sexta-feira, 9 de março de 2012

Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta

Sérgio Porto

Seu apelido parecia revelar a paixão por um clube brasileiro, mas como tudo que ele escrevia sempre era carregado do bom humor, até no pseudônimo que o consagrou, Stanislaw Ponte Preta, ele foi inovador. Nada melhor do que o próprio Sérgio Porto com a irreverência que lhe era peculiar apresentar-se aqui:

"ATIVIDADE PROFISSIONAL: Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário.

OUTRAS ATIVIDADES: Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos), ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos.

PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES: Mulher.

QUALIDADES PARADOXAIS: Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.

PONTOS VULNERÁVEIS: Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira.

ÓDIOS INCONFESSOS: Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista.

PANACÉIAS CASEIRAS: Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina.

SUPERTIÇÕES INVENCÍVEIS: Nenhuma, a não ser em véspera de decisão de Copa do Mundo. Nessas ocasiões comparativamente qualquer pai-de-santo é um simples cético.

TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS: Passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não tão boa quanto pensa.

MEDOS ABSURDOS: Qualquer inseto taludinho (de barata pra cima).

ORGULHO SECRETO: Faz ovo estrelado como Pelé faz gol. Aliás, é um bom cozinheiro no setor mais difícil da culinária: o trivial.

Assinado,  Sérgio Porto, agosto de 1963."

Sérgio Porto, além de todas essas autodefinições, era apaixonado pelo tema futebol. Se na literatura geral criou o famoso “Febeapá” (Festival de Besteiras de Assolam o País), no futebol escreveu crônicas fantásticas que faziam qualquer um sorrir. Futebol, para ele, não era só tema para escrever, pois adorava jogar sem se importar com o lugar, no campo de terra ou grama, na areia ou até na mesa de futebol de botão. Foi goleiro nas peladas que tanto jogou com os amigos no Rio de Janeiro. Nas arquibancadas torcia para o Fluminense. Para a literatura esportiva deixou verdadeiras pérolas reunidas no livro “Bola na rede: a batalha do bi” (Civilização Brasileira, 1993), uma coletânea de crônicas sobre a Copa do Mundo de 1962.

Sérgio Porto ou Stanislaw Ponte Preta foi um frasista de mão cheia. Com o humor e a sátira, gostava de fazer comparações exageradas utilizando o futebol: “"mais inchada que cabeça de botafoguense", "mais suado que o marcador do Pelé" e ainda “estava tão mal que mais parecia reserva do Bonsucesso”.

Antes de apresentarmos duas verdadeiras preciosidades deixadas por Sérgio Porto para a literatura esportiva, precisamos responder se Stanislaw Ponte Preta, afinal, era ou não torcedor do clube de Campinas, interior de São Paulo. E a resposta é não.  Sérgio Porto, para ironizar os cronistas sociais de sua época criou o personagem Stanislaw Ponte Preta inspirado em outro famoso personagem da literatura, Serafim Ponte Grande, do romance de mesmo nome escrito por Oswald de Andrade.

O primeiro texto faz parte do livro “O Mundo é Uma Bola – crônicas, futebol & humor (Editora Ática, 2006):

“Londres, 63 – É viajando que a gente aprende a quebrar galho. Ai dos tímidos que enveredam pelos caminhos do mundo! Morrerão de fome, serão roubados, cairão no esquecimento, perderão sempre as oportunidades da vida, ficarão, enfim, à margem dos acontecimentos, nos subúrbios dos episódios. Viajando, a gente se descobre um nunca sonhado poliglota, enfrenta as mais complicadas situações, vence a má vontade do próximo com energia insuspeitadas e aprende a desprezar as gentilezas interesseiras que um pudor de ofensa, antes, nos impedia de dar a chamada bronca.

E, nisto de quebrar galho, o pequenino Colella, que os franceses chamaram de Monsieur Colellê e Monsieur Colellê ficou, pelo menos durante esta nossa viração pela Europa, tem um apetite digno de lenhador canadense. Não há galho que Monsieur Colellê não quebre.

Veio a Europa adido a delegação de futebol, em respeito a uma lei, não sei se do Conselho Nacional dos Desportos, que obriga cada delegação esportiva que sai do país a levar consigo um jornalista. Esta delegação trouxe Monsieur Colellê, e o coitado se vira em cada cidade a que chega, fale-se nessa cidade francês ou flamengo, alemão ou inglês. Monsieur Colellê não é bom nem em português, mas tira de letra.

