cidade Juárez, mas acho mesmo que era envolvido com o tráfico, com o cartel da cidade. Só que o negócio de Flor não era as drogas, e sim o contrabando de guacamole, que, no caso dele, em vez de ser feito com abacate, continha pequi, fruta comum no Centro-Oeste brasileiro e que costuma dar grande dor de barriga aos desavisados.

Larissa Riquelme
Suas secretárias – uma paraguaia (lembrava muito a Larissa Riquelme) e outra argentina (também lembrava Riquelme), mas não a Larissa, e sim o jogador, Román Riquelme) – também não eram nenhum exemplo de assiduidade. Por esse motivo, resolvi abrir as gavetas para procurar as folhas de papel. E não é que encontrei uma grande pasta de arquivo com a letra X escrita em vermelho? Curioso que sempre fui, abri a pasta, que batizei de Arquivo Y (só pra disfarçar), e comecei a ler avidamente os documentos. Fiquei abismado. Tratava-se de um levantamento minucioso sobre tudo de pior que já havia acontecido no futebol brasileiro.

Trago a público, agora, o conteúdo daquela pasta.”

Sobre Felipe Andreoli:
É jornalista e um apaixonado pelo futebol. Desde os seis anos queria trabalhar na TV. 
Cresceu nos bastidores da Rede Bandeirantes, acompanhando seu pai na narração dos jogos esportivos. 
Trabalhou na Rede Record, na Rede Gospel e na TV Cultura, onde aprendeu a fazer videorreportagem. 

Desde 2008, Felipe integra a bem-humorada equipe do CQC, da Rede Bandeirantes.

Para saber mais sobre o autor, acessar: http://www.felipeandreoli.net/biografia.php

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