quinta-feira, 8 de março de 2012

A seleção imbatível do "prof." Torero


Ele deve estar agora feliz da vida com a vitória e a exibição magistral do craque menino Neymar contra o Internacional pela Libertadores. José Roberto Torero, santista “daqueles”, é um dos maiores cronistas da literatura esportiva brasileira. Utilizando analogias que ele é mestre em fazer, Literatura na Arquibancada sugere que Torero, no futebol, seria aquele jogador que todo técnico gosta de ter em campo: um polivalente. Joga em todas e muito bem. É escritor, cineasta, roteirista, jornalista e colunista de jornal. Corre 90 minutos e se precisar, mais 30 de prorrogação e não vai errar o pênalti se for escalado para bater.

Torero é autor de “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti, de 1995. Escreveu diversos roteiros para o cinema e a tevê, como “Retrato Falado”, da Rede Globo. Também é blogueiro, no portal UOL onde mantém o http://blogdotorero.blogosfera.uol.com.br/

Mas criou também um personagem inesquecível: o Blog do Lelê (http://blogdolele.blog.uol.com.br/), um sobrinho fictício criado a partir da Copa do Mundo de 2006. Os dois blogs merecem estar na lista de favoritos de qualquer apaixonado pelo esporte brasileiro. Leitura fácil, inteligente e bem-humorada. E o que é melhor, para todos os públicos, dos marmanjos aos pequenos...

Na literatura esportiva, Torero é autor de vários livros e mais uma infindável lista de crônicas, contos e textos sobre o futebol. 

Entre os vários livros, evidentemente, o Santos Futebol Clube é destaque: “Santos, um time dos céus” (com Marcus Aurelius Pimenta), “Futebol é bom pra cachorro” (com Marcus Aurelius Pimenta), “Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso”, “Dicionário Santista”, “Uma história de futebol” e “Pelé 70” .

Difícil foi escolher um texto na vasta obra de Torero para homenageá-lo neste humilde espaço da literatura esportiva brasileira. 

Mas como é tradição reverenciarmos os grandes nomes da literatura brasileira que já escreveram sobre o tema futebol, destacamos a “seleção da literatura brasileira” escalada por Torero.






DIZE-ME QUEM ESCALAS QUE TE DIREI QUEM ÉS
Por José Roberto Torero

A seleção de cada torcedor funciona como uma espécie de espelho.

Dorval, Meng[alvio, Coutinho, Pelé e Pepe,
a mais perfeita 
rima  da literatura esportiva mundial. 
Assim, se ele escolhe um meio-campo formado por Dunga, Galeano, Mauro Silva e César Sampaio, fica evidente que se trata de um precavido, talvez até de um covarde. Por outro lado, se propõe um ataque com Rivaldo, Ronaldinho e Romário, estamos na frente de um ousado, de um destemido. Se a linha é Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, falamos com um saudosista, e se a defesa conta com Carlos Alberto, Figueroa, Domingos da Guia e Nilton Santos, estamos ao lado de um amante dos clássicos.

Convencido de que escalar uma seleção seria a forma ideal de me apresentar ao leitor, pus o cérebro para trabalhar e escolhi meus onze jogadores preferidos:

Goleiro: Drummond
Um grande time começa por um grande goleiro. 

Drummond nasceu em Itabira, mas atuou longo tempo no Rio de Janeiro. 

Ele traz segurança e tranqüilidade para o resto da equipe. 

É elástico e seguro, dono de um estilo que marcou época e fez seguidores.

Lateral direito: Bandeira
O pernambucano merece a posição apesar dos problemas respiratórios. 

Lateral direito de inegável leveza, caracteriza-se por criar jogadas aparentemente simples, mas que só parecem tão simples porque ele faz um complexo trabalho para descomplicá-las.

Zagueiro central: Érico
Central tem que ser gaúcho. Érico, além de ter nascido em Cruz Alta, é um beque polivalente: joga com qualquer tempo – e vento. 