Na hora de se entender com os guardas da alfândega, no momento de explicar a um policial determinado mal-entendido, quem vai é Monsieur Colellê, baixinho, de perninhas em arco, uma malandragem toda brasileira na ginga do andar; é de vê-lo, perdido no meio daqueles homens imensos, cheios de má vontade.
Eu disse perdido? Perdão, estou me expressando mal. Monsieu Colellê não se perde nunca. Segura o guarda pelo braço e vai tacando:

- Escuta, Monsenhor (Monseiur pra ele é Monsenhor). Je suis aqui whit the brazilian delegationne, capito? Se não capito je expliquê…

Usa muito acento circunflexo. Monsieur Colellê. Em Hamburgo, vínhamos num táxi, e o frio que entrava pela janela do motorista fazia todo mundo tiritar no carro. Vários tentaram explicar, ora num inglês razoável, ora num francês mais ou menos, que era preciso fechar a janela. Mas o motorista era alemão: e alemão quando não entende, eu vou te contar. Pois, ainda dessa vez, foi Monsieur Colellê quem resolveu a questão. Como foi que motorista entendeu eu não sei. Só sei que ele virou-se para o homem e falou, em tom enérgico:

- Fechê le vidrê si vu plê...

E o motorista fechou.

Na hora de os jornalistas receberem credenciais para os jogos, há sempre um quiproquó. Os estrangeiros não entendem como pode viajar tanto jornalista brasileiro junto a uma delegação de futebol. Principalmente não entendem como é que um país tão pobre como o Brasil consegue mandar mais de um jornalista de um mesmo jornal. Eu também não entendo – diga-se de passagem -, mas Monsieur Colellê entende e é o quanto basta. Se os representantes da federação visitante começam a engrossar e a colocar dificuldades para a entrega de credenciais, ele vai lá, faz gestos de índio de fita em série, mistura palavras mal pronunciadas de três ou quatro idiomas e traz uma credencial para cada um, com a tranquilidade dos simples.

Foi aqui em Londres que Monsieur Colellê entrou num táxi que já estava ocupado, embora o passageiro não estivesse dentro dele. O motorista engrossou, chamou o guarda, e Monsieur Colellê saltou para explicar:

- Pas de pobrema – dizia ele. – Pas de pobrema.

E quando o guarda pediu-lhe que falasse inglês, advertiu-o: - E eu tô falando que língua, sua besta?

Os jogadores do Brasil também aprenderam a pedir a ajuda de Monsieur Colellê, quando não conseguem fazer-se entender. Em Bruxelas, cansados de comer carne de carneiro, no hotel em que estavam hospedados, alguns jogadores pediram a Monsieur Colellê para explicar ao
 maitre-d’hôtel que queriam carne de vaca: já não aguentavam carneiro.

O próprio Monsieur Colellê me explicou a maneira pela qual se fez entender. Chamou o
 maitre e castigou:

Le pessoal dont wont mais méééééé... Le pessoal quer muuuuuuuu!!!

O
 maitre entendeu direitinho.”

A segunda pérola deixada por Sérgio Porto encontramos no livro “Gol de Padre e Outras Crônicas”(Editora ática 6ª edição, 2000)

Gol de padre

Da janela eu vejo os garotos no pátio do colégio durante o recreio. Sempre me dá uma certa saudade, porque eu já fui menino. Aliás, embora pareça incrível, até mesmo as mais importantes pessoas do nosso país já foram crianças. O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente, quando a gente fica adulta. Pobre daquele que abdicar completamente de gostos infantis. Ficará velho muito mais depressa. O menino que a pessoa conversa em si é um obstáculo no caminho da velhice.

Sérgio Porto e as filhas.
Dizem até que é por isso que os chineses, de incontestável sabedoria, conservam a hábito de soltar pipas mesmo depois de homens feitos. Não sei se é verdade. Nunca fui chinês.

Mas, quando começa o recreio no colégio, da minha janela vejo o pátio e, quando a campainha toca, para o intervalo das aulas, paro de trabalhar e fico na janela, como se estivesse no recreio também.

Agora mesmo os meninos estão lá, saindo de todas as portas para o meio do pátio, onde um padre, com uma bola de futebol novinha debaixo do braço, escolhe os times para um jogo de futebol. Os garotos reclamam esta ou aquela escolha, mas o padre deve ter fama de zangado, pois basta alguém reclamar, que ele, com um simples olhar, cala o reclamante e continua a escola dizendo “você, do lado de cá; você ai, para o lado de lá” vai ordenando o austero sacerdote.

