terça-feira, 27 de março de 2012

A proclamação do Rei do Futebol


Na série especial do Literatura na Arquibancada sobre o centenário de Nelson Rodrigues, uma crônica superimportante em sua cronologia de vida. Você sabia que Pelé foi entronado rei pela primeira vez em sua carreira de glórias por Nelson Rodrigues?

Passados 54 anos e que o mundo inteiro sabe quem é Pelé e tudo o que fez dentro de um campo de futebol, torna-se fácil proclamá-lo rei, mas observá-lo em campo ainda garoto, às vésperas da disputa de sua primeira Copa do Mundo e “cravar” sem nenhuma dúvida que ali surgia um mito para o futebol mundial é realmente uma ousadia. 

Ou seria instinto de gênio?

Nelson Rodrigues profetizou que Pelé era o novo rei do futebol logo após assistir Santos 5, América do Rio de Janeiro, 3, no estádio do Maracanã, jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo. 

Era a primeira vez que Nelson escrevia uma crônica sobre Pelé. A crônica abaixo foi publicada na revista Manchete, em 8 de março de 1958, exatamente três meses antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo contra a Áustria. 

Curiosamente, Pelé começou a Copa no banco de reservas, passando a titular apenas no terceiro jogo brasileiro contra a União Soviética.


A realeza de Pelé
Por Nelson Rodrigues

Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: – dezessete anos!

Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: – verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: – ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. 

E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. 

E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: – “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: – “Eu”. 

Insistiram: – “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: – “Eu”.

Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. 

Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: – “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”.

De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para a frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente.

Numa palavra: – sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: – a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. 

É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. 

Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. 

Põe-se por cima de tudo e de todos. 

E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha.

Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete. 

Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. 

E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: – aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? 

Examinem a fotografia de um e outro time entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. 

Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. 

Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. 

Os outros é que tremerão diante de nós.

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