segunda-feira, 12 de março de 2012

Ricardo Teixeira: a outra face do jogo


O noticiário esportivo e mundial está entupido pelas manchetes sobre a renúncia de Ricardo Teixeira do cargo de presidente da CBF e do comitê organizador da Copa 2014. Aqui, no Literatura na Arquibancada trazemos trecho da obra de um dos que ajudaram substancialmente para este fim do cartola brasileiro.

Em 1998, o jornalista inglês David Yallop, um dos mais respeitados jornalistas investigativos do mundo, escreveu um dos mais polêmicos livros da literatura esportiva mundial: “Como eles roubaram o jogo – Segredos dos subterrâneos da Fifa”. No Brasil, a obra foi publicada pela editora Record. Yallop joga toneladas de lama no ventilador.

O livro tem o foco maior no ex-presidente da Fifa, João Havelange, mas Yallop também investiga os passos do ex-genro do todo-poderoso do futebol mundial. Três anos depois, Ricardo Teixeira estava na mira dos refletores mundiais quando estouraram as CPIs, no Brasil e mais tarde com os escândalos financeiros em que estaria envolvido. Era o começo da queda de Teixeira. Impensável para a maioria, mas, agora, fato consumado.


David Yallop
O que se lê abaixo não é nem sombra do que vários jornalistas brasileiros e estrangeiros denunciaram sobre os desmandos e corrupção envolvendo o nome de Ricardo Teixeira, mas serve para termos noção de algumas das práticas comuns do cartola nos bastidores, ou melhor, nos subterrâneos, como o próprio livro de Yallop diz.

“O que se segue não pretende ser um estudo completo, seja da história do futebol no Brasil seja um exame de tudo que aflige o jogo nesse país, mas apenas uma série de instantâneos. O futebol brasileiro apresenta duas faces. A primeira, que o mundo conhece bem, é a seleção nacional. Como este livro já deixou consignado, sucessivas gerações de equipes nacionais subiram aos próprios cumes do futebol. Tão bem-sucedida foi a seleção nacional no passado que conquistou definitivamente a Taça Jules Rimet e uma nova Copa do Mundo teve de ser criada. O pulso sempre bateu mais forte e a expectativa subiu de nível quando os homens uniformizados de verde-amarelo estavam em campo. Esses homens emprestaram graça ao jogo e, em certas ocasiões, elevaram-no a um estágio de pura beleza. Mas há também a outra face do jogo desses rapazes. A realidade dentro do país.

O troféu Jules Rimet, que Pelé e a seleção de 1970 tão orgulhosamente trouxeram do México para ficar permanentemente no Brasil, foi, mais tarde, roubado da sede da CBF. Um ato simultaneamente irônico e apropriado. Roubado do prédio onde inicialmente Havelange e, mais tarde, Teixeira desempenharam papéis tão importantes, para roubar o próprio jogo.

Foram muitos os que repetiram para mim as palavras de Guido Tognoni: “O talento mais notável de Ricardo Teixeira consiste no fato de ele ser genro de Havelange”. Na verdade, Ricardo Teixeira e Lúcia estão divorciados, mas são inquebráveis os laços que unem Havelange e o genro. Ricardo – um estudante de Direito medíocre, com uma história de fracassos em atividades empresariais quando casou com Lúcia – conseguiu, sob a orientação de seu patrono, sucesso cada vez maior e, atualmente, é dono de uma riqueza tão grande, que vive agora constantemente envolvido em processos judiciais movidos contra ele pelo Departamento de Receita Federal e pelo Ministério da Justiça.

É acusado de sonegação fiscal de centenas de milhares de dólares. A CBF, que ele controla, está também em litígio constante com as autoridades fiscais por sonegação e, mais uma vez, de somas de muitas centenas de milhares de dólares.