Quando os times já estão formados, ele vai até o meio do pátio, onde seria o meio do campo, se ali houvesse um campo demarcado, coloca a bola no chão e supervisiona um “par ou impar” entre os dois centroavantes. O vencedor dará a saída.

Ministro de Deus deve ser às paixões clubísticas e vejo que padre apitar o jogo com tal precisão e com tamanha autoridade que fico a imaginar: um padre, em dia de decisão de campeonato, pode perfeitamente resolver o problema sempre premente da arbitragem.

Um garoto pegou a bola em situação de impedimento clamoroso, como dizem os locutores esportivos. O padre apita, mas o garoto finge que não ouve, foge pelo centro e emenda um bico, que passa pelos defensores e vai para o fundo das redes imaginárias. Todo o time do goleador grita e corre para abraçar o companheiro. O padre, implacável, está apontando para o local onde o jogador pegou a bola em impedimento. Este juiz é fogo, expulsou o que fizera o gol, por não ter respeitado o seu apito, e expulsou outro do mesmo time, porque reclamara contra a sua decisão. Depois olha em volta, vê dois garotos sentados num banquinho, lá atrás, e chama-os para substituir os indisciplinados. Os dois corem felizes para preencher as vagas. Sua Senhoria dá nova saída e prossegue a pelada.

Futebol de garoto é muito mais de ataque do que de defesa. Os técnicos do nosso futebol, que tanto têm contribuído para enfear o espetáculo do esporte do século, armando mais as defesas do que os ataques, na ânsia de não perder o emprego diante de uma goleada adversária, podiam aprender muito com o futebol de garoto. O principal é marcar mais gols, e não como querem os ditos técnicos, sofrer menos gols.

Baseados nesta verdade nascida com o próprio futebol, o escore no jogo dos garotos, neste momento, é de 14 a 12. E ai vem mais gol. O padre acaba de marcar um pênalti contra o time do lado de lá. Um garoto da defesa segurou outro garoto do ataque adversário e tirou lhe a camisa para fora das calças, sob estrepitosa gargalhada de todo o recreio, menos do padre. Este deu o pênalti, mas com a cara amarrada que vinha conservando até ali.

Bola na marca, camisa pra dentro das calças outra vez, o garoto que sofrera a falta correu e diminuiu a diferença. Agora está em 14 a 13, mas não há tempo para o empate. A campainha soa estridente no pátio do colégio e o “juiz” da por encerrado o tempo regulamentar, com a vitória do time do lado de cá.

Pouco a pouco os meninos vão retornando para suas salas, pelas mesmas portas por onde saíram. O padre ficou sozinho no pátio. Caminhou até a bola e colocou-a outra vez debaixo do braço, sempre com um ar sério e compenetrado. Eu já estava a pensar que ele era desses que deixaram de ser meninos para sempre, quando ele me surpreende.

Olha para os lados, certifica-se de que está sozinho no recreio e então joga a bola para o ar, controla no peito e deixa a bichinha rolar para o chão. Levanta a batina e sai veloz pela ponta, driblando um zagueiro imaginário e, na corrida, emenda no canto, inaugurando o marcador.

Só faltou, ao baixar novamente a batina, voltar correndo para o meio do campo, com os braços levantados a gritar gooooool...”

Diferente do que tradicionalmente o Literatura na Arquibancada faz ao final de seus artigos sempre recomendando um link para sabermos mais sobre o personagem a que se refere o artigo publicado, dessa vez reproduzimos abaixo um texto feito pelo cronista mineiro Paulo Mendes Campos. De nada vale as tantas citações ao nome de Sérgio Porto quando se lê a crônica publicada no livro de Paulo Mendes Campos, “O anjo bêbado” (Editora do Autor, 1969). O texto escrito sob a forte dor pelo falecimento do amigo é revelador da verdadeira alma do inesquecível Stanislaw Ponte Preta, ou melhor, Sérgio Porto. 


SÉRGIO E STANISLAW PONTE PRETA
Por Paulo Mendes Campos

Em pé, da esquerda para a direita: Paulo Mendes Campos e
Sérgio Porto. Sentados: Rubem Braga (no primeiro plano),
José Carlos Oliveira, Vinicius de Moraes (ao lado de Rubem
Braga) e Fernando Sabino.
“O diabo o é que todo mundo pensa que sou um cínico; ninguém acredita que sou um sentimentalão que não agüenta uma gata pelo rabo.

