quarta-feira, 21 de março de 2012

Teatro e Futebol

Chapetuba Futebol Clube.

Hoje é o Dia Universal do Teatro e não nos perguntem a razão da data. Bem que tentamos encontrar essa resposta, mas o que importa aqui, neste espaço de reflexão sobre a literatura esportiva é a produção de textos feita a partir do tema futebol para essa nobre arte do teatro. No Brasil, por sua extensão e quantidade de talentos no teatro, bem que poderíamos ter muito mais histórias para contar a respeito dessa produção, mas infelizmente, são poucos os exemplos.

Contudo, poucos, mas excelentes, históricos, divertidos, emocionantes...Você pode escolher o adjetivo...

Grupo Jogando no Quintal.
De maneira permanente e em tempos mais recentes, destacamos o grupo Jogando no Quintal, um grupo que tem mais de 15 anos de carreira, com espetáculos divertidíssimos. E são eles mesmos que explicam como tudo começou:

Tudo começou no início de 2001, em São Paulo, quando os atores César Gouvêa e Márcio Ballas decidiram desenvolver, no quintal da casa de César, na Rua Cotoxó, um treinamento que contemplasse suas duas paixões: palhaço e improvisação.

Como improvisação é sinônimo de jogo, nada mais harmonioso do que adequar uma dinâmica de improvisação à ambientação de um jogo de futebol. Daí nasceu o espetáculo Jogando no Quintal e com ele, o Clube de Regatas Cotoxó.

Aderindo a essa experiência tão inusitada, palhaços com formações diferentes e muita experiência foram se juntando à dupla. A ideia chamou a atenção de atores que tinham um interesse comum: pesquisar a linguagem do palhaço em situação de improviso.

Assim começou, para uma plateia de vinte pessoas, um embrião daquilo que após um ano e meio de experiências, viria a ser atraente não só para quem faz, mas também para quem assiste: um espetáculo em formato de jogo. O pequeno quintal de César se transformou num verdadeiro estádio e o público não parou mais de crescer. As pessoas assistiam aos jogos da janela da cozinha, de cima do muro, penduradas no poste... Até o momento em que a companhia, não podendo mais abrigar tanta gente, teve que mudar de endereço.

Hoje o espetáculo Jogando no Quintal já foi prestigiado por mais de 250 mil espectadores.”

Quem também tem colaborado frequentemente com o universo do futebol no mundo do teatro é a diretora Graça Berman, que já realizou diversos espetáculos, o mais destacado utilizando contos e crônicas do escritor e teatrólogo Plínio Marcos em “A bola da vez: Plínio Marcos”. Graça também foi atriz e autora (junto com Renata Pallottini) do espetáculo “Nos campos de Piratininga” onde resgata a história da cidade de São Paulo, desde 1894 até recentemente, a partir dos três times mais tradicionais da cidade: Corinthians, Palmeiras e São Paulo.

Plínio Marcos com a camisa do Jabuca
(Jabaquara, da cidade de Santos),
outra paixão no futebol.
Plínio Marcos não foi escolhido à toa pelo grupo de Graça Berman. A ligação dele com o futebol é enorme, desde menino quando chegou a jogar pela Portuguesa Santista, no litoral paulista. “Coroa”, aos 40, Plínio também assinou uma coluna sobre futebol na revista Veja, algo impensável para quem já conhece o temperamento e o posicionamento político dele. Não deu outra. Em três foi demitido por disparar críticas severas contra a cartolagem, ditadura e censura. Plínio sempre deixou em seus escritos rastros de sua paixão pelo futebol. Em “Quando as Máquinas Param” (1967), a protagonista da história, uma personagem desfavorecida economicamente, Nina, esposa de Zé, sustenta a casa com seu trabalho de costureira enquanto ele fica “para cima e para baixo”, andando de boteco em boteco falando sobre futebol.






