domingo, 15 de abril de 2012

Amigos para sempre


Você consegue imaginar um jogador de futebol famoso nos dias de hoje tendo um relacionamento de amizade fora dos gramados com algum jornalista? Difícil, muito difícil. Mas houve um tempo em que isso não era só possível como aconteceu. Relatos como o que veremos abaixo, de um dos maiores craques do futebol brasileiro, Nilton Santos, é impossível de se ver atualmente. Em seu livro de memórias, Nilton Santos revela não apenas a amizade criada com duas feras do jornalismo esportivo como as relações que mantiveram fora dos gramados. Uma história bonita, que só mesmo um gênio da bola e da vida como Nilton Santos poderia nos brindar.

Nilton Santos e Armando Nogueira
“Em todas as épocas tive e tenho vários amigos na área. Até hoje tenho muito apoio da imprensa pra tudo que faço e digo. Gostaria de escrever alguma coisa sobre cada jornalista amigo, do meu tempo de jogador. Como não quero cometer injustiças e deixar alguém de fora, portanto, vou me restringir ao Sandro Moreyra e ao Armando Nogueira que eram os mais chegados, apesar de não me atrever a escrever sobre o Armando. Não conseguiria retribuir tudo o que ele falou de mim nesse tempo todo. Só quero que todo mundo saiba que ele foi e ainda é o amigo mais sincero que tenho no futebol. O Armando é como um irmão muito querido. Se eu pudesse, daria a ele o que de melhor tenho em mim. O dom de jogar futebol que Deus me deu.

Sandro Moreyra
Com Sandro e Armando Nogueira aconteceu uma coincidência muito legal. 

Quando comecei no Botafogo eles começaram no jornalismo. Posso dizer que crescemos juntos. Tornamo-nos grandes amigos. 

Casamos mais ou menos na mesma época. Sandro e Léa foram meus padrinhos de casamento. 

E os filhos Carlos Eduardo, Sandra e Armandinho, do Armando e da Bruneilde, nasceram no mesmo ano.


Sandro Moreyra
Com o Sandro eu confidenciava meus problemas, minhas alegrias, e ele sempre me defendia, até nos jornais. 

Era um amigo de fé para todas as horas. Muitas vezes, Sandro, Armando Nogueira e eu tivemos nossas noitadas. Coisas de jovens solteiros. 

Nós não éramos boêmios inveterados, mas também não éramos nenhum santinho. 

Não tínhamos carro e saíamos pela noite, de bonde, em Copacabana, que na época, era o quente. 

Frequentávamos muitos inferninhos, barzinhos, a boite Vogue.

O Sandro era botafoguense e passou a cobrir o clube para o Diário da Noite, depois para o Jornal do Brasil. O convívio da gente, cada vez se tornou maior. Festas, reuniões, viagens, vitórias, derrotas do Botafogo só fizeram mais pela nossa amizade. Sandro era muito sortudo. Foi chefe de delegação do clube por várias oportunidades e, em geral, quando isso acontecia, ganhávamos todas as partidas. Quase sempre voltávamos invictos das excursões. Ele vibrava com os resultados positivos, era mais um nosso torcedor.

Os jogadores do Botafogo eram sempre os melhores. Quando íamos para a Seleção Brasileira, Garrincha, Didi, Paulo Valentim, Quarentinha, Amarildo, Zagalo e eu, ele dizia que era a “selefogo”. Caso ficássemos na reserva ele fazia uma onda danada no jornal. Não admitia jogador nosso no banco.

Fizemos certa vez, uma excursão com o Botafogo ao Peru e a América Central. Sandro foi chefiando a delegação. Dividíamos o mesmo quarto. Eu, por ser seu maior amigo, ficava também com a maior responsabilidade, que era de guardar todo o dinheiro do Botafogo numa bolsa de couro. Isso me deixava apavorado e dizia sempre para ele: “Se esse dinheiro for roubado Sandro, ninguém vai acreditar”. Respondia sempre que isso não ia acontecer. Ele confiava demais em mim e na minha sorte, graças a Deus nunca aconteceu nada.

Quando chegamos ao Peru, após o jogo apareceu um padre muito chato, que nos convidou para que fôssemos visitar o colégio dele. O Sandro driblou, driblou, mas não teve saída, tivemos de ir. Viajamos durante uma hora. Depois de cumprirmos um ritual, demos autógrafos para crianças, adultos – foi muito cansativo – chegou a hora do almoço. O Sandro teve de fazer um discurso de agradecimento às palavras do padre. Falou muito bonito, ele era muito inteligente e espirituoso. Ao final, quase nos matou de rir. O Paulo Amaral estava comendo melancia e cuspiu tudo. Terminou o discurso dizendo: “A festa foi espetacular e vou usar um termo que usamos no Brasil quando uma coisa nos agrada muito. Essa festa foi um chute nos bagos”. Todos aplaudiram sem entender nada e nós nos divertimos.