Sérgio me dizia isso a milhares de metros de altitude, copo de uísque na mão, rumo a Buenos Aires. Ao saber que eu tinha resolvido assistir ao jogo Brasil e Uruguai, no Campeonato Pan-Americano de 1959, veio procurar-me com uma ansiedade incomum: precisava afastar-se do Rio de qualquer jeito, me disse, tinha decisivos assuntos íntimos sobre os quais queria pensar.
Sendo assim, por que ir a Buenos Aires? Não fiz a pergunta por entendê-lo: Sérgio possuía o talento de viver em diversas faixas ao mesmo tempo; Buenos Aires lhe calhava numa instância de decisões pessoais porque o recolhimento do hotel se somava aos benefícios do torneio de futebol, da companhia dos amigos, das anedotas jornalísticas e até mesmo dos restaurantes portenhos.

Já dentro do avião, nessa ou em qualquer outra viagem, desligado de suas duras obrigações, transformava-se: mesmo roído por dentro, a gratuidade do instante era boa demais para não ser aproveitada. Sempre que uma aeromoça lhe perguntava se queria um sanduíche ou um refrigerante, respondia alegremente com uma frase que ouviu de Billy Blanco: "Quero tudo a que eu tenha direito." E era verdade.

Na chegada a Buenos Aires, houve uma dessas súbitas situações cômicas criadas por aquele homem carregado de conflitos: avião estacionado, entrou nele um médico da saúde pública, um homem ruivo e bastante calvo. Pedindo aos passageiros que exibissem o atestado de vacina, o médico estendeu a mão para Sérgio, ao mesmo tempo que dizia em tom cavo e impessoal: "Vacunación, señor." Como se estivesse recebendo um cumprimento de boas-vindas, Stanislaw (aí era ele), muito grave, apertou a mão do médico, falando claro e efusivo: "Vacunación para usted también?" O médico, rubro de indignação, expulsou-nos do avião, sem mais exigir o documento sanitário e, enquanto eu explodia de rir, ele sussurrava-me entre os dentes: "Agüenta a mão, se não a gente acaba em cana."

O dom mais surpreendente de Sérgio era esse trânsito livre entre as manifestações da vida. Ainda no dia de nossa chegada a Buenos Aires, eu o veria em atitudes múltiplas: durante o jogo dramático entre o Brasil e o Uruguai (o três a um da briga), ele deu um empurrão nos peitos dum argentino que insultava os brasileiros, chorou quando Paulo Valentim fez o terceiro gol, riu-se às gargalhadas quando o Garrincha passou indiferente entre uruguaios e entrou no ônibus com um sanduíche enorme na boca e outro na mão; e ainda conversou longamente comigo sobre suas aflições, depois de cear com entusiasmo.

Quando acordei, ele já andava pelo saguão, depois de ler os jornais todos, à cata de histórias do Mendonça Falcão - a máquina já destampada no quarto.

Fiquei seu amigo há mais de vinte anos, quando ele escrevia crônicas de música popular para a revista Sombra. Bonito, forte, elegante, inteligente, alegre, simpático - era um privilegiado sem ostentação. Só lhe faltava o dinheiro, como de resto ao grupo todo: mesmo mal pagos, tínhamos de aceitar as ofertas que a imprensa nos fazia como um favor, bicando aqui e ali, sofrendo na carne os atrasos do caixa, brigando pelo dinheirinho de cada dia. Mas o clima não era de miséria nem de tristeza: bebíamos crepuscularmente nosso uísque escocês no Pardellas da Rua México, dançávamos no Vogue, andávamos de táxi. Já que o dinheiro era pouco, o jeito era  gastá-lo no essencial: o apartamento próprio que esperasse.

Eustáquio Duarte, Lúcio Rangel, Luís Jardim, Cássio Fonseca, Jarbas Duarte eram diariamente pontuais no Pardellas; Zé Lins do Rego, Rosário Fusco, Santa Rosa, Jaime Adour da Câmara, Flávio de Aquino, Simeão Leal, Luis Santa Cruz e outros apareciam com freqüência. O jazz negro era o nosso alimento: Sérgio e seu tio Lúcio Rangel ensinaram ao resto da turma o que era puro nesse setor e o que se contaminara.

