segunda-feira, 30 de abril de 2012

Quando o futebol andava de trem


Nem Charles Miller, nem Oscar Cox, nem Thomaz Donohue. Aqui, no Literatura na Arquibancada, trouxemos a “polêmica” sobre o verdadeiro pai do futebol brasileiro, mas no Dia do Ferroviário (30/04), dois novos nomes surgem para acrescentar mais discussão e teorias sobre os verdadeiros introdutores do futebol no Brasil.

Para Ernani Buchmann, autor do espetacular livro “Quando o futebol andava de trem – Memória dos times ferroviários brasileiros” (Imprensa Oficial do Paraná, 2002), pouco importa se esse crédito de pioneirismo não foi dado aos desconhecidos Mr. Hugh e Mr. John, tanto que ele dedica sua obra a ambos.

Buchmann fez uma pesquisa fantástica, de norte a sul do país, revelando centenas de clubes oriundos das primeiras ferrovias construídas no país e que se tornaram fundamentais para a popularização do esporte entre nós.


Buchamann revela com uma prosa refinada uma história que mistura paixão e importância social, afinal, os clubes surgidos ou oriundos a partir das ferrovias, praticamente desapareceram no país, “desde que o governo militar, iniciado em 1964, encarregou-se de terminar com o transporte ferroviário no Brasil”. “Quando o futebol andava de trem” é, enfim, uma leitura obrigatória para os amantes da literatura esportiva brasileira.

E você, leitor, deve estar se perguntando: “mas por que o 30 de abril é o Dia do Ferroviário?”. A resposta surgiu em 1854 quando se inaugurou a primeira linha ferroviária do Brasil, a Estrada de Ferro Petrópolis, com 14 quilômetros de trilhos e que ligava o Rio de Janeiro à Raiz da Serra, com a presença do imperador Dom Pedro II e da imperatriz Tereza Cristina.

Lançamento da pedra fundamental da
Estrada de Ferro Petrópolis (Mauá).
O imperador nada fez pelo surgimento do futebol no país, mas sem querer, acabou permitindo que dois ingleses desconhecidos até hoje da “história oficial” da paternidade do futebol brasileiro passassem a fazer parte dela.






O trem chega ao Brasil

Irineu Evangelista de Souza,
o Barão de Mauá.
“Ao sul do Equador, também a nós coube um pequeno legado da movimentação que ocorria na metade superior do globo. Pessoas com vontade de investir não eram patrimônio de europeus ou americanos do Norte. As notícias poderiam demorar a chegar, os países da América do Sul ainda eram reféns das atividades extrativistas, a vida tendia a ser mais contemplativa que produtiva, mas já havia os que enxergavam além dos seus próprios jardins.

No Brasil, o símbolo maior desta visão empreendedora chama-se Irineu Evangelista de Souza, mais tarde Barão e Visconde de Mauá, homem mais rico do país na metade do século 19. Vislumbrando nas ferrovias o futuro da nação, Mauá conseguiu de D. Pedro II, em 1852, o direito de construção e exploração de uma ferrovia entre a Praia da Estrela, na Baía da Guanabara, até a raiz da serra de Petrópolis. Com 14,5 quilômetros de extensão, a primeira seção foi inaugurada pelo imperador dois anos depois. A partir de então, a implantação das ferrovias no país seguiu, a exemplo do acontecido nos Estados Unidos, ritmo frenético. Quando da Proclamação da República, em 1889, já havia em uso um total de 9.538 quilômetros de linhas construídas.

Construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
A grande maioria delas com tecnologia britânica. Mais de 60 anos depois da primeira locomotiva ter sido posta em movimento, a Grã-Bretanha continuava exportando suas técnicas de construção. E ainda que houvesse aqui companhias francesas explorando estradas de ferro, como a Compagnie Auxiliare de Chemins de Fer Brésil, no Rio Grande do Sul, aos ingleses cabia a hegemonia.

Interessantes, os hábitos bretões. Trabalhavam duro, projetando, desenhando, dirigindo, implantando. Uma vida nada fácil para aqueles rosados e sardentos ferroviários nos trechos em construção. Além de desconhecerem a natureza tropical, corriam risco de doenças como a febre amarela.

Restava a distração representada pelas modestas formas de lazer que conheciam. A primeira delas, o sagrado ato de beber. Como ainda hoje, consumiam uísque e cerveja em quantidades industriais, não estivessem eles entre os fundadores da revolução assim também chamada. Mas beber poderia aliviar a mente, elevar o espírito, acalmar – ou enervar – os ânimos, nada além. Atividades físicas também eram necessárias.

Primeiro campo de golfe em SP.
Ora, a tarefa de levar para as margens dos trilhos esportes tipicamente britânicos como o cricket ou o tênis estava fora de propósito. Eram esportes comuns por lá, mas exigiam ou sofisticada construção, no caso do tênis, ou infinita paciência, como no cricket. Pior ainda se o jogo escolhido fosse outro. O golfe, por exemplo, teve o primeiro clube fundado no Brasil em 1901, por funcionários da São Paulo Railway, na capital. Mas seria impossível, pelas suas próprias características, tentar difundi-lo, à época.

Haveria de se encontrar outra solução, portanto. E a rudeza daqueles homens tinha encontrado no futebol, espécie de evolução do rugby, a solução para os seus momentos de descontração após o expediente diário. Jogo para o qual não havia outro requisito que o de um gramado, ainda que tosco, dois retângulos diametralmente opostos entre si, representando o objetivo de cada equipe, e uma bola de couro. Faltavam os, digamos, exagerando um bocado, atletas. Os operários brasileiros não tinham a menor ideia do que aquelas três traves ao final do gramado representavam. Precisavam ser apresentados ao jogo, à bola, ao esporte do futuro, aquele que marcaria a história do país.

Onde quer que construísse estações, os ingleses tratavam de marcar o campo ao lado. Era o que bastava. Com estação e campo de futebol lado a lado, o apito do chefe de trem poderia servir também ao árbitro, então chamado de referee.

Tudo isso antes da volta de Charles Miller ao Brasil. Ou melhor, tudo antes da ida de Charles Miller para seus estudos na Inglaterra. Consta que em 1878, em frente à residência imperial ocupada pela Princesa Isabel, houve um jogo entre marinheiros ingleses. E segundo um fragmento futebolístico encontrado por Kenny Bell, escocês residente no Brasil, no site www.trains.com, como parte de um artigo sobre a Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, o futebol já era praticado no Brasil desde 1875 ou 1876:

“Mr. Hugh foi o primeiro a ensinar o jogo aos trabalhadores da São Paulo Railway, em 1882, ou talvez tenha sido Mr. John, que ensinou os operários da Leopoldina Railway a jogar futebol em 1885 ou 1886”.