Manga
Sandro tinha a maior moral no clube. Nessa excursão, ele dividiu a cota do Botafogo, do último jogo, entre nós. Numa outra excursão que fizemos à Colômbia, Sandro desentendeu-se com um empresário argentino que queria reduzir a cota previamente estabelecida. Começara a discutir em espanhol e o Manga perto, sem entender nada, feito um cão de guarda, só prestava atenção e dizia para o Sandro: “Chefe, você quer que eu dê uma porrada nele?” E ele tentando acalmar o Manga respondeu: “Não Manga, a gente está só conversando”. 

Todo mundo conhecia a fama de brigão do Manga, e ali, uma porrada, só pioraria a coisa. Com diplomacia, inteligência e muito papo, Sandro contornou a situação e acabamos por receber a cota combinada anteriormente.


Armando Nogueira
A vida do Armando tomou rumos diferentes à do Sandro, até porque eles eram pessoas muito diferentes, cada um com seu estilo próprio. Armando foi entre outras coisas ser escritor e depois diretor de televisão. 

Mas sempre foi o mesmo amigo, sempre me deu força, apoio até num momento muito difícil da minha vida que foi quando eu me meti a ser comerciante. 

Quando tudo deu errado ele estava lá para me avalizar e me apoiar. No dia que entrei no escritório dele na Globo para pagar um empréstimo, ele me abraçou, riu e me disse: “Se você não me pagasse não tinha importância, você já me deu grandes alegrias”.

Além disso, há as coisas bonitas que ele escreve sobre mim. Recentemente, fui a uma exposição no Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia, de telas pintadas por Rubens Gerchman, com textos do Armando. O artista pegou uma característica de cada jogador, pintou a tela e o Armando deu o toque final. Na minha, estava escrito:

“Tu, em campo, parecias tantos,
e no entanto, que encanto!
Eras um só, Nilton Santos”.

Como posso eu, um simples mortal, querer escrever alguma coisa sobre esse poeta?”

(fonte: “Nilton Santos – Minha bola, minha vida” (Editora Gryphus, 1998)

3 comentários:

  1. Andre, acho que este texto do Nilton Santos revela, na verdade, um grave problema do jornalismo esportivo. Quando o repórter é amigo da fonte, quase sempre, quem perde é o leitor. Na sua ingenuidade, o próprio Nilton deixa isso claro, quando conta que o Sandro Moreyra deixava a objetividade de lado para defender, nas páginas do jornal, um ou outro jogador de quem era amigo. Aproveito para dizer que acho o livro do Nilton bonito, pelas lembranças que ele evoca, mas está longe de ser uma boa biografia. Abração de um fã do blog

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  2. Olá Maurício, bom saber que andas por aqui...Concordo em parte com seu comentário. Amizade para mim é algo que qualquer ser humano, independentemente do setor da vida, pessoal ou profissional, deve prezar em primeiro lugar. Evidentemente, como vc. menciona, Sandro Moreyra deixou-se influenciar. Como biógrafo de alguns personagens do futebol brasileiro, senti na pele esse problema da "proximidade" e o drama da isenção. Acho que cumpri bem essa missão, mas reconheço e admito que muitos de nossos "amigos" da imprensa esportiva não fazem o mesmo. Quanto ao comentário sobre o livro do Nilton, tb. concordo que um craque como ele mereceria outro tratamento estético e editorial. Comento isso em uma entrevista recente que você pode acessar no www.ludopedio.com.br O próprio Nilton menciona na obra não se tratar de uma biografia, mas de histórias que ele vivenciou no futebol. Como prosa realmente é fraco, mas quem consegue não se prender aos causos contados por Nilton Santos, independentemente da maneira que está escrito? Eu prefiro passar por cima das falhas e guardar na memória essas histórias deliciosas...Sua observação, com certeza, pode gerar em breve um bom artigo para os leitores do Literatura na Arquibancada...Grande abraço e mais uma vez obrigado pela honra de acompanhar essa modesta contribuição que tento dar a literatura esportiva brasileira.

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  3. Andre, uma coisa é a proximidade, outra é a "brodagem". Este é um problema que não aparece nos trabalhos seus que já li, as biografias sobre Telê e Leônidas e Os Donos do Espétaculo. Quanto ao Nilton, concordo que não seja uma biografia estrito senso, mas é até hoje o mais próximo disso que temos sobre ele... COmo interessado em futebol e botafoguense apaixonado, gostaria realmente de ler algo além das histórias já folclóricas sobre a Enciclopédia. Abração

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