Por um momento, numa fase financeira mais dura, quase o acompanhei num gesto até certo ponto desesperado: o de escrever programas de rádio. Para ele foi o início duma vida de sucesso profissional e cruel desgaste físico. Na imprensa, no rádio e na televisão do Brasil a ascensão se confunde com a queda. Sucesso nesse terreno não é poder trabalhar menos e ganhar o suficiente: é trabalhar sempre mais. Vitorioso no Brasil é o jornalista que sempre encontra mercado de trabalho; e não preços mais altos. Só chega ao chamado certo nível de vida somando diversas atividades corrosivas.

O humorista começou a surgir no semanário Comício, excelente escola de descontração do estilo jornalístico, dirigido por Rubem Braga, e Joel Silveira, onde escreviam ainda Clarice Lispector, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Rafael Correia de Oliveira, Carlos Castelo Branco, Edmar Morel, onde também apareceram as primeiras crônicas de Antônio Maria e as primeiras reportagens de Pedro Gomes.

Digo o humorista profissional, porque o da convivência com os amigos vinha do tempo das peladas em Copacabana: Sandro Moreira, João Saldanha, Mauricinho Porto, George Rangel, Máriozinho de Oliveira, Carlos Peixoto e Carlinhos Niemeyer são alguns que se lembram das histórias engraçadas de Sérgio, o Bolão.

Sua vivacidade era tão instantânea que sempre a aceitei com naturalidade. Espantava-me, isto sim, seu discernimento, agudo, preciso, a respeito de tudo: uma canção, um cantor, um vestido, um quadro, uma atmosfera, uma situação complicada. Dizia em cima a palavra exata, a observação certa, o julgamento justo.

O contraditório é que pudesse fazer humorismo uma pessoa que possuía tanto senso das proporções e da verdade escondida. Seu humorismo, bem reparado, não era o usual, pelo contrário, ele fazia humor sem caricaturar o assunto. Bernard Shaw, quando queria fazer graça, dizia a verdade. Ele também fez graça falando verdades, descobrindo verdades, tendo a coragem de ser odiado por dizê-las.

Como todo homem de sensibilidade, precisava de amigos e afeto; mas desprezava os mesquinhos, os medíocres, os debilóides, os cretinos.

Seu gosto era certo. Amava os livros e os discos, milhares de discos, discos que ouvia às vezes enquanto trabalhava, atendendo ao telefone a todo instante, recebendo amigos, contando piadas, e continuando a batucar na máquina, insistindo para que o visitante ficasse, sob a afirmação (verdadeira) de que estava acostumado a escrever no meio da maior confusão.

Eu, que apesar de tarimbado, já começo a ficar afobado no fim deste mal enramado artigo, com a redação querendo saber se já pode mandar buscá-lo, lembro a tranqüilidade de Sérgio no meio do caos, e não entendo o segredo que o dotou ao mesmo tempo de extraordinária capacidade de trabalho e da calma que deve ser a dos monges tibetanos.

De que morreu Sérgio Porto? Do coração e do trabalho.

No fim do ano passado, nas vésperas de Natal, estivemos juntos em Brasília: ele se lamentou o tempo todo no dia da volta, dizendo que ficaria ali, na ociosidade do hotel, por um tempo indeterminado. Foi difícil arrancá-lo da cama ao anoitecer. Este ano viajamos novamente juntos para São Paulo e Belo Horizonte. Foi a mesma coisa. Queria descansar, transfigurando-se no repouso, encarando com horror as atividades que o esperavam no Rio.

Na nossa última noite em Belo Horizonte, ele, Fernando, Rubem, Gérson Sabino e eu jantamos num restaurante muito bonito, que tinha de tudo, menos comida mineira. Sérgio reclamou tristemente durante todo o jantar. Queria arroz, feijão, couve, lingüiça.

Não sei por que essa lembrança me comove e serve para fechar esta página que eu não queria triste. Que a tristeza fique conosco, os amigos que o amavam”.

Um comentário:

  1. Ainda hoje, lendo as inúmeras denúncias de desvio de verbas, corrupção, etc. etc, veio-me à mente a expressão cunhada por Sergio Porto ~ festival de besteiras que assola o país. Que rico material ele teria para suas crônicas! Porque é assim mesmo que eu estou vendo os fatos e quisera ter a verve humorística, satírica e crítica do Lalau para sair por aí deitando falação sobre esta desgraça sem nome que tomou conta do Brasil. Que saudade de você, Sergio Porto!

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