Crédito: http://guiadoestudante.abril.com.br
A História não saberá dizer quem foram Mr. Hugh ou Mr. John. Não teremos deles seus sobrenomes, funções nas ferrovias, tempo que viveram no Brasil, ano e local em que morreram.

Se Mr. Hugh trouxe uma bola consigo ou se Mr. John veio munido de chuteiras, pouco importa. É provável que tenham improvisado, com bolas de pano e pés descalços, para que as primeiras peladas pudessem ocorrer. Sabe-se, assim, que o futebol tem raízes brasileiras ainda anteriores às que imaginávamos. E que aqueles ensinamentos rudimentares foram fundamentais para desenvolver a paixão inesgotável que hoje une o Brasil ao futebol.

Estação de Cruzeiro (SP), na Estrada de Ferro Minas e Rio, 1885. 
Além do esporte, o resultado da disseminação das estradas de ferro no Brasil também foi imenso. Do ponto de vista econômico, se transformaram em multiplicadores do progresso, tratando de desenvolver às comunidades as quais serviam. As ferrovias fizeram nascer inúmeras cidades, ajudaram a crescer centenas de outras. Foram o fio-condutor do avanço de um país que se expandia em direção ao interior.

Ao movimentar, armazenar e distribuir bens, geraram empregos em dezenas de atividades. Ao transportar passageiros, fizeram nascer hotéis, pensões, restaurantes, incrementando novos setores da economia. Representaram a excelência do ensino profissionalizante, com as escolas de formação ferroviária.

E como bom efeito colateral desta revolução sobre trilhos, ajudaram a popularizar o futebol. Não que o esporte fosse deixar de ter a importância que tem hoje caso as estradas de ferro não tivessem tido o papel que tiveram. Os times ferroviários sempre foram periféricos, poucos os que detiveram algum tipo de hegemonia.

Por último, foram responsáveis também pela democratização étnica no futebol. Se nas maiores cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador e Curitiba, nos seus primeiros anos, o futebol esteve restrito a clubes fechados dominado pela alta classe média, junto às estradas de ferro ele sempre foi democrático. Nenhum time ferroviário foi discriminatório. Negros e mestiços vestiram seus uniformes desde sempre.

É o que faz deles parte da história do futebol brasileiro. Estão a ela integrados, desde Mr. John e Mr. Hugh, antes de Charles Miller dar início ao primeiro jogo de futebol no país. Desde a fundação, em 1900, do clube de futebol mais antigo do Brasil, na cidade do Rio Grande, bem ao sul do país. Ali, ao lado dos trilhos da Compagnie Auxiliare de Chemins de Fer du Brésil, começa esta viagem, destinada a terminar, milhares de quilômetros acima, às margens do Rio Madeira”.


O trem sobe a Serra do Mar

Estrada de Ferro Santos Jundiaí, vista do Alto da Serra.
“O Barão de Mauá, o mais visionário dos empresários brasileiros do século 19, obteve do Imperador D. Pedro II, em 1854, a concessão para a construção da estrada de ferro Santos-Jundiaí. Era iniciativa fundamental para o escoamento da produção agrícola de São Paulo, à época baseada no café.

O problema estava em superar o grande desnível existente entre a baixada santista e o planalto paulistano. Exigia-se tecnologia europeia, inglesa de preferência. Em 1860 iniciaram-se as obras, concluídas sete anos depois. Entre as duas datas, implantou-se no alto da serra um acampamento, depois transformado em vila, Alto da Serra, hoje Paranapiacaba – em língua tupi, lugar de onde se vê o mar.

Pelo clima, aos ingleses a localização da vila pareceu ideal. Além do fog, o frio dava a Paranapiacaba um tom muito mais londrino que tropical. A pequena vila ferroviária nunca foi autônoma. Pertenceu a São Bernardo a partir de 1889, depois passou a Santo André, quando da criação do município, em 1911. Aí o futebol já estava instalado na serra.

Mr. Hugh havia passado por Paranapiacaba em 1882, para ensinar os ferroviários brasileiros a colocar dormentes para depois jogar bola, embora o primeiro clube paulista de futebol tenha surgido somente 18 anos depois, em Campinas – em 11 de agosto de 1900 nascia a Ponte Preta, 28 dias depois de ter sido fundado o Rio Grande.

Sociedade Recreativa Lyra da Serra
Mas coube à vila de Paranapiacaba a glória de ser responsável pelo aparecimento do primeiro time brasileiro geneticamente ferroviário. Já havia no local, desde fevereiro de 1903, a Sociedade Recreativa Lyra da Serra, fundada por engenheiros da São Paulo Railway. Dedicava-se a promover bailes, exibir filmes, manter banda e corpo cênico.

Outros engenheiros preferiam a brutalidade do contato físico exigido pelo futebol à glorificação da musica e poesia líricas. A estes restou a iniciativa de também criar seu clube. Formada uma comissão, composta por Simon Coloski, Emílio Vanant e Frederico Mens, decidiu-se pela fundação do Serrano A.C., em 3 de dezembro do mesmo ano.

Não existiam na época outros clubes em São Bernardo, o que fez o Serrano viver anos sem participar de campeonatos. Nada existe nos registros oficiais sobre partidas realizadas pelo clube até 1912. Depois o Serrano passou a disputar a Liga Santista, descendo a serra para enfrentar Portuguesa, Espanha (futuro Jabaquara), Americana, Docas, União Santista e o time da sucursal santista da São Paulo Railway.

Prédio do Lyra da Serra.
Dizem os antigos cronistas ter sido um zagueiro chamado A. M. Wellington o mais conhecido dos jogadores do Serrano. Mr. Wellington era administrador. Fez carreira na companhia, chegando a superintendente. Nessa função, resolveu em 1936 construir em Paranapiacaba um prédio de dois andares que abrigasse a Lyra da Serra e o Serrano. Com a condição de que houvesse uma fusão entre os dois clubes.

Surgiu assim, em 15 de outubro de 1936, a Sociedade Recreativa e Desportiva União Lyra Serrano. Um nome pomposo, revelando certo desprezo pelo gênero gramatical, mas necessário para que se mantivessem as atividades dos clubes.

O maior momento do Serrano deu-se com o convite para participar, em São Paulo, em 1919, do primeiro jogo no campo da Água Branca, propriedade do São Paulo Railway Athletic Club, então recém-fundado. O adversário foi um combinado de funcionários da própria estrada de ferro, organizado por Salomão Correia e Arnaldo Macedo de Carvalho.

