sexta-feira, 23 de março de 2012

Vinícius e Pelé: o poeta e o rei


O poeta Vinícius de Moraes também curtia o futebol. Não era um “fanático” torcedor, mas tinha o coração botafoguense. No final dos anos 1950, ele compôs o poema "Olhe aqui, Mr. Buster". Mas para quem pensa que o poeta não era bom de prosa, vale a dica para conhecer a página de seu site (http://www.viniciusdemoraes.com.br/site/rubrique.php3?id_rubrique=4), por sinal, espetacular, em que vemos várias crônicas escritas por Vinícius de Moraes. Entre elas, uma em que o poeta prosador deixa um registro histórico para a literatura esportiva. Se Pelé e Coutinho, uma dupla que encantou o mundo do futebol, o que dizer da dupla Pelé e Vinícius? Mas o poeta, humildemente, reconhece o seu lugar...

Um abraço no Pelé
Por Vinícius de Moraes

Pelé recebendo a medalha de Cavaleiro
do Barão de Rio Branco.
Crédito: Orlando Brito
Eu ainda não tive o prazer de lhe ser apresentado, meu caro Pelé, mas agora, com o fato de termos sido condecorados juntos pelo governo de França – você no grau de Cavaleiro e eu no de Oficial: e mais justo me pareceria o contrário – vamos certamente nos conhecer e tornar amigos. 

Ninguém mais que você merece tão alta distinção, sobretudo por ter sido conferida espontaneamente – pois ninguém mais que você tem levado o nome do Brasil para fora de nossas fronteiras. Da Sibéria à Patagônia todo mundo conhece Pelé; e eu estou certo de que você entraria fácil na lista das dez personalidades mais famosas de nossos dias.

Não posso disfarçar o orgulho que a condecoração me causa, embora seja, de natureza, avesso às honrarias; e orgulho tanto maior porque nela estamos juntos: preto e branco (as cores do meu Botafogo!) e também as cores irmãs de nossa integração racial. Sim, caro Pelé, nós representamos, em face da comenda que nos é conferida, o Brasil racialmente integrado, o Brasil sem ódio e sem complexos, o Brasil que olha para o futuro sem medo porque, apesar dos pesares, é bom de mulher, bom de música, bom de poesia, bom de pintura, bom de arquitetura e bom de bola. Particularmente por isso considero-me feliz de estar a seu lado no momento em que nos colocarem no peito a condecoração.

Que você tenha sido distinguido pela Ordem Nacional do Mérito da França nada me parece mais natural. A França sempre deu um alto valor ao gênio, e você, meu grande Pelé, é um gênio completo, porque o seu futebol representa um reflexo imediato de sua cabeça nos seus pés. Eu não sou gênio, não. 

Eu tenho que pensar um bocado para que a mão transmita direito o que a cabeça lucubrou. Meus gols são mais raros que os seus. Você é com justa razão chamado o Rei. Quanto a mim, que rei sou eu?

Mas nada disso turva a satisfação que sinto em ser o seu Coutinho nesta nova investida do Brasil na área internacional. Parabéns, meu caro Pelé. Parabéns e o melhor abraço aqui do seu irmãozinho!


Vinícius de Moraes em "La Fusa", o templo da
Bossa Nova em Buenos Aires.
Crédito:
http://blogs.estadao,com.br/ariel-palacios/tag/la-fusa
E não seria a primeira e nem a última vez que Vinícius e Pelé se encontraram nas “esquinas” da vida. Em 2010, o repórter Ariel Palácios, divulgou uma história em seu Blog “Hermanos”, hospedado no jornal O Estado de S. Paulo, que define muito bem a relação de respeito e admiração de um pelo outro. Se na comenda francesa, Vinícius agradece ao rei, em um evento ocorrido em Buenos Aires, na Argentina, foi a vez do rei do futebol reverenciar um verdadeiro rei da música e poesia brasileiras. Pelé estava com a equipe do Santos na Argentina para enfrentar o River Plate e mesmo assim arrumou um jeito para ver seu ídolo. É Ariel Palácios quem conta:

Em 1966 o então advogado Daniel Divinsky – fascinado com a trilha sonora do filme francês “Um homem e uma mulher”(que incluía várias canções de Vinícius de Moraes) e “Orfeu Negro” – passou 36 horas em ônibus sem conforto algum de Buenos Aires até o Rio de Janeiro para propor ao poeta a edição de seus livros na Argentina.

Vinicius e Toquinho, no "La Fusa".
Crédito:
http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/tag/la-fusa
“Vinícius topou, mas pediu 15% pelos direitos de autor, quase o triplo do que cobravam os autores europeus. Aceitei porque queria ter Vinícius entre nossos primeiros títulos. E assim publicamos ‘Para viver um grande amor’”. O livro foi lançado em agosto de 1968. Nos dois primeiros anos Divinsky vendeu quinze edições da obra. (...)

O desembarque de Vinícius de Moraes ocorreu no dia 8 de agosto de 1968 em Buenos Aires. Cinco depois, ele faria duas apresentações no Teatro Ópera.“Vinícius veio para esta cidade para ser a ponta de lança de uma intensa campanha dos exportadores brasileiros de café, que queriam divulgar o produto na Argentina contra seus principais concorrentes, os colombianos, que também estavam fazendo uma agressiva divulgação. A delegação brasileira era um luxo”, disse Wenner ao Estado, citando os integrantes: “Dorival Caymmi, o Quarteto em Cy, Baden-Powell e Oscar Castro Neves”.

Teatro Ópera, em Buenos Aires.
A primeira apresentação estava marcada para as 20:30 horas. Mas, eram as 20:15 e Vinícius não aparecia no teatro. De seu hotel, a 15 quarteirões dali, havia saído às 17:00. Os organizadores ligaram para a Polícia, temendo que Vinícius teria sido sequestrado. Mas, o poeta simplesmente não havia percebido que era tarde, e chegou em cima da hora.

Às 22:30 horas o show havia terminado. Mas, o público não queria sair. Mas, do lado de fora, na avenida Corrientes, mais de 3 mil pessoas pretendiam entrar para a segunda apresentação da noite.

No meio dessa atribulada “noite mágica”, como define Wenner, quatro jogadores do Santos, que estavam em Buenos Aires para um amistoso contra o River Plate, apareceram na porta para tentar entrar no começo da segunda apresentação. O produtor do show foi abordado pelo lanterninha, que gaguejava emocionado: “senhor, senhor..Pelé está aqui!!!!”.

Vinícius e Pixinguinha.
Minutos depois, Pelé e seus colegas estavam em cima do palco. O público, em delírio, aplaudia freneticamente. 

Segundo Wenner, “Baden começou a improvisar uma batida de samba ao estilo Pixinguinha. A bateria acompanhou. Vinícius aproximou-se para abraçar os jogadores. Pelé começou a chorar como um garoto”.

E se você quiser conhecer o poema de Vinícius, "Olhe aqui, Mr. Buster", citado na abertura deste post, basta acessar o link abaixo do próprio Literatura na Arquibancada:

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