Uma situação semelhante, envolvendo qualquer outro presidente de associação de futebol, faria com que os clubes associados procurassem um novo chefe. Mas também o que seria inacreditável, digamos, no futebol europeu é conduta normal no Brasil. Teixeira disse, e isso consta de documentos, o seguinte quando reconheceu a dívida que tinha com o sogro:

– Ele me ensinou tudo que sei sobre futebol.

Tendo em vista o fato de que, quando Havelange foi substituído na CBF, descobriu-se um rombo de muitos milhões de dólares, pareceria que ele foi também responsável pelo treinamento do genro em contabilidade e administração de contas. Sua mão pode ser certamente identificada na arte da persuasão suave praticada por Teixeira.

Na preparação para a Copa do Mundo 94 nos Estados Unidos, o Brasil, como todos os outros países, excetuados o anfitrião e o campeão na época, a Alemanha, tinha que disputar eliminatórias. E, como acontecia com todas as demais nações, isso implicava jogar uma série de partidas no país e no exterior. Mas, ao contrário de todos os demais países que disputavam uma vaga, Teixeira “arranjou” para o Brasil não alternar o mando de campo.

O Brasil, como em todas as eliminatórias em que participou anteriormente, disputaria as partidas de volta em casa. Desta vez, jogaria uma série de partidas no exterior contra o Equador, a Bolívia, a Venezuela e o Uruguai. Em seguida, jogaria quatro partidas, uma após outra, no Brasil. O que Teixeira teria pagado às respectivas associações para garantir que o Brasil obtivesse uma vantagem tão grande assim não é sabido. E que ele realmente pagou pode ser razoavelmente deduzido do que aconteceu.

O primeiro jogo foi contra o Equador, no dia 18 de julho de 1993. O jogo deveria ter sido disputado na capital, Quito – o que seria um teste de grande altitude para os brasileiros visitantes. Teixeira começou a trabalhar.

Conversando com o presidente da Associação Equatoriana de Futebol, disse:
– Como sabe, o senhor conseguiria um número muito maior de espectadores se o jogo fosse realizado em Guaiaquil. O estádio de lá tem capacidade para um número muito maior de espectadores.

O presidente da associação equatoriana pensou por um momento.
– Não. Eu gostaria que nossa seleção jogasse aqui mesmo em Quito. À parte tudo mais, nossos jogadores estão acostumados à altitude.

Ambos sabiam com grande exatidão qual era o verdadeiro tema dessa conversa. Ricardo Teixeira exaltou as virtudes da cidade portuária de Guaiaquil durante algum tempo, sem sucesso, e, em seguida, serviu-se de outro uísque.
– Escute aqui, eu preciso realmente de sua cooperação neste assunto. Eu gostaria de lhe oferecer um “honorário de cooperação”. Negócio fechado?
– Certo, negócio fechado.

Mesmo com a vantagem de jogar no nível do mar, o Brasil só dificilmente evitou a derrota, terminando o jogo em 0-0. Quando vazou em Quito a história do arranjo de “cooperação”, houve a maior indignação. Membros do Congresso equatoriano iniciaram uma investigação. Surgiu a profunda suspeita de que o arranjo tinha ido mais longe do que mudar ilegalmente o local do jogo e que abrangia a garantia de não derrotar o Brasil. Solicitado a comentar a raiva provocada no Equador, Teixeira fingiu confusão:
– Qual é o problema, se foi bom para nós e bom para eles? É válido quebrar regras, se acreditamos que temos de vencer.

Descobrindo que os venezuelanos haviam marcado o jogo contra o Brasil na capital, La Paz, Ricardo Teixeira enfiou novamente a mão no bolso. Ofereceu cem mil dólares, numa tentativa de conseguir que o jogo fosse transferido para o estádio de Santa Cruz de la Sierra. A razão foi a mesma, escapar da altitude. Os bolivianos haviam recebido informações sobre o negócio anterior e não ficaram impressionados com a oferta inicial. Acontecia também que eles pensavam que poderiam derrotar o Brasil. Teixeira subiu a oferta para trezentos mil dólares. Os bolivianos fincaram o pé em um milhão, soma esta que o presidente e seus colegas da CBD recusaram-se a pagar. A partida foi jogada em La Paz. Resultado: Bolívia, 2, Brasil, 0.