Equipe do SPR
Em 1946, a ferrovia foi encampada pela União. Ainda recebeu melhorias, como a implantação do sistema de cremalheiras na chegada da vila, mas foi perdendo viço à medida que o tempo foi passando. Hoje suas construções de estilo inglês estão próximas do abandono. Há um grande movimento preservacionista para a restauração da Vila de Paranapiacaba. O clube mantém-se como pode. O prédio, ao menos continua em pé”.

Felizmente os apelos de Buchmann e o movimento preservacionista funcionaram. A vila de Paranapiacaba foi revitalizada e até hoje centenas de turistas podem conhecê-la, admirá-la e, para os amantes do futebol, reviver as origens do futebol brasileiro.

Sobre Ernani Buchmann:
É publicitário em Curitiba, formado pela UFPR. Foi repórter esportivo da rádio Clube Paranaense. Desde os anos 70 escreve para diversos jornais e revistas paranaenses. Entre 1996 e 1997 foi presidente do Paraná Clube (sucessor de diversos outros, cuja origem foi o Ferroviário de Curitiba), conquistando dois campeonatos estaduais disputados. É autor ainda de “Cidades & Chuteiras”, “Heróis da Liberdade”, “O ponta perna de pau”, “Onde me doem os ossos” e “A camisa de ouro”. Outras informações sobre Ernani Buchmann, acessar: http://www.cienciaefe.org.br/online/imago/ernani/ernani.htm

domingo, 29 de abril de 2012

Lemyr Martins: 50 anos de jornalismo


Dia 1º de maio, além do tradicional feriado nacional do Dia do Trabalho, também é dia de uma data triste para o esporte mundial: a morte de Ayrton Senna, em 1994. Senna tinha alguns “confidentes” no polêmico e concorrido “circo” da Fórmula 1 e um deles, que o conhecia como ninguém era um jornalista brasileiro que fez história – assim como Senna – no universo do jornalismo.

Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Lemyr Martins é dono de uma carreira impressionante no jornalismo esportivo. São mais de 50 anos dedicados ao esporte brasileiro, especialmente ao futebol e ao automobilismo. Respeitado mundialmente, Lemyr, além de escrever, tornou-se um dos maiores fotógrafos do esporte. Trabalhou em diversos jornais e revistas como Ultima Hora, Zero Hora, Jornal do Brasil, Estadão, Jornal da Tarde, Edição de Esportes, Placar (da qual foi um dos fundadores e editor de fotos, editor de automobilismo e editor executivo), Grid, Ação e Quatro Rodas.

Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Lemyr cobriu seis Copas do Mundo, 14 finais das Copas Europeias de futebol (Clubes Campeões, UEFA e Recopas), 307 GPs de Fórmula 1, desde o GP de Mônaco de 1970. 

Testemunhou as carreiras de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubinho Barrichello, desde o kart até as vitórias e os títulos na Fórmula 1.




Lemyr e Pelé.
Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Lemyr foi o único repórter brasileiro a cobrir o milésimo jogo de Pelé, em Paramaribo, Suriname, em 28 janeiro de 1971 e todas as despedidas do Rei do Futebol, na seleção, no Maracanã, contra a Iugoslávia, em julho de 1971; do Santos na Vila Belmiro, em outubro de 1974, contra a Ponte Preta; e o adeus ao futebol, no Cosmos, no Giant Stadium, em novembro de 1977, em New Jersey, EUA.

É dele uma das fotos mais famosos de Pelé, na Copa de 1970, no jogo contra a Tchecoslováquia. Seu “clique” foi parar nas primeiras páginas dos principais jornais e revistas do mundo inteiro e hoje é uma das imagens do Museu do Futebol, em São Paulo.


Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Mais do que isso, segundo o próprio Lemyr, “Que se tornasse o retrato oficial de Pelé, a fotografia mais publicada no Brasil - a anterior era aquela do Einstein, mostrando a língua - e fosse eleita pelo jornal Folha de S. Paulo a foto esportiva do século”. (ver texto de Lemyr contando na íntegra a história do clique mais famoso que já deu no esporte brasileiro http://www.lemyrmartins.com.br/pele_70_anos.html).


Evidentemente que com tantas histórias vividas no mundo do esporte, haveria o dia em que Lemyr teria de escrever um livro sobre essas tantas andanças. 

Até hoje foram seis: “Arquivos da Fórmula 1”, “Uma estrela chamada Senna”, “O pequeno grande Senna” (infantil), “A Saga dos Fittipaldi”, “Fitti-1,o Fórmula 1 brasileiro”, “Loucuras, histórias, lendas e mistérios da F-1” e “50 anos de Fotojornalismo”.


Há  três anos, aposentado, Lemyr vive em seu sítio, em Pareci Novo, no sul do país. 

Mas foi há 12 anos que seu primeiro livro “Os arquivos da Fórmula 1”, da Editora Panda Books, causou e ainda causa enorme repercussão. 

A começar pela apresentação da obra, feita pelo próprio editor e proprietário da editora:



Lemyr Martins, testemunha ocular dos fatos
Por Marcelo Duarte


“Uma de minhas primeiras preocupações ao começar a trabalhar na redação da revista Placar, em 1984, foi conhecer aquele repórter que me encantava com suas reportagens sobre Fórmula 1: Lemyr Martins. Ele era um dos meus ídolos no jornalismo. 

Desde 1972, ano em que passei a comprar a revista todas as terças-feiras cedo, iniciava a leitura pelas páginas finais. Era ali que ficavam seus textos e suas fotos. Em cada linha lida, eu sonhava entrevistar aqueles pilotos, viajar o mundo atrás do circo. Sujeito de sorte esse Lemyr, pensava. Pois sorte mesmo eu tive trabalhando ao seu lado. 

Quando o fechamento terminava, os jornalistas se reuniam para escutar as suas impressionantes histórias. Lemyr não perde o seu espírito de repórter. Participou de alguns dos momentos mais marcantes da história esportiva brasileira.

Lemyr e Maradona.
Crédito: www.lemyrmartins.com.br

Entrevistou superatletas como Cassius Clay, Maradona, Emerson Fittipaldi e Pelé. Cheguei a ver vários pilotos na redação de Placar. De passagem por São Paulo, eles iam contar as novidades ao repórter que os acompanhava desde o início da carreira. Havia até um jovem piloto que disputava a Fórmula Ford inglesa em 1981 e lhe enviava cartas, contando progressos, acertos e contramarchas. Aquele garoto, Ayrton Senna, se tornaria tricampeão mundial e um dos maiores ídolos da história do esporte brasileiro. Lemyr se tornaria amigo e confidente de Senna e de tantos outros pilotos desde que cobriu o seu primeiro GP, em Mônaco, no dia 10 de maio de 1970. No total, foram 264 (hoje 307), o que o torna o jornalista brasileiro c om o maior número de grandes prêmios no currículo.