Falar de teatro e não falar de Nelson Rodrigues, considerado por muitos o maior dramaturgo do país seria uma heresia. Como jornalista e cronista diário, Nelson nunca se preocupou com o olhar do jogo pelo jogo, a “objetividade” dos acontecimentos do espetáculo chamado “jogo de futebol”. Nelson explorava a “dimensão épica do esporte e as sensações despertadas pelo esporte mais amado do País” (http://www.spescoladeteatro.org.br/curiosidades/51.php

A prova maior dessa busca pelo olhar diferenciado de Nelson Rodrigues pelo futebol pode ser compravado em uma crônica publicada em 1963, após a decisão do Mundial Interclubes entre Santos e Milan: “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. E o lindo, o sublime na vitória do Santos é que atrás dela há o homem brasileiro, com o seu peito largo, lustroso, homérico”.

Nelson Rodrigues também deixou muitos rastros de sua paixão pelo futebol em sua enorme e consagrada produção teatral. Uma das mais famosas, “A Falecida”, conhecida como “a primeira tragédia carioca”, ele retrata “a vida no subúrbio carioca a partir da história de Zulmira, mulher tuberculosa de classe média que planeja os detalhes de seu próprio enterro. Tuninho, seu marido igualmente infeliz e desempregado, gasta boa parte de seu tempo na praia, jogando sinuca ou falando sobre futebol”.

Apesar de todos os exemplos citados acima, não há até hoje na produção do teatro brasileiro nenhuma obra que se compare com o que o consagrado Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, obteve com “Chapetuba Futebol Clube”. Ela foi encenada pela primeira vez em 1959 e há três anos, em 2009, voltou a ser encenada nas comemorações dos 50 anos da peça. Só esse fato já é um marco.

Vianinha ganhou recentemente um espaço de honra na internet com a produção do site desenvolvido por um projeto da Funarte http://www.funarte.gov.br/vianninha/autorobra_chapetuba.html. É nele que podemos conferir a história do Chapetuba e em que contexto foi produzido. Uma obra-prima do teatro utilizando o futebol como metáfora. Tão importante que acabou virando até “fotonovela”, na revista esportiva de maior circulação do país.

“Peça teatral em três atos, fruto de um trabalho desenvolvido por Oduvaldo Vianna Filho durante os Seminários de Dramaturgia, no Teatro de Arena, em São Paulo, em 1959, dirigido por Augusto Boal. Os Seminários funcionavam como um núcleo produtor de textos, sendo Chapetuba Futebol Clube debatida, reescrita e ensaiada como proposta de um teatro nacionalista.

Como informa Maria Silvia Betti, no livro Artistas brasileiros: Oduvaldo Vianna Filho (São Paulo: Edusp/Fapesp, 1997), Chapetuba Futebol Clube é a primeira peça de vianninha a apresentar a característica por excelência de seus textos: a utilização de protagonistas divididos entre uma “boa” e uma “má” consciência. Seu conflito central apresenta personagens que se vêem na contingência de optar entre priorizar seus próprios interesses ou as necessidades da comunidade à qual pertencem.

Não é apenas uma peça sobre futebol, mas um drama de alto interesse humano. Interessa a qualquer público. Obteve referências ótimas da crítica, sendo saudada como uma das mais importantes da nossa dramaturgia.

Para Augusto Boal, Chapetuba Futebol Clube enquadrava-se nos objetivos simples do Seminário de Dramaturgia: transcreve em forma de teatro um setor da nossa realidade. É uma análise psicológica de alguns personagens e é uma denúncia. Para Vianinha, Chapetuba discute, sobretudo, a traição.

Chapetuba Futebol Clube estreou no Teatro de Arena de São Paulo em 17 de março de 1959, sob a direção de Augusto Boal, com o seguinte elenco por ordem de entrada: Nelson Xavier, Flávio Migliaccio, Francisco de Assis, Xandó Batista, Joel Barcellos, Dirce Migliaccio, José Renato, Milton Gonçalves, Oduvaldo Vianna Filho e Sérgio Belmonte. 

Colaboração musical de Francisco de Assis, produção de Henrique César e direção de cena de Orion de Carvalho.