Pode atuar com aspereza e rudeza, ou sair jogando com maleabilidade e graça. Assim como outro central, Domingos da Guia, também possui um filho de inegável talento.

Quarto zagueiro: Nelson Rodrigues
Essa é uma posição onde é proibido ter falsos pudores; tem que se chutar a bola para a arquibancada e, se preciso for, deixar o inimigo estatelado no chão com fratura exposta. 
É o caso de Rodrigues, um jogador de moral polêmica. Alguns críticos mais ácidos dizem que ele cai muito pela direita, mas trata-se de um defeito menor que suas qualidades.

Lateral-esquerdo: Vieira
Começou a carreira timidamente, mas um dia teve um estalo e passou a jogar como que inspirado pela luz divina. 

Seu estilo é lógico, mas também grandiloqüente. 

Às vezes traça caminhos tortuosos, mas sempre chega ao seu objetivo. 

De todos os convocados, é o único atleta de Cristo.

Médio-volante: Gregório
Um bom cabeça-de-área tem que saber xingar a mãe do adversário de doze formas diferentes. Gregório conhece 118. Não é à toa que o apelidaram de Boca do Inferno. Perguntado sobre as violentas faltas que comete, diz que são para a glória de Deus, pois, “quanto maior o meu pecar, maior a graça d’Ele em perdoar”. Não raro, elabora firulas e gongorismos que surpreendem a torcida.

Meia-direita: Mário
Um ponta-de-lança tem que ser ao mesmo tempo clássico e inovador. 

Mário consegue as duas coisas: sabe estudar o jogo e inventar lances com a mesma competência. 

Pode-se dizer que é um clássico de vanguarda.

Meia-esquerda: Machado
A nobre camisa dez não poderia ser vestida por outro. 

Excelente nos lançamentos em profundidade, é um especialista nos dribles sutis e no toque refinado. 

Estranhamente, está sempre com um riso nos lábios. 

Não se sabe, contudo, se ri dos inimigos, de si mesmo ou do público.

Ponta-direita: Guimarães
É um inventor. 

Guimarães cria dribles e ziguezagueia pelos campos gerais como ninguém. 

Seus lances são inesperados, como se ele sempre tivesse que criar um caminho próprio. 

Aprendeu tudo que sabe na várzea, mas seu jogo é universal.

Centroavante: Oswald
Um centroavante deve ser imprevisível, e imprevisibilidade é a única coisa previsível em Oswald. 

Seu jogo é feito de toques curtos e dribles em pequenos espaços. 

Tem um temperamento difícil e costuma polemizar com os adversários. 

É um típico rompedor.

Ponta-esquerda: Graciliano
Vindo de Quebrângulo, Alagoas, este extrema-esquerda é dono de um estilo duro, sisudo e seco. 

O torcedor sempre pode esperar dele um jogo consistente e seguro. 

Odeia concentrações e pretende escrever um livro de memórias condenando essa prática. 


Obs.: Obviamente esta seleção de imortais conta apenas com jogadores defuntos, o que deixou de fora vários nomes. Em meu banco de reservas estão Veríssimo, Ubaldo, Millôr e Fonseca. São grandes atletas, mas desconfio que não têm muita pressa em entrar nesse time.

Fonte:
“Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso” (Editora Objetiva, 2001, p. 9-12)

Nota do Literatura na Arquibancada:
Para aqueles que ainda não conhecem os autores citados por Torero, aí vai a relação com os nomes completos no respectivo sistema “tático” do “professor” Torero, um time imbatível, idêntico ao Santos de Pelé e Cia:
Carlos Drummond de Andrade

Manuel Bandeira, Érico Veríssimo, Nelson Rodrigues e Padre Antonio Vieira,

Gregório de Matos, Mário de Andrade e Machado de Assis,

Guimarães Rosa, Oswald de Andrade e Graciliano Ramos.   

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