As histórias eram tantas que, invariavelmente, escutava alguém dizer – praticamente exigir – que ele deveria publicar um livro. Foram anos de pedidos, quase súplicas. Eu me juntei a esse coro. Enfim, Lemyr Martins se rendeu a seus fãs. Ter participado deste projeto foi uma honra. São histórias de bastidores, curiosidades, estatísticas. Embora eu já tenha assistido a inúmeras corridas, Lemyr conseguiu me surpreender em cada página, com detalhes que quase sempre nos passam despercebidos. Não para ele. Salários, mulheres, publicidade, lavagem de dinheiro, detalhes técnicos, nada ficou de fora. Há também um caderno de fotos, com cenas espetaculares de acidentes, de pódios e de pilotos.


Entre suas façanhas, ele foi o único jornalista a registrar as cenas do acidente com o piloto austríaco Karl Wendlinger durante os treinos de Mônaco em 1994. Um furo mundial que foi parar no Jornal Nacional e nas revistas Veja e Paris Match. Arrisco a dizer que Lemyr conseguiu juntar tudo o que nós sempre esperamos ler sobre a Fórmula 1”.

Abaixo, Literatura na Arquibancada resgata três histórias contadas por Lemyr, sobre três dos maiores pilotos da história do automobilismo brasileiro: José Carlos Pace, Nelson Piquet e Ayrton Senna.

Moco e o peso da flecha

José Carlos Pace
Crédito: www.lemyrmartins.com.br

“José Carlos Pace, o Moco, estava com o rosto iluminado durante o GP dos Estados Unidos em 6 de outubro de 1974. Pensei que fosse porque fazia 30 anos naquele domingo, ou por causa da decisão do título entre Emerson Fittipaldi, Clay Regazzoni e Jody Scheckter. Mas não era.
Ele me deu uma pista: tamborilou sobre o capacete, como se passasse informações em código morse. Não entendi. Antes de entrar no carro ainda mandou outra dica, batendo com a mão fechada na cabeça, já coberta pelo capacete negro com a flecha amarela: “Está tudo aqui”. Continuei sem entender, e fui para a largada torcer por Emerson Fittipaldi intrigado com a charada proposta por Pace. Moco – corruptela de ouvidos moucos, apelido ganho por só ouvir o que lhe interessava – nunca foi mesmo fácil de decifrar.

O GP foi uma festa brasileira. Emerson Fittipaldi tornou-se bicampeão com um quarto lugar e Moco chegou em segundo e fez a volta mais rápida.


Finalizada a corrida, era hora de resolver o enigma. Voltei à carga. 

Pace riu e mostrou novamente o capacete. Senti-me atordoado. Ali havia uma grande notícia e eu nada de enxergar. Implorei: “Qual é o mistério?”. 

Ele pegou o capacete reserva e colocou ao lado do usado na corrida. Finalmente entendi: o capacete titular estava sem a parte lateral da flecha.




Capacete de Pace, antes da conversa com o pai.

Ele me revelou algo surpreendente: seu falecido pai tinha lhe aparecido na noite anterior desaprovando o desenho. 

“A flecha apontada para baixo pesa muito, meu filho, livre-se desse peso”, teria aconselhado. 

Moco saltou da cama e de gilete em punho raspou as pontas agudas da flecha, transformando-a numa faixa amarela.



Capacete de Pace, após a conversa com o pai.

O enigma finalmente estava resolvido, mas outra coisa me assustou: com um gemido gutural, levou a mão perto do coração. Só que dessa vez não havia mistério. O gemido era de dor pelas duas costelas quebradas num impacto contra a lateral do carro quando o cinto soltou-se do cockpit na segunda volta da corrida”.




A intimidade de Nelson Piquet


“Na tarde de 6 de março de 1988 o pessoal da Fórmula 1 trabalhava tranquilamente no circuito carioca de Jacarepaguá quando um ultraleve tentou um pouso forçado em frente aos boxes da Williams. Os mecânicos correram para socorrer os passageiros do minúsculo aparelho e tiveram uma surpresa quando o piloto tirou o capacete: era Nelson Piquet, que, às gargalhadas, em companhia da namorada Katherine, simulara a pane para assustar os seus ex-companheiros da Williams.

Piquete sempre foi brincalhão, mas muda de humor com rapidez quando invadem sua privacidade. Tem sempre uma piada nova para contar ou uma gozação pronta, principalmente contra os adversários.


Rico, famoso e polêmico, Piquet teve tantas equipes quanto casamentos. Ganhou milhões de dólares, comprou avião, helicóptero e iate, mas era na Fórmula 1 que satisfazia suas emoções mais fortes. No amor, Maria Clara, Manoela, Sylvia, Katherine, Ana Cristina e, mais recente, Viviane preencheram a vida do namorador que se expunha como piloto para proteger o homem.

“Eu passei oito anos sem ver carnaval, e só porque fui a um baile no Rio de Janeiro os jornais inventaram romances com metade das atrizes que estava lá. Agora eu me fechei”, me disse irritado antes do GP do Brasil, em março de 1987. “Sobre automobilismo falo à vontade Pode me perguntar tudo. Eu conto”. E contava mesmo, principalmente se estava magoado por alguma notícia inverossímil.


“Veja a diferença dos jornais franceses para os nossos. Como eles preservavam, por exemplo, o Alain Prost. Ele é um cara café-com-leite, superpolítico, que jamais guiou um carro ruim. Mas sempre teve o suporte da sua imprensa, coisa que nós nunca tivemos no Brasil. Pois esse Prost não foi nada ético na vida particular. Acabou com o casamento de Didier Pironi (piloto da Ferrari), com o casamento do Gerard Larousse (ex-piloto e dono da equipe Larousse-Lola) e do Jacques Laffite (piloto francês), e os jornais franceses não deram uma linha sobre isso.


Um cara-de-pau, que começava a frequentar a casa do amigo, não saía de lá, e depois comia a mulher. Foi isso que ele fez com o Pironi, o Larousse e o Laffite. Mas até acho que ele tinha que agir assim para conseguir alguma coisa, porque é muito feio. Eu sacaneei muito o Prost no dia que ele trocou os cacos de dentes que tinha por uma dentadura e saiu rindo para o mundo. Ele dava volta no circuito para não me encontrar. Passou meia temporada fugindo para não sorrir pra mim”.