Escrita em 1959,Chapetuba Futebol Clube foi transformada em fotonovela pela revista Placar, em 1976 (imagem ao lado). A revista da Editora Abril, publicou nos números 309 a 312, de 12 de março a 2 de abril de 1976, uma adaptação da peça, em forma de fotonovela, feita por Aguinaldo Silva, tendo o ator Paulo José no papel de Maranhão, o principal personagem da peça teatral de vianninha.








José Renato, no cenário da remontagem de Chapetuba.




Com a reinauguração, em outubro de 2008, do Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo, por seu antigo criador, José Renato, Chapetuba Futebol Clube foi a peça escolhida pelo famoso diretor para a estréia no revolucionário teatro, numa homenagem ao não menos famoso autor Oduvaldo Vianna Filho.
Clique no link abaixo para acessar reportagem do programa Metrópolis, sobre o relançamento de Chapetuba, em 2009.

E para finalizar, poucos devem saber que Sócrates, craque e ídolo do futebol mundial que morreu  em 2011, tinha como um de seus sonhos e projetos protagonizar a peça histórica. Em junho de 2010 ele disse ao jornal O Estado de S. Paulo: “Estou com duas coisas previstas: quero escrever um livro de ficção, em parceria com outros autores, sobre a Copa do Mundo de 2014 e montar com o pessoal do Cauim a peça Chapetuba Futebol Clube, do Oduvaldo Vianna Filho. E eu estarei lá, como ator. Quero experimentar. Nunca atuei no palco. Só tive uma participação em Boleiros 2, do Ugo Giorgetti. E gostei.”

Sócrates, o “filósofo” do futebol brasileiro, não teve tempo de realizar o sonho. As palavras do crítico de teatro Sábato Magaldi, em seu livro “Um palco brasileiro: O Arena em São Paulo”, talvez expliquem o desejo de Sócrates encenar a peça: "Chapetuba F. C. examina, por dentro, o mecanismo do esporte, engastando-o no quadro amplo da realidade social, que o condiciona e sem dúvida lhe determina as características. O texto transcende, neste caminho, as fronteiras da tipificação de um grupo humano, para situar-se como estudo de indivíduos de uma classe desfavorecida, em face da ordem social injusta. Os vários jogadores, sem serem abstrações, simbolizam as diversas fases de uma evolução, em que lutam desesperadamente por sobreviver. E sabe-se, com certeza, que o tempo os esmagará"

Para saber mais sobre Vianinha, acessar:

2 comentários:

  1. Valeu pela lembrança ao nosso trabalho. Muito obrigada. Fiquei muito feliz. Só uma correção: fui atriz, produtora e autora (junto com Renata Pallottini) da peça NOS CAMPOS DE PIRATININGA. A direção foi de Imara Reis, que também dirigiu nossa primeira peça sobre futebol NOSSA VIDA É UMA BOLA , assistida algumas vezes pelo nosso querido e saudoso Sócrates. Agora (setembro de 2014), estou em cartaz com uma peça do Vianinha : OS AZEREDOS MAIS OS BENEVIDES, direção do João das Neves, no Teatro Denoy de Oliveira ( Rua Rui Barbosa, 323) . Venha nos ver. Você é meu convidado . Graça Berman

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  2. Belo texto . Muito obrigada pela menção ao nosso trabalho . Só uma correção : fui atriz e autora ( junto com RENATA PALLOTTINI) da peça NOS CAMPOS DE PIRATININGA. A direção foi de IMARA REIS , que também dirigiu nossa primeira montagem sobre futebol NOSSA VIDA É UMA BOLA, peça que o nosso saudoso Sócrates assistiu algumas vezes e participou dos bate-papos posteriores às sessões .Atualmente (setembro de 2014), sou atriz de uma peça do Vianinha : OS AZEREDOS MAIS OS BENEVIDES, direção do JOÃO DAS NEVES, em cartaz no TEATRO DENOY DE OLIVEIRA , na Rua Rui Barbosa, 323. Não é sobre futebol, mas tem o mesmo brilhantismo dramatúrgico do Vianinha , com seus personagens contraditórios e dilacerados em termos éticos e humanos. Venha nos ver. Você é meu convidado. Graça Berman

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