À luz da controvérsia que cerca os fatos ocorridos antes e durante a recente final da Copa do Mundo 98, em Paris, o comportamento de Ricardo Teixeira é digno de nota. Ele pertence claramente a uma dessas raças de executivos do futebol que, sem o benefício de ter praticado o jogo antes em qualquer nível significativo, acredita que sabe de tudo sobre o jogo em geral e a escalação de seleções, em particular.

Ao contrário da maioria de nós que se inclui nessa categoria, Ricardo Teixeira estava, e ainda está, em posição de influenciar realmente a escalação e a tática, e isso não de um time de campinho de subúrbio, mas a seleção nacional brasileira.

Falando à imprensa após o jogo na Bolívia, disse o presidente da CBF:
– Não gostei do jogo. Não é possível passar todos os noventa minutos sem marcar um gol.
Ninguém se arriscou a lhe dizer que os bolivianos haviam, de fato, marcado, duas vezes. Teixeira continuou:
– Vou me queixar pessoalmente à comissão técnica e aos jogadores, na quarta-feira, na concentração.
E realmente se queixou. Durante duas horas, Teixeira espinafrou Carlos Alberto Parreira, o técnico, e seu assistente, Mário Jorge Lobo Zagallo. Espinafrou-os e em seguida espinafrou a comissão técnica. Se o Brasil não se classificasse, todos eles seriam demitidos. Mas não disse ao técnico e ao seu auxiliar que estivera já por algum tempo conversando com Telê Santana para que assumisse.

Telê havia mexido na panela ao dizer a Ricardo Teixeira o que teria feito, se estivesse no comando durante o jogo contra a Bolívia. O presidente disse aos seus ouvintes que queria ver mais agressividade, queria ver mais ataques. Em seguida o baixo e gordo homenzinho, acompanhado de seus guarda-costas, deixou a concentração. Sua posição, ao contrário da de todos na sala, não estava sob ameaça. Ele era intocável.

Ricardo Teixeira teria distribuído milhares de dólares entre os 14 presidentes de federações de futebol que o haviam eleito e m 1989. Isso foi feito, em uma tática altamente duvidosa, para garantir a sua reeleição. Ele levou 33 “amigos” em uma viagem de primeira classe, com todas as despesas pagas, à Copa do Mundo 90, na Itália, e estava pensando em levar mais de 100, novamente com todas as despesas pagas, para a Copa do Mundo 94.

Seria profundamente embaraçoso para os amigos, e humilhante para ele, pelo menos a seus olhos, se o Brasil não se classificasse para as finais nos Estados Unidos. Toda essa generosidade, claro, não saía do bolso dele. Saía dos cofres da CBF."



Sobre David Yallop
David Yallop é considerado um dos mais importantes jornalistas de investigação vivos. Ao longo da sua carreira conheceu pessoalmente indivíduos poderosos e perigosos, cujos segredos devem permanecer reservados para prosseguirem de forma impune as suas atividades. Em cada livro seu David Yallop desmascara mitos e traz a público verdades que se pretenderiam ocultadas. (fonte: http://www.wook.pt/authors/detail/id/12701)
Mais informações em http://www.yallop.com/

2 comentários:

  1. Que a verdade apareça. E saúde aos homens de boa vontade e ponto.

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  2. Esqueci de comentar que a saída de Ricardo da CBF, foi mais que boa para todos! Na mídia, os empregadores têm o hábito de nos fazer engolir sempre as mesmas caras e vozes, e isso é um saco. Nos cargos públicos e outros como esse do futebol idem! Não há que aguente a mesmice! Que venham mais mudanças...

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