No próximo dia 1º de maio completaremos 18 anos sem o ídolo do esporte mundial, Ayrton Senna. E Lemyr não poderia deixar de até os últimos instantes de vida do piloto brasileiro ter uma história para contar:

Ele não tinha mais nada a fazer por aqui


O pódio do GP de San Marino, naquele 1º de maio de 1994, foi o mais triste da história da Fórmula 1. Os acordes do hino nacional da Alemanha, que saudava o vencedor Michael Schumacher, soava como a marcha fúnebre. Nicola Larini e Mika Hakkinen, segundo e terceiro colocados, estavam cabisbaixos. Não houve champanhe e o alarido normal do burlesco autódromo italiano de Imola caiu num pesado silêncio. Eu fotografei a corrida mecanicamente desde que foi dada a segunda largada, após o desastre de Ayrton Senna na traiçoeira curva Tamburello. Mas, a cada volta da corrida, eu esperava pela passagem de seu Williams, tentando, inconsciente, negar a morte que só dependia do comunicado oficial.


De repente, me lembrei do dia anterior. Ayrton saía do trailer da equipe para os treinos. 

Quando me viu, fez um sinal amistoso e disse: “Preciso falar com você. Depois”. 

Curioso, o fotógrafo Alex Ruffo, que estava ao meu lado, achou que o assunto tinha alguma relação com a reportagem que eu fizera para a Playboy, na qual Senna abrira muito da sua intimidade. Não era. Já havíamos comentado o texto. Por isso também fiquei curioso.

Acidente fatal com o piloto Roland Ratzemberg

Não falamos mais naquele sábado. A morte de Roland Ratzemberg nos treinos transtornou Senna. Ele foi até o local do acidente, na curva Villeneuve, examinou as marcas deixadas pelo Simtek-Ford do piloto austríaco e deixou claro a desaprovação do circuito. Os cartolas não gostaram da sua atitude e o advertiram. Mesmo contrariado, Senna cumpriu o ritual da entrevista coletiva obrigatória do pole position e deixou o autódromo Enzo e Dino Ferrari em silêncio.

Acidente fatal com Ayrton Senna

No centro de imprensa, depois da corrida, 213 jornalistas enviavam detalhes da vitória de Schumacher, com epitáfios de Ayrton Senna prontos, à espera da confirmação da tragédia. Momentos de desconfortável suspense em que eu recebi os mais estranhos gestos de solidariedade. Alguns repórteres, que me conheciam da Fórmula 1 há 25 anos, me davam pêsames antecipados, dissimulando o motivo da abordagem. Como sabiam que eu acompanhei a carreira de Senna desde o kart, pediam, solenes, fatos exclusivos da vida do piloto.

Recebi várias ofertas para dar depoimentos especiais a jornais, revistas, rádios e TVs. Tive até uma polpuda proposta de uma revista japonesa para gravar minhas memórias sobre a carreira de Ayrton Senna. Eu vivia a experiência difícil do luto pessoal e da fonte privilegiada, sem conseguir controlar a emoção da perda do amigo. Mas era preciso manter a frieza para conseguir realizar o meu trabalho de repórter. Às 18h45 de Imola, chegou o anúncio oficial do Hospital de Bolonha: Ayrton Senna da Silva, 34 anos, havia morrido. A sala de imprensa ficou mais nervosa, o caminho entre o circuito e o hospital virou uma procissão, e eu desejei estar cobrindo um torneio de sinuca.

Dois dias depois, na estrada de Bolonha-Milão, o Ruffo não se conteve e me perguntou sobre que assunto que Ayrton queria falar comigo. Foi aí que me lembrei da voz de barítono do signore Montanha, o decano e protocolar chefe de imprensa do autódromo de Monza. Ele apertou o meu braço na escadaria de Imola e disse, despedindo-se num tom clérigo de pregador: “Lamente, mas não chore a partida de Ayrton. Ele tinha provado tudo, não havia mais nada a fazer por aqui”.

“Não sei”, respondi a Ruffo. E, distraído, repeti as palavras de Montanha: “Só sei que ele não tinha mais nada a fazer por aqui”.

Sobre Lemyr Martins:

Catarinense de Mafra, SC, jornalista cinqüentenário na profissão, com passagens pela Ultima Hora, Zero Hora, Jornal do Brasil, Estadão, Jornal da Tarde, Edição de Esportes, Placar (um dos fundadores e editor de fotos, editor de automobilismo e editor executivo), Grid, Ação e Quatro Rodas. Coberturas em seis Copas do Mundo, 14 finais das Copas Europeias de futebol (Clubes Campeões, UEFA e Recopas), 307 GPs de Fórmula 1, desde o GP de Mônaco de 1970. Testemunha das carreiras de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubinho Barrichello, desde o kart até as vitórias e os títulos na Fórmula 1. O único repórter brasileiro a cobrir o Milésimo Jogo de Pelé, em Paramaribo, Suriname, em 28 janeiro de 1971 e todas as despedidas: do Rei da Seleção, no Maracanã, contra a Iugoslávia, em julho de 1971, do Santos na Vila Belmiro, em outubro de 1974, contra a Ponte Preta, e o adeus ao futebol, no Cosmos, no Giant Stadium, em novembro de 1977, em New Jersey, EUA. Seis livros publicados: Arquivos da Fórmula 1, Uma estrela chamada Senna, O pequeno grande Senna, infantil, A Saga dos Fittipaldi, Fitti-1,o Fórmula 1 brasileiro, Loucuras, histórias, lendas e mistérios da F-1 e 50 anos de Fotojornalismo. Prêmios: Associação Riograndense de Imprensa, ARI, 1966 e 1967, Foca de Ouro Brasileiro (SP) 1969, Prêmio Esso Equipe Jornal da Tarde, Prêmio Abril (fotos) e cinco Prêmios Abril (texto). Prêmio da Associação Brasileiras dos Transportadores de Carga – sobre os uso do “rebite”, anfetamina e estimulantes, pelos caminhoneiros. Prêmio Internacional de fotos: sequências: “O vôo de Gugelmin”, no GP da França de 1989, e do acidente de Karl Wendlinger, no GP de Mônaco de 1994.

Para conhecer o trabalho de Lemyr Martins como fotógrafo, acesse:

sábado, 28 de abril de 2012

Pacaembu, 75 anos.


O estádio do Pacaembu faz 75 anos neste 27 de abril de 2015. E para comemorar a data, nada melhor do que resgatar em uma só obra literária histórias de dois personagens que vivenciaram como nunca o estádio mais charmoso de São Paulo e, para muitos, do Brasil.

Um é Thomaz Farkas, autor do livro “Thomaz Farkas, Pacaembu” (Editora DBA, 2008), fotógrafo húngaro que desembarcou no Brasil em 1930 vindo de Budapeste e fundador da primeira galeria especializada em fotografia do Brasil e da revista Fotoptica.


O outro é o jornalista Juca Kfouri, um dos nomes mais respeitados da imprensa esportiva brasileira, responsável pelo belíssimo texto de apresentação do livro de Farkas e que nele relembra momentos históricos ocorridos e vivenciados por ele no estádio do Pacaembu.

Farkas, um dos maiores nomes na história da fotografia, infelizmente, nos deixou em 2011, no dia 25 de março, aos 86 anos. Mas seu livro sobre o estádio do Pacaembu permanecerá para sempre como uma referência na literatura brasileira e sobretudo na história da fotografia. Vale lembrar que apenas as fotos indicadas no crédito "Thomaz Farkas", pertencem à obra publicada.

Thomaz Farkas

QUANDO O extraordinário jogador Ferenc Puskas pisou o gramado do Pacaembu não podia nem passar por sua cabeça que, bem antes dele, um outro artista húngaro já houvera imortalizado aquele estádio. Thomaz Farkas é o nome da fera. Puskas, chamado de o Major Galopante da seleção magiar que encantou o mundo em 1954 e do Honved (“defensores da pátria”), está para o futebol moderno assim como Farkas para a revolução da fotografia moderna no Brasil.

Se o artilheiro húngaro teve a seu lado companheiros brilhantes como Sandor Kocsis, Bozsic e Czibor, Farkas faz questão de citar Geraldo de Barros, José Oiticica Filho e José Yalenti, além de rejeitar, em sua invencível modéstia, o papel de número 1, que atribui a Barros. 

Página da revista O Cruzeiro, quando o Honved
visitou o Brasil para jogar contra o Flamengo, no
Rio de Janeiro e em São Paulo.

O campeoníssimo Honved veio jogar no Pacaembu no dia seguinte ao aniversário de 403 anos de São Paulo, dia 26 de janeiro de 1957, e derrotou o Flamengo por 6 a 4. 

Tenho uma vaga lembrança deste jogo, porque a extinta TV Tupi quis transmiti-lo mas não se dispôs a pagar por isso, razão pela qual foi impedida de entrar no estádio. 

Planejou-se, então, instalar câmeras fora do estádio, providência neutralizada diante da ameaça dos organizadores da partida de botar bambus nos espaços que permitiriam a visão da TV.








Crédito: Thomaz Farkas

Mas essas são memórias de tenra infância, ainda antes deste escriba completar 7 anos. 

Farkas não foi ao jogo nem se lembra dele. Aliás, Farkas, embora goste de futebol, gosta mesmo é de gente, razão pela qual sempre se ligou muito mais na torcida do que no que acontece dentro de campo, sendo raras suas fotos de jogo.







Crédito: Thomaz Farkas

Em compensação, seu material que retrata a construção do Pacaembu, os arredores do estádio e a presença de público, revela uma São Paulo e um Brasil tocantes, que se perdeu no tempo e no espaço, materializado apenas na poesia das fotos de Farkas, sempre em branco e preto, cores, por sinal, de seu time de coração, o Corinthians.

Corinthians que é responsável pela primeira lembrança bem viva de minha infância, porque dois anos antes da visita do Honved, mais exatamente no dia 6 de fevereiro de 1955, ganhou, no mesmo Pacaembu, o título de campeão do IV Centenário de São Paulo, ao empatar 1 a 1 com o Palmeiras. Vi o jogo pela TV, com meu pai e meus dois irmãos, na casa de João Marino, que viria, muitos anos mais tarde, virar o braço direito de Pietro Maria Bardi no Museu de Arte Moderna paulistano, o mesmo Bardi que, um dia, abrigara aqueles jovens fotógrafos cheios de idéias novas na cabeça. Título conquistado, fomos ao recém inaugurado Parque do Ibirapuera para comemorar a façanha.

Concha Acústica, atual Tobogã, em 1943.
Crédito: Thomaz Farkas
As lembranças de Farkas são bem anteriores, do final dos anos 30, quando, estudante de Engenharia da Politécnica, acompanhava as obras, assim como do dia 27 de abril de 1940, quando o estádio foi inaugurado com a presença de Getúlio Vargas, que havia imposto a ditadura do Estado Novo. Vargas tinha ao seu lado o interventor federal Ademar de Barros, o do “rouba, mas faz”, e o prefeito Prestes Maia, até hoje tido como o melhor que a cidade conheceu.

Crianças nos arredores do Pacaembu.
Crédito: Thomaz Farkas

Farkas morava perto do Pacaembu, Terras Alagadas, em Tupi-Guarani. 

A vantagem óbvia deste brasileiro nascido em Budapeste e que chegou a São Paulo em 1930, com pouco mais de 5 anos de idade, está em que suas memórias valem mais que mil palavras, pois estampadas nas páginas que virão. 

Diferentemente das minhas, que não encontram nas palavras a poesia de cada uma de suas fotos. 

Tenho por Farkas antiga admiração, antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente, entre outros motivos porque produziu o fabuloso documentário “Subterrâneos do Futebol”, dirigido por Maurice Capovilla, feito nos anos 60 e terrivelmente atual até hoje.




Cena do filme "Subterrâneos do Futebol".
Crédito: Thomaz Farkas

Quis o destino ser generoso a ponto de nos tornar amigos, logo depois de  nos ter  tornado vizinhos, ambos moradores do mesmo prédio, cuja melhor vista é, acredite, exatamente o portão principal do estádio municipal. O Pacaembu de Farkas é uma homenagem ao romantismo e a uma cidade e a um Brasil que quase vingaram, mas que ficou no quase. O meu é quase o palco de minha vida. Conto por que, retratado em pedaços de mim, cada um de 90 minutos, um pouco mais, um pouco menos.


Porque no Pacaembu vi Pelé jogar como goleiro, como vi Mane Garrincha consolar seu algoz, como vi o drama de Tostão ao descolar a retina na noite em que se inaugurou, no lugar da inesquecível Concha Acústica, o monstruoso Tobogã, obra da arquitetura fascista como o Minhocão, só possíveis em época de ditaduras. Ao Pacaembu eu ia mais cedo, para ver o time aspirante do Corinthians jogar em meados dos anos 60, na verdade para ver Roberto Rivellino, o melhor jogador da quase centenária história corintiana. No Pacaembu vi Ademir da Guia dar um show solo que poucas vezes alguém foi capaz de dar em qualquer outro estádio do mundo. E no mesmo ano da visita do Honved, vi o São Paulo ser campeão paulista ao derrotar o Corinthians por 3 a1, numa tarde que ficou conhecida como “a tarde das garrafadas”, graças ao inconformismo da torcida alvinegra com o terceiro gol tricolor, marcado por Maurinho no imortal goleiro Gilmar dos Santos Neves.


Extrema coincidência, o técnico do São Paulo era o húngaro Bela Gutman, que viera com o Honved na excursão de 1957, inovador dos padrões táticos de nosso futebol, como Farkas, mais uma vez. 

Seguem, portanto, cinco lembranças, todas no Pacaembu, hoje chamado Paulo Machado de Carvalho, em homenagem ao Marechal da Vitória das Copas de 1958 e 1962. 

São trechos de lembranças, em ordem cronológica, já publicadas no livro “Meninos, eu vi”, desta mesma DBA em parceria com a Lance! Editorial, em 2003.


DO ALTO do bairro de Higienópolis, cercado de prédios por todos os lados, é possível ver, obliquamente, o portão principal do estádio do Pacaembu. A iluminação que vem de baixo torna ainda mais romântica a imagem do lugar mais gostoso que existe no mundo para se ver um jogo de futebol. E me traz doces e tristes recordações e até mesmo uma que é apavorante.

Comecemos pela última. Em 1960, com dez anos de idade, fui pela primeira vez ao Pacaembu à noite. Fui, não: fomos. Jantamos na casa de minha avó, razoavelmente perto do estádio. Meu pai só autorizou que meu irmão Beto e eu fôssemos ver um Corinthians e São Paulo porque meu primo Dado, tricolor e uns cinco anos mais velho, também iria. E lá fomos os três. Não tinha muita gente. O Corinthians estava às vésperas de virar o “Faz-Me Rir”, e o São Paulo tinha, digamos, hibernado, todos os esforços voltados para a construção do Morumbi.


O jogo acabou 1 a 1 e foi horroroso. Provavelmente irritado com o mau espetáculo, o Dado, que tinha encontrado um amigo na arquibancada, não estava gostando nada de ser babá de duas crianças e, diferentemente do que havia sido combinado, em vez de nos levar para casa após o jogo, apenas nos ensinou que ônibus pegar. 

E tomou outro rumo. 

Sim, São Paulo era, então, uma cidade que permitia que duas crianças andassem sem maiores riscos pela noite afora, mas a estréia da aventura e a imaginação foram capazes de produzir momentos de tensão, devidamente vividos em silêncio, um pouco por vergonha de contar a meu irmão, outro pouco para que ele também não ficasse com o mesmo medo. Voltamos sãos e salvos, é óbvio, mas aquele foi dos poucos jogos que me arrependi de ter ido ver.

Pelé, goleiro, no jogo contra o Grêmio.

CERTOS MOMENTOS  do futebol são únicos, históricos. A derrota brasileira na final da Copa de 50 é um deles. O primeiro treino de Garrincha no Botafogo, em 1953, é outro. Pelé pegando no gol é mais um. E, se de fato todas as pessoas que dizem ter testemunhado a vitória uruguaia no Maracanã lá houvessem estado, a história contabilizaria não 200 mil pessoas no estádio, mas no mínimo o dobro. Do mesmo modo, se todos que dizem ter visto o Mané dar o baile que deu em seu primeiro dia de Botafogo (com direito a bola entre as pernas de Nílton Santos) tivessem estado mesmo em General Severiano, o antigo estádio alvinegro seria maior do que o próprio Maracanã. Bem maior. Não vi nem uma coisa nem outra, mas conheço pessoas que juram ter visto ambas, mesmo que fossem pouco mais que bebês em 1950, como eu era.


Mas vi Pelé pegar no gol, no Pacaembu, contra o Grêmio, pela Taça Brasil de 1963, num jogo sensacional, extraordinário. Ele já havia substituído o goleiro do Santos – Lalá, no caso – quatro anos antes, contra o Comercial de Ribeirão Preto. Lalá se machucou, e o Rei jogou os últimos quinze minutos no gol, na vitória santista por 4 a 2. Mas essa partida contra o Grêmio foi especial. O Santos perdia de 3 a 1, e Pelé, com três gols, virou o jogo e garantiu o time na final, que também venceria, contra o Bahia. O grande Gilmar dos Santos Neves foi expulso, aos 41 minutos do segundo tempo, e Pelé vestiu a camisa negra de goleiro. Fez, pelo menos, uma defesa difícil, ao se atirar nos pés de um atacante gremista. A antiga revista Manchete, cujo texto fala em duas grandes defesas, tem a foto, a cara de Pelé amassada na canela do gremista.


Corinthians de 1964.

PENÚLTIMA RODADA do campeonato paulista de 1964. O Pacaembu estava lotado. Já fazia dez anos que o Corinthians não ganhava um título e sete que não vencia o Santos, aquele timaço de Pelé, que ganhou tudo o que pôde nos anos 60. Como se fosse um bom sinal, aos sete minutos do primeiro tempo o camisa sete Ferreirinha abre o marcador para o Corinthians. Muito cedo, pensaram os mais pessimistas. Com razão. Logo em seguida, Coutinho empata.

Mas a tarde daquele domingo, 6 de dezembro, parecia diferente. O Corinthians ainda lutava pela taça, e Bazani, aos 27, pôs o Timão na frente outra vez. Em seguida, Coutinho, ele de novo, tratou de empatar, e o primeiro tempo acabou 2 a 2. Mas, no intervalo, havia um sopro de confiança entre a maioria corintiana no estádio. Afinal, daquela vez era o Santos quem corria atrás do Corinthians, e não o contrário, como de costume. Sopro vão. Pelé, aos quatro minutos, de novo aos onze e mais uma vez aos quinze, os dois últimos em pênaltis marcados por Armando Marques, fez Santos 5, Corinthians 2. Mais um ano de fila, mais um ano de tabu.

Como não está morto quem peleia, Silva diminui aos 35. Mais uma esperança...

Santos FC de 1964.

Mas Coutinho faz 6 a 3, apenas dois minutos depois. Muitos se levantam e começam a ir embora. O menino de catorze anos, corintiano do fundo do coração, permanece desolado nas gerais, vendo mais um ano ir-se embora sem título e sem vitória sobre o poderoso Santos de Pelé & Cia. Eis que de repente, não mais que de repente, como disse o poeta, um cruzamento vem da ponta esquerda para a altura da meia-lua da área corintiana. Faltavam poucos minutos para o jogo terminar. De bate-pronto, sem pensar nem pestanejar, Pelé enche o pé direito, e a bola estufa as redes de Heitor, no ângulo, inapelável, um gol de fábula, digno de um rei.

O menino se levanta, instintivamente, e aplaude. E leva um par de cascudos e uma chuva de bagaços de laranja nas costas. "Traidor!", ele ouve, entre outras ofensas bem menos publicáveis. O clima fica insustentável para ele, que, sem alternativas, busca o portão de saída, cabeça duplamente inchada - 7 a 3 para o Santos por dentro, dois cascudos ardidos por fora, mais os bagaços. Vai embora ainda a tempo de ver Silva, de pênalti, marcar o quarto gol corintiano, inútil. Foi a primeira e única vez em que apanhei num campo de futebol.

Jogadores do Santos cercando Garrincha.

DOIS ALVINEGROS, Santos e Botafogo, faziam os grandes jogos dos anos 60. Pelé contra Garrincha, fora outros gigantes dos dois timaços. Num desses jogos, em São Paulo, os cariocas fizeram uma exibição inesquecível e, estranhamente, pouco badalada nos embates entre os dois melhores times do país naquela época. Aliás, sempre que são feitas referências aos jogos entre Botafogo e Santos daqueles tempos, só são lembradas as vitórias santistas, as goleadas de Pelé & Cia. Pois o Pacaembu estava lotado para ver mais uma. Pelé e Mané estavam em campo, mas o diabo estava era no corpo que vestia a camisa 7, não a 10 e o lateral-esquerdo Dalmo, do Santos, viveu uma tarde de terror. Garrincha pegava a bola e, andando, levava Dalmo até dentro da grande área, onde o zagueiro não podia fazer falta. O Pacaembu não acreditava no que via: um ponta andar da intermediária até a área, sem que o lateral tentasse tirar a bola, temeroso do drible desmoralizante.

Dalmo x Garrincha

Até que Dalmo percebeu que tinha virado motivo de chacota dos torcedores, muitos dos quais nem santistas eram, mas que iam ao campo na certeza do espetáculo. E Dalmo resolveu bater antes de chegar na grande área. Bateu uma vez, Garrincha caiu, o árbitro marcou a falta e repreendeu o paulista. Bateu outra vez, Garrincha voltou ao chão, o árbitro marcou a falta e ameaçou Dalmo de expulsão, porque naquele tempo o cartão amarelo não existia. A terceira falta de Dalmo foi a mais violenta, como se ele tivesse pensando: “Arrebento essa peste, sou expulso, mas ele não joga mais”.

Ilustração Andrés Sandoval.
Crédito: Editora Abril

Pensado e feito. Enquanto o gênio das pernas tortas estava estirado no bico direito da área dos portões principais do Pacaembu, o árbitro determinava a expulsão de Dalmo, cercado por botafoguenses justamente irados com seu gesto. Eis que, como um acrobata, Garrincha levanta-se, afasta seus companheiros, bota o braço esquerdo no ombro de Dalmo e o acompanha até a descida da escada para o vestiário, que, então, ficava daquele lado.

Saíram conversando, como se Garrincha justificasse a atitude, entendesse que, para pará-lo, não havia mesmo outro jeito. O Botafogo ganhou de 3 a 0 e saiu aplaudido do estádio. Tinha visto uma autêntica exibição do Carlitos do futebol, digna mesmo de Charles Chaplin, divertida, anárquica, humana, sensível, solidária.

Domingos da Guia e o filho Ademir.

FUTEBOL DOMINGO de manhã? Só podia ser coisa de cartola sem ter o que fazer. Mas era isso mesmo: Palmeiras e Lusa fariam num domingo de manhã, dia 24 de abril de 1977, pelo campeonato paulista, um jogo que não teria muita importância não fosse, dizia-se, pelo fato de marcar a despedida de Ademir da Guia, o Divino, do alviverde. E lá fui eu testemunhar a história. Que ganhava contornos de pura verdade, porque a primeira pessoa que notei na tribuna de imprensa foi Domingos da Guia, o Divino Mestre, apelido que ganhara dos uruguaios ao se sagrar campeão pelo Nacional, em 1933. O Divino Mestre fora ver o filho jogar.


Ademir já tinha 35 anos e jogara o suficiente para ganhar uma estátua no Parque Antarctica. Clássico, frio, inabalável, Ademir da Guia resolveu dar um show particular naquela manhã, fazer coisas que nem eram muito do seu feitio - gols, por exemplo. Fez dois na vitória palmeirense por 3 a 2. Um mais bonito que o outro, matada no peito, bola no fundo da rede. E ainda deu outro para Jorge Mendonça - aí, sim, bem ao seu estilo, num passe genial. Não satisfeito, salvou lá atrás três gols da Lusa, que tinha um inspirado Enéas, autor do gol de empate em 1 a 1, pelo meio das pernas de Leão. De repente, 35 mil pessoas estavam em pé no Pacaembu aplaudindo Ademir da Guia. Isso mesmo. Contando hoje, pode parecer mentira, mas 35 mil pessoas foram ao estádio num domingo pela manhã só para ver Ademir jogar - se despedir?

Ademir da Guia beijando o busto do pai, em Bangu.

Ademir da Guia parecia querer mostrar que os cartolas tinham enlouquecido, que qualquer hora era hora para jogar futebol. E que futebol! Estava tão especial que fez 1 a 0 aos dezenove minutos do primeiro tempo e 2 a 1 aos dezenove do segundo. Milimétrico, cirúrgico, como sempre. O velho Domingos, que também foi campeão argentino pelo Boca Juniors, em 35, e carioca pelo Vasco, em 34, e pelo Flamengo, em 39, 42 e 43, era um sorriso só. O orgulho transpirava, indisfarçável. Fim de jogo, quem tinha ido ter um aperitivo antes da rodada que aconteceria à tarde sentia-se mais do que banqueteado. A imprensa cerca o Divino Mestre, que sentencia, impávido colosso:

"Vim para São Paulo porque soube que ele está parando. Trouxe até uma proposta do Vasco, mas nem vou apresentá-la, porque não sou imbecil. De fato, o time do Palmeiras já não é o mesmo de dois, três anos atrás. Mas o Ademir é".

Nada mais foi dito, nem mais lhe foi perguntado. Nem precisava. Ademir ainda jogou mais cinco meses, cada jogo um recital.

Thomaz Farkas, fotografando
"Subterrâneos do Futebol".

NENHUMA DESSAS histórias tem fotos de Thomaz Farkas.
Porque, se tivesse, não precisariam ser contadas, como você verá a seguir”.

Para saber mais sobre Thomaz Farkas, acessar: http://ims.uol.com.br/hs/thomazfarkas/thomazfarkas.html